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quarta-feira, 15 de outubro de 2014

PUC/14 SAO BERNARDO


Olá, terceiranistas!
Segue São Bernardo!
Atentos a toda a intertextualidade da obra:
Regionalismo, patriarcalismo, a mulher, a terra, o latifúndio, coisificação, opressão etc.

Leitura complementar:
Análise da obra ‘São Bernardo’ de Graciliano Ramos à luz do direito da mulher:
 
SÃO BERNARDO
GRACILIANO RAMOS

O AUTOR
Graciliano Ramos nasceu em 27/10/1892 e morreu em 20/3/1953. Foi o escritor que produziu a mais importante parcela de sua ficção nos anos 1930. Não era um período fácil. A Europa vivia um clima de guerra com a expansão nazista.
No Brasil, a ascensão de Vargas ao poder, e sua indisposição de abandoná-lo, conduziria o país à ditadura. Em sua obra, Graciliano conseguiu traduzir o clima de tensão social e seus desdobramentos psicológicos.
Graciliano foi um grande escritor da geração de 45, a terceira grande leva de escritores modernos no Brasil. Suas obras são importantes pela grande crítica social presente nela.  Foi um romancista, cronista, contista, jornalista e memorialista brasileiro do século XX.
Nascido em Quebrângulo trabalha como jornalista, comerciante e diretor da Instrução Pública de Alagoas. Considerado o melhor ficcionista do modernismo e o prosador mais importante da segunda fase do Modernismo, era o primogênito de quinze filhos, de uma família de classe média do sertão nordestino. Passou parte de sua infância na cidade de Buíque, em Pernambuco, e parte em Viçosa, Alagoas. Fez seus estudos secundários em Maceió. Não cursou nenhuma faculdade. Seus livros foram traduzidos para vários países. Seus trabalhos "Vidas Secas", "São Bernardo" e "Memórias do Cárcere", foram levados para o cinema. Recebeu o Prêmio da Fundação William Faulkner, dos Estados Unidos, pela obra "Vidas Secas".
A preocupação com os problemas sociais do povo brasileiro, especialmente do nordestino, foi sempre traço marcante de sua obra. Nela se encontra magnífico retrato do sofrimento e da situação do povo pobre do Nordeste. Seus romances mais importantes, além de São Bernardo, são Angústia (1936) e Vidas Secas (1938).
Com linguagem precisa e preocupação social, sua obra é um exemplo da abordagem da literatura como meio de conhecimento e mudança da realidade, típica da segunda geração modernista. Entre suas obras destacam-se ainda Angústia (1936) e Vidas Secas (1938). Suas obras embora tratem de problemas sociais do Nordeste brasileiro, apresentam uma visão crítica das relações humanas, que as tornam de interesse universal. Seus livros foram traduzidos para vários países. 
A obra de Graciliano Ramos foi toda ela feita após observação e vivência. Utiliza-se de uma linguagem concisa, seca, reduzida ao essencial, sintética, sem prejuízo de clareza. Esclarece Nelly Novais Coelho que "a sua obra, pensada em particular ou em conjunto, nos dá a sensação de coisa pesada, opressiva ainda que lúcida; em perfeita coerência com a natureza, analista e desconfiada do autor, moldado como foi pelo meio e uma educação cheios de violência, ignorância, incompreensão e injustiças".

A PRISÃO
Em 1936, devido a suas posições políticas contrárias à ditadura vigente, Graciliano foi preso e deportado para o Rio de Janeiro. Aí passou um ano encarcerado. Solto, permaneceu no Rio de Janeiro, onde fixou definitivamente residência e se dedica à imprensa. Após a queda da ditadura Vargas, 1945, Graciliano ingressou no Partido Comunista. Em 1952 visita a União Soviética e a Checoslováquia. Nesse mesmo ano foi eleito presidente da Associação Brasileira de Escritores.

