Segue o conteúdo das últimas aulas: O BARROCO, para estudos.
O BARROCO
O Barroco
sucedeu o Renascimento, do final do século XVI ao final do século XVII,
estendendo-se a todas as manifestações culturais e artísticas europeias e
latino-americanas.
Iniciado
pelo maneirismo e extinto no rococó, considerado um barroco exagerado e
exuberante, e para alguns, a decadência do movimento.
Em sua
estética, o barroco revela a busca da novidade e da surpresa; o gosto pela
dificuldade, pregando a ideia de que se nada é estável, tudo deve ser
decifrado; a tendência ao artifício e ao engenho; a noção de que no inacabado
reside o ideal supremo de uma obra artística. A literatura barroca se
caracteriza pelo uso da linguagem dramática expressa no exagero de figuras de
linguagem, de hipérboles, metáforas, anacolutos e antíteses.
Barroco: contexto histórico
O
Renascimento recusa os valores religiosos e artísticos da Idade Média;
O Barroco tenta inutilmente conciliar a visão medieval da vida e da arte com a visão renascentista.
O Barroco tenta inutilmente conciliar a visão medieval da vida e da arte com a visão renascentista.
Dilemas
de um homem que perdeu sua confiança ilimitada na razão e na harmonia
Volta a
uma intensa religiosidade medieval
Eliminação
dos conceitos renascentistas de vida e arte
Contradições
Contrarreforma
Arte
eclesiástica, que deseja propagar a fé católica.
A
Igreja legitima o "direito divino dos reis", isto é, o absolutismo
despótico nos impérios católicos.
NOTA: Em nenhuma outra época se produz tamanha quantidade
de igrejas e capelas, estátuas de santos e documentos sepulcrais.
As
obras de arte devem falar aos fiéis com a maior eficácia possível, mas em momento
algum descer até eles.
Daí o
caráter solene da arte barroca.
Arte
que tem de convencer, conquistar, impor admiração.
Arte Barroca: Aleijadinho
Obra: Os doze profetas.
Arte Barroca: Aleijadinho
Obra: Os doze profetas.
Período colonial
Estilos
artísticos dominantes nas metrópoles copiados nas colônias
Barroco
das nações ibéricas irrompe na América Latina como um transplante cultural
Matriz:
Espanha
Portugal
– entre 1580 a 1640 - sob domínio
O
Barroco ou Seiscentismo tem seu início em 1580 com a unificação da Península
Ibérica, o que acarretará um forte domínio espanhol em todas as atividades, daí
o nome Escola Espanhola, também dado ao Barroco lusitano.
O Seiscentismo se estenderá até 1756, com a fundação da Arcádia Lusitana, já em pleno governo do Marquês de Pombal, aberto aos novos ares da ideologia liberal burguesa iluminista, que caracterizará a segunda metade do século XVIII.
O Seiscentismo se estenderá até 1756, com a fundação da Arcádia Lusitana, já em pleno governo do Marquês de Pombal, aberto aos novos ares da ideologia liberal burguesa iluminista, que caracterizará a segunda metade do século XVIII.
No
início do século XVII, a Espanha vive uma crise terrível - guerras perdidas na
Europa- perseguição à burguesia judaica- ausência de indústrias- violência da
Inquisição - colapso da agropecuária.
Nem o
ouro nem a prata, das colônias conseguem amenizar o declínio da outrora
grandiosa potência.
A
pobreza se espalha pela nação e uma profunda religiosidade impregna o cotidiano
de todas as classes sociais, da nobreza aos excluídos.
Ou
seja, a mesma situação de desconforto econômico e de mal-estar cultural que
viria ocorrer na Bahia de Gregório de Matos Guerra, algumas décadas depois.
Neste
panorama de decadência e fracasso surgem as obras de Góngora, Quevedo, Gracián
e Calderón de la Barca que levarão a literatura barroca espanhola a um
extraordinário patamar artístico, influenciando decisivamente poetas e
prosadores latino-americanos do século XVII.
Barroco:
surgimento no Brasil
Mesmo
considerando o Barroco o primeiro estilo de época da literatura brasileira e
Gregório de Matos o primeiro poeta efetivamente brasileiro, com sentimento
nativista manifesto, na realidade ainda não se pode isolar a Colônia da
Metrópole.
Marco
inicial: 1601 com
a publicação do poema épico Prosopopeia, de Bento Teixeira, que introduz
definitivamente o modelo da poesia camoniana em nossa literatura.
Duração: todo o século XVII e início do
século XVIII.
Derrocada: a partir de 1724, com a fundação
da Academia Brasílica dos Esquecidos, o movimento academicista ganhava corpo,
assinalando a decadência dos valores defendidos pelo Barroso e a ascensão do
movimento árcade.
Término: 1768, com a fundação da Arcádia
Ultramarina e com a publicação do livro Obras, de Cláudio Manuel da Costa.
Barroco
(resumo dos conceitos-chave)
Principal
motivo: desengano (desencanto, desilusão).
Forte
substrato religioso
Desvalorização
da vida humana frente à morte e à eternidade
Cisão
entre a alegria da existência e a preparação para a morte
Consciência
trágica da avassaladora passagem do tempo
A vida é
sonho.
A vida é breve.
Viver é ir morrendo aos poucos.
A vida é breve.
Viver é ir morrendo aos poucos.
Diante
das coisas transitórias, surge a contradição: vivê-las, antes que terminem, ou
renunciar ao terreno e entregar-se à eternidade?
Assim, o
criador barroco ora ajoelha-se diante de Deus, ora celebra as delícias da vida.
Os dois exemplos pertencem a Gregório de Matos Guerra:
(A)
A vós correndo vou, braços sagrados,
Nessa cruz sacrossanta descobertos,
Que, para receber-me, estais abertos
E, por não castigar-me, estais cravados.
(B)
Com vossos três amantes me confundo,
Mas vendo-vos com todos cuidados,
Entendo que de amante e amorosa
Podeis vender amor a todo o mundo.
(A)
A vós correndo vou, braços sagrados,
Nessa cruz sacrossanta descobertos,
Que, para receber-me, estais abertos
E, por não castigar-me, estais cravados.
(B)
Com vossos três amantes me confundo,
Mas vendo-vos com todos cuidados,
Entendo que de amante e amorosa
Podeis vender amor a todo o mundo.
VERTENTES
DO BARROCO
Cultismo:
jogo de palavras
Conceptismo:
jogo de ideias
Cultismo: é caracterizado pela linguagem
rebuscada, culta, extravagante (hipérboles), descritiva; pela valorização do
pormenor mediante jogos de palavras (ludismo verbal), com visível influência do
poeta espanhol Luís de Gôngora; daí o estilo ser também conhecido por
Gongorismo. No cultismo valoriza-se o "como dizer".
Busca da
perfeição formal através de um estilo rebuscado.
Utilização
contínua de neologismos.
Metáforas
arrojadas e hipérbatos (inversões sintáticas) frequentes.
Conceptismo: é marcado pelo jogo de ideias,
de conceitos, seguindo um raciocínio lógico, racionalista, que utiliza uma
retórica aprimorada (arte de bem falar, ou escrever, com o propósito de
convencer; oratória).
Um dos principais cultores do Conceptismo foi o espanhol Quevedo, de onde deriva o termo Quevedismo. Valoriza-se, neste estilo, "o que dizer".
Um dos principais cultores do Conceptismo foi o espanhol Quevedo, de onde deriva o termo Quevedismo. Valoriza-se, neste estilo, "o que dizer".
Tentativa
de dizer o máximo com o mínimo de palavras.
Emprego
de elipses, duplos sentidos, paradoxos e alegorias.
Requinte
expressivo e sutileza das ideias.
CARACTERÍSTICAS DO BARROCO
Culto do
contraste: o poeta barroco
se sente dividido, confuso. A obra é marcada pelo dualismo: carne X espírito,
vida X morte, luz X sombra, racional X místico. Por isso, o emprego de
antíteses.
Pessimismo: devido à tensão (dualidade), o poeta barroco não tinha nenhuma perspectiva diante da vida.
Literatura moralista: a literatura tornou-se um importante instrumento para educar e para "pregar" por parte dos religiosos (padres).
Pessimismo: devido à tensão (dualidade), o poeta barroco não tinha nenhuma perspectiva diante da vida.
Literatura moralista: a literatura tornou-se um importante instrumento para educar e para "pregar" por parte dos religiosos (padres).
Linguagem do Barroco
Estilo
retorcido, contraditório, por vezes brilhante, por vezes incompreensível e de
mau gosto.
A audácia verbal não tem limites:
comparações inesperadas,
antíteses,
paradoxos,
hipérboles,
inversões nas frases,
palavras raras
Metáfora:
Purpúreas rosas sobre Galatea / A aurora entre lírios cândidos desfolha. (Góngora)
(A luz rosada do amanhecer banha o corpo branco da jovem Galatea)
Antítese:
O profano e o sagrado
Paradoxo:
Amor é fogo que arde sem se ver; / é ferida que dói e não se sente; / é um contentamento descontente; / é dor que desatina sem doer. (Camões)
Jogo verbal:
O todo sem a parte não é todo; / a parte sem o todo não é parte; / mas se a parte o faz todo, sendo parte, / não se diga que é parte sendo todo. (Gregório de Matos)
A audácia verbal não tem limites:
comparações inesperadas,
antíteses,
paradoxos,
hipérboles,
inversões nas frases,
palavras raras
Metáfora:
Purpúreas rosas sobre Galatea / A aurora entre lírios cândidos desfolha. (Góngora)
(A luz rosada do amanhecer banha o corpo branco da jovem Galatea)
Antítese:
O profano e o sagrado
Na
Literatura barroca aparece, claramente, a mistura entre o sagrado e o profano.
No Carnaval, festa considerada profana, o religioso geralmente está presente. Um exemplo é o carro alegórico que transporta o
cantor e compositor Roberto Carlos, no desfile da Beija-Flor de Nilópolis, em
2011.
Paradoxo:
Amor é fogo que arde sem se ver; / é ferida que dói e não se sente; / é um contentamento descontente; / é dor que desatina sem doer. (Camões)
Jogo verbal:
O todo sem a parte não é todo; / a parte sem o todo não é parte; / mas se a parte o faz todo, sendo parte, / não se diga que é parte sendo todo. (Gregório de Matos)
Gosto dos poetas barrocos pelo soneto,
seguindo a tradição renascentista.
Principais
autores do barroco brasileiro
POESIA
Gregório
de Matos
representa a vértice cultista do nosso Barroco;
Era conhecido como
“Boca do Inferno” ·
Era conhecido como
“Boca do Inferno” ·
CARACTERÍSTICAS DE GREGORIO DE
MATOS
Obra poética vasta
Desigual
Muitas vezes, de duvidosa autoria.
Três matizes básicas em sua produção:
Poesia religiosa
Poesia amorosa
Poesia satírica
Obra poética vasta
Desigual
Muitas vezes, de duvidosa autoria.
Três matizes básicas em sua produção:
Poesia religiosa
Poesia amorosa
Poesia satírica
(Gregório
de Matos Guerra nasceu em Salvador, 7 de abril de 1623 ou 1633 — Recife, 26 de
novembro de 1696), alcunhado de Boca do Inferno, foi um advogado e poeta
brasileiro da época colonial.
É
considerado o maior poeta barroco do Brasil e um dos maiores poetas da Língua.
Foram
seus pais Gregório de Matos, fidalgo da série dos Escudeiros, do Minho,
Portugal, e Maria da Guerra, respeitável matrona. Estudou Humanidades no
Colégio dos Jesuítas e depois se transferiu para Coimbra, onde se formou em
Direito. Sua tese de doutoramento, toda ela escrita em latim, encontra-se na
Biblioteca Nacional. Exerceu em Portugal os cargos de curador de órfãos e de
juiz criminal e lá escreveu o poema satírico Marinícolas. Desgostoso, não se
adaptou à vida na metrópole, regressando ao Brasil aos 47 anos de idade.
Na Bahia, recebeu do primeiro arcebispo, D. Gaspar Barata, os cargos de vigário-geral (só com ordens menores) e de tesoureiro-mor, mas foi deposto por não querer completar as ordens eclesiásticas. Apaixonou-se pela viúva Maria de Povos, com quem passou a viver, com prodigalidade, até ficar reduzido à miséria. Passou a viver existência boêmia, aborrecido do mundo e de todos, e a todos satirizando com mordacidade.
O governador D. João de Alencastre, que primeiro queria protegê-lo, teve afinal de mandá-lo degredado para Angola, a fim de afastá-lo da vingança de um sobrinho de seu antecessor, Antônio Luís da Câmara Coutinho, por causa das sátiras que sofrera o tio. Chegou a partir para o desterro, e advogava em Luanda, mas pôde voltar ao Brasil para prestar algum serviço ao Governador. Estabelecendo-se em Pernambuco, ali conseguiu fazer-se mais querido do que na Bahia, até que faleceu, reconciliado como bom cristão, em 1696, aos 73 anos de idade.
Como poeta de inesgotável fonte satírica não poupava ao governo, à falsa nobreza da terra e nem mesmo ao clero. Não lhe escaparam os padres corruptos, os reinóis e degredados, os mulatos e emboabas, os "caramurus", os arrivistas e novos-ricos, toda uma burguesia improvisada e inautêntica, exploradora da colônia. Perigoso e mordaz apelidaram-no de "O Boca do Inferno".
Na Bahia, recebeu do primeiro arcebispo, D. Gaspar Barata, os cargos de vigário-geral (só com ordens menores) e de tesoureiro-mor, mas foi deposto por não querer completar as ordens eclesiásticas. Apaixonou-se pela viúva Maria de Povos, com quem passou a viver, com prodigalidade, até ficar reduzido à miséria. Passou a viver existência boêmia, aborrecido do mundo e de todos, e a todos satirizando com mordacidade.
