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Segue Contos de Belazarte!
Leitura da obra na íntegra, click no link abaixo:
http://minhateca.com.br/vanessynha_fq/Mario+de+Andrade+-+Os+Contos+de+Belazarte
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CONTOS DE BELAZARTE
MÁRIO DE ANDRADE
O AUTOR
Mário
Raul de Morais Andrade nasceu em São Paulo, em 1893. Um espírito inquieto
animava sua impressionante atividade cultural: professor de música, grande
pesquisador do folclore, colaborador de vários jornais e revistas, poeta,
romancista, critico literário, critico musical, ensaísta de arte, folclore,
literatura e música.
No ano de
1917, três fatos importantes: morte do pai; conclusão do curso de piano; e Há
uma gota de sangue em cada poema, primeiro livro, publicado sob o pseudônimo de
Mário Sobral. Nessa altura, Mário já adquiria fama de erudito. A participação
na Semana, a publicação de Paulicéia desvairada e a nomeação como professor
catedrático do. Conservatório Dramático e Musical de São Paulo consolidavam o
prestigio de Mário de Andrade. A cidade de São Paulo, sua mais profunda paixão,
constitui tema freqüente de sua obra. Por volta de 1934, Mário foi chefe do
Departamento de Cultura de São Paulo. Quatro anos depois, motivos políticos
provocaram seu afastamento e a mudança para o Rio, onde exerceu o cargo de
professor da Universidade do Distrito Federal. Lá ficou pouco tempo. A ligação
com São Paulo era muito forte. A Segunda Guerra Mundial afetou profundamente o
ânimo do poeta. Parece que essa foi uma fase de grande angústia existencial.
Na tarde
de 25 de fevereiro de 45, faleceu Mário de Andrade, que pedira num de seus
poemas:
Meus pés
enterrem na rua Aurora,
No Paissandu deixem meu sexo.
Na Lopes Chaves a cabeça
Esqueçam
No Pátio do Colégio afundem
o meu coração paulistano...
No Paissandu deixem meu sexo.
Na Lopes Chaves a cabeça
Esqueçam
No Pátio do Colégio afundem
o meu coração paulistano...
O POETA
Presença de
aspectos múltiplos
1) Poeta
folclórico
Nutre sua
poesia de lendas e assuntos do povo
2) Poeta
do cotidiano
Transfigura
fatos cotidianos fazendo destes ponto de partida para aventuras poéticas
3) Poeta
de si mesmo
Procura
coisas inefáveis nas profundezas de suas águas através de mergulhos
4) Poeta
criador de Poética
Procura
novos meios de expressão para a sua aventura
grande
variedade de temas entre os quais se destacam: Brasil, conhecimento amoroso,
auto-conhecimento e conhecimento da conduta em face do mundo;
encontro
do poeta com si mesmo que apresenta-se de partir de Remate onde apresenta-se
sob forma de extraordinária identificação com o inefável.
grande
virtude poética no ato de olhar as coisas e senti-las, quaisquer que elas
sejam, e de trazê-las para um plano em que a sua experiência poética as
transforma em fontes eternas de beleza. A virtude não está não está nem nas
palavras nem no assunto.
OBRAS
Poesia
"Há
uma gota de sangue em cada poema" é o primeiro livro de poemas. Feito sob
o impacto da Primeira Guerra, apresenta poucas novidades estilísticas. Poucas,
mas suficientes para incomodar a crítica mais acadêmica, que não gostou do
livro. o trecho seguinte ilustra a linguagem da obra.
Paulicéia
Losango cáqui, segundo o próprio poeta, constitui-se de "sensações,
idéias, alucinações, brincadeiras, liricamente anotadas ". Em outras
palavras, o cotidiano de sua vivência transformado em poesia.