A OBRA SÃO BERNARDO
Em São Bernardo, apresentou-a do ponto de vista do opressor, mas não se restringiu a isso. Fugindo de qualquer estereótipo simplificador, dotou seu narrador, o inescrupuloso fazendeiro Paulo Honório, de medos, tensões, contradições, enfim, de vida. O social e o psicológico se fundem em São Bernardo para criar uma obra de profunda análise das relações humanas. Este é, sem dúvida, um dos romances mais densos da literatura brasileira. Uma das obras-primas de Graciliano, é narrado em primeira pessoa por Paulo Honório, que se propõem a contar sua dura vida em retrospectiva, de guia de cego a proprietário da Fazenda São Bernardo. Ele sente uma estranha necessidade de escrever, numa tentativa de compreender, pelas palavras, não só os fatos de sua vida como também a esposa, suas atitudes e seu modo de ver o mundo. A linguagem é seca e reduzida ao essencial. Paulo Honório narra a difícil infância, da qual pouco se lembra excetuando o cego de que foi guia e a preta velha que o acolheu. Chegou a ser preso por esfaquear João Fagundes por causa de uma antiga amante. Possuidor de fino tato para negócios, viveu de pequenos biscates pelo sertão até se aproveitar das fraquezas de Luís Padilha - jogador compulsivo. Comprou-lhe a fazenda São Bernardo onde trabalhara anos antes. Astucioso, desonesto, não hesitando em amedrontar ou corromper para conseguir o que deseja, vê tudo e todos como objetos, cujo único valor é o lucro que deles possa obter.Trava um embate com o vizinho Mendonça, antigo inimigo dos Padilhas, por demarcação de terra. Mendonça estava avançando suas terras em cima de São Bernardo. Logo depois, Mendonça é morto enquanto Honório está na cidade conversando com Padre Silveira sobre a construção de uma capela na sua fazenda. São Bernardo vive um período de progresso. Diversificam-se as criações, invade terras vizinhas, constrói açude e a capela. Ergue uma escola em vista de obter favores do Governador. Chama Padilha para ser professor. Estando a fazendo prosperando, Paulo Honório procura uma esposa a fim de garantir um herdeiro. Procura uma mulher da mesma forma que trata as outras pessoas: como objetos. Idealiza uma mulher morena, perto dos trinta anos, e a mais perto da sua vontade é Marcela, filha do juiz. Não obstante conhece uma moça loura, da qual já haviam falado dela. Decide por escolher essa. A moça é Madalena, professora da escola normal. Paulo Honório mostra as vantagens do negócio, o casamento, e ela aceita. Não muito tempo depois de casado, começam os desentendimentos. Paulo Honório, no início, acredita que ela com o tempo se acostumaria a sua vida. Madalena, mulher humanitária e de opinião própria, não concorda com o modo como o marido trata os empregados, explorando-os. Ela torna-se a única pessoa que Paulo Honório não consegue transformar em objeto. Dotada de leve ideal socialista, Madalena representa um entrave na dominação de Honório. O fazendeiro, sentindo que a mulher foge de suas mãos, passa a ter ciúmes mórbidos dela, encerrando-a num círculo de repressões, ofensas e humilhações. O casal tem um filho mas a situação não se altera. Paulo Honório não sente nada pela sua criança, e irrita-se com seus choros. A vida angustiada e o ciúme exagerado de Paulo Honório acabam desesperando Madalena, levando-a ao suicídio. É acometido por imenso vazio depois da morte da esposa. Sua imagem o persegue. As lembranças persistem em seus pensamentos. Então, pouco a pouco, os empregados abandonam São Bernardo. Os amigos já não frequentam mais a casa. Uma queda nos negócios leva a fazenda a ruína. Sozinho, Paulo Honório vê tudo destruído e, na solidão, procura escrever a história da sua vida. Considera-se aleijado, por ter destruído a vida de todos ao seu redor. Reflete a influência do meio quando afirma: "A culpa foi minha, ou antes, a culpa foi desta vida agreste, que me deu uma alma agreste."