O governador D. João de Alencastre, que primeiro queria protegê-lo, teve afinal de mandá-lo degredado para Angola, a fim de afastá-lo da vingança de um sobrinho de seu antecessor, Antônio Luís da Câmara Coutinho, por causa das sátiras que sofrera o tio. Chegou a partir para o desterro, e advogava em Luanda, mas pôde voltar ao Brasil para prestar algum serviço ao Governador. Estabelecendo-se em Pernambuco, ali conseguiu fazer-se mais querido do que na Bahia, até que faleceu, reconciliado como bom cristão, em 1696, aos 73 anos de idade.
Como poeta de inesgotável fonte satírica não poupava ao governo, à falsa nobreza da terra e nem mesmo ao clero. Não lhe escaparam os padres corruptos, os reinóis e degredados, os mulatos e emboabas, os "caramurus", os arrivistas e novos-ricos, toda uma burguesia improvisada e inautêntica, exploradora da colônia. Perigoso e mordaz apelidaram-no de "O Boca do Inferno".
Foi o
primeiro poeta a cantar o elemento brasileiro, o tipo local, produto do meio
geográfico e social. Influenciado pelos mestres espanhóis da Época de Ouro
Góngora, Quevedo, Gracián, Calderón sua poesia é a maior expressão do Barroco
literário brasileiro, no lirismo. Sua obra compreende: poesia lírica, sacra,
satírica e erótica. Ao seu tempo a imprensa estava oficialmente proibida. Suas
poesias corriam em manuscritos, de mão em mão, e o Governador da Bahia D. João
de Alencastre, que tanto admirava "as valentias desta musa", coligia
os versos de Gregório e os fazia transcrever em livros especiais. Ficaram
também cópias feitas por admiradores, como Manuel Pereira Rabelo, biógrafo do poeta.
Por isso é temerário afirmar que toda a obra a ele atribuída haja sido
realmente de sua autoria. Entre os melhores códices e os mais completos,
destacam-se o que se encontra na Biblioteca Nacional e o de Varnhagen no
Palácio Itamarati.
Sua
obra foi editada na Coleção Afrânio Peixoto (1a fase), da Academia Brasileira
de Letras, em seis volumes, assim distribuída: I Sacra (1923); II Lírica
(1923); Graciosa (1930); IV-V Satírica (1930); VI Última (1933). Na Biblioteca
Municipal de São Paulo há uma cópia datilografada dos versos pornográficos de
Gregório de Matos, com o título Satyras Sotádicas de Gregório de Matos.
Fonte:
Academia Brasileira de Letras em
O
apelido "boca do
inferno" foi dado a Gregório, por sua ousadia em criticar
a Igreja Católica, muitas vezes ofendendo padres e freiras.
Criticava
também a cidade da Bahia, como nesse poema:
A cada canto um grande conselheiro.
que nos quer governar cabana, e vinha,
não sabem governar sua cozinha,
e podem governar o mundo inteiro.
Em cada porta um frequentado olheiro,
que a vida do vizinho, e da vizinha
pesquisa, escuta, espreita, e esquadrinha,
para a levar à Praça, e ao Terreiro.
Muitos mulatos desavergonhados,
trazidos pelos pés os homens nobres,
posta nas palmas toda a picardia.
Estupendas usuras nos mercados,
todos, os que não furtam, muito pobres,
e eis aqui a cidade da Bahia.
A poesia de Gregório de Matos
Para
muitos historiadores, ele é o iniciador da literatura brasileira. Mas é
interessante observar ar que permaneceu inédito até meados do século XIX. Sua
produção poética sobreviveu, até então, em livros manuscritos, colecionada por
admiradores. As duas tentativas de publicação completa - por sinal, muito
insatisfatórias - ocorreram já no nosso século XX: a edição da Academia
Brasileira de Letras, em seis volumes (1923-1933), e a edição de James Amado,
em sete volumes (1968).
Gregório recebeu influências tanto do Cultismo de Góngora quanto do Conceptismo de Quevedo. Seu espírito profundamente barroco pode ser percebido na contraditória diversidade dos temas que desenvolveu em sua obra:
a. poesia sacra (temática religiosa)
b. lírica amorosa
c. poesia satírica
d. poesia burlesca
I. Poesia sacra
Como autor barroco, não poderia faltar à poesia, religiosa em sua obra. Essa temática abrange um amplo conjunto, desde os poemas circunstanciais em comemoração a festas de santos até os poemas de contrição e de reflexão moral.
Gregório recebeu influências tanto do Cultismo de Góngora quanto do Conceptismo de Quevedo. Seu espírito profundamente barroco pode ser percebido na contraditória diversidade dos temas que desenvolveu em sua obra:
a. poesia sacra (temática religiosa)
b. lírica amorosa
c. poesia satírica
d. poesia burlesca
I. Poesia sacra
Como autor barroco, não poderia faltar à poesia, religiosa em sua obra. Essa temática abrange um amplo conjunto, desde os poemas circunstanciais em comemoração a festas de santos até os poemas de contrição e de reflexão moral.
Poesia religiosa
soneto
Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado,
Da vossa piedade me despido,
Porque quanto mais tenho delinquido,
Vós tenho a perdoar mais empenhado.
soneto
Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado,
Da vossa piedade me despido,
Porque quanto mais tenho delinquido,
Vós tenho a perdoar mais empenhado.
Se
basta a vos irar tanto um pecado,
A abrandar-vos sobeja um só gemido,
Que a mesma culpa, que vos há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado.
A abrandar-vos sobeja um só gemido,
Que a mesma culpa, que vos há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado.
Se uma
ovelha perdida, e já cobrada
Gloria tal, e prazer tão repentino
vos deu, como afirmais na Sacra História:
Gloria tal, e prazer tão repentino
vos deu, como afirmais na Sacra História:
Eu sou,
Senhor, a ovelha desgarrada
Cobrai-a, e não queirais, Pastor divino,
Perder na vossa ovelha a vossa glória
Cobrai-a, e não queirais, Pastor divino,
Perder na vossa ovelha a vossa glória
Vocabulário
despido: despeço forma regular de despedir-se.
delinquir: pecar, cometer delito.
sobejar: ser mais que suficiente.
cobrada: recobrada, recuperada
Esse soneto de contrição é um dos mais conhecidos poemas de Gregório e segue o modelo conceptista de Quevedo. Nas questões abaixo procuraremos acompanhar os meandros do raciocínio engenhoso de um pecador que advoga sua causa, procurando convencer a Deus de que merece o seu perdão.
poesia lírico amorosa
A lírica amorosa na obra de Gregório de Matos abrange um amplo leque temático. Às vezes é a mais pura idealização do amor:
“Quem a primeira vez chegou a ver-vos,
Nise, e logo se pôs a contemplar-vos,
Bem merece morrer por conversar-vos
E não poder viver sem merecer-vos”.
despido: despeço forma regular de despedir-se.
delinquir: pecar, cometer delito.
sobejar: ser mais que suficiente.
cobrada: recobrada, recuperada
Esse soneto de contrição é um dos mais conhecidos poemas de Gregório e segue o modelo conceptista de Quevedo. Nas questões abaixo procuraremos acompanhar os meandros do raciocínio engenhoso de um pecador que advoga sua causa, procurando convencer a Deus de que merece o seu perdão.
poesia lírico amorosa
A lírica amorosa na obra de Gregório de Matos abrange um amplo leque temático. Às vezes é a mais pura idealização do amor:
“Quem a primeira vez chegou a ver-vos,
Nise, e logo se pôs a contemplar-vos,
Bem merece morrer por conversar-vos
E não poder viver sem merecer-vos”.
Outras, uma requintada exploração da psicologia amorosa, como, por exemplo, na expressão da timidez do amante, temeroso do desprezo da amada:
“Largo em sentir, em respirar sucinto,
Peno, e calo, tão fino, e tão atento,
Que fazendo disfarce do tormento,
Mostro que o não padeço, e sei que o sinto”.
Chega também, frequentemente, a um realismo irônico, quase cínico, como nos seguintes versos em que busca definir o amor:
“Isto, que o Amor se chama,
este, que vidas enterra,
este, que alvedrios prostra,
este, que em palácios entra:
[.......................................]
este, que o ouro despreza,
faz liberal o avarento,
é assunto dos poetas:
[.......................................]
Arre lá com tal amor!
isto é amor? é quimera,
que faz de um homem prudente
converter-se logo em besta”.
Soneto “Ângela”
Anjo no nome, Angélica na cara.
Isso é ser flor, e Anjo juntamente,
Ser Angélica flor, e Anjo florente,
em quem, senão em vós se uniformara?
Quem
veria uma flor, que a não cortara
De verde pé, de rama florescente?
E quem um Anjo vira tão luzente,
Que por seu Deus, o não idolatrara?
De verde pé, de rama florescente?
E quem um Anjo vira tão luzente,
Que por seu Deus, o não idolatrara?
Se como
Anjo sois dos meus altares,
Fôreis o meu custódio, e minha guarda,
Livrara eu de diabólicos azares.
Fôreis o meu custódio, e minha guarda,
Livrara eu de diabólicos azares.
Mas
vejo, que tão bela, e tão galharda,
Posto que os Anjos nunca dão pesares,
Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda.
Vocabulário
florente: brilhante
por seu Deus: como seu Deus.
custódio: aquele que guarda, o anjo da guarda.
galharda: elegante, gentil
Observe que o nome da amada sugere as duas imagens em torno das quais se organiza toda a expressão poética.
Poesia satírica
O “Boca do Inferno” não perdoava ninguém: ricos e pobres, negros, brancos e mulatos, padres, freiras, autoridades civis e religiosas, amigos e inimigos, todos, enfim, eram objeto de sua “lira maldizente”.
O governador Câmara Coutinho, por exemplo, foi assim retratado:
“Nariz de embono
com tal sacada,
que entra na escada
duas horas primeiro
que seu dono.”
Contudo, o melhor de sua sátira não é esse tipo de zombaria, engraçada e maldosa, mas a crítica de cunho geral aos vícios da sociedade. Sua vasta galeria de tipos humanos contribui para construir sua maior e principal personagem - a cidade da Bahia:
“Senhora Dona Bahia,
nobre e opulenta cidade,
madrasta dos naturais,
e dos estrangeiros madre.”
A cidade é assim descrita num poema:
“Terra que não aparece
neste mapa universal
com outra; ou são ruins todas,
ou ela somente é má.”
Mas nem sempre o poeta é rancoroso com sua cidade. No famoso soneto “Triste Bahia”, já musicado por Caetano Veloso, Gregório identifica-se com ela, ao comparar a situação de decadência em que ambos vivem. O poema abandona o tom de zombaria das sátiras para tornar-se um quase lamento:
“Triste Bahia! ó quão dessemelhante
Estás e estou do nosso antigo estado!
Pobre te vejo a ti, tu a mim empenhado,
Rica te vi eu já, tu a mim abundante.”
Depreende-se desse texto que as sátiras de Gregório de Matos desagradavam a muita gente. Por isso ele defende seu direito de escrevê-las.
Aos vícios
Eu sou aquele, que os passados anos
cantei na minha lira maldizente
torpezas do Brasil, vícios e enganos.
[.......................................................]
De que pode servir, calar, quem cala,
Nunca se há de falar, o que se sente?
Sempre se há de sentir, o que se fala?
Qual homem pode haver tão paciente,
Que vendo o triste estado da Bahia,
Não chore, não suspire, e não lamente?
[..........................................................]
Se souberas falar, também falaras,
Também satirizaras, se souberas,
E se foras Poeta, poetizaras.
A ignorância dos homens destas eras
Sisudos faz ser uns, outros prudentes,
Que a mudez canoniza bestas feras.
Há bons, por não poder ser insolente,
Outros há comedidos de medrosos,
Não mordem outros não, por não ter dentes.
Quantos há que os telhados têm vidrosos,
E deixam de atirar sua pedrada
De sua mesma telha receosos.
Uma só natureza nos foi dada:
Não criou Deus os naturais diversos,
Um só Adão formou, e esse de nada.
Todos somos ruins, todos perversos,
Só nos distingue o vício, e a virtude,
De que uns são comensais outros adversos.
Quem maior a tiver, do que eu ter pude,
Esse só me censure, esse me note,
calem-se os mais, chitom, e haja saúde.
Vocabulário
canonizar: considerar santo, incluir no rol dos santos;
quem maior a tiver: quem tiver virtude maior;
chitom: silêncio (do francês “chut donc”)
Posto que os Anjos nunca dão pesares,
Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda.
Vocabulário
florente: brilhante
por seu Deus: como seu Deus.
custódio: aquele que guarda, o anjo da guarda.
galharda: elegante, gentil
Observe que o nome da amada sugere as duas imagens em torno das quais se organiza toda a expressão poética.
Poesia satírica
O “Boca do Inferno” não perdoava ninguém: ricos e pobres, negros, brancos e mulatos, padres, freiras, autoridades civis e religiosas, amigos e inimigos, todos, enfim, eram objeto de sua “lira maldizente”.
O governador Câmara Coutinho, por exemplo, foi assim retratado:
“Nariz de embono
com tal sacada,
que entra na escada
duas horas primeiro
que seu dono.”
Contudo, o melhor de sua sátira não é esse tipo de zombaria, engraçada e maldosa, mas a crítica de cunho geral aos vícios da sociedade. Sua vasta galeria de tipos humanos contribui para construir sua maior e principal personagem - a cidade da Bahia:
“Senhora Dona Bahia,
nobre e opulenta cidade,
madrasta dos naturais,
e dos estrangeiros madre.”