Clã do
jabuti, certamente resultado das viagens culturais do autor, vale-se do
folclore, de costumes e linguagem regionais, numa tentativa de analisar a
diversidade cultural do Brasil. Essa intenção de Mário evidencia-se já no
titulo de alguns poemas: "Noturno de Belo Horizonte", "Carnaval
carioca", "Moda da cadeia de Porto Alegre", "Dois poemas
acreanos".
Remate de
males, além de dar seqüência à temática principal da obra anterior, de caráter
nacionalista, apresenta poemas líricos que expressam o mundo interior do poeta.
desvairada vinha repleto de inovações que logo transformaram o livro numa
espécie de ponto de referência obrigatório para os modernistas. Além disso,
trazia o "Prefácio interessantíssimo", escrito em versos, no qual
Mário de Andrade expôs sua teoria poética, denominada desvairismo.
"Lira
Paulistana" retoma, numa perspectiva diversa, o mesmo tema de Paulicéia
desvairada, ou seja, São Paulo. Nessa obra está o longo poema "A meditação
sobre o Tietê", provavelmente o último poema escrito por Mário e
considerado uma obra-prima de sua poesia. o Tietê é o rio que está à margem de
São Paulo.
Poesia:
Há uma
gota de sangue em cada poema (1917)
Paulicéia
desvairada (1922)
Losango
cáqui (1926)
Clã do
jabuti (1927)
Remate de
males (1930)
Poesia
(1941)
Lira
paulistana, seguida de O carro da miséria (1946).
Conto
Os contos
mais significativos acham-se em Belazarte e em Contos novos. No primeiro, a
escolha do assunto predominante - o proletariado em seu problemático dia-a-dia
- mostra a preocupação do autor na denúncia das desigualdades sociais. No
segundo, constituído de textos esparsos reunidos em publicação póstuma 1946)
estão os contos mais importantes como Primeiro de mato, o peru de Natal e
Frederico Paciência. Pela extensão, nenhum deles pôde ser transcrito neste
volume.
Contos
Primeiro
andar (1926)
Belazarte
(1934)
Contos
novos (1946).
Romance
O
primeiro romance data de 1927: Amar, verbo intransitivo. Nele, Mário desmascara
o convencionalismo da burguesia paulistana - como já fizera no poema estudado
nesta unidade. A história que serve de veículo a este objetivo é a de um rico
industrial que contratou uma governanta (Fràulein) para ensinar alemão aos
filhos. Na verdade, essa tarefa era apenas uma fachada para a verdadeira missão
de Fräulein: a iniciação sexual de Carlos, filho mais velho do industrial.
Em 1928
publicou-se Macunaíma, a obra mais importante de Mário de Andrade. Ela foi
classificada pelo autor não como romance, mas como rapsódia. Como nas rapsódias
musicais, que se utilizam da colagem de elementos extraídos de cantos populares
tradicionais, a obra resulta da utilização de lendas, ditos, provérbios,
máximas, em resumo, fragmentos da cultura popular sul-americana, reunidos em
torno da personagem central - Macunaíma, o herói sem nenhum caráter. A
narrativa pode ser assim resumida: Macunaíma nasce sem pai, na tribo dos índios
Tapanhumas, às margens do rio Uraricoera. Morta á mãe, Macunaíma e os irmãos
partem em busca da aventura. Do encontro com as Amazonas resulta o casamento de
Macunaíma com Ci, a mãe do mato. Ci dá à luz um menino que morre e se
transforma na planta do guaraná. Pouco depois, sentindo que vai morrer de
desgosto, Ci dá a Macunaíma um amuleto, pedra muiraquitã. Ci morre pouco
depois, transformada em estrela - a beta do Centauro. O amuleto, que o herói
tinha perdido, reaparece nas mãos de Venceslau Pietro Pietri mascate peruano
que morava em São Paulo e que na verdade é Piaimã, o gigante antro pófago. Um
passarinho dá noticias do amuleto a Macunaíma. Acompanhado dos irmão - Jiguê e
Maanape -, Macunaíma desce o rio Araguaia, a caminho de São Paulo, visar do a
recuperar seu amuleto. Após inúmeras aventuras em sua caminhada, o herói
recupera o amuleto, matando Piaimã. Logo em seguida, a pedra desaparece
novamente. Perseguido pelo minhocão Oibê, Macunaíma percorre todo o Brasil e
volta para o Amazonas. Um dia, desgostoso e solitário, resolve subir ao céu,
transformando-se na constelação da Ursa Maior.
