A conquista do modernismo foi promovida em grande em parte pela Semana da Arte Moderna e veiculação das obras artísticas através de revistas e manifestos!
OS MANIFESTOS E AS REVISTAS MODERNISTAS
MOMENTO HISTÓRICO
Um
mês após a Semana de Arte Moderna, a política brasileira vive dois momentos
importantes:
Em
1° de março, a eleição para a escolha do sucessor de Epitácio Pessoa na
Presidência da República, com a vitória do mineiro Artur Bernardes sobre Nilo
Peçanha;
nos
dias 25, 26 e 27 de março, a realização, no Rio de Janeiro, do congresso de
fundação do Partido Comunista Brasileiro.
A
eleição de 1922 ocorre em meio a grave crise econômica e, contrariando a norma
da República do Café-com-leite, polariza-se entre as candidaturas de Artur
Bernardes (representante das oligarquias de São Paulo e Minas Gerais) e Nilo
Peçanha (representante das oligarquias de Pernambuco, Bahia, Rio de Janeiro e
Rio Grande do Sul).
Trata-se
de uma disputa motivada por interesses pessoais e locais, e não por propostas
diferentes de governo. Entretanto, o acirramento do quadro político e a
agitação da campanha eleitoral trazem à tona o descontentamento de importante
setor da sociedade: a classe média, representada por jovens oficiais militares,
que exige mudanças e tenta impedir a posse de Artur Bernardes.
O
processo revolucionário tem início com a revolta dos militares do Forte de
Copacabana, em 5 de julho de 1922;
o
movimento, entretanto, dura apenas 24 horas e termina com a caminhada fatal,
pelas ruas de Copacabana, de 17 jovens militares e um civil contra mais de 3
mil soldados das forças governistas. Esse episódio, conhecido como Os 18 do
Forte, significou, nas palavras do historiador Edgard Carone, "o
sacrifício por um ideal", ficando gravado como símbolo de luta.
Os
primeiros anos do governo de Artur Bernardes são marcados por um constante
estado de sítio, censura à imprensa e intervenções nos estados.
No
entanto, essas medidas não são suficientes para estancar a marcha
revolucionária: em 5 de julho de 1924, dois anos após os acontecimentos de
Copacabana, estoura uma revolução em São Paulo em que os militares exigem o fim
da corrupção, maior representatividade política, voto secreto e justiça.
O
movimento dos tenentes em São Paulo dura aproximadamente um mês e termina com a
retirada dos revoltosos em direção ao interior, onde se encontram com tropas
vindas do Rio Grande do Sul, comandadas pelo capitão Luís Carlos Prestes.
Para
dar continuidade à luta, a saída é a formação de uma coluna com aproximadamente
mil homens, sob o comando de Prestes, que correria o Brasil, difundindo os
ideais revolucionários. Depois de percorrer 24 mil quilômetros e enfrentar
tropas do exército, forças regionais, jagunços e os cangaceiros de Lampião, a
Coluna Prestes embrenhasse em território boliviano.
O
período de 1922 a 1930 também se caracteriza por definições no quadro político
partidário:
em
1922, sob o impacto da Revolução Russa, é criado o Partido Comunista, que
contava, entre seus fundadores, com vários elementos egressos das lutas
anarquistas;
em
1926 surge o Partido Democrático, de larga penetração entre a pequena burguesia
paulista e que teve, entre seus fundadores, Mário de Andrade.
A
situação política e social brasileira é de aparente calma com a eleição de
Washington Luís para sucessor de Artur Bernardes.
Mas,
na realidade, o país caminhava para o fim desse período de convulsões sociais
com a ocorrência da Revolução de 1930 e a ascensão de Getúlio Vargas ao poder,
iniciando-se uma nova era da história brasileira.
Mário
de Andrade dá seu depoimento:
"Mil
novecentos e trinta... Tudo estourava, políticas, famílias, casais de artistas,
estéticas, amizades profundas. O sentido destrutivo e festeiro do movimento
modernista já não tinha mais razão de ser, cumprido o seu destino legítimo. Na
rua, o povo amotinado gritava: - Getúlio! Getúlio!..."
CARACTERISTICAS
O
período de 1922 a 1930 é o mais radical do movimento modernista, justamente em
consequência da necessidade de definições e do rompimento com todas as
estruturas do passado.
