Segue O BOM CRIOULO
Para ler a obra na íntegra, click no link abaixo:
http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bn000052.pdf
O BOM CRIOULO
O AUTOR
ADOLFO CAMINHA
José
Adolfo Ferreira Caminha nasceu na cidade de Aracati, no Ceará, em 1867, mas se
mudou para o Rio de Janeiro com a família ainda na infância.
Caminha
começou a escrever quando trabalhava como guarda-marinha. Seu primeiro romance
foi publicado em 1893. Intitulada "A Normalista", a obra traça um
quadro pessimista da vida urbana. Mais tarde, em 1894, lança "No País do
Ianques", resultado de suas observações de viagem aos Estados Unidos.
No ano
seguinte, escreve "Bom Crioulo", seu penúltimo romance. O último,
"Tentação", viria a ser lançado em 1896, um ano antes de sua morte.
A OBRA
O
romance Bom-Crioulo,
de Adolfo Caminha, faz parte do Realismo e do Naturalismo. A história de paixão
e tragédia não é produto de fantasia romântica, mas baseada num fato real que
escandalizou o Rio de Janeiro no século XIX.
Caminha
constrói a partir de um fato verídico, uma ficção forte, ousada, muito atual
até os dias de hoje.
Fez isso para chocar e se vingar da sociedade hipócrita que o rodeava.
Fez isso para chocar e se vingar da sociedade hipócrita que o rodeava.
“Bom-Crioulo” foi publicado em 1895. Típico romance de tese, interessado em analisar personalidades fora da normalidade, é considerado por muitos a obra-prima de Adolfo Caminha e, ao lado de “O cortiço”, de Aluísio Azevedo, um dos melhores romances do Naturalismo brasileiro.
É mais que sabido o quanto o Naturalismo brasileiro é devedor do Naturalismo francês.
Foi nas leituras de Zola, principalmente, que nossos escritores do período se formaram e se embasaram das teorias e do estilo dessa escola.
Teoricamente, foi por meio do cientificismo reinante no período que se traçaram as principais linhas ideológicas, temáticas e estilísticas a ser seguidas: no determinismo taineano; no positivismo de Augusto Comte e no evolucionismo darwiniano repousavam os preceitos ideológicos principais da escola. Tratava-se de dar um escopo de ciência exata às ciências humanas, à arte em geral e à literatura em particular.
Estilisticamente, o descritivismo deu o tom.
Zola adotou e difundiu o registro direto e minucioso da realidade como prática mais eficiente e adequada às necessidades artísticas do seu tempo.
Georg Lukács viu no descritivismo uma prática estilística que nivelava o que deveria ser resultado de uma distinção e ordenação por parte do narrador (“A narração distingue e ordena, a descrição nivela todas as coisas”).
O romance naturalista, para ele, seria uma má alegoria da realidade, ao se ater à pura observação desta.
Caminha trabalhou na Marinha e pode conhecer por sua própria experiência os tipos que se movimentam por esse seu romance.
A história de paixão e tragédia que anima essas páginas não é produto de uma fantasia romântica, mas baseada em fato real, que escandalizou o Rio de Janeiro do século XIX. Estimulado pelos pressupostos estéticos do Naturalismo e pelo desejo de chocar e se vingar da sociedade hipócrita que o rodeava, o autor constrói a partir de um fato verídico uma ficção forte, ousada, que ainda hoje é atual.
Bom-Crioulo, publicado em 1895, é dividido em 12 capítulos, onde a ação se passa na segunda metade do século XIX, no Rio de Janeiro.
Destacam-se o espaço aberto, normalmente dias claros e quentes, o mar aberto, e o espaço fechado do quartinho de Amaro.
Boa parte da força e da eficácia de Bom-Crioulo está no manejo lúcido que o autor faz desses conflitos, escolhendo o quê, quando e como contar deste verdadeiro enredo de notícia de jornal sensacionalista. A narrativa é simples e direta, mas tem as suas manhas: não entrega o jogo facilmente, cria suspenses, vai e volta no tempo, de modo a dar a cada momento, a cada situação, a sua atualidade e a sua história, o seu desenvolvimento próprio.
Assim, o enredo central se desdobra em alusões a muitas outras histórias; e o dia-a-dia do século XIX brasileiro se insinua a cada passo, fazendo ecoar as falas e as ações das personagens centrais.
A intenção do romance resume-se em acompanhar as personagens em seu movimento, como se fosse o expectador que registra a evolução do drama alheio sem interferir. Nele tudo caminha numa ordem inalterável até o epílogo, com uma supervalorização do instinto sobre os sentimentos, do animal sobre o racional.
O NATURALISMO, 1882:
Características:
Realismo
exacerbado;
Homem:
ser biológico, produto do meio (Determinismo, Evolucionismo).
Apresenta
o lado patológico do indivíduo e da
sociedade;
Deixa
transparecer a necessidade de reforma social; o determinismo nas relações entre
o homem e o ambiente, onde o homem é produto do meio; hereditariedade.
Autor:
Aluísio Azevedo-Obra: O Cortiço – O Mulato – Casa de Pensão
Autor:
Raul Pompéia: O Ateneu
Adolfo
Caminha: A Normalista, O bom crioulo.
FOCO NARRATIVO
Narrado
em 3ª pessoa, por narrador onisciente, percebe-se que as inúmeras descrições
que aparecem no romance, condizentes com a estética naturalista que privilegia
a observação meticulosa dos fatos, buscam não se confundir com a história, nem
com as personagens.
Preso
aos ideais do escritor naturalista — exatidão na descrição, apelo à minúcia e
culto ao fato — o narrador conta a história de modo linear, gradativo,
utilizando-se de uma linguagem clara, direta, objetiva, com poucos objetivos. O
que será importante são os fatos narrados e não a opinião que se pode ter sobre
eles. Não há, portanto, da parte desse narrador, qualquer julgamento moral das
personagens.
A
história quase se narra por si, pela exposição direta dos fatos, que vão
montando a estrutura narrativa, ou seja, a história das três personagens
envolvidas num caso de amor: Amaro, Carolina e Aleixo.
Temos um foco narrativo em terceira pessoa, com narrador onisciente. É bastante utilizado o discurso indireto livre para desvendar os pensamentos e sentimentos dos personagens, recurso que Caminha talvez tenha aprendido em Eça de Queirós, uma de suas maiores influências literárias.
Temos um foco narrativo em terceira pessoa, com narrador onisciente. É bastante utilizado o discurso indireto livre para desvendar os pensamentos e sentimentos dos personagens, recurso que Caminha talvez tenha aprendido em Eça de Queirós, uma de suas maiores influências literárias.
TEMÁTICA
O
tema principal é a dificuldade do amor homossexual, centrado na relação entre o
negro Amaro e o jovem e bonito Aleixo. Faz presente também o tema da mulher
madura que deseja um amante jovem. A originalidade de Bom-Crioulo se manifesta
no triângulo amoroso sobre o qual se sustenta. Tradicionalmente, um triângulo
amoroso é composto por dois homens em luta por uma mulher, ou duas mulheres que
disputam o mesmo homem. Em Bom-Crioulo,
Amaro e Aleixo são marinheiros e, acima de tudo, como tal se comportam,
favorecendo a anulação das diferenças étnicas, que se dá não pela ascensão do
negro fugido, mas pelo rebaixamento de ambos à condição de prisioneiros do
mesmo sistema e do “vício”. Por fim, o terceiro do triângulo é uma mulher que
atua como homem, pois conquista Aleixo em vez de ser conquistada. Adolfo
Caminha colhe ao vivo, de sua experiência como oficial da marinha, o material
do romance.
