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quarta-feira, 15 de outubro de 2014

PUC/14 CONTOS DE BELAZARTE



 Olá, terceiranistas!
Segue Contos de Belazarte!
CONTOS DE BELAZARTE


MÁRIO DE ANDRADE
O AUTOR
Mário Raul de Morais Andrade nasceu em São Paulo, em 1893. Um espírito inquieto animava sua impressionante atividade cultural: professor de música, grande pesquisador do folclore, colaborador de vários jornais e revistas, poeta, romancista, critico literário, critico musical, ensaísta de arte, folclore, literatura e música.
No ano de 1917, três fatos importantes: morte do pai; conclusão do curso de piano; e Há uma gota de sangue em cada poema, primeiro livro, publicado sob o pseudônimo de Mário Sobral. Nessa altura, Mário já adquiria fama de erudito. A participação na Semana, a publicação de Paulicéia desvairada e a nomeação como professor catedrático do. Conservatório Dramático e Musical de São Paulo consolidavam o prestigio de Mário de Andrade. A cidade de São Paulo, sua mais profunda paixão, constitui tema freqüente de sua obra. Por volta de 1934, Mário foi chefe do Departamento de Cultura de São Paulo. Quatro anos depois, motivos políticos provocaram seu afastamento e a mudança para o Rio, onde exerceu o cargo de professor da Universidade do Distrito Federal. Lá ficou pouco tempo. A ligação com São Paulo era muito forte. A Segunda Guerra Mundial afetou profundamente o ânimo do poeta. Parece que essa foi uma fase de grande angústia existencial.
Na tarde de 25 de fevereiro de 45, faleceu Mário de Andrade, que pedira num de seus poemas:
Meus pés enterrem na rua Aurora,
No Paissandu deixem meu sexo.
Na Lopes Chaves a cabeça
Esqueçam
No Pátio do Colégio afundem
o meu coração paulistano...

O POETA
Presença de aspectos múltiplos
1) Poeta folclórico
Nutre sua poesia de lendas e assuntos do povo
2) Poeta do cotidiano
Transfigura fatos cotidianos fazendo destes ponto de partida para aventuras poéticas
3) Poeta de si mesmo
Procura coisas inefáveis nas profundezas de suas águas através de mergulhos
4) Poeta criador de Poética
Procura novos meios de expressão para a sua aventura
grande variedade de temas entre os quais se destacam: Brasil, conhecimento amoroso, auto-conhecimento e conhecimento da conduta em face do mundo;
encontro do poeta com si mesmo que apresenta-se de partir de Remate onde apresenta-se sob forma de extraordinária identificação com o inefável.
grande virtude poética no ato de olhar as coisas e senti-las, quaisquer que elas sejam, e de trazê-las para um plano em que a sua experiência poética as transforma em fontes eternas de beleza. A virtude não está não está nem nas palavras nem no assunto.


OBRAS
Poesia
"Há uma gota de sangue em cada poema" é o primeiro livro de poemas. Feito sob o impacto da Primeira Guerra, apresenta poucas novidades estilísticas. Poucas, mas suficientes para incomodar a crítica mais acadêmica, que não gostou do livro. o trecho seguinte ilustra a linguagem da obra.
Paulicéia Losango cáqui, segundo o próprio poeta, constitui-se de "sensações, idéias, alucinações, brincadeiras, liricamente anotadas ". Em outras palavras, o cotidiano de sua vivência transformado em poesia.
Clã do jabuti, certamente resultado das viagens culturais do autor, vale-se do folclore, de costumes e linguagem regionais, numa tentativa de analisar a diversidade cultural do Brasil. Essa intenção de Mário evidencia-se já no titulo de alguns poemas: "Noturno de Belo Horizonte", "Carnaval carioca", "Moda da cadeia de Porto Alegre", "Dois poemas acreanos".
Remate de males, além de dar seqüência à temática principal da obra anterior, de caráter nacionalista, apresenta poemas líricos que expressam o mundo interior do poeta. desvairada vinha repleto de inovações que logo transformaram o livro numa espécie de ponto de referência obrigatório para os modernistas. Além disso, trazia o "Prefácio interessantíssimo", escrito em versos, no qual Mário de Andrade expôs sua teoria poética, denominada desvairismo.
"Lira Paulistana" retoma, numa perspectiva diversa, o mesmo tema de Paulicéia desvairada, ou seja, São Paulo. Nessa obra está o longo poema "A meditação sobre o Tietê", provavelmente o último poema escrito por Mário e considerado uma obra-prima de sua poesia. o Tietê é o rio que está à margem de São Paulo.

