ARCADISMO
O ARCADISMO
O
Arcadismo é uma escola literária surgida na Europa no século XVIII. O nome
dessa escola é uma referência à Arcádia, região bucólica do Peloponeso, na
Grécia, tida como ideal de inspiração poética.
No
Brasil, o movimento árcade toma forma a partir da segunda metade do século
XVIII.
A
principal característica desta escola é a exaltação da natureza e de tudo que
lhe diz respeito. É por isto que muitos poetas ligados ao arcadismo adotaram
pseudônimos de pastores gregos ou latinos (pois o ideal de vida válido era o de
uma vida bucólica).
As
manifestações artísticas do século XVII (Arcadismo ou Neoclassicismo e Rococó)
refletem a ideologia da classe aristocrática em decadência e da alta burguesia,
insatisfeitas com o absolutismo real, com a pesada solenidade do Barroco, com
as formas sociais de convivência rígidas, artificiais e complicadas.
As mudanças estéticas terão por base uma revolução filosófica: o Iluminismo.
Os criadores do Iluminismo (ou Ilustração) já não aceitam o "direito divino dos reis", tampouco a fé cega nos mandatários da Igreja. Qualquer poder ou privilégio precisa ser submetido a uma análise racional. E agora é a razão (e não mais a crença religiosa) que aparece como sinônimo de verdade.
As novas ideias assentam um golpe definitivo na visão de mundo barroca, baseada mais no sensitivo do que no racional, mais no religioso do que no civil. Por oposição ao século anterior, procura-se, no século XVIII, simplificar a arte. E esta simplificação se dará na pintura, na música, na literatura e na arquitetura pelo domínio da razão, pela imitação dos clássicos, pela aproximação com a natureza e pela valorização das atividades galantes dos frequentadores dos salões da nobreza europeia.
Arcadismo, Setecentismo (os anos 1700) ou Neoclassicismo
O
arcadismo, setecentismo (os anos 1700) ou neoclassicismo é o período que
caracteriza principalmente a segunda metade do século XVIII, tingindo as artes
de uma nova tonalidade burguesa. A influência neoclássica penetrou em todos os
setores da vida artística europeia, no século XVIII. Os artistas desse período
compreendiam que o Barroco havia ultrapassado os limites do que se considerava
arte de qualidade e procuravam recuperar e imitar os padrões artísticos do
Renascimento, tomados então como modelo.
Na Itália
essa influência assumiu feição particular. Conhecida como Arcadismo,
inspirava-se na lendária região da Grécia antiga. Segundo a lenda, a Arcádia
era dominada pelo deus Pan e habitada por pastores que, vivendo de modo simples
e espontâneo, se divertiam cantando, fazendo disputas poéticas e celebrando o
amor e o prazer.
Os
italianos, procurando imitar a lenda grega, criaram a Arcádia em 1690 - uma
academia literária que reunia os escritores com a finalidade de combater o
Barroco e difundir os ideais neoclássicos. Para serem coerentes com certos
princípios, como simplicidade e igualdade, os cultos literatos árcades usavam
roupas e pseudônimos de pastores gregos e reuniam-se em parques e jardins para
gozar a vida natural.
Arcadismo: marcos iniciais e contexto histórico
Marcos iniciais
No
Mundo
Criação
da 1ª Arcádia pelos italianos, procurando imitar a lenda grega.
Fundação da Arcádia Lusitana (1756)
No Brasil
Publicação
das Obras Poéticas, de Cláudio Manuel da Costa (1768)
Fundação
da Arcádia Ultramarina em Vila Rica
Principais acontecimentos históricos
No mundo
Século
XVIII - Século das Luzes
Progressivo
descrédito das monarquias absolutas;
decadência
da aristocracia feudal;
crescimento
do poder da burguesia;
Revolução
Industrial inglesa;
Revolução
Francesa.
Pensamento da épocaIluminismo: O uso da razão como meio para satisfazer as necessidades do homem. Os movimentos pela independência do Brasil, como a Inconfidência Mineira, por exemplo, inspiraram-nas nas ideias iluministas.
Laicismo: Estado e igreja devem ser independentes, e as funções do Estado, como a política, a economia, a educação, exercidas por leigos.