A cidade é assim descrita num poema:
“Terra que não aparece
neste mapa universal
com outra; ou são ruins todas,
ou ela somente é má.”
Mas nem sempre o poeta é rancoroso com sua cidade. No famoso soneto “Triste Bahia”, já musicado por Caetano Veloso, Gregório identifica-se com ela, ao comparar a situação de decadência em que ambos vivem. O poema abandona o tom de zombaria das sátiras para tornar-se um quase lamento:
“Triste Bahia! ó quão dessemelhante
Estás e estou do nosso antigo estado!
Pobre te vejo a ti, tu a mim empenhado,
Rica te vi eu já, tu a mim abundante.”
Depreende-se desse texto que as sátiras de Gregório de Matos desagradavam a muita gente. Por isso ele defende seu direito de escrevê-las.
Aos vícios
Eu sou aquele, que os passados anos
cantei na minha lira maldizente
torpezas do Brasil, vícios e enganos.
[.......................................................]
De que pode servir, calar, quem cala,
Nunca se há de falar, o que se sente?
Sempre se há de sentir, o que se fala?
Qual homem pode haver tão paciente,
Que vendo o triste estado da Bahia,
Não chore, não suspire, e não lamente?
[..........................................................]
Se souberas falar, também falaras,
Também satirizaras, se souberas,
E se foras Poeta, poetizaras.
A ignorância dos homens destas eras
Sisudos faz ser uns, outros prudentes,
Que a mudez canoniza bestas feras.
Há bons, por não poder ser insolente,
Outros há comedidos de medrosos,
Não mordem outros não, por não ter dentes.
Quantos há que os telhados têm vidrosos,
E deixam de atirar sua pedrada
De sua mesma telha receosos.
Uma só natureza nos foi dada:
Não criou Deus os naturais diversos,
Um só Adão formou, e esse de nada.
Todos somos ruins, todos perversos,
Só nos distingue o vício, e a virtude,
De que uns são comensais outros adversos.
Quem maior a tiver, do que eu ter pude,
Esse só me censure, esse me note,
calem-se os mais, chitom, e haja saúde.
Vocabulário
canonizar: considerar santo, incluir no rol dos santos;
quem maior a tiver: quem tiver virtude maior;
chitom: silêncio (do francês “chut donc”)
Poesia
burlesca
É a poesia mais circunstancial de Gregório de Matos. De modo sempre galhofeiro, o poeta registra em versos sempre pequenos acontecimentos da vida cotidiana da cidade e dos engenhos. Segundo James amado, a poesia burlesca é a “crônica do viver baiano seiscentista”.
A maior parte foi escrita na última fase da vida do poeta, período de decadência pessoal e profissional. O doutor deixara de advogar e perambulava pelos engenhos do Recôncavo, levando sua viola de cabaça, frequentando festas de amigos e namorando as mulatas, muitas delas prostitutas, com tom brincalhão podem frequentemente tornar-se obscenos.
É a poesia mais circunstancial de Gregório de Matos. De modo sempre galhofeiro, o poeta registra em versos sempre pequenos acontecimentos da vida cotidiana da cidade e dos engenhos. Segundo James amado, a poesia burlesca é a “crônica do viver baiano seiscentista”.
A maior parte foi escrita na última fase da vida do poeta, período de decadência pessoal e profissional. O doutor deixara de advogar e perambulava pelos engenhos do Recôncavo, levando sua viola de cabaça, frequentando festas de amigos e namorando as mulatas, muitas delas prostitutas, com tom brincalhão podem frequentemente tornar-se obscenos.
“Daí, o
‘populismo’ chulo que irrompe às vezes e, longe de significar uma atitude
aristocrática, nada mais é que válvula de escape para velhas obsessões sexuais
ou arma para ferir os poderosos invejados” (Alfredo Bosi)
Texto:
Décimas
Quita, como vos achais
com esta troca tão rica?
eu vos troco por Anica,
vós por Nico me deixais:
vós de mim não vos queixais,
eu, Quita, de vós me queixo,
e pondo a cousa em seu eixo,
a mim com razão me tem,
pois me deixais por ninguém,
e eu por Arnica vos deixo.
Vós por um Dom Patarata
trocais um Doutor em Leis,
e eu troco, como sabeis,
uma por outra Mulata:
vós fostes comigo ingrata
com a grosseira ingratidão,
eu não fui ingrato não,
e quem troca odre por odre,
um deles há de ser podre,
e eu sou na troca odre são.
Eu com Anica querida
me remexo como posso,
vós co Patarata vosso
estarei bem remexida:
nesta desigual partida
leve o diabo o enganado,
porque eu acho no trocado,
que me vim a melhorar
mas na Moça por soldar,
que vós no Moço soldado
Se bem vos não vai na troca
pela antiga benquerença,
que farei logo a destroca:
porém se Amor vos provoca
a dar-me outros novos zelos,
hemos de lançar os pêlos
ao ar por seguridade,
e eu sei, que a vossa amizade
há de custar-me os cabelos.
Vocabulário
Patarata: ostentação ridícula, patacoada, mentira jactanciosa, pedante;
soldar: pagar (Anica é uma prostituta)
avença: (homem de boa avença) - fácil de contentar
hemos: havemos
lançar os pêlos ao ar: desnudar-se.
Soneto bem conhecido de Gregório de Matos
A cada canto um grande conselheiro
Que nos quer governar cabana e vinha,
Não sabem governar sua cozinha,
E podem governar o mundo inteiro.
Em cada porta um frequentado olheiro,
Que a vida do vizinho, e da vizinha,
Pesquisa, escuta, espreita, e esquadrinha
Para a levar à Praça, e ao Terreiro.
Muitos mulatos desavergonhados,
Trazidos pelos pés os homens nobres,
Posta nas palmas toda a picardia.
Estupendas usuras nos mercados,
Todos, os que não furtam, muito pobres,
e eis aqui a cidade da Bahia
Texto:
Décimas
Quita, como vos achais
com esta troca tão rica?
eu vos troco por Anica,
vós por Nico me deixais:
vós de mim não vos queixais,
eu, Quita, de vós me queixo,
e pondo a cousa em seu eixo,
a mim com razão me tem,
pois me deixais por ninguém,
e eu por Arnica vos deixo.
Vós por um Dom Patarata
trocais um Doutor em Leis,
e eu troco, como sabeis,
uma por outra Mulata:
vós fostes comigo ingrata
com a grosseira ingratidão,
eu não fui ingrato não,
e quem troca odre por odre,
um deles há de ser podre,
e eu sou na troca odre são.
Eu com Anica querida
me remexo como posso,
vós co Patarata vosso
estarei bem remexida:
nesta desigual partida
leve o diabo o enganado,
porque eu acho no trocado,
que me vim a melhorar
mas na Moça por soldar,
que vós no Moço soldado
Se bem vos não vai na troca
pela antiga benquerença,
que farei logo a destroca:
porém se Amor vos provoca
a dar-me outros novos zelos,
hemos de lançar os pêlos
ao ar por seguridade,
e eu sei, que a vossa amizade
há de custar-me os cabelos.
Vocabulário
Patarata: ostentação ridícula, patacoada, mentira jactanciosa, pedante;
soldar: pagar (Anica é uma prostituta)
avença: (homem de boa avença) - fácil de contentar
hemos: havemos
lançar os pêlos ao ar: desnudar-se.
Soneto bem conhecido de Gregório de Matos
A cada canto um grande conselheiro
Que nos quer governar cabana e vinha,
Não sabem governar sua cozinha,
E podem governar o mundo inteiro.
Em cada porta um frequentado olheiro,
Que a vida do vizinho, e da vizinha,
Pesquisa, escuta, espreita, e esquadrinha
Para a levar à Praça, e ao Terreiro.
Muitos mulatos desavergonhados,
Trazidos pelos pés os homens nobres,
Posta nas palmas toda a picardia.
Estupendas usuras nos mercados,
Todos, os que não furtam, muito pobres,
e eis aqui a cidade da Bahia
Fonte: Reflexão de Hélio Consolaro
PROSA
Padre
Vieira, representa
a vértice conceptista do nosso Barroco.
Orador sacro fascinado pelos dramas humanos, mestre das palavras, profeta enlouquecido, inimigo da Inquisição, defensor dos judeus e dos escravos, combatente religioso, indivíduo ao mesmo tempo místico e realista, o padre Antônio Vieira representa as contradições, os extremos e os excessos do espírito barroco. Espírito que, como nenhum outro escritor do século XVII, ele sintetiza genialmente.
Obras principais: Os sermões (1679-1748); História do Futuro (1854).
Orador sacro fascinado pelos dramas humanos, mestre das palavras, profeta enlouquecido, inimigo da Inquisição, defensor dos judeus e dos escravos, combatente religioso, indivíduo ao mesmo tempo místico e realista, o padre Antônio Vieira representa as contradições, os extremos e os excessos do espírito barroco. Espírito que, como nenhum outro escritor do século XVII, ele sintetiza genialmente.
Obras principais: Os sermões (1679-1748); História do Futuro (1854).
Padre Antonio Vieira
Vieira
em pastel de Portinari.
Antonio
Vieira ou Antônio Vieira (Lisboa, 6 de fevereiro de 1608 — Bahia, 17 de junho
de 1697) foi um religioso, escritor e orador português da Companhia de Jesus.
Um dos mais influentes personagens do século XVII em termos de política,
destacou-se como missionário em terras brasileiras. Nesta qualidade, defendeu
infatigavelmente os direitos humanos dos povos indígenas combatendo a sua
exploração e escravização. Era por eles chamado de "Paiaçu" (Grande
Padre/Pai, em tupi-guarani).
António
Vieira defendeu também os judeus, a abolição da distinção entre cristãos-novos
(judeus convertidos, perseguidos à época pela Inquisição) e cristãos-velhos (os
católicos tradicionais), e a abolição da escravatura. Criticou ainda severamente
os sacerdotes da sua época e a própria Inquisição.
Na
literatura, seus sermões possuem considerável importância no barroco brasileiro
e as universidades frequentemente exigem sua leitura.
Os
Sermões de Vieira
Os
sermões, notável conjunto de obras-primas da oratória ocidental, constituem um
mundo rico e contraditório, a revelar uma inteligência voltada para as coisas
sacras e, simultaneamente, para a vida social portuguesa e brasileira de então.
Neles encontramos uma grande crônica da história imediata, (Vieira jamais se absteve das grandes questões cotidianas e políticas do seu século), mas nos deparamos também com uma atormentada ânsia da eternidade, que só a religião parece atender.
Acompanhe o engenho e o brilho desse texto:
Duas coisas a Igreja prega hoje a todos os mortais: ambas grandes, ambas tristes, ambas temerosas, ambas certas. Mas uma de tal maneira certa, e evidente, que não é necessário entendimento para a crer; outra de tal maneira certa, e dificultosa, que nenhum entendimento basta para a alcançar. Uma é presente, outra futura. (...) E que duas coisas enigmáticas são estas? Pulvis es et in pulverem reverteris. Sois pó e em pó vos haveis de converter. Sois pó é a presente. Em pó vos haveis de converter é a futura. (...)
Ora suposto que já somos pó e não pode deixar de ser, pois Deus o disse; perguntar-me-eis, e com muita razão, em que nos distinguimos os vivos dos mortos? Os mortos são pó, nós também somos pó. Distinguimo-nos, os vivos dos mortos, assim como se distingue o pó do pó. Os vivos são pó levantado, os mortos são pó caído; os vivos são pó que anda, os mortos são pó que jaz.
A mim não me faz medo o que há de ser o pó. Eu não temo na morte a morte, temo a imortalidade. Eu não temo hoje o dia de Cinza, temo hoje o dia da Páscoa, porque sei que hei de ressuscitar, porque sei que hei de viver para sempre, porque sei que me espera uma eternidade ou no Céu ou no Inferno. (...) Este homem, este corpo, estes ossos, esta carne, esta pele, estes olhos, este eu, e não outro, é o que há de morrer? Sim. Mas reviver e ressuscitar à imortalidade. Mortal até ao pó, mas depois do pó, imortal.
Neles encontramos uma grande crônica da história imediata, (Vieira jamais se absteve das grandes questões cotidianas e políticas do seu século), mas nos deparamos também com uma atormentada ânsia da eternidade, que só a religião parece atender.
Acompanhe o engenho e o brilho desse texto:
Duas coisas a Igreja prega hoje a todos os mortais: ambas grandes, ambas tristes, ambas temerosas, ambas certas. Mas uma de tal maneira certa, e evidente, que não é necessário entendimento para a crer; outra de tal maneira certa, e dificultosa, que nenhum entendimento basta para a alcançar. Uma é presente, outra futura. (...) E que duas coisas enigmáticas são estas? Pulvis es et in pulverem reverteris. Sois pó e em pó vos haveis de converter. Sois pó é a presente. Em pó vos haveis de converter é a futura. (...)
Ora suposto que já somos pó e não pode deixar de ser, pois Deus o disse; perguntar-me-eis, e com muita razão, em que nos distinguimos os vivos dos mortos? Os mortos são pó, nós também somos pó. Distinguimo-nos, os vivos dos mortos, assim como se distingue o pó do pó. Os vivos são pó levantado, os mortos são pó caído; os vivos são pó que anda, os mortos são pó que jaz.
A mim não me faz medo o que há de ser o pó. Eu não temo na morte a morte, temo a imortalidade. Eu não temo hoje o dia de Cinza, temo hoje o dia da Páscoa, porque sei que hei de ressuscitar, porque sei que hei de viver para sempre, porque sei que me espera uma eternidade ou no Céu ou no Inferno. (...) Este homem, este corpo, estes ossos, esta carne, esta pele, estes olhos, este eu, e não outro, é o que há de morrer? Sim. Mas reviver e ressuscitar à imortalidade. Mortal até ao pó, mas depois do pó, imortal.