Daí
o caráter anárquico dessa primeira fase e seu forte sentido
destruidor, assim definido por Mário de Andrade:
"(...)
se alastrou pelo Brasil o espírito destruidor do movimento modernista. Isto é,
o seu sentido verdadeiramente específico. Porque, embora lançando inúmeros
processos e ideias novas, o movimento modernista foi essencialmente destruidor.
(...)
Mas
esta destruição não apenas continha todos os germes da atualidade, como era uma
convulsão profundíssima da realidade brasileira. O que caracteriza esta
realidade que o movimento modernista impôs é, a meu ver, a fusão de três
princípios fundamentais: o direito permanente â pesquisa estética; a
atualização da inteligência artística brasileira e a estabilização de uma
consciência criadora nacional."
Ao
mesmo tempo que se procura o moderno, o original e o polêmico, o nacionalismo
se manifesta em suas múltiplas facetas:
uma
volta às origens, a pesquisa de fontes quinhentistas, a procura
de uma "língua brasileira" (a língua falada pelo povo nas
ruas), as paródias - numa tentativa de repensar a história e a
literatura brasileiras - e a valorização do índio verdadeiramente brasileiro.
MOVIMENTOS
ou GRUPOS DA PRIMEIRA FASE
a) Pau-Brasil
– São Paulo, 1924.
Fundado e
liderado por Oswald de Andrade, pregava o primitivismo, a redescoberta do
Brasil, a valorização de expressões poéticas do passado.
Dentro dessa proposta,
A Carta de Caminha foi transformada em poesia modernista no livro Pau-Brasil
(1925). O movimento pregava a liberdade, o verso livre e os neologismos.
b) Antropofagia
– São Paulo, 1928.
Fundado e
liderado por Oswald de Andrade. Representa uma continuação do grupo Pau-Brasil.
c) Verde-Amarelo
– São Paulo, 1926.
Fundado e
liderado por Menotti del Picchia (autor de Juca Mulato) e Cassiano Ricardo
(autor de Martim Cererê). Pregava o neo-indianismo, o nacionalismo.
d) Anta
– São Paulo, 1927.
Fundado e
liderado por Menotti del Picchia e Cassiano Ricardo. Representa uma continuação
do grupo Verde-Amarelo.
MANIFESTOS
Manifesto da Poesia
Pau-Brasil
Publicado
em 1924 no jornal "O Correio da Manhã", enfatizava a necessidade de
criar uma arte baseada nas características do povo brasileiro, com absorção
crítica da modernidade européia. Além de ter provocado discussões sobre o
surgimento da consciência nacional, o Manifesto
Pau-Brasil conseguiu atualizá-la; rediscutindo a realidade com uma
linguagem novíssima. Tão importante para a poesia modernista, já trazia no seu
bojo os germes que gerariam o antropofagismo. O Manifesto Pau-Brasil reivindicava uma
linguagem natural, avesso ao bacharelismo e pedantismo, conclamava a
originalidade nativa. O primitivismo como imaginação, liberdade de espírito, a
junção do moderno e do arcaico brasileiro culminando com uma revolução
artística nacionalista tendo por base suas raízes primitivas.
Manifesto
Pau-Brasil estava
intimamente ligado aos poemas do volume de intitulado Poesia Pau-Brasil. Além
disso, eram várias as reflexões que o manifesto continha de cunho estético,
isto é, direcionadas especificamente à poesia. É claro, em sua linguagem
telegráfica e aforismática, o manifesto vinha carregado do espírito de época do
qual Oswald é devedor: as vanguardas.
Manifesto Antropófago
Ambos nacionalistas na linha
comandada por Oswald de Andrade, o Manifesto Antropófago foi publicado no
primeiro número da Revista
de Antropofagia, em maio de 1928. Foi produzido pelo escritor
paulista Oswald de Andrade, um dos promotores da Semana de Arte Moderna e um
dos nomes principais do Modernismo brasileiro, o professor irá relatar que sua
proposta nevrálgica era a da retomada metafórica
da prática antropofágica, com praticamente a mesma intenção presente nos
“primeiros habitantes” do País.