Liberalismo: ideologia política que defende os sistemas representativos, os direitos civis e a igualdade de oportunidades para os cidadãos.
Três poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário
Constituição
Todos estão sob a lei
Empirismo: corrente filosófica que atribui à experiência sensível a origem de todo conhecimento humano.
Em Portugal
D. José
no trono na casa do pai João
Período
Pombal (1750 a 1777)
Grandes
Reformas na Economia
Aumento
da exploração na colônia do Brasil
Expulsão
dos jesuítas do território português
A morte
de D. José, em 1777, e a queda de Pombal
D.
Maria, sucessora do trono, tenta resolver os problemas, cada vez maiores, do
Erário Real.
O domínio
Inglês em Portugal cresce, e a dependência econômica de Portugal torna-se
incontrolável.
No Brasil
Minas
Gerais como centro econômico e político
A
descoberta do ouro, na região de Minas Gerais, forma cidades ao redor.
Vila
Rica (atual Ouro Preto) se consolida como espaço cultural desde o Barroco
(Aleijadinho)
A
corrida pelo ouro se intensifica.
Influências
das arcádias portuguesas nos poetas brasileiros
Conflitos
com o Império (Inconfidência Mineira)
O ciclo
da mineração
A
expulsão dos jesuítas do Brasil - (1759)
A
Inconfidência Mineira (1789)
A
descoberta do ouro na região de Minas Gerais, em fins do século XVII, significa
o início de grandes mudanças na sociedade colonial brasileira. A corrida em
busca do metal precioso desloca para serras, até então desertas, uma multidão
de aventureiros paulistas, baianos e, em seguida, portugueses. A abundância do
ouro gera extraordinária riqueza e os primeiros acampamentos de mineiros
transformam-se rapidamente em cidades.
O Período de Pombal
Neste momento histórico, D. José assume o reino e nomeia como primeiro-ministro o Marquês de Pombal, que permanecerá no poder de 1750 a 1777. Típico representante do despotismo esclarecido, Pombal inicia uma série de reformas para salvar Portugal da decadência em que mergulhara desde meados do século XVI. O violento terremoto que destrói Lisboa, em 1755, amplia as necessidades financeiras do tesouro luso e os impostos são brutalmente aumentados.
O reformismo de Pombal enfrenta resistências, e ele decide expulsar os jesuítas dos territórios portugueses, no ano de 1758. Também a parcela da nobreza que se opunha a seus projetos é aprisionada e silenciada. Um grande esforço industrial sacode a pasmaceira da Corte. Monopólios comerciais privados e empreendimentos fabris comandam a tentativa de mudança do modelo econômico. O ouro do Brasil funciona como lastro destas reformas.
A Inconfidência Mineira
O crescente endividamento dos proprietários de minas com a Coroa aumenta o desconforto e a repulsa pelo fisco insaciável. Na consciência de muitos ecoa o sucesso da Independência Americana, de 1776. E também a força subversiva das ideias iluministas - expressas em livros que circulam clandestinamente por Vila Rica e outras cidades. Tudo isso termina por estimular membros das elites e alguns representantes populares ao levante de 1789.
Apenas a traição de Joaquim Silvério impedirá que a Inconfidência Mineira chegue a bom termo. Porém, o martírio de Tiradentes e a participação de poetas árcades (ainda que tênue e por vezes equivocada), no esforço revolucionário, transformam a sedição no episódio de maior grandeza do passado colonial brasileiro.
O Período de Pombal
Neste momento histórico, D. José assume o reino e nomeia como primeiro-ministro o Marquês de Pombal, que permanecerá no poder de 1750 a 1777. Típico representante do despotismo esclarecido, Pombal inicia uma série de reformas para salvar Portugal da decadência em que mergulhara desde meados do século XVI. O violento terremoto que destrói Lisboa, em 1755, amplia as necessidades financeiras do tesouro luso e os impostos são brutalmente aumentados.
O reformismo de Pombal enfrenta resistências, e ele decide expulsar os jesuítas dos territórios portugueses, no ano de 1758. Também a parcela da nobreza que se opunha a seus projetos é aprisionada e silenciada. Um grande esforço industrial sacode a pasmaceira da Corte. Monopólios comerciais privados e empreendimentos fabris comandam a tentativa de mudança do modelo econômico. O ouro do Brasil funciona como lastro destas reformas.