Quando
considero na vida que se usa, acho que nem vivemos como mortais, nem vivemos
como imortais. Não vivemos como mortais, porque tratamos das coisas desta vida,
como se esta vida fora eterna. Não vivemos como imortais, porque nos esquecemos
tanto da vida eterna, como se não houvera tal vida.
Ora senhores, já que somos cristãos, já que sabemos que havemos de morrer e que somos imortais, saibamos usar da morte e da imortalidade. Tratemos desta vida como mortais, e da outra como imortais. Pode haver loucura mais rematada, pode haver cegueira mais cega do que empregar-me todo na vida que há de acabar, e não tratar da vida que há de durar para sempre? Cansar-me, afligir-me, matar-me pelo que forçosamente hei de deixar, e do que hei de lograr ou perder para sempre, não fazer nenhum caso? Tantas diligências para esta vida, nenhuma diligência para a outra vida? Tanto medo, tanto receio da morte temporal, e da eterna nenhum temor? Mortos, mortos, desenganai estes vivos. Dizei-nos que pensamentos e que sentimentos foram os vossos, quando entrastes e saístes pelas portas da morte. A morte tem duas portas. Uma porta de vidro por onde se sai da vida; outra porta de diamante, por onde se entra à eternidade.
Ora senhores, já que somos cristãos, já que sabemos que havemos de morrer e que somos imortais, saibamos usar da morte e da imortalidade. Tratemos desta vida como mortais, e da outra como imortais. Pode haver loucura mais rematada, pode haver cegueira mais cega do que empregar-me todo na vida que há de acabar, e não tratar da vida que há de durar para sempre? Cansar-me, afligir-me, matar-me pelo que forçosamente hei de deixar, e do que hei de lograr ou perder para sempre, não fazer nenhum caso? Tantas diligências para esta vida, nenhuma diligência para a outra vida? Tanto medo, tanto receio da morte temporal, e da eterna nenhum temor? Mortos, mortos, desenganai estes vivos. Dizei-nos que pensamentos e que sentimentos foram os vossos, quando entrastes e saístes pelas portas da morte. A morte tem duas portas. Uma porta de vidro por onde se sai da vida; outra porta de diamante, por onde se entra à eternidade.
Sermão de
Quarta-feira de Cinzas, pregado em Roma, no ano de 1672.
Características:
Utiliza
continuamente passagens da Bíblia e todos os recursos da oratória jesuítica
para convencer os fiéis de sua mensagem, mesmo quando trata de temas
cotidianos.
Ataca os
vícios (corrupção, violência, arrogância etc.) e defende as virtudes cristãs
(religiosidade, caridade, modéstia, etc.).
Combate
os hereges, os indiferentes à religião e os católicos desleixados em relação à
Igreja.
Defende
abertamente os índios. Mantém-se ambíguo frente aos escravos negros: ora tenta
justificar a escravidão, ora condena veementemente seus malefícios éticos e
sociais.
Exalta os
valores que nortearam a construção do grande Império português. E julga (de
forma messiânica) que este Império deveria ser reconstruído no Brasil.
Propõe o
retorno dos cristãos novos (judeus) a territórios lusos como forma de Portugal
escapar da decadência na qual naufragara desde meados do século XVI.
Apresenta
uma linguagem de tendência conceptista, de notável elaboração, grande riqueza
de ideias e imagens espetaculares.
Por esses
e outros aspectos Fernando Pessoa o chamou de "Imperador da Língua
Portuguesa".
Sebastianismo
Representação
da batalha de Alcácer-Quibir, na qual desaparece Dom Sebastião.
A
perda da autonomia e o desaparecimento de D. Sebastião originam em Portugal o mito
do Sebastianismo (crença segundo a qual D. Sebastião voltaria e transformaria
Portugal no Quinto Império). O mais ilustre sebastianista foi sem dúvida o Pe. Antônio Vieira.
O
Sebastianismo foi um movimento místico-secular que ocorreu em Portugal na
segunda metade do século XVI como consequência da morte do rei D. Sebastião na
Batalha de Alcácer-Quibir, em 1578. Por falta de herdeiros, o trono português
terminou nas mãos do rei Filipe II da rama espanhola da casa de Habsburgo.
Basicamente é um messianismo adaptado às condições lusas e depois nordestinas.
Traduz uma inconformidade com a situação política vigente e uma expectativa de
salvação, ainda que miraculosa, através da ressurreição de um morto ilustre.
Apesar do corpo do rei ter sido removido para Belém, o povo nunca aceitou o fato, divulgando a lenda de que o rei encontrava-se ainda vivo, apenas esperando o momento certo para volver ao trono e afastar o domínio estrangeiro.
Apesar do corpo do rei ter sido removido para Belém, o povo nunca aceitou o fato, divulgando a lenda de que o rei encontrava-se ainda vivo, apenas esperando o momento certo para volver ao trono e afastar o domínio estrangeiro.
Seu
mais popular divulgador foi o poeta Bandarra, que produziu incansáveis versos
clamando pelo retorno do Desejado (como era chamado D. Sebastião). Explorando a
crendice popular, vários oportunistas se apresentavam como o rei oculto na
tentativa de obter benefícios pessoais. O maior intelectual a aderir ao
movimento foi o Padre Vieira.
Finalmente
em 1640, pelo golpe restauracionista liderado pelos Braganças, no Porto,
Portugal voltou a ser independente e o movimento começou a arrefecer no
interior do Nordeste, também ser motivo da crença na chegada de um "rei
bom".
O poeta
português Fernando Pessoa, em seu livro "Mensagem", admite uma
postura sebastianista, em busca de um patriotismo perdido. O livro ainda foi
composto com muito do passado heroico de Portugal.
Para
saber mais:
Crença em messias português gerou três massacres no Nordeste
Antonio
Carlos Olivieri, Pedagogia & Comunicação
Homenagem aos 80 anos de Ariano Suassuna, que se completam a 16 de junho de 2007, a microssérie "Pedra do Reino" que estreou na Rede Globo no dia 12 de junho, nos remete a dois episódios históricos extraordinários, que não devem ficar subentendidos nas entrelinhas da trama do espetáculo televisivo.
O primeiro deles, diretamente ligado ao seriado, aconteceu entre 1835 e 1838, no sertão de Pernambuco, em região que atualmente pertence ao município de São José de Belmonte, a 479 quilômetros de Recife. Lá se erguem dois pináculos rochosos paralelos, com cerca de cinco metros de altura, incrustados de minérios que refletem a luz do Sol.
Sobre estes fatos, não só Suassuna escreveu essa obra-prima que é "O Romance da Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai e Volta". Além dele, Euclides da Cunha também faz menção ao fato em "Os Sertões", bem como José Lins do Rego dedicou um romance ao tema, intitulado "Pedra Bonita".
Dom Sebastião, o Desejado
Mas os fatos trágicos e sangrentos que aconteceram na Pedra Bonita, no século 19, estão ligados a outros, não menos trágicos e sangrentos, que ocorreram em Portugal e no Marrocos, no século 16. Estes deram origem a um fenômeno mitológico-religioso chamado sebastianismo, um messianismo lusitano, que também se arraigou no sertão nordestino desde a época da Colônia.
Grosso modo, messianismo é a crença na vinda de um messias, de um redentor, que vai redimir os homens de seus pecados e conduzi-los a um outro reino ou mundo, onde a felicidade prevalece. O messianismo sebastianista foi gerado a partir de diversas circunstâncias históricas.
Governado por dom João 3º, o rei que deu início à colonização do Brasil, Portugal corria o risco de ver seu trono parar nas mãos de um espanhol, caso o monarca não deixasse um sucessor ou herdeiro. O nascimento de um neto de dom João - dom Sebastião - em 1554 resolveu temporariamente o problema.
Ainda antes de nascer, dom Sebastião se tornou conhecido por "o Desejado", uma vez que personificava o desejo coletivo de independência portuguesa. Aos três anos foi aclamado rei de Portugal, embora o governo propriamente dito ficasse nas mãos de um regente, até que ele atingiu os 14 anos e subiu ao trono.
Ascenção aos céus e o Quinto Império.
Entre outros presentes que recebeu, então, ganhou de um poeta uma singela obra que lhe foi dedicada: nada menos que a maior epopeia da língua portuguesa, "Os Lusíadas", que Luís de Camões lhe ofertou. Mas nem tudo foi esplendor na vida de dom Sebastião. Profundamente religioso, animado pelas histórias heroicas de combate contra os muçulmanos, o jovem soberano resolveu conquistar o Marrocos para a cristandade.
Na batalha de Alcácer-Quibir, contra os mouros, em 1578, foi morto com a maioria das tropas lusitanas. Para os portugueses o trauma foi enorme, até porque, dois anos depois, o trono luso passaria às mãos do rei Felipe 2º da Espanha. A reação da nação lusitana aos fatos se deu no nível do imaginário e nasceu um mito.
Segundo a lenda, em meio ao caos da batalha no Marrocos, os céus se abriram e uma legião de anjos levou dom Sebastião para o lado de Deus, de onde ele haveria de retornar, como redentor do povo português. O Quinto Império - reinado mítico de dom Sebastião - se caracterizaria pela justiça e a fartura.
O monarca no Nordesde
Pois bem, esse mito foi trazido pelos colonizadores ao Nordeste do Brasil e também comoveu os habitantes da região, uma vez que, como Portugal, a colônia brasileira permaneceu sob domínio espanhol até 1640.
As manifestações coletivas do sebastianismo em solo brasileiro, porém, só aconteceriam no século 19, em Pernambuco e na Bahia. Foram os episódios do Rodeador, no atual município de Bonito (PE), em 1819, o Reino da Pedra Bonita, já mencionado no início, e a Guerra de Canudos, de 1897-98.
Todos eles são manifestações de religiosidade e de insatisfação social de populações carentes, e tiveram desfecho trágico, com a intervenção do governo para acabar - a bala - com os agrupamentos que se formaram em torno dos "profetas" sertanejos. Na impossibilidade de comentar cada um deles, relate-se o caso de Pedra Bonita.
Sebastianismo caboclo
Em 1836, o mameluco João Antônio dos Santos passou a pregar que dom Sebastião estava encantado na Pedra Bonita, de onde era necessário libertá-lo, para que ele implantasse um reino de justiça, prosperidade e liberdade no sertão. Supõe-se que Santos não acreditava muito no que dizia e se aproveitava da credulidade da população local.
No entanto, o "reino" de João Antônio incomodou os fazendeiros, que perdiam seus trabalhadores para a Pedra Bonita, e a Igreja, que via a manifestação como blasfêmia. João Antônio fugiu do local e "exilou-se" no Ceará. Mas manteve viva a chama do sebastianismo em Pedra Bonita, por meio de seu cunhado João Ferreira.
Ao contrário de seu antecessor, Ferreira era um fanático, além de maníaco sexual. Para se ter uma ideia, todas as noivas de sua comunidade tinham que dormir com ele na primeira noite antes de casar-se. Ferreira, ademais, já era um polígamo consumado, tendo se casado com sete mulheres.
O delírio místico do autointitulado rei João Ferreira teve seu ápice quando ele proclamou que a Pedra só se desencantaria quando lavada por sangue. Os sacrificados ressuscitariam poderosos e imortais. A noção de fanatismo é suficientemente conhecida em nossa era de homens-bomba. Fanáticos não hesitam em dar a vida por suas crenças.
Sangue e fogo
O pai de João Ferreira foi o primeiro a se suicidar. Uma das mulheres do líder foi degolada por ele mesmo. A Pedra foi, de fato, lavada com sangue, mas não se desencantou. Foi o que bastou para Pedro Antônio, um cunhado de Ferreira, declarar que a Pedra reclamava o sacrifício do próprio rei. João Ferreira foi brutalmente assassinado pelos seus seguidores e Pedro Antônio proclamou-se o novo rei.
Contudo, um vaqueiro que presenciara os primeiros sacrifícios denunciou a tragédia às autoridades e uma tropa de 30 homens, comandada pelo major Manuel Pereira da Silva, dirigiu-se ao local para dispersar os fanáticos. Houve resistência e 30 fanáticos morreram, inclusive Pedro Antônio. Era o fim do Reino da Pedra Bonita, em maio de 1838.
A crença em dom Sebastião, entretanto, sobreviveu e se manifestaria nas pregações de Antônio Conselheiro, cerca de 40 anos depois. Seitas messiânicas, embora não sebastianistas, estiveram presentes em outras épocas e regiões tanto do Brasil quando do mundo. É célebre o caso do missionário norte-americano Jim Jones que, em 1978, levou 900 seguidores seus ao suicídio, numa comunidade na Guiana Francesa.
Em 1993, nos Estados Unidos, David Koresh, que se intitulava a reencarnação de Jesus, promoveu um verdadeiro inferno no rancho de madeira, onde ficava a seita Branch Davidian. Seduzindo os seguidores com a filosofia de que deveriam morrer para depois ressuscitar das cinzas, derramou combustível no rancho e ateou fogo, matando 80 pessoas, incluindo 18 crianças.
Homenagem aos 80 anos de Ariano Suassuna, que se completam a 16 de junho de 2007, a microssérie "Pedra do Reino" que estreou na Rede Globo no dia 12 de junho, nos remete a dois episódios históricos extraordinários, que não devem ficar subentendidos nas entrelinhas da trama do espetáculo televisivo.
O primeiro deles, diretamente ligado ao seriado, aconteceu entre 1835 e 1838, no sertão de Pernambuco, em região que atualmente pertence ao município de São José de Belmonte, a 479 quilômetros de Recife. Lá se erguem dois pináculos rochosos paralelos, com cerca de cinco metros de altura, incrustados de minérios que refletem a luz do Sol.