Romance:
Amar
verbo intransitivo (1927)
Macunaíma
(1928).
Ensaio:
A escrava
que não é Isaura (1925)
Música do
Brasil (1941)
O
movimento modernista (1942)
O
empalhador de passarinhos (1944)
A OBRA CONTOS DE BELAZARTE
1Fazem
parte deste livro os seguintes contos:
2O
Besouro e a Rosa;
3Jaburu
malandro;
4Caim,
Caim e o resto;
5Menina
de ôlho no fundo;
6Túmulo,
túmulo, túmulo;
7Piá não
sofre? Sofre;
8Nízia
Figueira, sua criada.
Em Contos
de Belazarte, o autor lança um olhar ácido e, ao mesmo tempo, poético, sensível
e tocante sobre o cotidiano, os sentimentos e relações da pequena burguesia e
das pessoas excluídas da sociedade: mulheres pobres, proletários, crianças,
empregados, solteironas,…
Na obra,
narrador e personagem surgem como um dos debatedores nas “Crônicas de
Malazarte”, como antagonista ao grande otimismo da personagem que dá título às
crônicas. A construção de Malazarte, por sua vez, liga-se, entre outras coisas,
a Pedro Malasartes, personagem importante das narrativas orais populares
brasileiras.
O livro,
escrito em 1933 reúne sete contos escritos por Mário de Andrade entre 1923 e
1926: “O besouro e a Rosa”, “Jaburu Malandro”, “Caim, Caim e o resto”, “Menina
de olho no fundo”, “Túmulo, túmulo, túmulo”, “Piá não sofre? Sofre.” e “Nízia
Figueira, sua criada”. Situados na São Paulo da década de 1920, os contos
focalizam a cidade não a partir do centro, mas da periferia, com atenção
especial aos incipientes bairros pobres da São Paulo de então, como a Lapa e o
Brás. Ao que tudo indica, a escolha do foco é bastante deliberada, pois trata
de problematizar o momento histórico, tendo em vista produzir um contraponto à
euforia frente àmodernização
que tomava conta de parte da literatura dos anos 1920. E, ao fazer isso, configura
uma apreensão sofisticada do processo de modernização paulistano tal como se
apresentava na época. Uma das marcas narrativas mais importantes dos contos é o
uso intensivo do discurso oral, que redunda na duplicação dos narradores (o
oral e o escrito), explicitada pela rubrica “Belazarte me contou”, que é
reincidente em todas as narrativas. A proximidade com o oral, por um lado,
tende a reforçar a contingência, a aparência de apego imediato à circunstância
e ao pitoresco, mas, por outro, quando colocada em seu devido lugar no projeto
do escritor, resulta num elemento fundamental para se entender os experimentos
formais em curso nesses contos. Nesse sentido, o uso intensivo e consequente do
discurso oral, ao aproximar as narrativas do modo de contar próprio da tradição
oral e popular, acaba por impregnar os contos de aspectos da narrativa de tipo
tradicional, fruto da experiência comunitária direta e difundida pelo domínio
do conhecimento oral e tradicional.
Outro
ponto importante é que os contos parecem o tempo todo apelar para nossa “moral ingênua”,
apresentando histórias que, de modo geral, despertam imediatamente no leitor a
sensação de injustiça, de situação que precisa se reparada.