A
proposta de Oswald de Andrade, no Manifesto, é deglutir criticamente as ideias vindas de
fora e sintetizá-las de forma adequada à nossa realidade, seguindo um costume
que já estaria radicalmente presente nos brasileiros. O professor deverá
esclarecer que a metáfora aqui é do ato de deglutir o “outro”, digeri-lo e
regurgitar o produto da síntese deste “outro” com o “eu”.
Como
se percebe já no final da década de 20, a postura nacionalista apresenta duas
vertentes distintas: de um lado, um nacionalismo crítico, consciente, de
denúncia da realidade brasileira, politicamente identificado com as esquerdas;
de outro, um nacionalismo ufanista, utópico, exagerado, identificado com
as correntes políticas de extrema direita.
O
Manifesto Antropofágico
tem como símbolo: o Abaporu (1928),
de Tarsila do Amaral, artista plástica, também um dos grandes nomes do
Modernismo brasileiro. É interessante notar que o título da obra se mantém em
consonância com o “antropofagismo”, pois seu significado deriva do tupi aba = homem, pora= gente e ú = comer, sendo,
portanto, "homem que come gente”.
Dentre
os principais nomes dessa primeira fase do Modernismo e que continuariam a
produzir nas décadas seguintes, destacam-se Mário de Andrade, Oswald de
Andrade, Manuel Bandeira, Antônio de Alcântara Machado, além de Menotti del
Picchia, Cassiano Ricardo, Guilherme de Almeida e Plínio Salgado.
Manifesto do
Verde-Amarelismo ou
da Escola da Anta, que já traz as sementes do nacionalismo fascista comandado
por Plínio Salgado. O Clube da Anta, grupo também conhecido como verde-amarelismo,
basicamente conhecido por seu ufanismo à cultura nacional (a anta fora eleita
como símbolo do País) e encabeçado por Plínio Salgado: a proposta central do
grupo era a de se buscar o ideal de uma nação pura, onde a formação de suas
ideias fosse autenticamente nativa, sem qualquer espécie de intervenção de
outros países. O Clube da Anta produziu o Manifesto
Nhengaçú Verde Amarelo que foi escrito em 1929 em resposta ao ideal
dito antinacionalista do Manifesto
Antropofágico, por este propor apoderar-se de ideias dos mais variados
lugares, inclusive do exterior.
OS MANIFESTOS NA INTEGRA
MANIFESTO PAU- BRASIL
"A poesia existe nos fatos. Os
casebres de açafrão e de ocre nos verdes da Favela, sob o azul cabralino, são
fatos estéticos.
O Carnaval no Rio é o acontecimento
religioso da raça. Pau-Brasil. Wagner submerge ante os cordões de Botafogo.
Bárbaro e nosso. A formação étnica rica. Riqueza vegetal. O minério. A cozinha.
O vatapá, o ouro e a dança.
Toda a história bandeirante e a
história comercial do Brasil. O lado doutor, o lado citações, o lado autores
conhecidos. Comovente. Rui Barbosa: uma cartola na Senegâmbia. Tudo revertendo
em riqueza. A riqueza dos bailes e das frases feitas. Negras de Jockey.
Odaliscas no Catumbi. Falar difícil.
O lado doutor. Fatalidade do primeiro
branco aportado e dominando politicamente as selvas selvagens. O bacharel. Não
podemos deixar de ser doutos. Doutores. País de dores anônimas, de doutores
anônimos. O Império foi assim. Eruditamos tudo. Esquecemos o gavião de penacho.
A nunca exportação de poesia. A poesia
anda oculta nos cipós maliciosos da sabedoria. Nas lianas da saudade
universitária.
Mas houve um estouro nos
aprendimentos. Os homens que sabiam tudo se deformaram como borrachas sopradas.
Rebentaram.
A volta à especialização. Filósofos
fazendo filosofia, críticos, critica, donas de casa tratando de cozinha.
A Poesia para os poetas. Alegria dos
que não sabem e descobrem.
Tinha havido a inversão de tudo, a
invasão de tudo : o teatro de tese e a luta no palco entre morais e imorais. A
tese deve ser decidida em guerra de sociólogos, de homens de lei, gordos e
dourados como Corpus Juris.
Ágil o teatro, filho do saltimbanco.
Agil e ilógico. Ágil o romance, nascido da invenção. Ágil a poesia.