Sobre estes fatos, não só Suassuna escreveu essa obra-prima que é "O Romance da Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai e Volta". Além dele, Euclides da Cunha também faz menção ao fato em "Os Sertões", bem como José Lins do Rego dedicou um romance ao tema, intitulado "Pedra Bonita".
Dom Sebastião, o Desejado
Mas os fatos trágicos e sangrentos que aconteceram na Pedra Bonita, no século 19, estão ligados a outros, não menos trágicos e sangrentos, que ocorreram em Portugal e no Marrocos, no século 16. Estes deram origem a um fenômeno mitológico-religioso chamado sebastianismo, um messianismo lusitano, que também se arraigou no sertão nordestino desde a época da Colônia.
Grosso modo, messianismo é a crença na vinda de um messias, de um redentor, que vai redimir os homens de seus pecados e conduzi-los a um outro reino ou mundo, onde a felicidade prevalece. O messianismo sebastianista foi gerado a partir de diversas circunstâncias históricas.
Governado por dom João 3º, o rei que deu início à colonização do Brasil, Portugal corria o risco de ver seu trono parar nas mãos de um espanhol, caso o monarca não deixasse um sucessor ou herdeiro. O nascimento de um neto de dom João - dom Sebastião - em 1554 resolveu temporariamente o problema.
Ainda antes de nascer, dom Sebastião se tornou conhecido por "o Desejado", uma vez que personificava o desejo coletivo de independência portuguesa. Aos três anos foi aclamado rei de Portugal, embora o governo propriamente dito ficasse nas mãos de um regente, até que ele atingiu os 14 anos e subiu ao trono.
Ascenção aos céus e o Quinto Império.
Entre outros presentes que recebeu, então, ganhou de um poeta uma singela obra que lhe foi dedicada: nada menos que a maior epopeia da língua portuguesa, "Os Lusíadas", que Luís de Camões lhe ofertou. Mas nem tudo foi esplendor na vida de dom Sebastião. Profundamente religioso, animado pelas histórias heroicas de combate contra os muçulmanos, o jovem soberano resolveu conquistar o Marrocos para a cristandade.
Na batalha de Alcácer-Quibir, contra os mouros, em 1578, foi morto com a maioria das tropas lusitanas. Para os portugueses o trauma foi enorme, até porque, dois anos depois, o trono luso passaria às mãos do rei Felipe 2º da Espanha. A reação da nação lusitana aos fatos se deu no nível do imaginário e nasceu um mito.
Segundo a lenda, em meio ao caos da batalha no Marrocos, os céus se abriram e uma legião de anjos levou dom Sebastião para o lado de Deus, de onde ele haveria de retornar, como redentor do povo português. O Quinto Império - reinado mítico de dom Sebastião - se caracterizaria pela justiça e a fartura.
O monarca no Nordesde
Pois bem, esse mito foi trazido pelos colonizadores ao Nordeste do Brasil e também comoveu os habitantes da região, uma vez que, como Portugal, a colônia brasileira permaneceu sob domínio espanhol até 1640.
As manifestações coletivas do sebastianismo em solo brasileiro, porém, só aconteceriam no século 19, em Pernambuco e na Bahia. Foram os episódios do Rodeador, no atual município de Bonito (PE), em 1819, o Reino da Pedra Bonita, já mencionado no início, e a Guerra de Canudos, de 1897-98.
Todos eles são manifestações de religiosidade e de insatisfação social de populações carentes, e tiveram desfecho trágico, com a intervenção do governo para acabar - a bala - com os agrupamentos que se formaram em torno dos "profetas" sertanejos. Na impossibilidade de comentar cada um deles, relate-se o caso de Pedra Bonita.
Sebastianismo caboclo
Em 1836, o mameluco João Antônio dos Santos passou a pregar que dom Sebastião estava encantado na Pedra Bonita, de onde era necessário libertá-lo, para que ele implantasse um reino de justiça, prosperidade e liberdade no sertão. Supõe-se que Santos não acreditava muito no que dizia e se aproveitava da credulidade da população local.
No entanto, o "reino" de João Antônio incomodou os fazendeiros, que perdiam seus trabalhadores para a Pedra Bonita, e a Igreja, que via a manifestação como blasfêmia. João Antônio fugiu do local e "exilou-se" no Ceará. Mas manteve viva a chama do sebastianismo em Pedra Bonita, por meio de seu cunhado João Ferreira.
Ao contrário de seu antecessor, Ferreira era um fanático, além de maníaco sexual. Para se ter uma ideia, todas as noivas de sua comunidade tinham que dormir com ele na primeira noite antes de casar-se. Ferreira, ademais, já era um polígamo consumado, tendo se casado com sete mulheres.
O delírio místico do autointitulado rei João Ferreira teve seu ápice quando ele proclamou que a Pedra só se desencantaria quando lavada por sangue. Os sacrificados ressuscitariam poderosos e imortais. A noção de fanatismo é suficientemente conhecida em nossa era de homens-bomba. Fanáticos não hesitam em dar a vida por suas crenças.
Sangue e fogo
O pai de João Ferreira foi o primeiro a se suicidar. Uma das mulheres do líder foi degolada por ele mesmo. A Pedra foi, de fato, lavada com sangue, mas não se desencantou. Foi o que bastou para Pedro Antônio, um cunhado de Ferreira, declarar que a Pedra reclamava o sacrifício do próprio rei. João Ferreira foi brutalmente assassinado pelos seus seguidores e Pedro Antônio proclamou-se o novo rei.
Contudo, um vaqueiro que presenciara os primeiros sacrifícios denunciou a tragédia às autoridades e uma tropa de 30 homens, comandada pelo major Manuel Pereira da Silva, dirigiu-se ao local para dispersar os fanáticos. Houve resistência e 30 fanáticos morreram, inclusive Pedro Antônio. Era o fim do Reino da Pedra Bonita, em maio de 1838.
A crença em dom Sebastião, entretanto, sobreviveu e se manifestaria nas pregações de Antônio Conselheiro, cerca de 40 anos depois. Seitas messiânicas, embora não sebastianistas, estiveram presentes em outras épocas e regiões tanto do Brasil quando do mundo. É célebre o caso do missionário norte-americano Jim Jones que, em 1978, levou 900 seguidores seus ao suicídio, numa comunidade na Guiana Francesa.
Em 1993, nos Estados Unidos, David Koresh, que se intitulava a reencarnação de Jesus, promoveu um verdadeiro inferno no rancho de madeira, onde ficava a seita Branch Davidian. Seduzindo os seguidores com a filosofia de que deveriam morrer para depois ressuscitar das cinzas, derramou combustível no rancho e ateou fogo, matando 80 pessoas, incluindo 18 crianças.
A POESIA BARROCA DE GREGÓRIO DE MATOS
SEMINÁRIO
José
Pereira da Silva (UERJ
e ABF)
Como não sou um literato nem tenho dedicado grande parte de minha vida aos
estudos literários, partirei do excelente trabalho de Domício Proença Filho, Estilos
de Época na Literatura, para desenvolver o tema que me coube neste
Seminário.
Pode-se afirmar que o estilo barroco se configurou nos moldes da Contrarreforma
e dos Concílios de Trento (século XVI), tentando “conciliar a novidade
renascentista com a tradição religiosa que vinha da Idade Média” (PROENÇA
FILHO, 1973: 139), pois foram principalmente esses dois acontecimentos –
continua –, que marcaram os princípios ideológicos do homem daquele tempo,
impondo-lhe “traços relevantes em pensamento, concepções sociais e políticas,
arte e, naturalmente, religião.” (p. 140).
Reformatado, o pensamento cristão medieval reaparece no Barroco: o equilíbrio
do homem medieval se transforma em conflito permanente, representado em jogo de
oposições e contrastes.
“E de imediato se depreende que o Homem barroco se debate num conflito oriundo
deste duelo entre espírito cristão e espírito secular, que leva a contrições
como esta atribuída a Gregório de Matos”, continua Domício, exemplificando com
o soneto abaixo:
“Pequei,
Senhor, mas não porque hei pecado
Da
vossa piedade me despida:
Porque
quanto mais tenho delinqüido,
Vos
tenho a perdoar mais empenhado.
Se
basta a vos irar tanto um pecado,
A
abrandar-vos sobeja um só gemido:
Que
a mesma culpa que vos há ofendido,
Vos
tem para o perdão lisonjeado.
Se
uma ovelha perdida e já cobrada
Glória
tal e prazer tão repentino
Vos
deu, como afirmais na Sacra História:
Eu
sou, Senhor, ovelha desgarrada;
Cobrai-me;
e não queirais, Pastor Divino,
Perder
na vossa ovelha a vossa glória.”
(TOPA,
1999: II, 37)
Na medida do possível, mostraremos poemas de Gregório de Matos que tragam
algumas das seguintes características do Barroco relacionadas por Domício
Proença Filho: 1 – O culto do contraste; 2 – Oposição do homem voltado para o
céu ao homem voltado para a terra; 3 – Preferência (dentro do espírito de
contrastes) pelos aspectos cruéis, dolorosos, sangrentos e repugnantes; 4 –
Pessimismo; 5 – Humanização do sobrenatural; 6 – Fusionismo; 7 – Intensidade; 8
– Acumulação de elementos; 9 – Impulso pessoal; 10 – Niilismo temático; 11 –
Tendência para a descrição e 12 – Culto da solidão.
1 – O culto do contraste
Segundo Ronaldes de Melo e Souza, em “As máscaras de Gregório de Mattos”
(SOUZA, 2000: 15), através do fingimento, o poeta está sempre em contraste,
inclusive consigo mesmo e com os princípios que defende:
Gregório de Mattos se comporta como persona ficta, ostentando várias
máscaras, fingindo diversas vozes, representando, enfim, a proliferação
indefinida de um ser que não cessa de ser outro. A heterogeneidade radical do
poeta se manifesta nas múltiplas vozes (religiosa, erótica, lírica, jocosa,
satírica, encomiástica), que presidem à gênese e ao desenvolvimento de sua obra
essencialmente dialógica e polifônica. Argumenta-se que o conceito operatório
do barroco, que é a dobra (le pli, Deleuze), constitui o fundamento histórico-cultural
da obra gregoriana, que poeticamente se desdobra em fuga incessante e
metamorfose contínua.
Assim, quase que antecipando Fernando Pessoa na criação de heterônimos [a
terminologia talvez não seja a mais adequada], afirmando que “o poeta se
despersonaliza para personificar outros eus”, Ronaldes de Melo e Souza
acrescenta, na página seguinte:
Adriano
Espínola levanta a hipótese de que o licenciado Rabello e o frei Lourenço
Ribeiro são máscaras biográficas de Gregório de Mattos.
Nestas duas criações alonímicas, uma que o exalta e outra que o verbera,
o riso de Gregório de Mattos atinge a culminância de uma bufoneria
transcendental. Perfeito fingidor, o poeta finge, não somente a sua obra, mas
também a sua vida pessoal, de persona convicta. E finge tão
completamente, que chega a fingir duas máscaras simétricas e opostas: uma
adjuvante e outra oponente. Esta mascarada biográfica representa dramaticamente
a polaridade barroca do sublime e do grotesco.
Não
apresentaremos exemplo da obra de Gregório de Matos neste ponto porque o
primeiro soneto transcrito é suficiente para ilustrar os referidos contrastes.
2 – Oposição do homem voltado para o céuao homem
voltado para a terra
Tratando de seu comportamento religioso, bem explícito nas peças de acusação e
de defesa encontradas no processo inquisitorial que sofrera, pode-se concluir
que
Provavelmente a causa dessas visões antagônicas reside na própria figura do
escritor, na ambigüidade, em termos de comportamento e crenças religiosas,
entre a pessoa empírica e a persona poética. Se a primeira é capaz de
falar “muitas coisas escandalosas”, como quer o acusador, ou de ser um “louco
jocoso”, como o considera seu defensor, a segunda se mostra capaz de fingir uma
devoção extrema, de um “legítimo e inteiro cristão velho”.
O ponto de união entre esses extremos se encontra no temperamento
burlesco, farsante, ora manifesto, ora latente, no tratamento literário dado
aos temas religiosos, como expressão mesma do comportamento ambíguo da pessoa
empírica jocosa e da persona poética devota do autor.
Daí o conflito permanente do poeta cindindo entre a consciência do pecado e a
necessidade da salvação, entre o desejo da transgressão e a solicitação do
perdão, entre certezas divinas e dúvidas terrenas,...
Eis um soneto que bem retrata este aspecto da obra gregoriana:
“Ofendi-vos,
meu Deus, é bem verdade,
É
verdade, Senhor, que hei delinqüido,
Delinqüido
vos tenho e ofendido,
Ofendido
vos tem minha maldade.
Maldade
que encaminha à vaidade,
Vaidade
que todo me há vencido.
Vencido
quero ver-me e arrependido,
Arrependido
a tanta enormidade.
Arrependido
estou de coração,
De
coração vos busco, dai-me os braços,
Abraços
que me rendem vossa luz.
Luz
que claro me mostra a salvação,
A
salvação pertendo em tais abraços,
Misericórdia,
amor, Jesus, Jesus.”
(TOPA, 1999: II, 39)
3 – Preferência (dentro do espírito de
contrastes)pelos aspectos cruéis, dolorosos, sangrentos e repugnantes
Mesmo um poema sacro adquire tonalidade satírica ao ser introduzido pela
didascália “Ao braço do menino Jesus da Sé quando
desapareceu do corpo”. O texto tipicamente gregoriano tem de ser lido como
intertexto e metatexto. (SOUZA, 2000: 17)
Eis
o soneto que escreveu “A Cristo Senhor Nosso crucificado, estando o Poeta na
última hora da sua vida”:
“Meu
Deus, que estais pendente em um madeiro,
Em
cuja Lei protesto de viver,
Em
cuja Santa Lei hei de morrer,
Animoso,
constante, firme e inteiro.