Este
tema do romance, a homossexualidade,
manifesta na construção do triângulo amoroso, é tratada com crueza e sem nenhum
indício de preconceito pelo escritor naturalista, que vê no vício um objeto de
estudo que deve ser esclarecido e compreendido.
A
homossexualidade, encarada no romance como vício ou perversão, é tratada,
portanto, através de um olhar naturalista e, consequentemente, limitado: não há
o enfoque mais subjetivo dos sentimentos despertados; não há autonomia do
caráter: as personagens estão acorrentadas às leis deterministas (não há drama
de consciência ou mesmo drama moral). Há uma resposta mecânica, instintiva aos
fatos e, nesse sentido, o livro perde um lado da questão, o que não esmaece sua
força e valor literário.
Outro
tema é a problemática da vida dos marinheiros, que ficam a maior parte do tempo
longe da terra e de mulheres, o sofrimento dos castigos corporais impiedosos e
rigorosos. Este é a temática que se entrelaça com o tema central.
TEMPO
Pelas descrições do ambiente do Rio de Janeiro, podemos afirmar que a história é contemporânea de sua publicação, isto é, acontece no final do século XIX, pouco tempo depois da proclamação da República no Brasil.
Predomina o tempo cronológico, mas não é possível precisar o intervalo em que ocorre a narrativa.
Quando Amaro vai para o couraçado, ficamos sabendo que ele e Aleixo estão juntos há cerca de um ano, mas a história prolonga-se por um tempo indefinido, até o desfecho com o assassinato do grumete.
Em alguns momentos, há o uso do flash-back, para recuperar as origens dos personagens principais ou quando Amaro, internado no hospital, se lembra dos bons tempos com Aleixo.
ESPAÇO
Podemos analisar o espaço dessa obra, dividindo-a em externo e interno.
Os cenários externos principais são contrastantes: a paisagem marítima descrita com um certo Romantismo ou, quando se trata da vida de marinheiro, descrições carregadas de Impressionismo, revelando um ambiente opresso e ofegante, como no momento em que os marinheiros estão para ser castigados.
A pobreza e a sujeira das ruas suburbanas do Rio de Janeiro acentuam o contraste com as descrições românticas do mar.
Os espaços internos são o interior da corveta, em alto-mar, onde Bom-Crioulo e Amaro se conhecem, e o sobradinho da Rua da Misericórdia, no Rio de Janeiro, onde vão viver em terra e, posteriormente, D. Carolina e Aleixo se amasiam.
Dentro da corveta, o ambiente é desagradável, repugnante mesmo, quando serve de cenário para os contatos mais íntimos entre Amaro e Aleixo.
É notável a competência com que Adolfo Caminha descreve o espaço do navio, pudera o autor cursou a Escola Naval e foi guarda-marinha e a passagem do Rio de Janeiro, principalmente a que se vê da orla marítima, aparecendo aqui e ali, ao longo da história.
O mesmo acontece na descrição do quarto do sobradinho em que vão viver Bom-Crioulo e Aleixo quando chegam ao Rio de Janeiro.
Essa caracterização negativa do espaço que envolve a relação “proibida e imoral” entre Bom-Crioulo e Aleixo tem um peso valorativo: funciona como uma crítica ao relacionamento homossexual, um julgamento moral: o espaço é decadente porque o que acontece entre os dois marinheiros também é decadente. Mas o mesmo não vale quando se trata de descrever o cenário dos encontros entre Aleixo e D. Carolina.
É valorizada a ação exterior, com destaque para cenas verdadeiramente cinematográficas, como os momentos de briga de rua, de luta para controlar a embarcação em dia de tempestade ou a cena dos castigos corporais a que deviam ser submetidos os marinheiros que infringiam o regulamento. Merecem o mesmo tratamento as cenas de sexo, que são interrompidas ou não chegam a detalhes explícitos em virtude da moral social que também atinge o escritor e sua preocupação prévia com a reação do leitor.
Pelas descrições do ambiente do Rio de Janeiro, podemos afirmar que a história é contemporânea de sua publicação, isto é, acontece no final do século XIX, pouco tempo depois da proclamação da República no Brasil.
Predomina o tempo cronológico, mas não é possível precisar o intervalo em que ocorre a narrativa.
Quando Amaro vai para o couraçado, ficamos sabendo que ele e Aleixo estão juntos há cerca de um ano, mas a história prolonga-se por um tempo indefinido, até o desfecho com o assassinato do grumete.
Em alguns momentos, há o uso do flash-back, para recuperar as origens dos personagens principais ou quando Amaro, internado no hospital, se lembra dos bons tempos com Aleixo.
ESPAÇO
Podemos analisar o espaço dessa obra, dividindo-a em externo e interno.
Os cenários externos principais são contrastantes: a paisagem marítima descrita com um certo Romantismo ou, quando se trata da vida de marinheiro, descrições carregadas de Impressionismo, revelando um ambiente opresso e ofegante, como no momento em que os marinheiros estão para ser castigados.
A pobreza e a sujeira das ruas suburbanas do Rio de Janeiro acentuam o contraste com as descrições românticas do mar.
Os espaços internos são o interior da corveta, em alto-mar, onde Bom-Crioulo e Amaro se conhecem, e o sobradinho da Rua da Misericórdia, no Rio de Janeiro, onde vão viver em terra e, posteriormente, D. Carolina e Aleixo se amasiam.
Dentro da corveta, o ambiente é desagradável, repugnante mesmo, quando serve de cenário para os contatos mais íntimos entre Amaro e Aleixo.
É notável a competência com que Adolfo Caminha descreve o espaço do navio, pudera o autor cursou a Escola Naval e foi guarda-marinha e a passagem do Rio de Janeiro, principalmente a que se vê da orla marítima, aparecendo aqui e ali, ao longo da história.
O mesmo acontece na descrição do quarto do sobradinho em que vão viver Bom-Crioulo e Aleixo quando chegam ao Rio de Janeiro.
Essa caracterização negativa do espaço que envolve a relação “proibida e imoral” entre Bom-Crioulo e Aleixo tem um peso valorativo: funciona como uma crítica ao relacionamento homossexual, um julgamento moral: o espaço é decadente porque o que acontece entre os dois marinheiros também é decadente. Mas o mesmo não vale quando se trata de descrever o cenário dos encontros entre Aleixo e D. Carolina.
É valorizada a ação exterior, com destaque para cenas verdadeiramente cinematográficas, como os momentos de briga de rua, de luta para controlar a embarcação em dia de tempestade ou a cena dos castigos corporais a que deviam ser submetidos os marinheiros que infringiam o regulamento. Merecem o mesmo tratamento as cenas de sexo, que são interrompidas ou não chegam a detalhes explícitos em virtude da moral social que também atinge o escritor e sua preocupação prévia com a reação do leitor.
O
romance se passa em dois espaços: no mar, a bordo de uma corveta, e na Rua da
Misericórdia, localizada nos subúrbios do Rio de Janeiro, nos fins do século
XIX. Os dois lugares são descritos em seus aspectos mais degradantes e
negativos, ressaltando a miséria daqueles que aí vivem.