Poesia:
Há uma gota de sangue em cada poema (1917)
Paulicéia desvairada (1922)
Losango cáqui (1926)
Clã do jabuti (1927)
Remate de males (1930)
Poesia (1941)
Lira paulistana, seguida de O carro da miséria (1946).

Conto
Os contos mais significativos acham-se em Belazarte e em Contos novos. No primeiro, a escolha do assunto predominante - o proletariado em seu problemático dia-a-dia - mostra a preocupação do autor na denúncia das desigualdades sociais. No segundo, constituído de textos esparsos reunidos em publicação póstuma 1946) estão os contos mais importantes como Primeiro de mato, o peru de Natal e Frederico Paciência. Pela extensão, nenhum deles pôde ser transcrito neste volume.
Contos
Primeiro andar (1926)
Belazarte (1934)
Contos novos (1946).

Romance
O primeiro romance data de 1927: Amar, verbo intransitivo. Nele, Mário desmascara o convencionalismo da burguesia paulistana - como já fizera no poema estudado nesta unidade. A história que serve de veículo a este objetivo é a de um rico industrial que contratou uma governanta (Fràulein) para ensinar alemão aos filhos. Na verdade, essa tarefa era apenas uma fachada para a verdadeira missão de Fräulein: a iniciação sexual de Carlos, filho mais velho do industrial.
Em 1928 publicou-se Macunaíma, a obra mais importante de Mário de Andrade. Ela foi classificada pelo autor não como romance, mas como rapsódia. Como nas rapsódias musicais, que se utilizam da colagem de elementos extraídos de cantos populares tradicionais, a obra resulta da utilização de lendas, ditos, provérbios, máximas, em resumo, fragmentos da cultura popular sul-americana, reunidos em torno da personagem central - Macunaíma, o herói sem nenhum caráter. A narrativa pode ser assim resumida: Macunaíma nasce sem pai, na tribo dos índios Tapanhumas, às margens do rio Uraricoera. Morta á mãe, Macunaíma e os irmãos partem em busca da aventura. Do encontro com as Amazonas resulta o casamento de Macunaíma com Ci, a mãe do mato. Ci dá à luz um menino que morre e se transforma na planta do guaraná. Pouco depois, sentindo que vai morrer de desgosto, Ci dá a Macunaíma um amuleto, pedra muiraquitã. Ci morre pouco depois, transformada em estrela - a beta do Centauro. O amuleto, que o herói tinha perdido, reaparece nas mãos de Venceslau Pietro Pietri mascate peruano que morava em São Paulo e que na verdade é Piaimã, o gigante antro pófago. Um passarinho dá noticias do amuleto a Macunaíma. Acompanhado dos irmão - Jiguê e Maanape -, Macunaíma desce o rio Araguaia, a caminho de São Paulo, visar do a recuperar seu amuleto. Após inúmeras aventuras em sua caminhada, o herói recupera o amuleto, matando Piaimã. Logo em seguida, a pedra desaparece novamente. Perseguido pelo minhocão Oibê, Macunaíma percorre todo o Brasil e volta para o Amazonas. Um dia, desgostoso e solitário, resolve subir ao céu, transformando-se na constelação da Ursa Maior.

Romance:
Amar verbo intransitivo (1927)
Macunaíma (1928).

Ensaio:
A escrava que não é Isaura (1925)
Música do Brasil (1941)
O movimento modernista (1942)
O empalhador de passarinhos (1944)

A OBRA CONTOS DE BELAZARTE
1Fazem parte deste livro os seguintes contos:
2O Besouro e a Rosa;
3Jaburu malandro;
4Caim, Caim e o resto;
5Menina de ôlho no fundo;
6Túmulo, túmulo, túmulo;
7Piá não sofre? Sofre;
8Nízia Figueira, sua criada.