Neste
lance, por ser o derradeiro,
Pois
vejo a minha vida anoitecer,
É,
meu Jesus, a hora de se ver
A
brandura de um Pai, manso cordeiro.
Mui
grande é vosso amor e meu delito;
Porém
pode ter fim todo o pecar,
E
não o vosso amor, que é infinito.
Essa
razão me obriga a confiar
Que
por mais que pequei neste conflito,
Espero
em vosso amor de me salvar.”
(TOPA, 1999: II, 41)
4 – Pessimismo
Esse pessimismo nasce “do conflito entre o eu e o mundo”, levando o
poeta ao “bifrontismo do homem, santo e pecador”, conforme ensina Domício
Proença Filho, op. cit., p. 141.
Eis o que escreve o poeta “aos Missionários, em ocasião que corriam a Via
Sacra”, quando o arcebispo da Bahia dava exorbitantes direções à Missão,
juntamente com o exercício da Via Sacra:
“Via
de prefeição é a Sacra Via,
Via
do Céu, caminho da verdade;
Mas
ir ao Céu com tal publicidade
Mais
que à virtude o boto à hipocrisia.
O
ódio é d’alma infame companhia,
A
paz deixou-a Deus à Cristandade;
Mas
arrastar por força uma vontade,
Em
vez de caridade é tirania.
O
dar pregões no púlpito é indecência:
[“]Qué
de fulano?[“] e [“]Venha aqui sicrano![“],
Porque
pecado e pecador se veja;
É
próprio de um porteiro d’audiência;
E
se nisto mal digo ou mal me engano,
Eu
me sumeto à Santa Madre Igreja.”
(TOPA, 1999: II, 361)
5 – Humanização do sobrenatural
O fato mesmo de terem sido colocados em primeiro lugar os poemas sacros, no
códice organizado pelo licenciado Rabello, dá-lhe um pragmatismo imediato, para
salvar a obra, apresentando seu autor como um poeta religioso, isto é, com a
máscara sacral. (Cf. ESPÍNOLA, 2000: 112)
Um exemplo desta metamorfose, entre muitos encontráveis na arte poética de
Gregório de Matos, pode ser o soneto abaixo, pois “No sermão que pregou na
Madre de Deus Dom João Franco de Oliveira, pondera o Poeta a fragilidade
humana”:
Na
oração que desaterra........................... aterra,
Quer
Deus que a quem está o cuidado....... dado
Pregue
que a vida é emprestado............... estado,
Mistérios
mil que desenterra.................... enterra.
Quem
não cuida de si que é terra.............. erra,
Que
o alto Rei por afamado..................... amado
E
quem lhe assiste ao desvelado............... lado
Da
morte ao ar não desaferra.................. aferra.
Quem
do mundo a mortal loucura............ cura,
À
vontade de Deus sagrada...................... agrada
Firmar-lhe
a vida em atadura................... dura.
Ó
voz zelosa que dobrada......................... brada,
Já
sei que a flor da formosura................... usura
Será
no fim desta jornada........................ nada.
(TOPA,
1999: II, 62)
6 – Fusionismo
Assim como no soneto que apresentaremos no item 8, onde há fusão do racional
com o irracional, do sacro com o satírico etc., podemos ver a fusão do humano
com o divino, do terreno com o celestial etc. no primeiro dos poemas sacros
apresentado no códice do licenciado, onde o poeta recorre ao Eclesiastes,
de onde extrai o versículo 3:20 para construir seu primeiro verso, persuadindo
retoricamente o leitor, conativa e apelativamente. Vejamos:
“Que
és terra, homem, e em terra hás de tornar-te,
Te
lembra hoje Deus por sua Igreja;
De
pó te faz espelho em que se veja
A
vil matéria de que quis formar-te.
Lembra-te
Deus que és pó para humilhar-te,
E
como o teu baixel sempre fraqueja
Nos
mares da vaidade onde peleja,
Te
põe à vista a terra onde salvar-te.
Alerta,
alerta, pois que o vento berra,
E
se assopra a vaidade e incha o pano,
Na
proa a terra tens, amaina e ferra.
Todo
o lenho mortal, baixel humano,
Se
busca a salvação, tome hoje terra,
Que
a terra de hoje é porto soberano.”
(TOPA,
1999: II, 64)
7 – Intensidade
Essa intensidade é traduzida, segundo Afrânio Coutinho em sua Introdução à
Literatura Brasileira (COUTINHO, 1972: 107),
...num
sentimento de grandiosidade e esplendor, de magnificência e pompa, de majestade
e grandeza heróica, expressos na tendência superlativa e hiperbólica, no
exagero do epíteto. Mas essa tendência encontra seu reverso no pendor para a
renúncia e a nobreza de alma, responsável pelo equilíbrio instável de muitas
personagens barrocas, que vivem entre a virtude e a fraqueza, entre a pureza e
o pecado, entre o rigorismo moral ou a luta árdua e a queda e o arrependimento.
Não há mediocridade na sua alma, porque Deus está presente, no seu coração e
espírito, mesmo quando enleadas pelo pecado.
Aproveito para exemplificar com um par de sonetos criados nos mesmos versos
consoantes, com o que o poeta, sem nomear os interlocutores, mostra um diálogo,
uma teatralidade em sua lírica:
Quem perde o bem que teve possuído,
A morte não dilate ao sentimento,
Que esta dor, esta mágoa, este tormento,
Não pode ter tormento parecido.
Quem perde o bem logrado, tem perdido
O discurso, a razão, o entendimento;
Porque caber não pode em pensamento
A esperança de ser restituído.
Quando fosse a esperança alento à vida,
‘té nas faltas do bem seria engano
O presumir melhoras desta sorte.
Porque onde falta o bem, é homicida
A memória, que atalha o próprio dano,
O refúgio, que priva a mesma morte.
(TOPA,
1999: II, 83)
|
O bem que não chegou ser possuído
Perdido causa tanto sentimento
Que faltando-lhe a causa do tormento,
Faz ser maior tormento o padecido.
Sentir o bem logrado e já perdido
Mágoa será do próprio entendimento;
Porém o bem que perde um pensamento
Não o deixa outro bem restituído.
Se o logro satisfaz a mesma vida
E depois de logrado fica engano
A falta que o bem faz em qualquer sorte:
Infalível será ser homicida
O bem que sem ser mal motiva o dano,
O mal que sem ser bem apressa a morte.
(TOPA,
1999: II, 85)
|
Essa técnica é utilizada noutros diálogos em
que as personagens são nomeadas, como é o caso dos três sonetos amorosos “do
Poeta”, compostos nos mesmos consoantes e respondidos do mesmo modo por
“Floralva”, conforme se pode ler em TOPA (1999: II, 298-303).
8 – Acumulação de elementos
São bastante numerosos os poemas em que Gregório se utiliza estilisticamente
deste recurso da acumulação de elementos, que se faz de diversas maneiras.
Aproveitaremos a oportunidade para exemplificar a acumulação de elementos
(aqui, como no exemplo do item 2) com mais um soneto religioso que se torna uma
sátira, dada o contexto de sua produção pela didascália (cf. item 3).
“O
todo sem a parte não é todo,
A
parte sem o todo não é parte,
Mas
se a parte o faz todo, sendo parte,
Não
se diga que é parte, sendo todo.
Em
todo o Sacramento está Deus todo
E
todo assiste inteiro em qualquer parte,
E
feito em partes todo em toda a parte,
Em
qualquer parte sempre fica todo.
O
braço de Jesus não seja parte,
Pois
que feito Jesus em partes todo,
Assiste
cada parte em sua parte.
Não
se sabendo parte deste todo,
Um
braço que lhe acharam, sendo parte,
Nos
disse as partes todas deste todo.”
(TOPA, 1999: II, 47-8)
9 – Impulso pessoal
Nos poemas amorosos e nos eróticos, naturalmente, o impulso vem à tona a cada
passo, o que é mais que natural, apesar de serem fartos os modelos de todos
eles. Por isto, exemplificarei com um poema satírico e autobiográfico (AMADO,
1992: I, 31):
“E
pois cronista sou.
Se
souberas falar também falaras,
também
satirizaras, se souberas,
e
se foras poeta, poetaras.
Cansado
de vos pregar
cultíssimas
profecias,
quero
das culteranias
hoje
o hábito enforcar;
de
que serve arrebentar,
por
quem de mim não tem mágoa?
Verdades
direi como água,
porque
todos entendais
os
ladinos, e os boçais
a
Musa praguejadora.
Entendeis-me
agora?
Permiti,
minha formosa,
que
esta prosa envolta em verso
de
um Poeta tão perverso
se
consagre a vosso pé,
pois
rendido à fossa fé
sou
já Poeta converso.
Mas
amo por amar, que é liberdade.”
10 – Niilismo temático
Um interessante exemplo dessa carência de motivo para a produção poética ou
literária é o soneto escrito ao Conde da Ericeira, D. Luís de Meneses, pedindo
louvores ao poeta, que não lhe achou préstimo algum:
“Um
soneto começo em vosso gabo,
Contemos
esta regra por primeira;
Já
lá vão duas e esta é a terceira,
Já
este quartetinho está no cabo.
Na
quinta troce agora a porca o rabo,
A
sexta vá também desta maneira;
Na
sétima entro já com grã canseira,
E
saio dos quartetos muito brabo.
Agora
nos tercetos que direi?
Direi
que vós, Senhor, a mim me honrais,
Gabando-vos
a vós, e eu fico um rei.
Nesta
vida um soneto já ditei,
Se
desta agora escapo, nunca mais;
Louvado
seja Deus, que o acabei.”
(TOPA, 1999: II, 358)
11 – Tendência para a descrição
As didascálias, caracterizando um discurso mascarado do poeta, fazem uma
ligação direta entre a obra literária e a sua biografia, assinada pelo
licenciado. E “como é que o licenciado podia saber tudo acerca do poeta e das
circunstâncias que motivaram a elaboração de seus poemas?” – pergunta Ronaldes
(SOUZA, 2000: 16-17), propondo imediatamente: “A resposta a esta pergunta é que
o biógrafo consegue saber tudo acerca do poeta e seu ofício, porque o
licenciado Rabello e Gregório de Mattos são uma mesma pessoa, que se representa
dramaticamente desdobrada no biógrafo e no biografado.”
Ou seja, aquelas “legendas” que têm tantas variantes, conforme se pode ver na
tese de Francisco Topa (1999), constituem o elemento descritivo por excelência
na comédia em que se constitui a obra poética de Gregório de Matos, considerada
deste ponto de vista, levado “até a inverossimilhança” (PROENÇA FILHO, 1973:
142).
12 – Culto da solidão
Segundo Domício (p. 142), “o poeta, mais que outros, é um raro, que cria
o seu mundo particular e nele se isola”.
Gregório criou um par opositivo de máscaras, típico das artes literária e
dramática de seu tempo, para revelar sua criadora faceta biográfica: a
“de tom encomiástico, assinada pelo licenciado, e a de tom satírico, encetada
pelo frei Lourenço Ribeiro.” (ESPÍNOLA, 2000: 30).
É por isto que, depois de analisar profundamente o conteúdo crítico-literário
da obra citada de Adriano Espínola, com seus bem fundamentados argumentos,
Ronaldes pôde concluir, com segurança em relação a Gregório de Matos e Guerra:
Os fingimentos de sua novíssima comédia tropical o credenciam como um dos
maiores poetas barrocos da literatura mundial. Além do ludismo polêmico do
texto, do intertexto e do metatexto, o poeta revela o que há de mais profundo
na cultura barroca, e que é a interminável demanda de uma identidade perpetuamente
mobilizada no ritmo de transe da alteridade e do emascaramento. Como Pessoa, e
por mais que se desdobre em vários eus, Gregório de Mattos permanece sempre o
anônimo de si mesmo. Ao rasurar o eu próprio para fingir os outros eus, o poeta
converte todo o seu texto num verdadeiro palimpsesto.
..................................................................................................
O
enigma de Gregório de Mattos não é simplesmente filológico, mas radicalmente
ontológico. (SOUZA, 2000: 17)
13 – CONCLUSÃO
À guisa de conclusão, trago à baila novamente o primeiro dos atuais sócios
honorários da Academia Brasileira de Filologia (SPINA, 1995: 79-80):
Incontestavelmente Gregório de Matos possuía absoluto domínio da técnica
versificatória: manejava todos os gêneros poéticos e com original maestria.
Parodiava os sonetos clássicos, prevalecia-se dos paralelismos, das antíteses,
dos calemburgos de
poesias alheias que tanta fama alcançaram, para elaborar os seus. Isto também não desmerece o talento de Gregório,
porquanto essas adaptações poéticas, justamente com poesias que granjearam
larga popularidade, não constituem uma artimanha que implique desonestidade,
mas uma faceta por onde fulge o espírito brincalhão e satírico do poeta baiano.
Expurgada a sua obra desse joio muitas vezes mal interpretado, ainda fica um
majestoso monumento literário. Negar-lhe a originalidade que sempre mereceu é
negar a verdade histórica do meio em que viveu. Gregório, pis, é uma emersão
dessa corrupta e provocante sociedade colonial, e menos um “fâmulo e projeção” de Quevedo, porque um “temperamento não s
imita”, e sobretudo satírico, que se caracteriza pela ausência quase absoluta
de formalismo, e por conseguinte por um algo cunho de personalidade.
14 – REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AMADO,
James (ed.). Gregório de Matos: obra poética. 3ª ed. Preparação e notas
de Emanuel Araújo. Rio de Janeiro: Record, 1992, 2 vol.