A pobre
Rosa, vivendo sequestrada do mundo, uma “freirinha” confinada aos afazeres
domésticos de sua vida de “cria da casa” das tias solteironas; o pobre João,
padeirinho pobre, esforçado e “bom moço” que quer encontrar uma moça para casar
e que é duas vezes preterido; os irmãos Aldo e Tino, que entram em conflito
pelo amor de uma vizinha, destruindo a antiga união entre eles; as duas
mulheres solitárias, Nízia Figueira e Prima Rufina, vivendo apartadas do mundo
numa chácara; o professor de música do conto “Menina de olho no fundo”, que
perde o emprego por capricho de uma aluna; o pobre Ellis lutando contra a
miséria e tentando, por meio do esforço e do trabalho, construir uma vida para
ele, sua esposa e filho; e, talvez no pior de todos os exemplos, Paulino, um
menino de quatro anos que vive a miséria em várias expressões: a fome, o
abandono, a falta de carinho e cuidado, a humilhação, numa série de injustiças
e brutalidades já anunciada no título do conto (“Piá não sofre? Sofre.”), entre
outros exemplos.
A esses
motes tão “evidentemente injustos”, soma-se a presença de outra estrutura
típica da forma do Conto: a presença de certa “moral da história”, que, a
partir da compensação moral, restabelece o sentimento de justiça, garantindo o
final feliz consumado no fecho tradicional, “e foram felizes para sempre”.
Belazarte lança mão do fecho tradicional do Conto aparece, mas com sinal
trocado: Literatura e Autoritarismo, Espaço Urbano e Experiências de Desolação
e Violência.
Ou seja,
nas narrativas de Mário de Andrade, encontra-se a mesma fatalidade do Conto,
mas pelo avesso: ao invés de destinados à felicidade, à recompensa e ao
restabelecimento da ordem e da justiça ingênuas, em Belazarte, as personagens
parecem fadadas à infelicidade, ao sofrimento e à injustiça: Rosa não apenas
não encontra seu príncipe como acaba casada com um “besouro”, o bêbado Pedro
Mulatão; Carmela vê frustrados seus sonhos de uma vida diferente daquela que as
moças de sua idade e inserção social tinham, pois o “príncipe” que a resgataria
desse lodo foge de mansinho, de madrugada, quando sente que o namorico começava
a ficar mais sério e comprometedor. Ou ainda, a morte não só não é abolida como
é sadicamente reposta e enfatizada, como que decretando a impossibilidade de
superação da miséria,
tal como ocorre em “Túmulo, túmulo, túmulo”.
Aliás, se
a forma do Conto está presente e afirmada em Belazarte, ao mesmo tempo, é
negada e invertida. O tempo todo a estrutura está presente, mas com sinal trocado.
A presença de elementos da “forma simples” cria no leitor uma expectativa de
compensação que não vem; ao contrário, o sentimento de injustiça desenvolve-se
num crescendo que culmina numa sensação de perplexidade, imobilidade e morte,
comum ao desfecho de todas as narrativas. A mobilidade, a agilidade do relato
de Belazarte choca-se com a negatividade, o imobilismo, a inexorabilidade dos
destinos apresentados, tornando ainda mais angustiante o reconhecimento do
fracasso das personagens, do narrador e do mundo narrado.
Nos
contos, vista da periferia de São Paulo, a compensação moral desaparece e
nenhum conforto é oferecido ao sofredor e ao injustiçado. O narrador aponta a
injustiça, reconhece-a, incomoda-se com ela, mas é como se, ao mesmo tempo,
culpasse as personagens, expressando uma consciência problemática e
contraditória que não consegue decidir se as personagens
são vítimas, culpadas ou o quê. O resultado dessa oscilação é um discurso
constitutivamente irônico, às vezes sádico, que se compadece e, ao mesmo tempo,
vê o sofrimento como inexorável, senão como merecido.