A
abertura do romance se faz com uma detalhada descrição da corveta, local
inicial da ação.
Por
meio de uma descrição minuciosa e da riqueza de detalhes que ajudam a compor o
ambiente externo, percebe-se como o autor naturalista se debruça sobre o meio
que terá um papel decisivo no comportamento das personagens.
O
ambiente de bordo é marcado pelo trabalho duro e por uma vida sem privacidade,
o que possibilita a eclosão das mais diversas perversões. O ajuntamento de
homens favorecia a promiscuidade entre seres que vivenciam a solidão da
reclusão da vida no mar e que, sobretudo, sentiam a falta de liberdade, vítimas
de um sistema duro e cruel - a vida na Marinha:
Mas, havia ordem para não
desembarcar, e Bom-Crioulo, como toda a guarnição, passou a tarde numa sensaboria,
cabeceando de fadiga e sono, ocupado em pequenos trabalhos de asseio e manobras
rudimentares. - Diabo de vida sem descanso! O tempo era pouco para um
desgraçado cumprir todas as ordens. E não as cumprisse! Golilha com ele, quando
não era logo metido em ferros... Ah! Vida, vida!... Escravo na fazenda, escravo
a bordo, escravo em toda parte... E chamava-se a isso servir á Pátria!
Por
esse trecho, pode-se notar uma crítica implícita a Abolição dos Escravos que
parece não passar de uma ilusão, já que os homens provenientes das camadas mais
baixas da população continuam a ser explorados.
Num
segundo momento, a história se desloca para a terra, mais precisamente para um
quarto na Rua da Misericórdia, onde Amaro e Aleixo, após terem se conhecido no
navio, vivem o ápice e o declínio de seu relacionamento.
Ao
retratar o espaço urbano, Adolfo Caminha fala a respeito de um tipo de moradia
muito comum no Rio de Janeiro, durante o final do século XIX: as habitações
coletivas. Os habitantes dessas moradias eram brancos, mulatos e mestiços,
sempre pessoas exploradas. Ao redor dessas habitações, há a presença de
negociantes portugueses em ascensão, como o açougueiro que sustenta D.
Carolina, e que se aproveitam, de algum modo, da miséria dessas pessoas.
Desse
modo, o comportamento das personagens está condicionado pela pobreza do
ambiente que as circunda e que, por sua vez, é decorrente do momento histórico
por que passava o Brasil, durante o Segundo Reinado.
LINGUAGEM:
A principal marca do estilo naturalista é o descritivismo detalhista, visando à objetividade cientificista na narração, mas não se pode afirmar que Adolfo Caminha abuse desse recurso nesta obra. Pelo contrário: a influência de Eça de Queirós parece ter sido positivo no que toca ao uso parcimonioso das descrições aliado a uma exploração do mundo interior dos personagens, o Bom-Crioulo, em particular, por meio do discurso indireto livre.
Além disso, há em Caminha aquilo que Massaud Moisés chama de “lastro romântico que suportava a cosmovisão realista: veja-se a abundância de reticências que destroem a ideia de apreensão total das circunstâncias e objetos, que constituía apanágio do Realismo [Naturalismo], e chamam para o indefinido e a fantasia desatada, como algumas vezes acontece”.
Tal particularidade é perceptível nas descrições, por exemplo, no episódio da borrasca que atinge a corveta pouco antes do atracamento no Rio de Janeiro ou na cena de despedida para o primeiro embarque de Amaro.
É interessante notar, também, como o autor trabalha a linguagem para tratar do sexo. Tudo é dito objetiva e cruamente, mas nunca a própria consumação do ato sexual, o narrador esconde-se por detrás das palavras: quando do episódio da masturbação de Herculano (o Pinga) no navio (“cometendo, contra si próprio, o mais vergonhoso dos atentados”); quando da posse de Aleixo por Amaro (“E consumou-se o delito contra a natureza”); quando da polução de Amaro, no capítulo IV (“passou a mão no lugar úmido, e verificou, cheio de indignação, cheio de tédio, com um gesto de náusea, a irreparável perda que sofrera inconscientemente durante o sono”); e assim por todo o livro. Essa atitude é comum também quando se trata de expressões de baixo calão proferidas pelos personagens. Amaro nunca completa a expressão “ - ...que os pariu”. São sempre as mesmas reticências...
O crítico Antonio Candido explicou coerentemente esse aspecto nos naturalistas:
“Há, portanto, uma espécie de desgraçado do enfoque “natural” de Zola, quem sabe por causa de certo sentimento ateu do pecado, visível não apenas em Aluísio Azevedo, mas em Eça de Queirós, Abel Botelho, Adolfo Caminha, Júlio Ribeiro, que também receberam mais ou menos a sua influência. É como se na sociedades mais atrasadas e nos países coloniais o provincianismo tornasse difícil adotar o Naturalismo com naturalidade, e as coisas do sexo acabassem por despertar inconscientemente um certo escândalo nos que se julgavam capazes de enfrentá-las com objetividade desassombrada."
LINGUAGEM:
A principal marca do estilo naturalista é o descritivismo detalhista, visando à objetividade cientificista na narração, mas não se pode afirmar que Adolfo Caminha abuse desse recurso nesta obra. Pelo contrário: a influência de Eça de Queirós parece ter sido positivo no que toca ao uso parcimonioso das descrições aliado a uma exploração do mundo interior dos personagens, o Bom-Crioulo, em particular, por meio do discurso indireto livre.
Além disso, há em Caminha aquilo que Massaud Moisés chama de “lastro romântico que suportava a cosmovisão realista: veja-se a abundância de reticências que destroem a ideia de apreensão total das circunstâncias e objetos, que constituía apanágio do Realismo [Naturalismo], e chamam para o indefinido e a fantasia desatada, como algumas vezes acontece”.
Tal particularidade é perceptível nas descrições, por exemplo, no episódio da borrasca que atinge a corveta pouco antes do atracamento no Rio de Janeiro ou na cena de despedida para o primeiro embarque de Amaro.
É interessante notar, também, como o autor trabalha a linguagem para tratar do sexo. Tudo é dito objetiva e cruamente, mas nunca a própria consumação do ato sexual, o narrador esconde-se por detrás das palavras: quando do episódio da masturbação de Herculano (o Pinga) no navio (“cometendo, contra si próprio, o mais vergonhoso dos atentados”); quando da posse de Aleixo por Amaro (“E consumou-se o delito contra a natureza”); quando da polução de Amaro, no capítulo IV (“passou a mão no lugar úmido, e verificou, cheio de indignação, cheio de tédio, com um gesto de náusea, a irreparável perda que sofrera inconscientemente durante o sono”); e assim por todo o livro. Essa atitude é comum também quando se trata de expressões de baixo calão proferidas pelos personagens. Amaro nunca completa a expressão “ - ...que os pariu”. São sempre as mesmas reticências...
O crítico Antonio Candido explicou coerentemente esse aspecto nos naturalistas:
“Há, portanto, uma espécie de desgraçado do enfoque “natural” de Zola, quem sabe por causa de certo sentimento ateu do pecado, visível não apenas em Aluísio Azevedo, mas em Eça de Queirós, Abel Botelho, Adolfo Caminha, Júlio Ribeiro, que também receberam mais ou menos a sua influência. É como se na sociedades mais atrasadas e nos países coloniais o provincianismo tornasse difícil adotar o Naturalismo com naturalidade, e as coisas do sexo acabassem por despertar inconscientemente um certo escândalo nos que se julgavam capazes de enfrentá-las com objetividade desassombrada."