A poesia Pau-Brasil. Ágil e cândida.
Como uma criança.
Uma sugestão de Blaise Cendrars : -
Tendes as locomotivas cheias, ides partir. Um negro gira a manivela do desvio
rotativo em que estais. O menor descuido vos fará partir na direção oposta ao
vosso destino.
Contra o gabinetismo, a prática culta
da vida. Engenheiros em vez de jurisconsultos, perdidos como chineses na
genealogia das idéias.
A língua sem arcaísmos, sem erudição.
Natural e neológica. A contribuição milionária de todos os erros. Como falamos.
Como somos.
Não há luta na terra de vocações
acadêmicas. Há só fardas. Os futuristas e os outros.
Uma única luta - a luta pelo caminho.
Dividamos: Poesia de importação. E a Poesia Pau-Brasil, de exportação.
Houve um fenômeno de democratização
estética nas cinco partes sábias do mundo. Instituíra-se o naturalismo. Copiar.
Quadros de carneiros que não fosse lã mesmo, não prestava. A interpretação no
dicionário oral das Escolas de Belas Artes queria dizer reproduzir
igualzinho... Veio a pirogravura. As meninas de todos os lares ficaram
artistas. Apareceu a máquina fotográfica. E com todas as prerrogativas do
cabelo grande, da caspa e da misteriosa genialidade de olho virado - o artista
fotógrafo.
Na música, o piano invadiu as saletas
nuas, de folhinha na parede. Todas as meninas ficaram pianistas. Surgiu o piano
de manivela, o piano de patas. A pleyela. E a ironia eslava compôs para a
pleyela. Stravinski.
A estatuária andou atrás. As
procissões saíram novinhas das fábricas.
Só não se inventou uma máquina de
fazer versos - já havia o poeta parnasiano.
Ora, a revolução indicou apenas que a
arte voltava para as elites. E as elites começaram desmanchando. Duas fases:
1º) a deformação através do impressionismo, a fragmentação, o caos voluntário.
De Cézanne e Malarmé, Rodin e Debussy até agora. 2º) o lirismo, a apresentação
no templo, os materiais, a inocência construtiva.
O Brasil profiteur. O Brasil doutor. E
a coincidência da primeira construção brasileira no movimento de reconstrução
geral. Poesia Pau-Brasil.
Como a época é miraculosa, as leis
nasceram do próprio rotamento dinâmico dos fatores destrutivos.
A síntese
O equilíbrio
O acabamento de carrosserie
A invenção
A surpresa
Uma nova perspectiva
Uma nova escala.
Qualquer esforço natural nesse sentido
será bom. Poesia Pau-Brasil
O trabalho contra o detalhe
naturalista - pela síntese; contra a morbidez romântica - pelo equilíbrio
geômetra e pelo acabamento técnico; contra a cópia, pela invenção e pela
surpresa.
Uma nova perspectiva.
A outra, a de Paolo Ucello criou o
naturalismo de apogeu. Era uma ilusão ética. Os objetos distantes não
diminuíam. Era uma lei de aparência. Ora, o momento é de reação à aparência.
Reação à cópia. Substituir a perspectiva visual e naturalista por uma
perspectiva de outra ordem: sentimental, intelectual, irônica, ingênua.
Uma nova escala:
A outra, a de um mundo proporcionado e
catalogado com letras nos livros, crianças nos colos. O redame produzindo
letras maiores que torres. E as novas formas da indústria, da viação, da
aviação. Postes. Gasômetros Rails.
Laboratórios e oficinas técnicas.
Vozes e tics de fios e ondas e fulgurações. Estrelas familiarizadas com
negativos fotográficos. O correspondente da surpresa física em arte.
A reação contra o assunto invasor,
diverso da finalidade. A peça de tese era um arranjo monstruoso. O romance de
idéias, uma mistura. O quadro histórico, uma aberração. A escultura eloquente,
um pavor sem sentido.
Nossa época anuncia a volta ao sentido
puro.
Um quadro são linhas e cores. A
estatuária são volumes sob a luz.
A Poesia Pau-Brasil é uma sala de
jantar domingueira, com passarinhos cantando na mata resumida das gaiolas, um
sujeito magro compondo uma valsa para flauta e a Maricota lendo o jornal. No
jornal anda todo o presente.