Nenhuma
personagem do livro permite analisar o ponto de vista de Belazarte tão bem
quanto Ellis, do conto “Túmulo, túmulo, túmulo”, empregado pessoal do narrador:
“Ellis
era preto, já disse... Mas uma boniteza de pretura como nunca eu tinha visto
assim. Como linhas até que não era essas coisas, (...), porém aquela cor
elevava o meu criado a tipo-de-beleza
da raça tizia. /.../ É verdade que os dentes eram brancos, mas isso raramente
se enxergava,
porque Ellis tinha um sorriso apenas entreaberto. Estava muito igualado com o
movimento da miséria pra andar mostrando gengiva a cada passo. A gente tinha
impressão de que nada o espantava mais, e que Ellis via tudo preto, o mesmo
preto exato da epiderme.
Como
criado, manda a justiça contar que ele não foi inteiramente o que a gente está
acostumado a chamar de criado bom. Não é que fosse ruim não, porém tinha seus carnegões,
moleza chegou ali, parou. Limpava bem as coisas, mas levava uma vida pra limpar
esta janela. E depois deu de sair muito, não tinha noite que ficasse em casa.
Mas no sentido de criado moral, Ellis foi sublime. De inteira confiança,
discreto, e sobretudo amigo. Quando eu asperejava com ele, escutava tudo num
desaponto que só vendo. Sei que eu desbaratava, ia desbaratando, ia ficando sem
assunto para desbaratar, meio com dó daquele tão humilde que, a gente percebia,
não tinha feito nada por mal. O começo já é típico e sintomático: Ellis era
preto, “mas uma boniteza de pretura”.
A
adversativa só se explica pelo preconceito que ela pressupõe.
Como se
sabe, a expressão é uma das versões mais comuns do preconceito racial e de classe
no Brasil, cujas fórmulas são bem conhecidas: pobre mas inteligente, preto mas honesto,
pobre mas feliz, preto mas educado etc. Além disso, segundo o que nos diz
Belazarte, a beleza de Ellis vinha do preto “opaco”, “doce e aveludado” da
epiderme, que compunha uma beleza que, aos olhos do narrador, era exemplar, mas
que, no entanto, convivia com um sorriso apenas entreaberto, pois o rapaz
estava “muito igualado ao movimento da miséria”, o que fazia Ellis, do ponto de
vista de seu patrão, ver “tudo preto, o mesmo preto exato da epiderme”. A
narração, em sua presunção, beira o absurdo. Ellis era criado de Belazarte e
sua condição exigia dele comedimento e cuidado no tratamento com seu patrão. A
interpretação de Belazarte, no entanto, é a de que o comedimento era resultado
da miséria que o rebaixava, igualando-o a ela de forma a tornar o narrador um
benfeitor por ter dado emprego a tão desgraçada e, ao mesmo tempo, bela e
potencialmente boa criatura. Belazarte, num lance, mistura comportamento
tipicamente senhorial (com toda a lógica regressiva própria da organização
patriarcal do Brasil escravista), filantropia, cuidado, atenção e superioridade
de classe.
O segundo
parágrafo do trecho reforça essa perspectiva cindida e problemática de
Belazarte, desde o elogio do belo “criado moral”, “de inteira confiança,
discreto, e sobretudo amigo” que Ellis foi
para ele, até a acusação de preguiça e falta de vontade (“moleza chegou ali,
parou”; acusação, aliás, até hoje muito comum nos discursos cotidianos a
respeito da insuperável pobreza dos pobres, fruto, como muitos gostam de
defender, da “falta de dedicação” aos estudos e ao trabalho...). A ideia de
amizade, dado o desnível opressivo da relação, confunde-se com submissão, ou
melhor, capacidade de agir sempre absolutamente de acordo com as expectativas
do patrão, mesmo quando elas não são anunciadas verbalmente. Veja a esse
respeito o seguinte trecho:
-Ellis,
você já sabe ler?... Uhm... acho que vou ensinar francês pra você, porque si um
dia eu for pra Europa, não vou sem você.
-Si seu
Belazarte for, eu vou também.