PERSONAGENS
Em
Bom-Crioulo,
Caminha constrói com segurança e coerência o personagem Amaro, mulato dominado
pela paixão homossexual, que o leva para caminhos sadomasoquistas à perversão e
finalmente ao crime. O autor soube manejar as cenas e personagens com
naturalidade.
As
personagens de um romance naturalista raramente são dotadas de alguma
profundidade psicológica. Muito próximas dos tipos, também chamados de
personagens planas, não evoluem no decorrer da narrativa, de forma que suas
ações apenas confirmam as poucas características que as definem.
Amaro:
AMARO, o Bom-Crioulo: personagem principal, ex-escravo, tem cerca de 30 anos. De início, bom marinheiro, respeitado pela seriedade, força e valentia. Mas aos poucos vai se tornando relaxado, principalmente depois de se apaixonar pelo grumete Aleixo.
Protagonista, ex-escravo convocado para a marinha.Trata-se de um homem muito forte, com trinta anos de idade e que não conseguiu realizar-se sexualmente com as mulheres.
Duas tentativas deram-lhe grande decepção e o deixaram frustrado. Só conseguiu consumar o ato com o jovem Aleixo.
Apresenta certa profundidade psicológica, mas que é totalmente envolvido por sentimentos e instintos que o dominam, impedindo-o de perceber com clareza a situação conflituosa que vive.
Algumas vezes, surgem percepções esparsas, mas nada suficientemente forte para modificar o destino do negro, movido pela paixão.
Por um lado, Amaro é extremamente forte fisicamente. Sua força provém do trabalho escravo e depois do trabalho na Armada, em que se engajara após ter fugido da fazenda. Os castigos físicos que lhe foram impingidos, tanto pelo feitor quanto a bordo, tornaram-lhe resistente e lhe deram a energia de um animal brioso.
A força do negro é realçada pelo narrador, numa das cenas iniciais do romance, por meio da descrição de uma cena em que Amaro está sendo punido com a chibata:
— Uma! cantou a mesma voz. — Duas!.., três!...
Aleixo:
adolescente, tem cerca de 15 anos, veio de família pobre de pescadores. Pele clara, olhos azuis, sua figura cativa a todos. Torna-se objeto das paixões de Amaro e D. Carolina. Morre tragicamente ao final.
Grumete, belo rapaz de olhos azuis, que embarca no sul. Tem quinze anos e mexe sexualmente com Amaro. Cede às investidas e caprichos do crioulo, mas quando aparece ocasião troca-o por uma mulher. Isso o leva ser assassinado por Amaro, por causa do ciúme. Aleixo surge desde o princípio como o oposto de Amaro: branco, fisicamente fraco e pueril, subjugado pelas circunstâncias e por quem lhe é mais forte — será assim com Amaro e com Carolina. O ar de submissão de Aleixo vai transfigurando-se, ao longo da narrativa, numa espécie de esperteza camaleônica. Nada sabemos sobre seu passado, a não ser que era filho de uma pobre família de pescadores que o tinham feito entrar para a Marinha em Santa Catarina. A ligação com Amaro oferece-lhe um novo mundo, bastante diferente daquele de sua origem, e que lhe propicia, acima de tudo, favores e proteção.
D. Carolina:
Portuguesa, ex-prostituta, 38 anos. A princípio, grata a Amaro por este ter lhe salvado a vida no passado, acaba roubando do Bom-Crioulo o grumete Aleixo, que seduz com sua experiência e o resto de sensualidade que lhe sobrou.
É amiga de Amaro por tê-lo salvo em um assalto e inimiga por depois conquistar o namorado do crioulo. D. Carolina era uma portuguesa que alugava quartos na Rua da Misericórdia somente a pessoas de “certa ordem”, gente que não se fizesse de muito honrada e de muito boa, isso mesmo rapazes de confiança, bons inquilinos, patrícios, amigos velhos... Não fazia questão de cor e tampouco se importava com a classe ou profissão do sujeito, Marinheiro, soldado, embarcadiço, caixeiro de venda, tudo era a mesmíssima cousa: o tratamento que lhe fosse possível dar a um inquilino, dava-o do mesmo modo aos outros. D. Carolina revela-se, desde o inicio, uma mulher de negócios, cuja mercadoria era seu próprio corpo. Teve seus revezes e conseguiu se reerguer, observando como poderia lucrar com os outros, já que também lucravam com ela. No entanto, vive só.
Herculano: marinheiro dotado de certa melancolia, imberbe, mórbido, solitário. Relaxado, tinha as unhas sujas. Evitava a companhia dos outros. Foi preso e castigado por ter sido apanhado se masturbando.
Agostinho:
Guardião do navio, especialista em aplicar chibatadas, é um sádico que se aproveita do seu ofício: adora castigar. O guardião. Homem de grande estatura, reforçado, especialista em dar chibatadas. Ama sua profissão, por isso permanecia a maior parte do tempo a bordo.
Santana: marinheiro que sofreu castigo por ter brigado com Herculano. Era gago, chorava com facilidade e era manhoso.
O reduzido número de personagens significativos na narrativa e a casualidade de alguns acontecimentos soltos na trama parecem denunciar o pouco fôlego de Adolfo Caminha como escritor. Exemplos desses acontecimentos são a “coincidência” da visita de Herculano ao hospital, quando diz a Amaro do destino de Aleixo, ou a presença fantasma do açougueiro amante de D. Carolina em algumas passagens do livro.
O crítico Georg Lukács chama a atenção para a necessidade de o escritor “superar na representação a casualidade nua e crua, elevando-a no plano da necessidade”.
Ou seja: não é que fatos casuais não possam ocorrer, mas eles precisam “ser exigidos” pela narrativa.
Quanto à questão da composição dos personagens, os três últimos anteriormente citados são meros esboços de figuras naturalistas, caricaturas de homens dominados por suas fraquezas. Mesmo D. Carolina e Aleixo caem no esquematismo descritivista observado por Lukács:
“As qualidades humanas passam a existir umas ao lado das outras e vêm descritas nesta compartimentalidade, em vez de se realizarem nos acontecimentos e de manifestarem assim a unidade viva da personalidade nas diversas posições por elas assumidas, bem como nas suas ações contraditórias. À falsa vastidão dos horizontes do mundo externo corresponde, no método descritivo, um estreitamento esquemático nas caracterizações humanas. O homem aparece como um “produto” acabado de componentes sociais e naturais de várias espécies. A profunda verdade social do entrecruzamento no homem de determinantes sociais com qualidades psico-físicas acaba sempre por se perder.
Não é o caso de Amaro. Este vive integralmente suas contradições, até as últimas consequências: reconhece em Aleixo a causa de sua decadência, mas vai até o fim no seu amor; seus ciúmes no hospital estão em constante contraste com sua saudade carregada de sensualismo; sabe o quanto o álcool lhe faz mal, mas procura-o como último recurso quando já não suporta a realidade.
Sua personalidade, ao longo de todo o romance, é mesmo aquela figura enlouquecida e apaixonada que, no último capítulo, caminha com desejo e ódio ao encontro de Aleixo e de seu destino."