Nenhuma fórmula para a contemporânea
expressão do mundo. Ver com olhos livres.
Temos a base dupla e presente - a
floresta e a escola. A raça crédula e dualista e a geometria, a algebra e a
química logo depois da mamadeira e do chá de erva-doce. Um misto de "dorme
nenê que o bicho vem pegá" e de equações.
Uma visão que bata nos cilindros dos
moinhos, nas turbinas elétricas; nas usinas produtoras, nas questões cambiais,
sem perder de vista o Museu Nacional. Pau-Brasil.
Obuses de elevadores, cubos de
arranha-céus e a sábia preguiça solar. A reza. O Carnaval. A energia íntima. O
sabiá. A hospitalidade um pouco sensual, amorosa. A saudade dos pajés e os
campos de aviação militar. Pau-Brasil.
O trabalho da geração futurista foi
ciclópico. Acertar o relógio império da literatura nacional.
Realizada essa etapa, o problema é
outro. Ser regional e puro em sua época.
O estado de inocência substituindo o
estada de graça que pode ser uma atitude do espírito.
O contrapeso da originalidade nativa
para inutilizar a adesão acadêmica.
A reação contra todas as indigestões
de sabedoria. O melhor de nossa tradição lírica. O melhor de nossa demonstração
moderna.
Apenas brasileiros de nossa época. O
necessário de química, de mecânica, de economia e de balística. Tudo digerido.
Sem meeting cultural. Práticos. Experimentais. Poetas. Sem reminiscências
livrescas. Sem comparações de apoio. Sem pesquisa etimológica. Sem ontologia.
Bárbaros, crédulos, pitorescos e
meigos. Leitores de jornais. Pau-Brasil. A floresta e a escola. O Museu
Nacional. A cozinha, o minério e a dança. A vegetação. Pau-Brasil."
MANIFESTO ANTROPOFÁGICO
"Só
a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.
Única
lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os
coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz.
Tupi, or not
tupi that is the question.
Contra
todas as catequeses. E contra a mãe dos Gracos.
Só
me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago.
Estamos
fatigados de todos os maridos católicos suspeitosos postos em drama. Freud
acabou com o enigma mulher e com outros sustos da psicologia impressa.
O
que atropelava a verdade era a roupa, o impermeável entre o mundo interior e o
mundo exterior. A reação contra o homem vestido. O cinema americano informará.
Filhos
do sol, mãe dos viventes. Encontrados e amados ferozmente, com toda a
hipocrisia da saudade, pelos imigrados, pelos traficados e pelos touristes. No
país da cobra grande.
Foi
porque nunca tivemos gramáticas, nem coleções de velhos vegetais. E nunca
soubemos
o que era urbano, suburbano, fronteiriço e continental. Preguiçosos no mapa-múndi do Brasil.
o que era urbano, suburbano, fronteiriço e continental. Preguiçosos no mapa-múndi do Brasil.
Uma
consciência participante, uma rítmica religiosa.
Contra
todos os importadores de consciência enlatada. A existência palpável da vida. E
a mentalidade pré-lógica para o Sr. Lévy-Bruhl estudar.
Queremos
a Revolução Caraíba. Maior que a Revolução Francesa. A unificação de todas as
revoltas eficazes na direção do homem. Sem nós a Europa não teria sequer a sua
pobre declaração dos direitos do homem.
A
idade de ouro anunciada pela América. A idade de ouro. E todas as girls.
Filiação.
O contato com o Brasil Caraíba. Ori
Villegaignon print terre. Montaigne. O homem natural. Rousseau. Da Revolução Francesa ao
Romantismo, à Revolução Bolchevista, à Revolução Surrealista e ao bárbaro
tecnizado de Keyserling. Caminhamos.
Nunca
fomos catequizados. Vivemos através de um direito sonâmbulo. Fizemos Cristo
nascer na Bahia. Ou em Belém do Pará.
Mas
nunca admitimos o nascimento da lógica entre nós.
Contra
o Padre Vieira. Autor do nosso primeiro empréstimo, para ganhar comissão. O
rei-analfabeto dissera-lhe: ponha isso no papel mas sem muita lábia. Fez-se o
empréstimo. Gravou-se o açúcar brasileiro. Vieira deixou o dinheiro em Portugal
e nos trouxe a lábia.