Em Contos de Belazarte, o autor lança um olhar ácido e, ao mesmo tempo, poético, sensível e tocante sobre o cotidiano, os sentimentos e relações da pequena burguesia e das pessoas excluídas da sociedade: mulheres pobres, proletários, crianças, empregados, solteironas,…
Na obra, narrador e personagem surgem como um dos debatedores nas “Crônicas de Malazarte”, como antagonista ao grande otimismo da personagem que dá título às crônicas. A construção de Malazarte, por sua vez, liga-se, entre outras coisas, a Pedro Malasartes, personagem importante das narrativas orais populares brasileiras.
O livro, escrito em 1933 reúne sete contos escritos por Mário de Andrade entre 1923 e 1926: “O besouro e a Rosa”, “Jaburu Malandro”, “Caim, Caim e o resto”, “Menina de olho no fundo”, “Túmulo, túmulo, túmulo”, “Piá não sofre? Sofre.” e “Nízia Figueira, sua criada”. Situados na São Paulo da década de 1920, os contos focalizam a cidade não a partir do centro, mas da periferia, com atenção especial aos incipientes bairros pobres da São Paulo de então, como a Lapa e o Brás. Ao que tudo indica, a escolha do foco é bastante deliberada, pois trata de problematizar o momento histórico, tendo em vista produzir um contraponto à euforia frente àmodernização que tomava conta de parte da literatura dos anos 1920. E, ao fazer isso, configura uma apreensão sofisticada do processo de modernização paulistano tal como se apresentava na época. Uma das marcas narrativas mais importantes dos contos é o uso intensivo do discurso oral, que redunda na duplicação dos narradores (o oral e o escrito), explicitada pela rubrica “Belazarte me contou”, que é reincidente em todas as narrativas. A proximidade com o oral, por um lado, tende a reforçar a contingência, a aparência de apego imediato à circunstância e ao pitoresco, mas, por outro, quando colocada em seu devido lugar no projeto do escritor, resulta num elemento fundamental para se entender os experimentos formais em curso nesses contos. Nesse sentido, o uso intensivo e consequente do discurso oral, ao aproximar as narrativas do modo de contar próprio da tradição oral e popular, acaba por impregnar os contos de aspectos da narrativa de tipo tradicional, fruto da experiência comunitária direta e difundida pelo domínio do conhecimento oral e tradicional.
Outro ponto importante é que os contos parecem o tempo todo apelar para nossa “moral ingênua”, apresentando histórias que, de modo geral, despertam imediatamente no leitor a sensação de injustiça, de situação que precisa se reparada.
A pobre Rosa, vivendo sequestrada do mundo, uma “freirinha” confinada aos afazeres domésticos de sua vida de “cria da casa” das tias solteironas; o pobre João, padeirinho pobre, esforçado e “bom moço” que quer encontrar uma moça para casar e que é duas vezes preterido; os irmãos Aldo e Tino, que entram em conflito pelo amor de uma vizinha, destruindo a antiga união entre eles; as duas mulheres solitárias, Nízia Figueira e Prima Rufina, vivendo apartadas do mundo numa chácara; o professor de música do conto “Menina de olho no fundo”, que perde o emprego por capricho de uma aluna; o pobre Ellis lutando contra a miséria e tentando, por meio do esforço e do trabalho, construir uma vida para ele, sua esposa e filho; e, talvez no pior de todos os exemplos, Paulino, um menino de quatro anos que vive a miséria em várias expressões: a fome, o abandono, a falta de carinho e cuidado, a humilhação, numa série de injustiças e brutalidades já anunciada no título do conto (“Piá não sofre? Sofre.”), entre outros exemplos.
A esses motes tão “evidentemente injustos”, soma-se a presença de outra estrutura típica da forma do Conto: a presença de certa “moral da história”, que, a partir da compensação moral, restabelece o sentimento de justiça, garantindo o final feliz consumado no fecho tradicional, “e foram felizes para sempre”. Belazarte lança mão do fecho tradicional do Conto aparece, mas com sinal trocado: Literatura e Autoritarismo, Espaço Urbano e Experiências de Desolação e Violência.
Ou seja, nas narrativas de Mário de Andrade, encontra-se a mesma fatalidade do Conto, mas pelo avesso: ao invés de destinados à felicidade, à recompensa e ao restabelecimento da ordem e da justiça ingênuas, em Belazarte, as personagens parecem fadadas à infelicidade, ao sofrimento e à injustiça: Rosa não apenas não encontra seu príncipe como acaba casada com um “besouro”, o bêbado Pedro Mulatão; Carmela vê frustrados seus sonhos de uma vida diferente daquela que as moças de sua idade e inserção social tinham, pois o “príncipe” que a resgataria desse lodo foge de mansinho, de madrugada, quando sente que o namorico começava a ficar mais sério e comprometedor. Ou ainda, a morte não só não é abolida como é sadicamente reposta e enfatizada, como que decretando a impossibilidade de superação da miséria, tal como ocorre em “Túmulo, túmulo, túmulo”.
Aliás, se a forma do Conto está presente e afirmada em Belazarte, ao mesmo tempo, é negada e invertida. O tempo todo a estrutura está presente, mas com sinal trocado. A presença de elementos da “forma simples” cria no leitor uma expectativa de compensação que não vem; ao contrário, o sentimento de injustiça desenvolve-se num crescendo que culmina numa sensação de perplexidade, imobilidade e morte, comum ao desfecho de todas as narrativas. A mobilidade, a agilidade do relato de Belazarte choca-se com a negatividade, o imobilismo, a inexorabilidade dos destinos apresentados, tornando ainda mais angustiante o reconhecimento do fracasso das personagens, do narrador e do mundo narrado.
Nos contos, vista da periferia de São Paulo, a compensação moral desaparece e nenhum conforto é oferecido ao sofredor e ao injustiçado. O narrador aponta a injustiça, reconhece-a, incomoda-se com ela, mas é como se, ao mesmo tempo, culpasse as personagens, expressando uma consciência problemática e contraditória que não consegue decidir se as personagens são vítimas, culpadas ou o quê. O resultado dessa oscilação é um discurso constitutivamente irônico, às vezes sádico, que se compadece e, ao mesmo tempo, vê o sofrimento como inexorável, senão como merecido.
Nenhuma personagem do livro permite analisar o ponto de vista de Belazarte tão bem quanto Ellis, do conto “Túmulo, túmulo, túmulo”, empregado pessoal do narrador:


“Ellis era preto, já disse... Mas uma boniteza de pretura como nunca eu tinha visto assim. Como linhas até que não era essas coisas, (...), porém aquela cor elevava o meu criado a tipo-de-beleza da raça tizia. /.../ É verdade que os dentes eram brancos, mas isso raramente se enxergava, porque Ellis tinha um sorriso apenas entreaberto. Estava muito igualado com o movimento da miséria pra andar mostrando gengiva a cada passo. A gente tinha impressão de que nada o espantava mais, e que Ellis via tudo preto, o mesmo preto exato da epiderme.
Como criado, manda a justiça contar que ele não foi inteiramente o que a gente está acostumado a chamar de criado bom. Não é que fosse ruim não, porém tinha seus carnegões, moleza chegou ali, parou. Limpava bem as coisas, mas levava uma vida pra limpar esta janela. E depois deu de sair muito, não tinha noite que ficasse em casa. Mas no sentido de criado moral, Ellis foi sublime. De inteira confiança, discreto, e sobretudo amigo. Quando eu asperejava com ele, escutava tudo num desaponto que só vendo. Sei que eu desbaratava, ia desbaratando, ia ficando sem assunto para desbaratar, meio com dó daquele tão humilde que, a gente percebia, não tinha feito nada por mal. O começo já é típico e sintomático: Ellis era preto, “mas uma boniteza de pretura”.
A adversativa só se explica pelo preconceito que ela pressupõe.
Como se sabe, a expressão é uma das versões mais comuns do preconceito racial e de classe no Brasil, cujas fórmulas são bem conhecidas: pobre mas inteligente, preto mas honesto, pobre mas feliz, preto mas educado etc. Além disso, segundo o que nos diz Belazarte, a beleza de Ellis vinha do preto “opaco”, “doce e aveludado” da epiderme, que compunha uma beleza que, aos olhos do narrador, era exemplar, mas que, no entanto, convivia com um sorriso apenas entreaberto, pois o rapaz estava “muito igualado ao movimento da miséria”, o que fazia Ellis, do ponto de vista de seu patrão, ver “tudo preto, o mesmo preto exato da epiderme”. A narração, em sua presunção, beira o absurdo. Ellis era criado de Belazarte e sua condição exigia dele comedimento e cuidado no tratamento com seu patrão. A interpretação de Belazarte, no entanto, é a de que o comedimento era resultado da miséria que o rebaixava, igualando-o a ela de forma a tornar o narrador um benfeitor por ter dado emprego a tão desgraçada e, ao mesmo tempo, bela e potencialmente boa criatura. Belazarte, num lance, mistura comportamento tipicamente senhorial (com toda a lógica regressiva própria da organização patriarcal do Brasil escravista), filantropia, cuidado, atenção e superioridade de classe.
O segundo parágrafo do trecho reforça essa perspectiva cindida e problemática de Belazarte, desde o elogio do belo “criado moral”, “de inteira confiança, discreto, e sobretudo amigo” que Ellis foi para ele, até a acusação de preguiça e falta de vontade (“moleza chegou ali, parou”; acusação, aliás, até hoje muito comum nos discursos cotidianos a respeito da insuperável pobreza dos pobres, fruto, como muitos gostam de defender, da “falta de dedicação” aos estudos e ao trabalho...). A ideia de amizade, dado o desnível opressivo da relação, confunde-se com submissão, ou melhor, capacidade de agir sempre absolutamente de acordo com as expectativas do patrão, mesmo quando elas não são anunciadas verbalmente. Veja a esse respeito o seguinte trecho:
-Ellis, você já sabe ler?... Uhm... acho que vou ensinar francês pra você, porque si um dia eu for pra Europa, não vou sem você.
-Si seu Belazarte for, eu vou também.
Sempre com o mesmo respeito.
Às vezes eu chegava em casa sorumbático, moído com a trabalheira do dia, Ellis não falava nada, nem vinha com amolação, porém não arredava pé ale lembrar que no início do conto, quando Belazarte decide ter um “criado só pra” ele, o narrador descreve uma de suas fantasias: “Achava gostoso esses pedaços de cinema: o dono vai saindo, vem o criado com chapéu e bengala na mão, ‘Prudêncio, hoje não bóio em casa, querendo sair, pode. Te logo’. ‘Té logo, seu Belazarte’.”
O uso da expressão “dono”, ao invés de patrão, e o nome do criado, Prudêncio, que imediatamente faz pensar no famoso escravo menino de Brás Cubas, não disfarçam o ranço escravista, que se confirmará ao longo do conto como um dos elementos que compõem a consciência social do narrador.
Esse tipo de comportamento é bem comum à literatura brasileira; basta, por exemplo, lembrar de José Dias, o famoso agregado da família Santiago em Dom Casmurro, de Machado de Assis, que, como dizia o narrador, “sabia opinar obedecendo”. Ou ainda, apesar de se tratar de relações de tipo diferente, do comportamento submisso do próprio Bentinho diante da mãe(“Faço o que mamãe quiser” etc.).
A presunção de superioridade e o despeito contra tudo o que não é ele mesmo cinde a consciência narrativa profundamente, tornando a desejada aproximação entre classes numa fantasia ambivalentemente violenta, expressa nas três mortes (da esposa, do filho e dele próprio) a selarem o triste e inexorável destino de Ellis e que dão título ao conto de Belazarte.