A Inconfidência Mineira
O crescente endividamento dos proprietários de minas com a Coroa aumenta o desconforto e a repulsa pelo fisco insaciável. Na consciência de muitos ecoa o sucesso da Independência Americana, de 1776. E também a força subversiva das ideias iluministas - expressas em livros que circulam clandestinamente por Vila Rica e outras cidades. Tudo isso termina por estimular membros das elites e alguns representantes populares ao levante de 1789.
Apenas a traição de Joaquim Silvério impedirá que a Inconfidência Mineira chegue a bom termo. Porém, o martírio de Tiradentes e a participação de poetas árcades (ainda que tênue e por vezes equivocada), no esforço revolucionário, transformam a sedição no episódio de maior grandeza do passado colonial brasileiro.
Em resumo:
História
colonial muito valorizada
Início
do nacionalismo
Início
da luta pela independência - Tomás Antônio Gonzaga ("primeira cabeça da
inconfidência" segundo Joaquim Silvério, delator da Inconfidência Mineira)
A colônia
é colocada como centro das atenções.
Principais
características do Arcadismo
No Brasil
e em Portugal, a experiência neoclássica na literatura se deu em torno dos
modelos do Arcadismo italiano, com a fundação de academias literárias,
simulação pastoral, ambiente campestre etc.
Esses
ideais de vida simples e natural vêm ao encontro dos anseios de um novo público
consumidor em formação, a burguesia, que historicamente lutava pelo poder e
denunciava a vida luxuosa da nobreza nas cortes.
O desejo da natureza, a realização da poesia pastoril, a reverência ao bucolismo são traços marcantes da literatura arcádica, disposta a fazer valer a simplicidade perdida no Barroco.
O desejo da natureza, a realização da poesia pastoril, a reverência ao bucolismo são traços marcantes da literatura arcádica, disposta a fazer valer a simplicidade perdida no Barroco.
Expressões
latinas utilizadas para descrever conceitos árcades:
Fugere
urbem (fuga da
cidade)
Locus
amoenus (lugar
aprazível, ameno)
Aurea
Mediocritas
(mediocridade áurea - simboliza a valorização das coisas cotidianas focalizadas
pela razão)
Inutilia
truncat (cortar
o inútil - eliminar o rebuscamento barroco)
Carpe
diem
(aproveite o dia)
A estética do Arcadismo pode ser
resumida nos seguintes tópicos:
1) BUSCA DA SIMPLICIDADE
A fórmula básica do Arcadismo pode ser representada assim:
1) BUSCA DA SIMPLICIDADE
A fórmula básica do Arcadismo pode ser representada assim:
Verdade =
Razão = Simplicidade
2) IMITAÇÃO DA NATUREZA
Ao contrário do Barroco, que é urbano, há no Arcadismo um retorno à ordem natural. Como na literatura clássica, a natureza adquire um sentido de simplicidade, harmonia e verdade. Cultua-se o "homem natural", isto é, o homem que "imita" a natureza em sua ordenação, em sua serenidade, em seu equilíbrio, e condena-se toda ousadia, extravagância, exacerbação das emoções.
O bucolismo (integração serena entre o indivíduo e a paisagem física) torna-se um imperativo social, e os neoclássicos franceses retornam às fontes da antiguidade que definiam a poesia como cópia da natureza.
A literatura pastoril
Esta aproximação com o natural se dá por intermédio de uma literatura de caráter pastoril: o Arcadismo é uma festa campestre, representando a descuidada existência de pastores e pastoras na paz do campo, entre ovelhinhas. Porém, essa literatura pastoril não surge da vivência direta da natureza, ao contrário do que aconteceria com os artistas românticos, no século seguinte. Pode-se dizer que uma distância infinita separa os pastores reais dos "pastores" árcades. E que sua poesia campestre é meramente uma convenção, ou seja, uma espécie de modismo de época a que todo escritor deve se submeter.