COUTINHO,
Afrânio. Introdução à literatura no Brasil. 7ª ed. Rio de Janeiro:
Distribuidora de Livros Escolares, [1972].
ESPÍNOLA,
Adriano. As artes de enganar: um estudo das máscaras poéticas e
biográficas de Gregorio de Mattos. [Rio de Janeiro]: Topbooks, [2000].
PROENÇA
FILHO, Domício. Estilos de época na literatura (através de textos
comentados). 4ª ed. rev. e ampl. [Rio de Janeiro; São Paulo]: Liceu, 1973.
SOUZA,
Ronaldes de Melo e. As máscaras de Gregório de Mattos. In: ESPÍNOLA,
Adriano. As artes de enganar: um estudo das máscaras poéticas e
biográficas de Gregorio de Mattos. [Rio de Janeiro]: Topbooks, [2000], p.
15-17.
SPINA,
Segismundo. A poesia de Gregório de Matos. São Paulo: Edusp, 1995.
––––––.
Gregório de Matos. In: COUTINHO, Afrânio; COUTINHO, Eduardo de Faria.
(Dir.). A literatura no Brasil. Vol. II, Parte II: Estilos de época –
Era barroca / Era neoclássica. 3ª ed. rev. e ampl. Rio de Janeiro:
José Olympio; Niterói: Eduff, 1986, p. 114-125.
TOPA,
Francisco. Edição crítica da obra poética de Gregório de Matos. Porto: Edição
do Autor, 1999, 2 vol. [Dois tomos em cada volume].
www.filologia.org.br/abf/volume3/numero1/01.htm - 194k
BARROCO (1601 - 1768): LITERATURA
LITERATURA
Devido à peculiaridades de sua formação como colônia, no Brasil a cultura
literária custou a se desenvolver. Portugal não fazia nenhuma questão de educar
os territórios colonizados, pois o grande interesse era a exploração de seus
recursos. Bibliotecas e escolas públicas não havia, e o que se aprendia -
quando se aprendia - era uma instrução elementar sob a tutela da Igreja,
especialmente dos jesuítas, fortemente direcionada para a catequese, e ali se
encerrava a educação, sem perspectivas nenhumas de aprofundamento ou de
aprimoramento do gosto literário a não ser que os pupilos acabassem por
ingressar nas fileiras da Igreja, que então lhes daria melhor preparo.
Acrescente-se a isso que grande parte da população era analfabeta e a
transmissão de cultura era baseada quase toda na oralidade, a imprensa era
proibida, manuscritos eram raros pois o papel era custoso, e só circulavam
livros que haviam passado pela censura do governo, principalmente vidas de
santos, catecismos, uns poucos romances inocentes de cavalaria, compêndios de
latim, lógica e legislação, de modo que além de os leitores serem poucos, quase
não havia o que ler.
Assim, a escassa literatura produzida durante o Barroco nasceu principalmente
entre os padres, alguns deles de elevada ilustração, ou no seio de alguma
família nobre ou abastada, entre os oficiais do governo, que podiam se dar ao
luxo de estudar na metrópole, e era consumida neste mesmo círculo reduzido. O
que pôde florescer nesse contexto paupérrimo seguiu em linhas gerais o Barroco
literário europeu, caracterizando-se numa ênfase na retórica exuberante, no
gosto pelas figuras de linguagem, no cultivo dos contrastes e no apelo
emocional. Salvo por raros literatos que serão em breve mencionados, somente no
século XVIII é que a literatura vai começar a adquirir uma feição mais rica e
mais nitidamente nativa, acompanhando o crescimento das cidades litorâneas e o
surgimento do ciclo do ouro em Minas Gerais, ao mesmo tempo em que começava uma
transição para o Arcadismo e seus valores classicistas
Poesia
Didaticamente, o Barroco brasileiro tem seu marco inicial em 1601, com a
publicação do poema épico Prosopopeia, de Bento Teixeira. Conheça
a seguir os trechos selecionados:
I
Cantem
Poetas o Poder Romano,
Sobmetendo
Nações ao jugo duro;
O
Mantuano pinte o Rei Troiano,
Descendo
à confusão do Reino escuro;
Que
eu canto um Albuquerque soberano,
Da
Fé, da cara Pátria firme muro,
Cujo
valor e ser, que o Ceo lhe inspira,
Pode
estancar a Lácia e Grega lira.
II
As
Délficas irmãs chamar não quero,
que
tal invocação é vão estudo;
Aquele
chamo só, de quem espero
A
vida que se espera em fim de tudo.
Ele
fará meu Verso tão sincero,
Quanto
fora sem ele tosco e rudo,
Que
per rezão negar não deve o menos
Quem
deu o mais a míseros terrenos.
Esse poema, além de traçar elogios aos primeiros donatários da capitania de
Pernambuco, narra o naufrágio sofrido por um deles, o donatário Jorge
Albuquerque Coelho. Apesar de os críticos o considerarem de pouco valor
literário, o texto tem seu valor histórico, pois foi a primeira obra do Barroco
brasileiro e o marco inicial do primeiro estilo de época a surgir no Brasil.
No campo da poesia, destaca-se o precursor Bento Teixeira com seu épico Prosopopéia,
inspirado na tradição de Camões, seguido de Manuel Botelho de Oliveira, autor
de Música do Parnaso, o primeiro livro impresso de autor nascido no
Brasil, uma coletânea de poemas em português e espanhol em rigorosa orientação
cultista e conceptista, afim da poesia de Góngora, e mais tarde o frei Manuel
de Santa Maria, também da escola camoniana.
Mas o maior poeta do barroco brasileiro é Gregório de Matos, de grande
veia satírica, e igualmente penetrante na religião, na filosofia e no amor,
muitas vezes de crua carga erótica. Também fez uso de uma linguagem culta e
cheia de figuras de linguagem. Foi apelidado de O Boca do Inferno por suas
críticas mordazes aos costumes da época. Na sua lírica religiosa os problemas
do pecado e da culpa são importantes, como é o conflito da paixão com a dimensão
espiritual do amor.
Prosa
Na prosa o grande expoente é o Padre Antônio Vieira, com os seus
sermões, dos quais é notável o Sermão da Primeira Dominga da Quaresma,
onde defendia os nativos da escravidão, comparando-os aos hebreus escravizados
no Egito. No mesmo tom é o Sermão 14 do Rosário, condenando a escravidão
dos africanos, comparado-a ao calvário de Cristo. Outras peças importantes de
sua oratória são o Sermão de Santo António aos Peixes, o Sermão do Mandato,
mas talvez a mais célebre seja o Sermão da Sexagésima, de 1655. Nele não
apenas defende os índios, mas também e, principalmente, ataca seus algozes, os
dominicanos, por meio de hábil encadeamento de imagens evocativas.
Sua escrita era animada pelo anseio de estabelecer um império português e
católico regido pelo zelo cívico e a justiça, mas sua voz foi interpretada como
uma ameaça à ordem estabelecida, o que lhe trouxe problemas políticos e atraiu
sobre si a suspeita de heresia. Defendendo os cristãos-novos foi perseguido
pela Inquisição, que o teve preso por dois anos, além de ter-lhe cassado o
direito à expressão pública de suas idéias. Banido para o Brasil, encontrou a
oposição dos colonos lusos, a quem desagradava que falasse pelos índios.
Seu estilo pode ser sentido neste fragmento:
"O
trigo que semeou o pregador evangélico, diz Cristo que é a palavra de Deus. Os
espinhos, as pedras, o caminho e a terra boa em que o trigo caiu, são os
diversos corações dos homens. Os espinhos são os corações embaraçados com
cuidados, com riquezas, com delícias; e nestes afoga-se a palavra de Deus. As
pedras são os corações duros e obstinados; e nestes seca-se a palavra de Deus,
e se nasce, não cria raízes. Os caminhos são os corações inquietos e
perturbados com a passagem e tropel das coisas do Mundo, umas que vão, outras
que vêm, outras que atravessam, e todas passam; e nestes é pisada a palavra de
Deus, porque a desatendem ou a desprezam. Finalmente, a terra boa são os
corações bons ou os homens de bom coração; e nestes prende e frutifica a palavra
divina, com tanta fecundidade e abundância, que se colhe cento por um: Et
fructumfecitcentuplum."
Outros nomes na prosa do período são historiadores ou cronistas, como Sebastião
da Rocha Pita, autor de uma História da América Portuguesa, Nuno Marques
Pereira, cujo Compêndio Narrativo do Peregrino da América é considerado uma das
primeiras narrativas de cunho literário do Brasil, na forma de uma alegoria
moralizante,[53] e o frei Vicente do Salvador, autor da Historia do Brasil, de
onde vem este excerto que trata do Descobrimento:
"A
Terra do Brasil, que está na América, huma das quatro partes do Mundo, não se
descobrio de proposito, e de principal intento; mas acaso indo Pedro Alvares
Cabral, por mandado de El Rey Dom Manoel no (ano) de mil e quinhentos para a
India por Capitão Mor de doze Naus, afastando-se da costa de Guiné, que já era
descoberta ao Oriente, achou estoutra ao Ocidente, da qual não havia noticia
alguma, foi a costeando alguns dias com tromentathe chegar a hum porto seguro,
do qual a terra visinha ficou com o mesmo nome.
"Ali desembarcou o dito Capitão com seus soldados armados, pera
peleijarem; porque mandou primeiro hum batel com alguns a descobrir campo, e
derão novas de muitos Gentios, que virão; porem não foramnecessarias armas, porque
só de verem homens vestidos, e calçados, e brancos, e com barba - do que
tudosellescaressem - os tiverão por divinos, e mais que homens, e assim
chamando-lhes Carahibas, que quer dizer na sua lingoa cousa divina, se chegaram
pacificamente aos nossos."
Gregório
de Matos
"Que
falta nesta cidade? Verdade.
Que
mais por sua desonra? Honra.
Falta
mais que se lhe ponha? Vergonha.
O
demo a viver se exponha
Por
mais que a fama a exalta
Numa
cidade onde falta
Verdade,
honra e vergonha."
Assim
Gregório de Matos abre um poema criticando a Bahia de seu tempo. A sátira
política tornou-se uma das vertentes mais conhecidas de sua obra poética.
Gregório de Matos Guerra era o terceiro filho de um fidalgo português, estabelecido no Recôncavo baiano como senhor de engenho, e de uma brasileira. Ao contrário dos irmãos mais velhos que não se adequaram aos estudos e dedicaram a ajudar o pai na fazenda, Gregório recebeu instrução na infância e adolescência e foi enviado para a Universidade de Coimbra, onde bacharelou-se em direito.
Teria sido juiz do Cível, de Crime e de Órfãos em Lisboa durante muitos anos. Na Corte portuguesa, envolveu-se na vida literária que deixava o maneirismo camoniano e atingia o barroco, seguindo as influências espanholas de Gôngora e Quevedo. Por essa ocasião, teria também casado e tido acesso ao rei Pedro 2o, de quem ganhou simpatia e favores.
Sua sorte, porém, mudou bruscamente. Enviuvou e caiu em desgraça com o rei, segundo alguns biógrafos, por intriga de alguém ridicularizado em um de seus poemas satíricos. Acabou retornando à Bahia em 1681, a princípio trabalhando para o Arcebispo, como tesoureiro-mór, mas logo desligado de suas funções.
Casou-se, então, com Maria dos Povos, a quem dedicou um de seus sonetos mais famosos. Vendeu as terras que recebera de herança e, segundo consta, guardou o dinheiro num saco no canto da casa, gastando-o à vontade e sem fazer economia. Ao mesmo tempo, tratou de exercer a advocacia, escrevendo argumentações judiciais em versos.
A certa altura, resolveu abandonar tudo e saiu pelo Recôncavo como cantador itinerante, convivendo com o povo, freqüentando as festas populares, banqueteando-se sempre que convidado. É nessa época que se avoluma sua obra satírica (inclusive erótico-obscena) que iria lhe valer o apelido de "Boca do Inferno". Mas foi a crítica política à corrupção e o arremedo aos fidalgos locais que resultaram em sua deportação para Angola.
De lá, só pôde retornar em 1695, com a condição de se estabelecer em Pernambuco e não na Bahia, além de evitar as sátiras. Segundo os estudiosos, nesses momentos finais de vida, tornou-se mais devoto e deu vazão à poesia religiosa, em que pede perdão a Deus por seus pecados. Morreu em data incerta no ano seguinte.
Vale lembrar que a fama de Gregório de Matos - um dos grandes poetas barrocos não só do Brasil, mas da língua portuguesa - é devida a uma obra efetivamente sólida, em que o autor soube manejar os cânones da época, seja de modo erudito em poemas líricos de cunho filosófico e religioso, seja na obra satírica de cunho popularesco. O virtuosismo estilístico de Gregório de Matos não encontra um rival a altura na poesia portuguesa do mesmo período.
Gregório de Matos Guerra era o terceiro filho de um fidalgo português, estabelecido no Recôncavo baiano como senhor de engenho, e de uma brasileira. Ao contrário dos irmãos mais velhos que não se adequaram aos estudos e dedicaram a ajudar o pai na fazenda, Gregório recebeu instrução na infância e adolescência e foi enviado para a Universidade de Coimbra, onde bacharelou-se em direito.
Teria sido juiz do Cível, de Crime e de Órfãos em Lisboa durante muitos anos. Na Corte portuguesa, envolveu-se na vida literária que deixava o maneirismo camoniano e atingia o barroco, seguindo as influências espanholas de Gôngora e Quevedo. Por essa ocasião, teria também casado e tido acesso ao rei Pedro 2o, de quem ganhou simpatia e favores.