Como bem notou Alfredo Bosi, Amaro é “coerente na sua passionalidade que o move, pelos meandros do sadomasoquismo, à perversão e ao crime”.
Analisando os personagens centrais da história:
AMARO
Amaro, de
raça negra, era escravo em uma fazenda, e nesta época, o momento não o ajudava,
pois, o Brasil ainda era um país adepto da escravatura.
Sendo
negro, não tinha chances de obter uma promoção na marinha, além é claro, de
cargos em que a força física é superior.
Condenado
por sua raça, Amaro via-se em um meio miserável, primeiro a caravela onde servia,
com pessoas também na miséria, baixa qualidade de vida...
Em terra
o que sobrava para Amaro, eram lugares baixos, vis e nojentos, povoados por
pessoas sem escrúpulos, prostitutas e mendigos.
No mar
esses fatores, principalmente o meio, levaram-no a caminhar em direção ao
homossexualismo. E que para ele, um caminho sem volta.
ALEIXO
Aleixo De
raça branca, não o impediu de conviver num meio deprimente. Sendo ingênuo, e a
isso seu momento não era favorável, pois ainda moço, desconhecia as maldades da
vida.
Influenciado
pela "esperteza" de Bom-Crioulo, foi levado para o Homossexualismo.
Nota-se que o assunto era tratado com naturalidade pelas pessoas que conviviam
naquele meio.
Por ser o
oposto de Bom-Crioulo, Aleixo, distante dele, consegue livrar-se do homossexualismo,
e mantêm uma relação amorosa com uma mulher, assim que muda, um pouco de meio.
Então, suas atitudes eram decorrentes do meio, tratado como um deslize, e longe
do meio em que estava, mudara.
Conclui-se
que, o determinismo, era favorável para Aleixo e completamente desfavorável
para Amaro.
O NATURALISMO
Visão
cientificista do Homem: Homem ligado ao animal, guiado por instintos,
comparando-o com animais, dando-lhes qualidades dos mesmos.
Sempre
comparando o homem com um animal, o romance segue a risca este pensamento.
Amaro
domina Aleixo em todo o romance associando que: o mais forte domina o mais
fraco. E assim é e, toda obra.
Outro
fator, é que, os personagens são movidos por instintos incontroláveis, que
regem suas vidas, como animais que agem por instintos, quando encurralados,
atacados, etc.
O homem é
comparado ao animal em suas ações, prevalecendo o instinto à razão.
"Era
incrível aquilo! A mulher só faltava urrar!" (pág. 47) "Trabalhara brutalmente;
não havia resistir à fadiga. Momentos há em que os próprios animais caem
extenuados ..." (pág. 33) Não faz seleção do que vai falar: O narrador não
seleciona um assunto determinado, nem segue uma rota para sua narrativa, vai
descrevendo e narrando os fatos, contando fatos sem muita importância.
Enfoca a
classe miserável: Os personagens, a linguagem, o local, a cultura, tudo gira em
torno de um meio miserável.
"As
unhas metiam náusea, muito quilotadas de alcatrão, desleixadas mesmo. Triste
figura essa, cujo aspecto deixava uma impressão desagradável e persistente.
(pág.12) Intenção de analisar a patologia social: Estudos dos vícios da
sociedade.
"Junto
aos presos equilibrava-se um homem de grande estatura, largo e reforçado, tipo
de caboclo nascido no Amazonas, trajando fardeta e boné e segurando com ambas
as mãos, sobre o joelho em, descanso, o instrumento de castigo: era o guardião
Agostinho o célebre guardião Agostinho, especialista consumado no ofício de
aplicar a chibata, o mais robusto e valente de todos os guardiães, e cujo zelo
em cousas de "patescaria" tornara-se proverbial." (pág. 12)
Psicopatologia: Trata-se do estudo das doenças psicológicas humanas (taras,
vícios, etc. ). Expressada no livro de várias formas, destacando:
A tara em
que o carrasco tinha em chicotear aqueles que sofriam a punição.
O
principal exemplo, ocorre com os personagens centrais da história, o
homossexualismo, onde Amaro é impulsionado pelo seu instinto e por forças
incontroláveis quando estava diante de Aleixo.
O
narrador interessa-se por fatores patológicos: Tenta provar e analisar a
patologia humana.
DONA CAROLINA
"D.
Carolina era uma portuguesa que alugava quartos na Rua da Misericórdia somente
a pessoas de "certa ordem", gente que não se fizesse de muito honrada
e de muito boa, isso mesmo rapazes de confiança, bons inquilinos, patrícios,
amigos velhos... Não fazia questão de cor e tampouco se importava com a classe
ou profissão do sujeito. Marinheiro, soldado, embarcadiço, caixeiro de venda,
tudo era a mesmíssima cousa: o tratamento que lhe fosse possível dar a um
inquilino, dava-o do mesmo modo aos outros.
Vivia de
sua casa, de seus cômodos, do aluguelzinho por mês, ou por hora. Tinha o seu
homem, lá isso pra que negar? Mas, independente dele e de outros arranjos que pudesse
fazer, precisava ir ganhando a vida com um emprego certo, um emprego mais ou
menos rendoso para garantia do futuro. Isso de homens não há que fiar: hoje com
Deus, amanhã com o diabo Quando moça, tinha seus vinte anos, abrira casa na Rua
da Lampadosa. Bom tempo! O dinheiro entrava-lhe pela porta em jorros como a luz
do dia, sem ela se incomodar. Uma fortuna de ouro e brilhante! Já era gorducha,
então: chamavam-na Carola Bunda, um apelido de mau gosto, invenção da rua..
Depois
esteve muito doente, saíram-lhe feridas pelo corpo, julgou não escapar. E, como
tudo passa, ela nunca mais pôde reerguer-se, chegando, por desgraça, ao ponto
de empenhar joias e tudo, porque ninguém a procurava, porque ninguém a queria -
pobre cadela sem dono... Passou misérias! até quis entrar para um teatro como
qualquer cousa, como criada mesmo. Foi nessa época, num dia de carnaval
(lembrava-se bem!), que começou a melhorar de sorte. Um clubezinho pagou-lhe
alguns mil-réis para ela fazer de Vênus, no alto de um carro triunfal. Foi um
escândalo, um "sucesso": atiraram-lhe flores, deram-lhe vivas, muita
palma, presentes - o diabo! Durante quase um ano só se falou na Carola, nas
pernas da Carola, na portuguesa da Rua do Núncio." (pág35) "Ele ali
se achava também, no seu posto, à espera de um sinal para descarregar a
chibata, implacavelmente, sobre a vítima. Sentia um prazer especial naquilo,
que diabo! cada qual tem a sua mania ..." (pág. 13) Denunciar a degradação
humana:Mostra a queda moral e social humana.
"Por
vezes tinha querido sondar o ânimo do grumete, procurando convencê-lo,
estimulando-lhe o organismo; mas o pequeno fazia-se esquerdo, repelindo
brandamente, com jeitos de namorada, certos carinhos do negro. Deixe disso,
Bom-Crioulo, porte-se sério! Nesse dia Priapo jurou chegar ao cabo da luta. Ou
vencer ou morrer! - Ou o pequeno se resolvia ou estavam desfeitas as relações.
As nove
horas, quando Bom-Crioulo viu Aleixo descer, agarrou a maca e precipitou-se no
encalço do pequeno. Foi justamente quando o viram passar com a trouxa debaixo
do braço, esgueirando-se felinamente. . .