Sendo assim, estes campos, estes pastores e estes rebanhos são artificiais como aqueles cenários de papelão pintado que a gente vê no teatrinho infantil. Não devemos, pois, cobrar dos árcades realismo do cenário e sim atentar para os sentimentos e ideias que eles, porventura, expressem.
No exemplo abaixo, de Tomás Antônio Gonzaga, percebemos que o mundo pastoril é apenas um quadro convencional para o poeta refletir sobre o sentido da natureza:
Enquanto pasta alegre o manso gado, / minha bela Marília, nos sentemos / à sombra deste cedro levantado. / Um pouco meditemos / na regular beleza, / Que em tudo quanto vive nos descobre / A sábia natureza.
3) IMITAÇÃO DOS CLÁSSICOS
Processa-se um retorno ao universo de referências clássicas, que é proporcional à reação antibarroca do movimento. O escritor árcade está preocupado em ser simples, racional, inteligível. E para atingir esses requisitos exige-se a imitação dos autores consagrados da Antiguidade, preferencialmente os pastoris.
Como nestes versos de Marília de Dirceu:
Pintam, Marília, os poetas
a um menino vendado,
com uma aljava de setas,
arco empunhado na mão;
ligeiras asas nos ombros,
o terno corpo despido,
e de Amor ou de Cupido
são os
nomes que lhe dão.
4) AUSÊNCIA DE SUBJETIVIDADE
A constante e obrigatória utilização de imagens clássicas tradicionais acaba sedimentando uma poesia despersonalizada. O escritor não anda com o próprio eu. Adota uma forma pastoril:
4) AUSÊNCIA DE SUBJETIVIDADE
A constante e obrigatória utilização de imagens clássicas tradicionais acaba sedimentando uma poesia despersonalizada. O escritor não anda com o próprio eu. Adota uma forma pastoril:
Cláudio
Manuel da Costa é Glauceste Satúrnio,
Tomás
Antônio Gonzaga é Dirceu,
Silva
Alvarenga é Alcino Palmireno,
Basílio
da Gama é Termindo Sipílio.
Principais autores do Arcadismo brasileiro
A) POESIA
LÍRICA
1. CLÁUDIO MANUEL DA COSTA (1729 - 1789)
Obras: Obras poéticas (1768), Vila Rica (1839)
1. CLÁUDIO MANUEL DA COSTA (1729 - 1789)
Obras: Obras poéticas (1768), Vila Rica (1839)
Poeta de
transição.
Reconhece
e admira os princípios estéticos do Arcadismo, aos quais pretende se filiar,
Mas não
consegue vencer as fortes influências barrocas e camonianas que marcaram a sua
juventude intelectual.
Racionalmente
um árcade,
Emotivamente
um barroco
Soneto
Já rompe, Nise, a matutina Aurora
O negro manto, com que a noite escura,
Sufocando o sol a face pura,
Tinha escondido a chama brilhadora.
Aque alegre, que suave, que sonora,
Aquela fontezinha aqui murmura!
E nestes campos cheios de verdura
Que avultado o prazer tanto melhora?
Só minha alma em fatal melancolia,
Por te não poder ver, Nise Adorada,
Não sabe ainda que coisa é alegria;
E a suavidade do prazer trocada,
Tanto mais aborrece a luz do dia,
Quanto a sombra da noite mais lhe agrada.
Cláudio Manuel da Costa
SONETO
Onde estou! Este sítio desconheço:
Quem fez tão diferente aquele prado!
Tudo outra natureza tem tomado;
E em contemplá-lo tímido esmoreço.
Uma fonte aqui houve; eu não me esqueço
De estar a ela um dia reclinado:
Ali em vale um monte está mudado:
Quanto pode dos anos o progresso!
Árvores aqui vi tão florescentes,
Que faziam perpétua a primavera:
Nem troncos vejo agora decadentes.
Eu me engano: a região esta não era:
Mas que venho a estranhar, se estão presentes,
Meus males, com que tudo degenera!
Já rompe, Nise, a matutina Aurora
O negro manto, com que a noite escura,
Sufocando o sol a face pura,
Tinha escondido a chama brilhadora.
Aque alegre, que suave, que sonora,
Aquela fontezinha aqui murmura!