Sempre
com o mesmo respeito.
Às vezes
eu chegava em casa sorumbático, moído com a trabalheira do dia, Ellis não falava
nada, nem vinha com amolação, porém não arredava pé ale lembrar que no início
do conto, quando Belazarte decide ter um “criado só pra” ele, o narrador
descreve uma de suas fantasias: “Achava gostoso esses pedaços de cinema: o dono
vai saindo, vem o criado com chapéu e bengala na mão, ‘Prudêncio, hoje não bóio
em casa, querendo sair, pode. Te logo’. ‘Té logo, seu Belazarte’.”
O uso da
expressão “dono”, ao invés de patrão, e o nome do criado, Prudêncio, que
imediatamente faz pensar no famoso escravo menino de Brás Cubas, não disfarçam
o ranço escravista, que se confirmará ao longo do conto como um dos elementos
que compõem a consciência social do narrador.
Esse tipo
de comportamento é bem comum à literatura brasileira; basta, por exemplo, lembrar
de José Dias, o famoso agregado da família Santiago em Dom Casmurro, de Machado
de Assis, que, como dizia o narrador, “sabia opinar obedecendo”. Ou ainda,
apesar de se tratar de relações de tipo diferente, do comportamento submisso do
próprio Bentinho diante da mãe(“Faço o
que mamãe quiser” etc.).
A
presunção de superioridade e o despeito contra tudo o que não é ele mesmo cinde
a consciência narrativa profundamente, tornando a desejada aproximação entre
classes numa fantasia ambivalentemente violenta, expressa nas três mortes (da
esposa, do filho e dele próprio) a selarem o triste e inexorável destino de
Ellis e que dão título ao conto de Belazarte.
Belazarte-alter ego de Mário de Andrade (1893-1945).
Tem sua origem nas Crônicas de Malazarte, publicadas
pelo autor na revista América Brasileira entre 1923 e 1924.Reunidos em 1934,Os
contos de Belazarte foram modificados pelo autor para a segunda edição,de
1944,até chegar à presente configuração.
Na década de 1920,o Brasil ingressava com
dificuldades na modernidade,e São Paulo era a porta para entrada dessa
modernização tardia.Industrializando-se e urbanizando-se aos poucos,em muitos
aspectos a cidade-e o país -continuava amarrada à tradição rural.
É esse o contexto dos contos de Belazarte,que
Mário de Andrade começou a publicar na revista América Brasileira ainda nos
anos 20.Nessas narrativas,introduzidas sempre pela frase "Belazarte me
contou" , o autor tentou tentou,segundo ele próprio,"grafar
exatamente,com o mais contraditório realismo, as inconsequências da fala
popular",pesquisa de linguagem de utilizaria em Amar, verbo intrasitivo
(1926) e que chegaria ao ápice em Macunaíma, o herói sem nenhum caráter (1928).
O Narrador recolhe casos de periferia de São
Paulo,distantes de sua própria realidade."Tristonho e Realista", como
o qualifica Mário de Andrade,narra histórias de mães e filhos, de meninas que
se tornam mulheres, das comunidades de italianos recém-imigrados, a outra face
da sociedade urbana brasileira, representada em Amar, verbo intransitivo pela
burguesia industrial. Ao mesmo tempo que encontramos em Belazarte as
contradições da sociedade e da modernização,os contos se aproximam da angústia
do homem preso em seu cotidiano sem brilho,desenraizado e muitas vezes coberto
de sofrimento.
O pessimismo dos Contos de Belazarte é um
traço do narrador,que ganhou uma voz tão particular que o autor quase não
reconhecia os textos como seus. "Belazarte não sou eu", afirma
Mário, invertendo a famosa defesa de Flaubert."Por isso tudo Belazarte
existe e estes 'meus' contos ele é que os contou."Mas,certamente,é uma das
faces do escritor plural que disse ser trezentos,trezentos e cinquenta."
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