Uma vez
lado a lado com o grumete, sentindo-lhe o calor do, corpo roliço, a branda
tepidez daquela carne desejada e virgem de contatos impuros, um apetite
selvagem cortou a palavra ao negro. Claridade não chegava sequer á meia
distância do esconderijo onde eles tinham se refugiado. Não se viam um ao
outro: sentiam-se, adivinhavam-se por baixo dos cobertores.
Depois de
um silêncio cauteloso e rápido, Bom- Crioulo, conchegando-se ao grumete,
disse-lhe qualquer cousa no ouvido. Aleixo conservou-se imóvel, sem respirar.
Encolhido,
as pálpebras cerrando-se instintivamente de sono, ouvindo, com o ouvido pegado
ao convés, o marulhar das ondas na proa, não teve ânimo de murmurar uma
palavra.
...
Uma
sensação de ventura infinita espalhava-se-lhe em todo o corpo. Começava a
sentir no próprio sangue impulsos nunca experimentados, uma como vontade
ingênita de ceder aos caprichos do negro, de abandonarse- lhe para o que ele
quisesse - uma vaga distensão dos nervos, um prurido de passividade. . .
- Ande
logo! murmurou apressadamente, voltando-se.
E
consumou-se o delito contra a natureza." (pág. 30)
O romance
gira em torna da relação instintiva homem mulher:
No livro,
Aleixo é visto por Amaro como uma mulher, inclusive o narrador, refere-se a ele
como uma mulher que desperta atração em Amaro.
"Gabando-se
de conhecer "o mundo", Bom-Crioulo cuidou primeiro em lisonjear a
vaidade de Aleixo, dando-lhe um espelhinho barato que comprara no Rio de
Janeiro "para que ele visse quanto era bonito". pequeno mirou-se e...
sorriu, baixando o olhar.
Que
bonito o quê!... Uma cara de carneiro mocho! - Mas não abandonou o trastezinho,
guardando-o com zelo no fundo da trincheira, como quem guarda um objeto
querido, uma preciosidade rara, e todas as manhãs ia ver-se, deitando a língua
fora, examinando-se cuidadosamente, depois de ter lavado o rosto.
...
E a
camisa! - Oh, a camisa devia ser um bocadinho aberta para mostrar a debaixo, a
de meia. O hábito faz o monge. O grumete aceitava tudo com um ar filial, sem
procurar a razão de todo esse esmero. Via marinheiros imundos, mal vestidos,
cheirando a suor, mas eram poucos. Havia os que até usavam essências no lenço e
óleo no cabelo.
No fim de
alguns dias Aleixo estava outro e Bom- Crioulo contemplava-o com esse orgulho
de mestre que assiste ao desenvolvimento do discípulo.
Um belo
domingo, em que todos deviam se apresentar com uniforme branco, segundo a
tabela, o grumete foi o último a subir para a mostra. Vinha irrepreensível na
sua toilette de sol, a gola azul dura de goma, calças boca-de-sino, boné de um
lado, coturnos lustrosos.
Bom-Crioulo,
que já estava em cima, na tolda, assim que o viu naquela pompa, ficou
deslumbrado e por um triz esteve fazendo uma asneira. Seu desejo era abraçar o
pequeno, ali na presença da guarnição, devorá-lo de beijos, esmagá-lo de
carícias debaixo do seu corpo.
- Sim
senhor! Parecia uma menina com aquele traje. Estava mesmo apto! Então o
espelhinho sempre servira, hein? E com um gesto rápido, nervoso, disfarçando a
concupiscência:
-
Bonitmho! O pequeno, longe de se amuar com o gracejo, mirou-se d'alto a baixo,
risonho, deu um muxoxo e seguiu para a forma sem dizer palavra." (pág. 24)
Aspectos formais, linguagem vulgar, grotesca e repugnante: " ... que os
pariu!" Personagem anti-herói, indivíduo cujo comportamento é dominado por
forças incontroláveis.
Amaro,
força física em contraste com sua fraqueza moral, seu comportamento dominado
por forças incontroláveis. Ele faz suas vontades utilizando suas impressões
físicas que causam intimidação.
"Bom-Crioulo
começou a frequentar o sobradinho, onde iam outros marinheiros, e daí a grande
amizade da portuguesa por ele, não que houvesse outra intenção: ela sabia que o
negro não era homem para mulheres ..." (pág.36) "Muita cautela com
Amaro (Bom-Crioulo). É um praça irrepreensível quando não bebe, mas em chupando
seu copito, guarda debaixo! Faz um salseiro dos diabos."(pág. 48)
Homossexualismo como tema: um inusitado triângulo amoroso A originalidade de
Bom-Crioulo se manifesta no triângulo amoroso sobre o qual se sustenta.
Tradicionalmente,
um triângulo amoroso é composto por dois homens em luta por uma mulher, ou duas
mulheres que disputam o mesmo homem. Em Bom-Crioulo, Amaro e Aleixo são
marinheiros e, acima de tudo, como tal se comportam, favorecendo a anulação das
diferenças étnicas, que se dá não pela ascensão do negro fugido, mas pelo
rebaixamento de ambos à condição de prisioneiros do mesmo sistema e do vício .
Por fim, o terceiro do triângulo é uma mulher que atua como homem, pois
conquista Aleixo em vez de ser conquistada. O triângulo altera substancialmente
a função dos participantes, mas respeitando as leis de verossimilhança. Ou
seja, o insólito reside na novidade do triângulo e não em sua falta de
veracidade: mais uma vez, Adolfo Caminha colhe ao vivo, de sua experiência como
oficial da marinha, o material do romance.
Manifesta
na macroestrutura do triângulo amoroso, bem como nos ingredientes, a lei da
verossimilhança ainda se impõe na construção do romance.
O
Bom-Crioulo se fragmenta em três partes: a preparação, que ocupa os nove
capítulos iniciais, o anticlímax, nos episódios subsequentes e o desenlace ou
clímax no último.
Escrita
em câmera-lenta, comum aos romances naturalistas, visto que a tese adotada
reclamava a disposição silogística da narrativa, figurando os primeiros
capítulos como premissas da conclusão que deflagra no episódio final.
O tema do
romance, a homossexualidade, manifesta na construção do triângulo amoroso, é
tratado com crueza e sem nenhum indício de preconceito pelo escritor
naturalista, que vê no vício um objeto de estudo que deve ser esclarecido e
compreendido: Nunca se apercebera de semelhante anomalia, nunca em sua vida
tivera a lembrança de perscrutar suas tendências em matéria de sexualidade. As
mulheres o desarmavam para os combates do amor, é certo, mas também não
concebia, por forma alguma, esse comércio grosseiro entre indivíduos do mesmo
sexo; entretanto, quem diria! O fato passava-se agora consigo próprio, sem premeditação,
inesperadamente. E o mais interessante é que aquilo ameaçava ir longe para mal
de seus pecados...
Não havia
jeito senão ter paciência, uma vez que a natureza impunha-lhe esse castigo.
Afinal de
contas era homem, tinha suas necessidades, como qualquer outro: fizera muito em
conservar-se virgem té os trinta anos, passando vergonhas que ninguém
acreditava, sendo muitas vezes obrigado a cometer excessos que os médicos
proíbem. De qualquer modo estava justificado perante sua consciência, tanto mais
quanto havia exemplos ali mesmo a bordo, para não falar em certo oficial de que
se diziam cousas medonhas no tocante à vida particular. Se os brancos faziam,
quanto mais os negros! É que nem todos têm força para resistir: a natureza pode
mais que a vontade humana...