E nestes campos cheios de verdura
Que avultado o prazer tanto melhora?
Só minha alma em fatal melancolia,
Por te não poder ver, Nise Adorada,
Não sabe ainda que coisa é alegria;
E a suavidade do prazer trocada,
Tanto mais aborrece a luz do dia,
Quanto a sombra da noite mais lhe agrada.
Cláudio Manuel da Costa
SONETO
Onde estou! Este sítio desconheço:
Quem fez tão diferente aquele prado!
Tudo outra natureza tem tomado;
E em contemplá-lo tímido esmoreço.
Uma fonte aqui houve; eu não me esqueço
De estar a ela um dia reclinado:
Ali em vale um monte está mudado:
Quanto pode dos anos o progresso!
Árvores aqui vi tão florescentes,
Que faziam perpétua a primavera:
Nem troncos vejo agora decadentes.
Eu me engano: a região esta não era:
Mas que venho a estranhar, se estão presentes,
Meus males, com que tudo degenera!
Na atualidade permanece na humanidade o
desejo da simplicidade, perceptível nas músicas populares.
Eis “Os verdes campos da minha terra, na voz de
Agnaldo Timóteo
2. TOMÁS
ANTÔNIO GONZAGA (1744-1810)
Obras: Marília de Dirceu (Parte I - 1792; Parte II - 1799; Parte III - 1812), Cartas Chilenas (1845)
Uma das obras líricas mais estimadas e lidas no país, Marília de Dirceu permite duas abordagens igualmente válidas. A primeira mostra-a como o texto árcade por excelência. A segunda aponta para sua dimensão pré-romântica.
Obras: Marília de Dirceu (Parte I - 1792; Parte II - 1799; Parte III - 1812), Cartas Chilenas (1845)
Uma das obras líricas mais estimadas e lidas no país, Marília de Dirceu permite duas abordagens igualmente válidas. A primeira mostra-a como o texto árcade por excelência. A segunda aponta para sua dimensão pré-romântica.
Pastoralismo
Galanteria
Clareza
Recusa em
intensificar a subjetividade
Racionalismo
neoclássico que transforma a vida num caminho fácil para as almas sossegadas
Eis
alguns dos elementos que configuram o Arcadismo nas liras de Tomás Antônio
Gonzaga, especialmente as da primeira parte do livro, produzidas ainda em
liberdade
Um pastor (que é o poeta) celebra, em tom moderadamente apaixonado, as graças da pastora Marília, que conquistou o seu coração:
Tu, Marília, agora vendo
Do Amor o lindo retrato
Contigo estarás dizendo
Que é este o retrato teu.
Sim, Marília, a cópia é tua,
Que Cupido é Deus suposto:
Se há Cupido, é só teu rosto
Que ele foi quem me venceu.
ANÁLISE
Um pastor (que é o poeta) celebra, em tom moderadamente apaixonado, as graças da pastora Marília, que conquistou o seu coração:
Tu, Marília, agora vendo
Do Amor o lindo retrato
Contigo estarás dizendo
Que é este o retrato teu.
Sim, Marília, a cópia é tua,
Que Cupido é Deus suposto:
Se há Cupido, é só teu rosto
Que ele foi quem me venceu.
ANÁLISE
Enquadramento
dos impulsos afetivos dentro do amor galante
Longe do
passionalismo romântico
Expressão
sentimental vale-se de alegorias mitológicas
Conjunto
de frases feitas sobre os encantos da amada, sobre as qualidades do pastor
Dirceu e
sobre a felicidade do futuro relacionamento entre ambos.
Conforme
o gosto do período, há um esforço para cantar as qualidades da vida em família,
do casamento, das módicas alegrias que sustentam um lar.
O Desejo
da Vida Comum ("Aurea Mediocritas")
Marília de Dirceu
Duas tendências coexistem nas liras de
Gonzaga:
a) a contenção e o equilíbrio neoclássicos, com a utilização de todos os lugares-comuns do Arcadismo: um pastor, uma pastora, o campo, a serenidade da paisagem principal.
b) o emocionalismo
pré-romântico, na expressão pungente da crise amorosa e, posteriormente a
prisão, da crise existencial do poeta.