Sua sorte, porém, mudou bruscamente. Enviuvou e caiu em desgraça com o rei, segundo alguns biógrafos, por intriga de alguém ridicularizado em um de seus poemas satíricos. Acabou retornando à Bahia em 1681, a princípio trabalhando para o Arcebispo, como tesoureiro-mór, mas logo desligado de suas funções.
Casou-se, então, com Maria dos Povos, a quem dedicou um de seus sonetos mais famosos. Vendeu as terras que recebera de herança e, segundo consta, guardou o dinheiro num saco no canto da casa, gastando-o à vontade e sem fazer economia. Ao mesmo tempo, tratou de exercer a advocacia, escrevendo argumentações judiciais em versos.
A certa altura, resolveu abandonar tudo e saiu pelo Recôncavo como cantador itinerante, convivendo com o povo, freqüentando as festas populares, banqueteando-se sempre que convidado. É nessa época que se avoluma sua obra satírica (inclusive erótico-obscena) que iria lhe valer o apelido de "Boca do Inferno". Mas foi a crítica política à corrupção e o arremedo aos fidalgos locais que resultaram em sua deportação para Angola.
De lá, só pôde retornar em 1695, com a condição de se estabelecer em Pernambuco e não na Bahia, além de evitar as sátiras. Segundo os estudiosos, nesses momentos finais de vida, tornou-se mais devoto e deu vazão à poesia religiosa, em que pede perdão a Deus por seus pecados. Morreu em data incerta no ano seguinte.
Vale lembrar que a fama de Gregório de Matos - um dos grandes poetas barrocos não só do Brasil, mas da língua portuguesa - é devida a uma obra efetivamente sólida, em que o autor soube manejar os cânones da época, seja de modo erudito em poemas líricos de cunho filosófico e religioso, seja na obra satírica de cunho popularesco. O virtuosismo estilístico de Gregório de Matos não encontra um rival a altura na poesia portuguesa do mesmo período.
“Eu
sou aquele, que passados anos
cantei na minha lira maldizente
torpezas do Brasil, vícios, e enganos”
cantei na minha lira maldizente
torpezas do Brasil, vícios, e enganos”
Esse era Gregório de Matos Guerra, o “Boca do Inferno”. Com seu
espírito crítico, satirizava políticos, comerciantes, clero, colonizadores e
até mesmo o povo. Para isso, usava palavrões e um vocabulário bem baixo em suas
obras.
Nasceu supostamente em 7 de abril de 1633 na Bahia e morreu em Recife em 1696.
Veio de uma família rica que possuía dois engenhos de cana-de-açucr e
130 escravos.
Educou-se em casa e no colégio jesuíta. Formou-se em Direito na Universidade de
Coimbra e lá exerceu a profissão sendo, inclusive, juiz de órfãos.
Em 1681, quando voltou para o Brasil, foi vigário-geral e tesoureiro-mor,
porém, durante este período recusou-se a usar a batina e denunciou injustiças
da Ordem em que servia. Por causa disso, o Bispo ordenou seu afastamento.
Escreveu poesia lírica, satírica e religiosa. Suas poesias satíricas possuem um
ótimo material do ponto de vista sociológico e linguístico (já que o autor
usava um vocabulário bem popular). Nelas o escritor narra episódios da vida
popular, cotidiana e política. Através delas podemos conhecer melhor a
sociedade da época (período colonial).
A poesia lírica de Gregório de Matos também é muito boa e pode ser dividida em:
-
Poesia lírico-amorosa
- Poesia lírico-filosófica
- Poesia lírico-religiosa
- Poesia lírico-filosófica
- Poesia lírico-religiosa
POESIA
LÍRICO-AMOROSA
Características
Características
- O
amor é retratado como fonte de prazer e sofrimento
- A mulher é retratada como um anjo e fonte de perdição (pois desperta o desejo carnal)
- A mulher é retratada como um anjo e fonte de perdição (pois desperta o desejo carnal)
TEXTO
Rompe o
Poeta com a Primeira Impaciência Querendo Declarar-se e Temendo Perder Por
Ousado
Anjo no nome, Angélica na cara,
Isso é ser flor, e Anjo juntamente,
Ser Angélica flor, e Anjo florente,
Em quem, se não em vós se uniformara?
Quem veria uma flor, que a não cortara
De verde pé, de rama florescente?
E quem um Anjo vira tão luzente,
Que por seu Deus, o não idolatrara?
Se como Anjo sois dos meus altares,
Fôreis o meu custódio, e minha guarda,
Livrara eu de diabólicos azares.
Mas vejo, que tão bela, e tão galharda,
Posto que os Anjos nunca dão pesares,
Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda.
Anjo no nome, Angélica na cara,
Isso é ser flor, e Anjo juntamente,
Ser Angélica flor, e Anjo florente,
Em quem, se não em vós se uniformara?
Quem veria uma flor, que a não cortara
De verde pé, de rama florescente?
E quem um Anjo vira tão luzente,
Que por seu Deus, o não idolatrara?
Se como Anjo sois dos meus altares,
Fôreis o meu custódio, e minha guarda,
Livrara eu de diabólicos azares.
Mas vejo, que tão bela, e tão galharda,
Posto que os Anjos nunca dão pesares,
Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda.
Vocabulário
Uniformar: tornar uniforme, com uma só forma
Galharda: elegante
Uniformar: tornar uniforme, com uma só forma
Galharda: elegante
POESIA
LÍRICO-RELIGIOSA
Características
Características
- O
autor está dividido entre pecado e virtude (sente culpa por pecar e busca a
salvação)
- O autor vê o pecado como um erro humano, mas também, como a única forma de Deus cometer o ato do perdão.
- O eu-lírico, muitas vezes, se comporta como advogado que faz a própria defesa diante de Deus (para tal, usava, até mesmo, trechos da Bíblia)
- O autor vê o pecado como um erro humano, mas também, como a única forma de Deus cometer o ato do perdão.
- O eu-lírico, muitas vezes, se comporta como advogado que faz a própria defesa diante de Deus (para tal, usava, até mesmo, trechos da Bíblia)
TEXTO
Ao mesmo assunto e na Mesma Ocasião
Ao mesmo assunto e na Mesma Ocasião
Pequei
Senhor: mas não porque hei pecado,
Da vossa Alta Piedade me despido:
Antes, quanto mais tenho delinqüido,
Vos tenho a perdoar mais empenhado.
Da vossa Alta Piedade me despido:
Antes, quanto mais tenho delinqüido,
Vos tenho a perdoar mais empenhado.
Se
basta a vos irar tanto pecado,
A abrandar-vos sobeja um só gemido:
Que a mesma culpa, que vos há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado.
A abrandar-vos sobeja um só gemido:
Que a mesma culpa, que vos há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado.
Se
uma ovelha perdida, já cobrada,
Glória tal, e prazer tão repentino
Vos deu, como afirmais na Sacra História,
Glória tal, e prazer tão repentino
Vos deu, como afirmais na Sacra História,
Eu
sou, Senhor, ovelha desgarrada;
Cobrai-a; e não queirais, Pastor Divino,
Perder na vossa ovelha a vossa glória
Vocabulário
Cobrai-a; e não queirais, Pastor Divino,
Perder na vossa ovelha a vossa glória
Vocabulário
Despido:
despeço
Sobeja: sobra
Cobrada: recuperada
Sobeja: sobra
Cobrada: recuperada
POESIA
LÍRICO-FILOSOFICA
Características
Características
Pessimismo
-Angústia diante da vida
-Temas abordando o desconcerto do mundo e a instabilidade dos bens materiais
-Temas abordando o desconcerto do mundo e a instabilidade dos bens materiais
TEXTO
Moraliza o Poeta nos Ocidentes do Sol a Inconstância dos Bens do Mundo
Moraliza o Poeta nos Ocidentes do Sol a Inconstância dos Bens do Mundo
Nasce
o Sol, e não dura mais que um dia,
Depois da Luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.
Depois da Luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.
Porém se acaba o Sol, por que nascia?
Se formosa a Luz é, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?
Se formosa a Luz é, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?
Mas no Sol, e na Luz, falte a firmeza,
Na formosura não se dê constância,
E na alegria sinta-se tristeza.
Na formosura não se dê constância,
E na alegria sinta-se tristeza.
Começa o mundo enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância.
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância.
Vocabulário:
Pena: dor, sofrimento
Pena: dor, sofrimento
Gregório de Matos foi o maior nome do Barroco
brasileiro. Casou-se e pouco tempo depois abandonou a mulher e a carreira de
advogado para ser repentista no Recôncavo Baiano.
Em uma de suas sátiras ofendeu o governador da Bahia – Antonio Luis da Câmara
Coutinho – e foi preso e exilado para Angola. Teve autorização para voltar para
o país (mas não para a Bahia), foi para Recife e morreu em 1696.
A obra de Gregório de Matos foi publicada pela Academia Brasileira de Letras
cerca de 230 anos depois da sua morte. Por causa disso, muitos de seus poemas
se perderam e muitos textos que levam o seu nome são de autoria duvidosa, já
que Gregório de Matos teve muito imitadores anônimos.
pt.wikipedia.org/wiki/Barroco_no_Brasil
- 229k
educacao.uol.com.br/biografias/gregorio-de-matos.jhtm -
54k
www.infoescola.com/escritores/gregorio-de-matos-guerra/ - 26k
1.CONTEXTO
|
• Renascimento e a
Reforma de Lutero. A Contra-Reforma da Igreja Católica (Concílio de
Trento; companhia de Jesus = padres jesuítas). Séculos XV e XVI.
|
2.MARCO INICIAL
|
• Prosopopeia
(1601) — poema épico de Bento Teixeira, tendo por assunto os feitos
militares de Jorge de Albuquerque.
|
3.AUTORES
|
• Gregório de
Matos Guerra, poeta baiano. Produziu poesia satírica, pornográfica,
amorosa, filosófica e religiosa Através sobretudo de sua poesia satírica,
traça um painel do Brasil Colônia de então. Incorpora características da
linguagem popular. Na poesia amorosa: descrição idealizante da
amada, convite ao prazer amoroso. Na poesia religiosa: homem pecador X
Deus salvador.
• Pe. Antônio
Vieira, português de nascimento. Orador sacro famoso: cerca de
200 Sermões. Tendência conceptista de estilo. Grande domínio da língua
portuguesa. Além dos temas religiosos, demonstro preocupação com assuntos
sociais, políticos e econômicos de seu tempo. Sermão da Sexagésima:
aponta as três causas possíveis pelo fraco efeito das pregações: o próprio
pregador, o ouvinte e Deus.
|
4. CARACTERÍSTICAS
|
• Estética do
conflito, pela confluência de valores medievais (teocentrismo) e valores
renascentistas (antropocentrismo).
• Tensão e angústia
existencial.
• Uso abundante de
linguagem figurada: antítese, paradoxo, fusionismo; metáfora, hipérbole,
repetição, inversão sintática...
• Estilo opulento,
todo retorcido, feito de tensão e contrastes.
• Tematização da
brevidade da vida e da efemeridade de tudo: juventude, beleza, poder,
riqueza... O famoso “carpe diem”.
|
5. CORRENTES
|
• Cultismo:
valorização dos aspectos externos, sensoriais, formais.
• Conceptismo:
valorização das ideias, raciocínios, argumentação; a semântica das palavras.
|
1. Gregório de Matos
Poesia satírica
A cada canto um grande conselheiro,
Que nos quer governar cabana e vinha,
Não sabem governar sua cozinha,
E podem governar o mundo inteiro.
Em cada porta um frequentado olheiro,
Que a vida do vizinho e da vizinha
Pesquisa, escuta, espreita, e esquadrinha,
Para levar à Praça e ao Terreiro.
Muitos mulatos desavergonhados,
Trazidos pelos pés os homens nobres,
Posta nas palmas toda picardia.
Estupendas usuras nos mercados,
Todos os que não furtam muito pobres,
E eis aqui a cidade da Bahia.
Poesia
religiosa
Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado,
Da vossa alta demência me despido,
Porque quanto mais tenho delinquido,
Vos tenho a perdoar mais empenhado.
Se basta a vos irar tanto um pecado.
A abrandar-vos sobeja um só gemido,
Que a mesma culpa, que vos há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado.
Se uma ovelha perdida, e já cobrada,
Glória tal e prazer tão repentino
Vos deu, como afirmais na Sacra História:
Eu sou, Senhor, a ovelha desgastada.
Cobrai-a, e não queirais, Pastor divino,
Perder na vossa ovelha a vossa glória.
ESTUDO COMPLEMENTAR!
Tanto Gregório de Matos quanto Padre Antonio Vieira sofreram violência quando criticaram e denunciaram as condições de opressão em que se encontrava a população, principalmente no que se relaciona às condições sociais e econômica, e à escravização de indígenas e negros africanos cujas vidas eram desconsideradas e usadas como meio material para a obtenção de lucros pelo colonizador.
Devemos louvar os esforços daqueles que lutaram pelo direito da população quanto a não opressão!
Hoje isso é garantia da Lei como preconiza a Constituição: Respeito aos Direitos Humanos, valores preconizados pela Declaração Universal dos Direitos Humanos!
ESTUDO COMPLEMENTAR!
Tanto Gregório de Matos quanto Padre Antonio Vieira sofreram violência quando criticaram e denunciaram as condições de opressão em que se encontrava a população, principalmente no que se relaciona às condições sociais e econômica, e à escravização de indígenas e negros africanos cujas vidas eram desconsideradas e usadas como meio material para a obtenção de lucros pelo colonizador.
Devemos louvar os esforços daqueles que lutaram pelo direito da população quanto a não opressão!
Hoje isso é garantia da Lei como preconiza a Constituição: Respeito aos Direitos Humanos, valores preconizados pela Declaração Universal dos Direitos Humanos!





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