Belazarte-alter ego de Mário de Andrade (1893-1945).
Tem sua origem nas Crônicas de Malazarte, publicadas pelo autor na revista América Brasileira entre 1923 e 1924.Reunidos em 1934,Os contos de Belazarte foram modificados pelo autor para a segunda edição,de 1944,até chegar à presente configuração.
  Na década de 1920,o Brasil ingressava com dificuldades na modernidade,e São Paulo era a porta para entrada dessa modernização tardia.Industrializando-se e urbanizando-se aos poucos,em muitos aspectos a cidade-e o país -continuava amarrada à tradição rural.
  É esse o contexto dos contos de Belazarte,que Mário de Andrade começou a publicar na revista América Brasileira ainda nos anos 20.Nessas narrativas,introduzidas sempre pela frase "Belazarte me contou" , o autor tentou tentou,segundo ele próprio,"grafar exatamente,com o mais contraditório realismo, as inconsequências da fala popular",pesquisa de linguagem de utilizaria em Amar, verbo intrasitivo (1926) e que chegaria ao ápice em Macunaíma, o herói sem nenhum caráter (1928).
  O Narrador recolhe casos de periferia de São Paulo,distantes de sua própria realidade."Tristonho e Realista", como o qualifica Mário de Andrade,narra histórias de mães e filhos, de meninas que se tornam mulheres, das comunidades de italianos recém-imigrados, a outra face da sociedade urbana brasileira, representada em Amar, verbo intransitivo pela burguesia industrial. Ao mesmo tempo que encontramos em Belazarte as contradições da sociedade e da modernização,os contos se aproximam da angústia do homem preso em seu cotidiano sem brilho,desenraizado e muitas vezes coberto de sofrimento.
  O pessimismo dos Contos de Belazarte é um traço do narrador,que ganhou uma voz tão particular que o autor quase não reconhecia os textos  como seus. "Belazarte não sou eu", afirma Mário, invertendo a famosa defesa de Flaubert."Por isso tudo Belazarte existe e estes 'meus' contos ele é que os contou."Mas,certamente,é uma das faces do escritor plural que disse ser trezentos,trezentos e cinquenta."


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