O sujeito lírico é o
pastor Dirceu, que confessa seu amor pela pastora Marília. Eis a convenção
neoclássica realizada, Mas é evidente que nos pastores se projeta o drama
amoroso vivido por Gonzaga e Maria Dorotéia. A todo momento a emoção rompe o
véu da estilização arcádica, brotando, dessa tensão, uma poesia de alta
qualidade.
Os
poemas se chamam liras.
A obra se divide em duas partes (há uma
terceira, cuja autenticidade é contestada por alguns críticos):
1ª parte: contém os poemas escritos na época anterior à prisão de Gonzaga. Nela predominam as composições convencionais: o pastor Dirceu celebra a beleza de Marília em pequenas odes anacreônticas. Em algumas liras, entretanto, as convenções mal disfarçam a confissão amorosa do amor: a ansiedade de um quarentão apaixonado por uma adolescente; a necessidade de mostrar que não é um qualquer e que merece sua amada; os projetos de uma sossegada vida futura, rodeado de filhos e bem cuidado por suas mulher etc.
2ª parte: escrita na prisão da ilha das Cobras. Os poemas exprimem a solidão de Dirceu, saudoso de Marília. Nesta segunda parte, encontramos a melhor poesia de Gonzaga. As convenções, embora ainda presentes, não sustentam o equilíbrio neoclássico. O tom confessional e o pessimismo prenunciam o emocionalismo romântico.
LIRA 14
Minha bela Marília, tudo passa;
A sorte deste mundo e mal segura;
Se vem depois dos males a ventura,
Vem depois dos prazeres a desgraça.
Estão os mesmos Deuses
Sujeitos ao poder do impio Fado:
Apolo já fugiu do Céu brilhante,
Já foi Pastor de gado.
A devorante mão da negra Morte
Acaba de roubar o bem, que temos;
Até na triste campa não podemos
Zombar do braço da inconstante sorte.
Qual fica no sepulcro,
Que seus avos ergueram, descansado;
Qual no campo, e lhe arranca os brancos ossos
Ferro do torto arado.
Ah! enquanto os Destinos impiedosos
Não voltam contra nos a face irada,
Façamos, sim façamos, doce amada,
Os nossos breves dias mais ditosos.
Um coração, que frouxo
A grata posse de seu bem difere,
A si, Marília, a si próprio rouba,
E a si próprio fere.
Ornemos nossas testas com as flores;
E façamos de feno um brando leito,
Prendamo-nos, Marília, em laço estreito,
Gozemos do prazer de sãos Amores.
Sobre as nossas cabeças,
Sem que o possam deter, o tempo corre;
E para nós o tempo, que se passa,
Também, Marília, morre.
Com os anos, Marília, o gosto falta,
E se entorpece o corpo já cansado;
Triste o velho cordeiro está deitado,
E o leve filho sempre alegre salta.
A mesma formosura
E dote, que só goza a mocidade:
Rugam-se as faces, o cabelo alveja,
Mal chega a longa idade.
Que havemos de esperar, Marília bela?
Que vão passando os florescentes dias?
As glórias, que vem tarde, já vem frias;
E pode enfim mudar-se a nossa estrela.
Ah! não, minha Marília,
Aproveite-se o tempo, antes que faça
0 estrago de roubar ao corpo as forças
E ao semblante a graça.
Da segunda parte
LIRA 19
Nesta triste masmorra,
De um semivivo corpo sepultura,
Inda, Marília, adoro
A tua formosura.
Amor na minha idéia te retrata;
Busca extremoso, que eu assim resista
A dor imensa, que me cerca, e mata.
Quando em meu mal pondero,
Então mais vivamente te diviso:
Vejo o teu rosto, e escuto
A tua voz, e riso.
Movo ligeiro para o vulto os passos;
Eu beijo a tíbia luz em vez de face;
E aperto sobre o peito em vão os braços
Conheço a ilusão minha;
A violência da magoa não suporto;
Foge-me a vista, e caio,
Não sei se vivo, ou morto.
Enternece-se Amor de estrago tanto;
Reclina-me no peito, e com mão terna
Me limpa os olhos do salgado pranto.
Depois que represento
Por largo espaço a imagem de um defunto,
Movo os membros, suspiro,
E onde estou pergunto.