O
espírito recusa-se a conceber o espírito sem o corpo. O antropomorfismo.
Necessidade da vacina antropofágica. Para o equilíbrio contra as religiões de
meridiano. E as inquisições exteriores.
Só
podemos atender ao mundo orecular.
Tínhamos
a justiça codificação da vingança. A ciência codificação da Magia. Antropofagia.
A transformação permanente do Tabu em totem.
Contra
o mundo reversível e as idéias objetivadas. Cadaverizadas. O stop do pensamento
que é dinâmico. O indivíduo vítima do sistema. Fonte das injustiças clássicas.
Das injustiças românticas. E o esquecimento das conquistas interiores.
Roteiros.
Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros.
O
instinto Caraíba.
Morte
e vida das hipóteses. Da equação eu parte do Cosmos ao axioma Cosmos parte do
eu. Subsistência. Conhecimento. Antropofagia.
Contra
as elites vegetais. Em comunicação com o solo.
Nunca
fomos catequizados. Fizemos foi Carnaval. O índio vestido de senador do
Império. Fingindo de Pitt. Ou figurando nas óperas de Alencar cheio de bons
sentimentos portugueses.
Já
tínhamos o comunismo. Já tínhamos a língua surrealista. A idade de ouro.
Catiti
Catiti
Imara
Notiá
Notiá
Imara
Ipeju*
A
magia e a vida. Tínhamos a relação e a distribuição dos bens físicos, dos bens
morais, dos bens dignários. E sabíamos transpor o mistério e a morte com o auxílio
de algumas formas gramaticais.
Perguntei
a um homem o que era o Direito. Ele me respondeu que era a garantia do
exercício da possibilidade. Esse homem chamava-se Galli Mathias. Comia.
Só
não há determinismo onde há mistério. Mas que temos nós com isso?
Contra
as histórias do homem que começam no Cabo Finisterra. O mundo não datado. Não
rubricado. Sem Napoleão. Sem César.
A
fixação do progresso por meio de catálogos e aparelhos de televisão. Só a
maquinaria. E os transfusores de sangue.
Contra
as sublimações antagônicas. Trazidas nas caravelas.
Contra
a verdade dos povos missionários, definida pela sagacidade de um antropófago, o
Visconde de Cairu: - É mentira muitas vezes repetida.
Mas
não foram cruzados que vieram. Foram fugitivos de uma civilização que estamos
comendo, porque somos fortes e vingativos como o Jabuti.
Se
Deus é a consciênda do Universo Incriado, Guaraci é a mãe dos viventes. Jaci é
a mãe dos vegetais.
Não
tivemos especulação. Mas tínhamos adivinhação. Tínhamos Política que é a
ciência da distribuição. E um sistema social-planetário.
As
migrações. A fuga dos estados tediosos. Contra as escleroses urbanas. Contra os
Conservatórios e o tédio especulativo.
De
William James e Voronoff. A transfiguração do Tabu em totem. Antropofagia.
O
pater famílias e a criação da Moral da Cegonha: Ignorância real das coisas+
fala de imaginação + sentimento de autoridade ante a prole curiosa.
É
preciso partir de um profundo ateísmo para se chegar à idéia de Deus. Mas a
caraíba não precisava. Porque tinha Guaraci.
O
objetivo criado reage com os Anjos da Queda. Depois Moisés divaga. Que temos
nós com isso?
Antes
dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade.
Contra
o índio de tocheiro. O índio filho de Maria, afilhado de Catarina de Médicis e
genro de D. Antônio de Mariz.
A
alegria é a prova dos nove.
No
matriarcado de Pindorama.
Contra
a Memória fonte do costume. A experiência pessoal renovada.
Somos
concretistas. As idéias tomam conta, reagem, queimam gente nas praças públicas.
Suprimarnos as idéias e as outras paralisias. Pelos roteiros. Acreditar nos
sinais, acreditar nos instrumentos e nas estrelas.
Contra
Goethe, a mãe dos Gracos, e a Corte de D. João VI.
A
alegria é a prova dos nove.