PERÍODO HISTÓRICO
O romance se passa em plena Era Vargas. O narrador, Paulo Honório, usufrui de algumas benesses do poder, sustentando-o com seu dinheiro e seus favores. Desse modo, o poder é visto por dentro.
PERSONAGENS
Paulo Honório: narrador e protagonista, proprietário da fazenda São Bernardo. Enganou o antigo dono da fazenda para conseguir as terras.
Madalena: esposa de Paulo Honório, atormentada por seus ciúmes. Acaba se suicidando. 
Casimiro Lopes: o fiel empregado de Paulo Honório, a quem dedica obediência cega. É um homem violento, que ajudava Paulo a cobrar as dívidas.
Luís Padilha: imagem da decadência física, financeira e moral. É enganado por Paulo Honório e acaba perdendo a fazenda São Bernardo.
RESUMO
O fazendeiro Paulo Honório resolve escrever a história de sua vida. Da infância, pouco se recorda, desconhece as próprias origens, tendo sido criado pela doceira Margarida. Na juventude, esfaqueou um sujeito e ficou preso por quase quatro anos. Na cadeia, aprendeu a ler e escrever. Tendo trabalhado na fazenda de São Bernardo, alimentava o sonho de um dia comprá-la.
Em busca da concretização desse desejo, submeteu-se a todo tipo de trabalho e remuneração. Passou a emprestar dinheiro a juros, que recuperava por vezes de forma violenta. O capanga Casimiro Lopes era o seu ajudante na função e acabou se tornando um companheiro da vida inteira. Fingindo amizade, deu péssimos conselhos a Luís Padilha, jovem herdeiro de São Bernardo e, depois de envolvê-lo em dívidas insolúveis, conseguiu adquirir a propriedade. 
Resolveu com violência alguns problemas de divisas com vizinhos e se fortaleceu como agricultor e homem influente, corrompendo aqueles de cujo apoio necessitava. Para agradar ao governo, instalou uma escola em São Bernardo, contratando para o cargo de professor o próprio Luís Padilha, agora falido.
Resolvido a se casar e produzir um herdeiro para suas posses, aproximou-se da jovem professora Madalena. Inicialmente, propôs que a moça substituísse Luís Padilha, mas, diante de sua recusa, declarou as verdadeiras intenções. Depois de alguma hesitação, Madalena aceitou, mudando-se para São Bernardo com a tia, D. Glória.
A independência de pensamento de Madalena e tendência a interferir nos negócios da fazenda, sempre em favor dos empregados, irritavam Paulo Honório. Com isso, as brigas entre o casal passaram a ser constantes. Madalena engravidou e deu a Paulo Honório o filho homem que ele desejava. Mas o nascimento da criança não acabou com as discussões. Paulo Honório passou a imaginar que a mulher que lhe fugia ao controle deveria se submeter aos caprichos de alguém. Tomado de ciúmes, passou a atormentar a esposa com desconfianças e ofensas. Quando a situação chegou a um ponto insuportável, Madalena se suicidou. 
Aos poucos, os empregados se retiraram de São Bernardo e os amigos se afastaram de Paulo Honório. Os negócios do fazendeiro caminhavam mal e ele não conseguia reunir forças para se reerguer. Passados dois anos da morte de Madalena, ninguém mais aparecia ali. Restava a Paulo Honório a obediência de alguns empregados, do filho e do fiel Casimiro Lopes. 

ANÁLISE
Narrativa de São Bernardo é tão elaborada que se poderia mesmo duvidar que pudesse ter sido construída por um espírito rude como o de Paulo Honório. A linguagem seca, formada por frases curtas e adjetivação expressiva constituíam o estilo de Graciliano Ramos, adequado, aqui, à expressão do homem rude que conta sua história, incapaz de expansões sentimentais. Ocorre que sua rudeza aparece na frieza de seu relato, na secura de suas opiniões. A linguagem é mais um componente de seu embrutecimento e, longe de ser inadequada, funciona como instrumento explicitador dos meandros de sua alma atormentada. Note-se, por exemplo, que esse homem calculista deixa-se levar pelo terror quando ouve pios de coruja, que lhe recordam a esposa morta.
A mentalidade pragmática de Paulo Honório faz com que ele compreenda tudo a partir da utilidade que as coisas podem ter para ele. E é exatamente isso o que todos são para ele: coisas. As pessoas lhe interessam na medida em que podem lhe trazer alguma vantagem, pecuniária ou política. O tempo é concebido a partir da possibilidade de sua otimização, nada de desperdício com conversas inúteis. Até sua narrativa seca, sem enfeites desnecessários, parece submeter-se às leis da poupança verbal. A posse e o poder se confundem em Paulo Honório. Assim, aqueles sobre os quais exerce seu mando tornam-se objetos de sua propriedade. Muitas vezes, o exercício do poder se manifesta pela violência, explícita ou implícita, feita às claras, no castigo aos empregados, ou às escuras, promovendo a morte de vizinhos indesejados. Nesse universo, a chegada de Madalena funciona como um ruído que aos poucos se transforma em estrondo insuportável para os costumes da fazenda e de seu dono. A esposa lhe foge das mãos porque não se submete ao seu poder, rejeitando ser tratada como objeto. Ela se desloca, terminando por se colocar fora da esfera que ele consegue compreender. O resultado é a perda da comunicação entre eles. O sofrimento experimentado por Paulo Honório em função disso comprova a capacidade do escritor de conferir sentimentos e sensibilidade ao homem bruto, ao opressor inescrupuloso. Aos poucos, Paulo Honório se desumaniza. No final de seu relato, ele se autodenomina “monstro”. Decai com sua fazenda, confundindo-se com ela. Motivo pelo qual o livro leva o nome da propriedade cuja posse ele perseguiu com o afinco dos obsessivos.