Conheço então que amor me tem consigo;
Ergo a cabeça, que inda mal sustento,
E com doente voz assim 1he digo:
"Se queres ser piedoso,
Procura o sítio em que Marília mora,
Pinta-1he o meu estrago,
E vê, Amor, se chora.
Se lágrimas verter, se a dor a arrasta,
Uma delas me traze sobre as penas,
E para alívio meu só isto basta."
B) POESIA
ÉPICA
1. BASÍLIO DA GAMA (1741 -1795)
Obra: O Uraguai
O esforço neoclássico do século XVIII leva alguns autores a sonhar com a possibilidade de um retorno ao sentido épico do mundo antigo.
No entanto, numa era onde as concepções burguesas, o racionalismo e a Ilustração triunfam, o heroísmo guerreiro ou aventureiro parecem irremediavelmente fora de moda. A epopéia ressurge, é verdade, mas quase como farsa.
1. BASÍLIO DA GAMA (1741 -1795)
Obra: O Uraguai
O esforço neoclássico do século XVIII leva alguns autores a sonhar com a possibilidade de um retorno ao sentido épico do mundo antigo.
No entanto, numa era onde as concepções burguesas, o racionalismo e a Ilustração triunfam, o heroísmo guerreiro ou aventureiro parecem irremediavelmente fora de moda. A epopéia ressurge, é verdade, mas quase como farsa.
2. SANTA
RITA DURÃO (1722-1784) ou Frei José de Santa Rita Durão
Obra:
Caramuru (1781)
Introdução
de paisagens tropicais
Canto IV de O Uraguai
Trecho em que é contada a morte da índia Lindóia, encontrada por seu irmão Caitutu adormecida e com uma serpente enrolada ao corpo.
"(...) Mais perto
Descobrem que se enrola no seu corpo
Verde serpente, e lhe passeia, e cinge
Pescoço e braços, e lhe lambe o seio.
Fogem de a ver assim, sobressaltados,
E param cheios de temor ao longe;
E nem se atrevem a chamála, e temem
Que desperte assustada, e irrite o monstro,
E fuja, e apresse no fugir a morte.
Porém o destro Caitutu, que teme
Do perigo da irmã, sem mais demora
Dobrou as pontas do arco, e quis três vezes
Soltar o tiro, e vacilou três vezes
Entre a ira e o temor. Enfim sacode
O arco e faz voar a aguda seta,
Que toca o peito de Lindóia, e fere
A serpente na testa, e a boca e os dentes
Deixou cravados no vizinho tronco.
Açouta o campo coa ligeira cauda
O irado monstro, e em tortuosos giros
Se enrosca no cipreste, e verte envolto
Em negro sangue o lívido veneno.
Leva nos braços a infeliz Lindóia
O desgraçado irmão, que ao despertá-la
Conhece, com que dor! no frio rosto
Os sinais do veneno, e vê ferido
Pelo dente sutil o brando peito.
Os olhos, em que Amor reinava, um dia,
Cheios de morte; e muda aquela língua
Que ao surdo vento e aos ecos tantas vezes
Contou a larga história de seus males.
Nos olhos Caitutu não sofre o prento,
E rompe em profundíssimos suspiros,
Lendo na testa da fronteira gruta
De sua mão já trêmula gravado
O alheio crime e a voluntária morte.
E por todas as partes repetido
O suspiro nome de Cacambo.
Inda conserva o pálido semblante
Um não sei quê de magoado e triste,
Que os corações mais duros enternece.
Tanto era bela no seu rosto a morte."
Basílio da Gama
das
reflexões do Prof. Hélio Consolaro
ARCADISMO (1768 - 1836)
1.CONTEXTO
|
• Século das Luzes
(1700-1800) — Iluminismo (Razão,
liberdade de pensamento, progresso científico e social).
• Elaboração e
publicação da Enciclopédia, na França.
• A Revolução
Francesa (1789).
• Em Portugal: o governo
iluminista do Marquês de Pombal.
• Vila Rica, MG: Inconfidência
Mineira.
|
2.MARCO INICIAL
|
• Obras (1768)
— livro de poemas de Cláudio Manuel da Costa.
|
3.CARACTERÍSTICAS
|
. Influências
ideológicas do Iluminismo.