A
luta entre o que se chamaria Incriado e a Criatura - ilustrada pela contradição
permanente do homem e o seu Tabu. O amor cotidiano e o modusvivendi
capitalista. Antropofagia. Absorção do inimigo sacro. Para transformá-lo em
totem. A humana aventura. A terrena finalidade. Porém, só as puras elites
conseguiram realizar a antropofagia carnal, que traz em si o mais alto sentido
da vida e evita todos os males identificados por Freud, males catequistas. O
que se dá não é uma sublimação do instinto sexual. É a escala termométrica do
instinto antropofágico. De carnal, ele se torna eletivo e cria a amizade.
Afetivo, o amor. Especulativo, a ciência. Desvia-se e transfere-se. Chegamos ao
aviltamento. A baixa antropofagia aglomerada nos pecados de catecismo - a
inveja, a usura, a calúnia, o assassinato. Peste dos chamados povos cultos e
cristianizados, é contra ela que estamos agindo. Antropófagos.
Contra
Anchieta cantando as onze mil virgens do céu, na terra de Iracema, - o
patriarca João Ramalho fundador de São Paulo.
A
nossa independência ainda não foi proclamada. Frape típica de D. João VI: - Meu
filho, põe essa coroa na tua cabeça, antes que algum aventureiro o faça!
Expulsamos a dinastia. É preciso expulsar o espírito bragantino, as ordenações
e o rapé de Maria da Fonte.
Contra
a realidade social, vestida e opressora, cadastrada por Freud - a realidade sem
complexos, sem loucura, sem prostituições e sem penitenciárias do matriarcado
de Pindorama."
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AS REVISTAS
À medida que os autores do Modernismo publicavam suas obras,
as ideias modernistas iam sendo divulgadas. Entretanto, havia outra maneira de
divulgá-las: por intermédio das revistas artísticas que traziam em suas
publicações teorias sobre a arte moderna, poemas, trechos de contos e romances,
propagadas e avisos sobre os eventos artísticos. Essas revistas, entretanto,
não tiveram vida longa, mas nos seus curtos períodos de existência cumpriram
seu papel.
As principais revistas modernistas brasileiras foram:
Klaxon - mensário de arte
moderna: surgiu em
maio de 1922, em São Paulo, logo após a Semana de Arte Moderna. Entre 1922 e
1923 publicou nove números. Foram seus principais colaboradores: Oswald e Mário
de Andrade, Graça Aranha, Menotti Del Picchia, Manuel Bandeira, para só citar
esses nomes.
Klaxon
foi a mais representativa das revistas modernistas. Buscava a ideia de que a
arte não deveria ser uma cópia da realidade e cultuava o progresso e buscava a
atualidade.
Revista de Antropofagia: conheceu duas fases ou, como
diziam seus criadores, duas dentições: 1ª. Revista mensal de oito
páginas; de maio de 1928 a janeiro de 1929, publicou dez números. 2ª. Reduzida
a uma página do Diário de São Paulo, tornou-se semanal, saindo 16 vezes, com
algumas irregularidades, entre 17 de março e 10 de agosto de 1929.
Apesar da
vida breve, exerceu forte influência literária. Nela publicaram trabalhos,
entre outros, Oswald de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Ascenso Ferreira,
Augusto Meyer, Murilo Mendes e Manuel Bandeira.
Estética: surgiu em 1924, no Rio de
Janeiro. Entre 1924 e 1925 publicou apenas três números. Dirigida por Prudente
de Morais e Sérgio Buarque de Holanda, deu continuidade, no Rio de Janeiro, as
ideias da paulista Klaxon. Foram seus colaboradores, praticamente, todos os
escritores-colaboradores da Klaxon.
A
Revista: surgiu
em 1925 e perdurou até 1926. foi responsável pela divulgação do Modernismo em
Minas Gerais; seu grande colaborador foi Carlos Drummond de Andrade.
A Festa: lançada no Rio de Janeiro , em
1927, por Tasso de Oliveira. Seguia a linha do movimento espiritualista, o que
recrutou um bom número de pensadores, filósofos e escritores católicos.
Alcançou grande representatividade literária a partir de 1930.
Revista Joaquim: de circulação nacional, surgiu
no Paraná em 1947 e perdurou até 1947. Era editada e dirigida por Dalton
Trevisan.
Fonte: Recanto das Letras










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