A
homossexualidade, encarada no romance como vício ou perversão, é tratada,
portanto, através de um olhar naturalista e, consequentemente, limitado: não há
o enfoque mais subjetivo dos sentimentos despertados; não há autonomia do
caráter: as personagens estão acorrentadas às leis deterministas (não há drama
de consciência ou mesmo drama moral). Há uma resposta mecânica, instintiva aos
fatos e, nesse sentido, o livro perde um lado da questão, o que não esmaece sua
força e valor literário.
Por tratar
de um tema tão forte como o homossexualismo, sobretudo em sua época, alguns
críticos consideraram esse livro de Adolfo Caminha uma defesa da causa
homossexual; outros viram o contrário. No entanto, o narrador se mantém na
posição de observador: não defende, nem condena. Mais do que isso, o livro
também possui um forte caráter de denúncia sobre um ambiente cruel e brutal que
homens enfrentavam na Marinha - ambiente que Caminha conheceu bem. Também há
uma forte denúncia social, pois retrata um trecho da vida urbana do Rio de
Janeiro e a vida miserável de seus habitantes excluídos por uma estrutura
social perversa. Em suma, o livro discute, acima de tudo, a questão da
liberdade de homens presos por correntes invisíveis, fruto do meio em que
vivem, de seu momento histórico e de suas tendências físicas e morais. A falta
de liberdade não será só social, mas também biológica, conforme diziam as
correntes deterministas em vigor nessa época. Daí o tom de pessimismo que há no
livro: não há saída possível das mazelas humanas.
ENREDO
A
obra Bom-Crioulo
não padece das inverosimilhanças de A
Normalista, do mesmo autor. Mais denso e enxuto, apresenta um ótimo
retrata da vida de marinheiros durante a 2ª metade do século XIX, no Rio de
Janeiro. A personagem principal, o mulato Amaro, é bastante coerente em sua
passionalidade. Vários episódios do romance também refletem a própria vivência
do autor a bordo de navios, registrando a aspereza da vida no mar, da
brutalidade dos castigos corporais, já denunciados por Caminha em seu tempo de
estudante.
O
romance realça pela originalidade da situação dramática: dois marinheiros -
Amaro, apelidado o Bom-Crioulo, um “latagão de negro, muito alto e corpulento,
figura colossal de cafre... com um formidável Sistema de músculos” e Aleixo “um
belo marinheiro de olhos azuis” - brutalizados e solitários pela vida a bordo
de um navio, afeiçoam-se e entretêm relações homossexuais. Ao desembarcarem na
cidade do Rio de Janeiro, vão viver em um cômodo alugado por uma portuguesa,
ex-prostituta, D. Carolina. Mas o idílio amoroso entre Amaro e Aleixo é
interrompido pelo dever de voltar ao mar:
Decorreu
quase um ano sem que o fio tenaz dessa amizade misteriosa, cultivada no alto da
Rua da Misericórdia, sofresse o mais leve abalo. Os dois marinheiros viviam um
para o Outro: completavam-se /.../ Mas Bom-Crioulo um dia foi surpreendido com
a notícia de que estava nomeado para servir noutro navio.
RESUMO DO ENREDO:
CAPÍTULO I
Um narrador impessoal, valendo-se do foco narrativo em terceira pessoa, abre o primeiro capítulo do romance descrevendo, minuciosamente, uma corveta. Essa técnica é comum na estética realista-naturalista que visa criar meios para o leitor visualizar o cenário em que vai transcorrer a ação. Informa que o navio, um dia novo e bonito, agora está velho, com o casco negro e as velas encardidas, parecendo mais um esquife agourento.
Após montar o cenário, o narrador põe as personagens em movimento.
“A velha corveta enfrenta a calmaria em alto-mar. Às onze horas, em plena indolência, o tenente ordena toque de reunir no convés. Oficiais e marinheiros preparam-se para a cerimônia de punição dos rebeldes. O guardião Agostinho, companheiro respeitado e temido, mestre na chibata, aplicaria as penas, aquilo lhe dava um prazer especial.”
Entre eles, Herculano, com seu rosto imberbe de adolescente. “As unhas metiam náuseas, muito quilotadas de alcatrão, desleixadas mesmo. Triste figura essa, cujo aspecto deixava uma impressão desagradável e persistente.” (p.14)
A razão do castigo é que o grumete fora flagrado por um mulatinho esperto, quando se masturbava:
“Ora, aconteceu que, na véspera desse dia, Herculano foi surpreendido, por outro marinheiro, a praticar uma ação feia e deprimente do caráter humano. Tinham-no encontrado sozinho, junto à amurada, em pé, a mexer com o braço numa posição torpe, cometendo, contra si próprio, o mais vergonhoso dos atentados”. (p.16)
O mulato chamou o Sant’ana que veio e deu o flagrante. Herculano e Sant’ana brigaram. Por isso, ambos foram a castigo.
Herculano sofreu o seu sem reclamar, mas o Sant’ana tentou justificar-se, desculpar-se, mas de nada adiantou: vinte e cinco chibatadas para cada.
“- Hei de corrigi-los, bradava o comandante, aceso em súbita cólera, mal-humorado sob a luz ardentíssima do meio-dia tropical.
- Hei de corrigi-los: corja!
Nenhum frêmito de comoção na marinhagem, testemunha habitual daquelas cenas que já não logravam produzir efeitos sentimentais, como se fora a reprodução banal de um quadro muito visto.” (p.18)
O terceiro preso a ser castigado é exatamente o protagonista, Amaro, mais conhecido entre os marujos por Bom-Crioulo. Trata-se de um negro, muito robusto e seguro. Calmo quando sóbrio torna-se agressivo quando embriagado.
“Quando havia conflito no cais Pharoux, já toda a gente sabia que era o Bom-Crioulo ás volta com a polícia. Reunia povo, toda a população do litoral corria enchendo a praça, como se tivesse acontecido uma desgraça enorme, formavam-se partidos a favor da polícia e da marinha...uma coisa indescritível!” (p. 19)
O motivo de sua prisão agora, no alto-mar, a bordo da corveta, era outro:
“Bom-Crioulo esmurrara desapiedadamente um segunda-classe, porque este ousara, sem o seu consentimento, maltratar o grumete Aleixo, um belo marinheiro de olhos azuis, muito querido por todos e de quem diziam-se coisas.” (p.19)
O narrador traduz o sentimento interior de satisfação que toma conta de Amaro, que, se por um lado reconhece que agira mal, por outro está contente porque acredita que vai conquistar o grumete “como se conquista uma mulher formosa, uma terra virgem, um país de ouro”.
O guardião Agostinho desfere cento e cinquenta chicotadas sem que o hercúleo Amaro solte um gemido de fraqueza.
Estava terminado o castigo. A população voltava à faina.
CAPÍTULO II
O narrador faz uma retrospectiva, um flash-back, revelando a história de Amaro: aparecera no Rio de Janeiro vindo não se sabe de onde. Negro fugido, fora recrutado pela Marinha e apaixonara-se logo pela vida de bordo. Era uma liberdade tão grande para quem passara toda a vida na fazenda, preso ao cabo da enxada! Ganhou logo a afeição dos oficiais; nunca dava trabalho e aprendia rápido. Isso lhe valeu o apelido de Bom-Crioulo.