. Influências
estéticas do Classicismo greco-latino e renascentista.
. Racionalismo
predominando sobre o sentimentalismo e a religiosidade.
. Preocupação com a
educação moral e intelectual. Combate aos exageros verbais do Barroco.
• Linguagem mais
simples, direta, objetiva.
. A Natureza como
modelo de sabedoria, harmonia e felicidade.
• Bucolismo,
pastoralismo, exaltação da vida no campo
|
4.POETAS LÍRICOS
|
• Cláudio
Manuel da Costa: bom sonetista. Temas: o amor
não-correspondido pela asnada, a preferência pela vida no campo à vida
urbana, a consciência e a tristeza sobre a brevidade da vida. Tentou a poesia
épica com o poemeto Vila Rica.
• Tomás
Antônio Gonzaga: na sua obra Marília de Dirceu celebra os
amores pastoris desses dois personagens; linguagem simples, espontânea,
musical. Cartas chilenas: 13 cartas em forma de poemas. sátira
política contra os desmandos administrativos do governador de Minas Gerais;
circularam anônimas.
• Silva
Alvarenga: no livro Glaura, canta os amores do pastor Alcindo
Palmireno e da pastora Glaura, num ambiente bucólico e natural; rondós e
madrigais são as formas poemáticas usadas; produziu ainda poesia satírica,
didática e encomiástica.
• Alvarenga
Peixoto: obra reduzida, de qualidade irregular, presa às convenções
arcádicas, influências clássicas e mitológicas; musa: a esposa Bárbara
Heliodora; poesia encomiástica e comemorativa.
|
5.POETAS ÉPICOS
|
• Basílio da
Gama: escreveu O Uraguai — a luta do exército luso-espanhol
contra jesuítas e guaranis, pela posse na região dos Sete Povos das
Missões;
Sepé e Cacambo:líderes indígenas; Pe. Balda: vilão; Lindoia, mulher de Cacambo, heroína: deixa-se picar por cobra venenosa e morre, para ser fiel ao marido. Valoriza o índio e sua cultura; tem caráter pré-romântico. Ideologicamente apresenta forte antijesuitismo e defesa da política de Pombal Poema escrito em versos brancos.
• Santa Rita
Durão: escreveu Caramuru — as aventuras do português Diogo
Álvares Correia entre os índios da Bahia e episódios da História do Brasil;
destaque ao episódio da morte de Moema: preterida por Diogo, deixa-se morrer
afogada ao tentar seguir a nado o navio que o levava a França, com sua
mulher, a índia Paraguaçu. Tem por modelo a epopeia Os Lusíadas, de
Camões.
|
ESTUDO COMPLEMENTAR!
Os autores Cláudio Manoel da Costa, Tomás Antonio Gonzaga participaram do movimento "Inconfidência Mineira", o que lhes causou, juntamente com Tiradentes, a prisão. Cláudio Manoel da Costa foi morto na prisão, Tomás Antonio Gonzaga foi condenado ao degredo (foi expulso do país) e Tiradentes foi enforcado e esquartejado tendo corpo sendo exposto em praça pública.
Segundo teóricos, Claúdio Manoel da Costa não cometeu suicídio na prisão, este foi um subterfúgio dos seus algozes para justificar a morte dele. Historiadores descobriram, pesquisando o local, entrevistando a população que, na época era comum Igreja encomendar o corpo do morto antes do funeral. Isso somente não ocorria a suicidas. Como o ritual de encomenda do corpo ocorreu, fica implícito que Claudio Manoel da Costa não se matou, porque neste caso, a Igreja não faria o ritual!
O grupo considerado conspirador contra o Estado apenas tentar impor o direito de não pagar impostos tão altos em relação à extração mineral: o ouro, do qual paga o quinto ( a quinta parte ao Estado).
Devemos louvar os esforços daqueles que lutaram pelo direito da população quanto a não opressão!
Hoje isso é garantia da Lei como preconiza a Constituição: Respeito aos Direitos Humanos, valores preconizados pela Declaração Universal dos Direitos Humanos!

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.