Graciliano Ramos consegue articular com sensibilidade duas dimensões humanas: a social e a psicológica. Do ponto de vista social, temos a trajetória de um homem em direção ao poder. Do ponto de vista psicológico, o embrutecimento de sua alma, obtido na mesma medida de seu enriquecimento. 

ESTUDOS COMPLEMENTARES


OS EMPREGADOS
É assim que, na recapitulação final, Paulo Honório vê seus empregados como "bichos":
“Bichos. As criaturas que me serviram durante anos eram bichos. Havia bichos domésticos, como o Padilha, bichos do mato, como o Casimiro Lopes, e muitos bichos para o serviço do campo. Bois mansos" (p. 182). Relacionado diretamente à reificação e, num mesmo plano, encontra-se o signo temático opressão. Paulo Honório, em São Bernardo é o elemento dominador quer pela supremacia econômica, quer pelo estatuto de "fazendeiro", dono da terra, que o torna superior aos outros. Sua personalidade forte é marcada pelo "sentimento de tirania dominante" (3). É justamente a tirania de Paulo Honório que faz com que a opressão assuma, no romance, diferentes formas: desde a física, verificável no tratamento que ele dispensa aos empregados, até a opressão ao nível das vivências psicológicas (humilhações que faz passar Madalena, Luís Padilha, D. Glória etc.).
É importante considerar, no nível da opressão, a exploração. Latente em toda a história da conquista e desenvolvimento da fazenda São Bernardo, a exploração pode ser explicitada nas relações senhor / empregados. A supremacia econômica de Paulo Honório o faz ver os empregados apenas como fontes de lucro, exigindo deles o máximo trabalho e dando-lhes a menor remuneração possível. Concretizada, nesse nível, a opressão e, consequentemente, o processo de reificação, não se pode dizer que o mesmo aconteça, entretanto, nas relações entre Paulo Honório e Madalena, porque Madalena é a força antagônica que se vai opor à tirania do dominante, procurando atenuá-la através de sua participação na vida da fazenda (propõe melhorias salariais, novos métodos de ensino e alimentação para os empregados).
Nesse momento, quando desperta a força antagônica de Madalena, surge, no texto, a tragédia do ciúme. Paulo Honório, sentindo-se impotente ante a vontade de Madalena, torna-se inseguro referente aos sentimentos e atitudes da mulher. A partir daí, inicia-se o processo de degradação de Madalena e do próprio Paulo Honório, que resulta na destruição total (morte) de Madalena, que não se submete à tirania e ao sentimento de posse do marido, e na auto-destruição (deixa de interessar-se pela fazenda) e alienação social de Paulo Honório (não participa da Revolução de 1930, é alijado do sistema), que o faz viver derrotado e em solidão, conforme o declara no final do livro:
"Lá fora há uma treva dos diabos, um grande silêncio. (...) É horrível! Se aparecesse alguém (...) Estão todos dormindo. (...) E eu vou ficar aqui, às escuras, até não sei que hora, até que, morto de fadiga, encoste a cabeça à mesa e descanse alguns minutos” (p. 188).

AS RELAÇÕES ENTRE OS PERSONAGENS CENTRAIS
MADALENA E PAULO HONORIO
As duas personagens estão inseridas numa classe social dominante, a burguesia rural sertaneja. Ascenderam a essa classe social por caminhos diferentes: um venceu através da força, da crueldade; a outra, pelo esforço intelectual e pelo casamento. Insinua-se, pois, através da caracterização e formação das personagens, a noção de que elas, apesar de unidas, possuem interesses diferentes e, por isso, conflituosos.

Participantes de um contexto em que as relações sociais apoiavam-se no par antitético dominador / dominado, vê-se que o conflito se instala na classe dominante (Paulo Honório X Madalena), sendo que Paulo Honório reduplica a ideologia vigente e Madalena representa a contra-ideologia. Explica-se: Paulo Honório, de maneira contraditória, é, simultaneamente, o representante da burguesia rural com todo o seu envolvimento econômico e político, e também o "emblema do capitalismo nascente no Brasil" (4), porque moderniza a fazenda São Bernardo, implementa novos tipos de cultura e pecuária, valoriza o capital. É o dominador. O sentimento de posse, o desejo de apropriação de todos os bens, leva-o a sua reificação, condicionando seu modo de ver o mundo e estruturando sua personalidade. Agente reificador, Paulo Honório, "coisifica" tudo e todos que o cercam, e constrói seu mundo sob um sistema de valores estereotipados, que definem, através de uma falsa consciência pragmática, o sentido da ação. Entretanto, Paulo Honório não consegue reificar Madalena. Essa que deveria fazer parte do paradigma "dominado", insubmete-se. A insubordinação na mulher instala a insegurança no sistema machista que regulava a sociedade (semifeudal) burguesa de Alagoas. A insegurança do sistema é revelada pelo personagem Paulo Honório. Surge, assim, a crise não só no casamento, como também no "status quo" da fazenda, reduplicando a crise social que envolve o país.

A DESTRUIÇÃO DE MADALENA
Destruição total de Madalena, que não se submete à tirania do marido
Madalena pretende ser a consciência dos trabalhadores e do próprio marido. Revolta-se por isso contra a submissão dos operários, contra a prepotência do marido, contra a ordem estabelecida na fazenda São Bernardo, intervindo para a construção de um mundo melhor. Consequentemente, é contraideológica, pois não aceita as regras que conformam o mundo rural do sertão nordestino. E, entretanto, é esmagada pelo processo reificador, pois não aderindo ao projeto de opressão e sem condições de resgatar os oprimidos, suicida-se. Desse modo, a esperança de reestruturação do sistema instalado na fazenda é frustrada de modo violento, ocasionando a dissolução desse organismo e o afastamento de outras personagens: D. Glória, Seu Ribeiro, Luís Padilha que, conscientizados da opressão, rompem com o elemento dominador (Paulo Honório).

O DISCURSO DO NARRADOR
O discurso do narrador apresenta explícitas implicações ideológicas.A narrativa é conduzida por um narrador que se encontra no interior do universo narrado. Ele, dada a sua posição retrospectiva, confere às personagens um sentido definido e acabado. Importa salientar, entretanto, que, mesmo empenhado em definir os elementos que constituem o universo narrativo, o narrador intervém, interrompe a narrativa. Tais intervenções assumem feição de comentário ou questionam o leitor, permeando a ideologia, como acontece no capítulo 19:
"(...) para que me serve essa narrativa? Para nada, mas sou forçado a escrever” (p. 154).
A narrativa serve, principalmente, para mostrar que, após a crise (ciúme, morte de Madalena, alijamento), Paulo Honório tem consciência do processo reificador do qual era o agente maior e que o deixou na solidão. Assim, as intervenções que rompem com a linearidade narrativa denunciam as motivações profundas do comportamento das personagens. É através delas que o narrador deixa irromper a subjetividade e desnuda o caráter persuasivo de seu discurso.

O NARRADOR E OS JUÍZOS DE VALOR
Os juízos de valor, (valores relativos) expressos pelo narrador, vão, pouco a pouco, esclarecendo suas opções ideológicas. Mas o momento em que elas surgem com maior clareza corresponde ao capítulo 36, quando o narrador faz uma revisão de sua vida, refletindo sobre o processo de reificação. Formulada pela ótica de Paulo Honório escritor, esta reflexão resume a posição de auto-análise e auto-crítica do narrador, que se hoje (presente da narrativa) tem uma atitude de recusa ao sentimento de posse e ao processo de reificação que governou toda a sua vida, não apresenta mais condições para a transformação da personagem e, por isso, ao final da narrativa, quando o narrador diz:
"(...) vou ficar aqui, às escuras, até não sei que horas, até que, morto de fadiga, encoste a cabeça à mesa e descanse uns minutos" (p. 188),
fica o esvaziamento interior, o aniquilamento em vida, não a morte; a apatia. Paulo Honório escritor acabou a sua função: narra os fatos, escreve o livro, e encontra-se agora apático numa sociedade que se desagrega.
Fonte: Maria Luiza Ritzel Remédios, doutora em Letras. Professora do Programa em Pós-graduação em Letras da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.






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