“Ali ao menos, na fortaleza, ele tinha sua maca, seu travesseiro, sua roupa limpa, e comia bem, a fartar, como qualquer pessoa, hoje boa carne cozida, amanhã suculenta feijoada, e, às sextas-feiras, um bacalhauzinho com pimenta e “sangue de Cristo”...Para que vida melhor? Depois, a liberdade, minha gente, só a liberdade valia por tudo! Ali não se olhava a cor ou a raça do marinheiro: todos eram iguais, tinham as mesmas regalias – o mesmo serviço, a mesma folga. – E quando a gente se faz estimar pelos superiores, quando não se tem inimigos, então é um viver abençoado esse: ninguém pensa no dia de amanhã!” (p. 22)
Durante o período de aprendizado, sonhava com poder embarcar definitivamente. Quando isso aconteceu, rapidamente ganhou a amizade e o respeito dos companheiros do cruzador de alto-mar, pela sua seriedade e força bruta.
Depois, sonhou em embarcar no navio do Almirante Albuquerque, que diziam recompensar bem seus bons marinheiros.
Quando embarcara na corveta, já tinha trinta anos, era marinheiro de segunda classe.
Com o passar do tempo seu comportamento começa a mudar. Descuidava-se da qualidade de seus serviços. Torna-se lento no cumprimento das obrigações: lerdava no mastro e mostrava-se aborrecido com as tarefas.
Diziam uns que a cachaça estava a perder o negro; outro, porém, insinuavam que Bom-Crioulo tornara-se assim, esquecido e indiferente, desde que Aleixo, o menino que embarcara como grumete no Sul.
“O certo é que o garoto de quinze anos abalara a alma de Amaro, dominando-a, como a força de um imã. (...) Esse movimento indefinível que acomete ao mesmo tempo duas naturezas de sexos contrários, determinando o desejo fisiológico da posse mútua, essa atração animal que faz o homem escravo da mulher e que em todas as espécies impulsiona o macho para a fêmea, sentiu-a Bom-Crioulo irresistivelmente ao cruzar a vista pela primeira vez com o grumetezinho.” (p. 26)
“Bom-Crioulo não se importava com os comentários, desde que não lhe viessem dizer na cara, senão veriam!”
Nota-se no fragmento transcrito uma das mais importantes características do Naturalismo. O narrador, como um cientista, friamente, tecnicamente, procura falar do assunto racionalmente, demonstrando uma visão de mundo materialista em que predomina a preocupação com o aspecto fisiológico, próprio do clínico-geral.
Aleixo era filho de uma família pobre de pescadores. A princípio, Bom-Crioulo o assustara, mas foi se acostumando aos carinhos e à solicitude de Amaro.
Amaro, para mostrar ao grumete de olhos azuis o seu poder sobre os outros e também sua afeição, esmurra o segunda-classe, que ousou maltratá-lo.
Ao regressar do Sul, comenta o narrador, Amaro está mais forte, mais viçoso, mais homem. Já não revela mais tanta obediência, tanto respeito no tocante à disciplina.
Tornou-se um tipo comum, como a maioria dos marinheiros, já fala mal dos oficiais na ausência deles, trata-os com desdém. Após ser castigado por um comandante, de nome Varela, por ter agredido outro marinheiro, Amaro torna-se preguiçoso, insubmisso, ressentido e deixa de se importar com seus deveres, passava um mês no hospital, outro a bordo, outro de licença em terra, resmungando:
“Tolo era quem se matava. Havia de receber seu soldo quer trabalhasse quer não trabalhasse. -...que os pariu!” (p. 28)
O fato do texto estar entre aspas (além disso, no original, está depois do travessão) caracteriza a fala da personagem em discurso direto. Então deveria estar “Tolo é quem se mata...”, mas o escritor colocou os verbos no passado, como se o narrador estivesse reproduzindo a fala da personagem em discurso indireto. Temos então uma contaminação do discurso do narrador pelo da personagem.
CAPÍTULO III
A narrativa retorna ao tempo presente, isto é, ao momento final do primeiro capítulo, logo após o castigo dos três marinheiros. Todos na corveta regozijam-se com a esperança de chegar em breve à baía da Guanabara. Todos não, há um que preferia passar a vida toda no mar: Amaro. “Como haveria de ser a vida em terra depois de ter conhecido o grumete?”
“Era Bom-Crioulo, o negro Amaro, cujo espírito debatia-se, como um pássaro agonizante, em torno desta única ideia – o grumete Aleixo, que o não deixava mais pensar noutra coisa, que o torturava dolorosamente... – Maldita a hora em que o pequeno pusera os pés a bordo! Até então sua vida ia correndo como Deus queria, mais ou menos calma, sem preocupações incômodas, ora triste, ora alegre, é verdade, porque não há nada firme no mundo, mas, enfim, ia-se vivendo...E agora! Agora...hum, hum!...agora não havia remédio: era deixar o pau correr...” (p. 29)
Neste fragmento, a exclamação indica que houve mudança abrupta, marcada por um travessão, mas no meio da frase, sem abrir outro parágrafo e sem qualquer verbo de elocução. Quem está se expressando é Amaro.
No trecho final, tanto as hesitações, os pensamentos incompletos, a interjeição “hum, hum” que indica dúvida e impaciência do próprio protagonista.
Não entendia o que estava acontecendo. Nas duas únicas vezes que se metera com mulheres na vida, foram fracassadas.
Amaro passa o dia todo torturado por um incontrolável “desejo de unir-se ao marujo como se ele fora do outro sexo, de possuí-lo, de tê-lo junto a si, de amá-lo, de gozá-lo”.
Aleixo, por sua vez, ia satisfeito com a vida de grumete. Era o preferido dos oficiais, sempre muito asseado e composto.
Bom-Crioulo era o responsável por aquela transformação; ele ensinara o menino a se vestir, a conquistar simpatias.
Dera a ele um espelhinho, ensinara-o a dar laço na gravata, a usar o boné de lado, a camisa um bocadinho aberta.
Um belo domingo, o rapaz aparece tão lindo em seu uniforme branco que Amaro “ficou deslumbrado e por um triz esteve fazendo uma asneira. Seu desejo era abraçar o pequeno, ali na presença da guarnição, devorá-lo de beijos, esmagá-lo de carícias debaixo do seu corpo”. (p. 31)
Nesse mesmo dia, depois de terminada a leitura do Regulamento e feita á revista, Bom-Crioulo chama Aleixo à proa e entram numa longa conversa em que o negro propõe ao rapaz para morarem juntos, quando voltarem a terra.
Propôs protegê-lo e ensiná-lo a viver no Rio de Janeiro. Aleixo deixava-se levar pelos planos do amigo e fantasiava a vida na capital: morariam juntos em um quarto da Rua da Misericórdia. Conversavam e assistiam à passagem de um transatlântico carregado de imigrantes quando, de repente, o tempo mudou; uma montanha de nuvens se aproximava, viria uma tempestade. O navio agitava-se, preparando-se para a luta contra a natureza.
Durou uma hora e meia o aguaceiro, até que o sol iluminou de novo o horizonte, só o vento persistia.
Depois, os marinheiros aproveitaram o luar e a noite para festejar. Menos o Bom-Crioulo, que cansado do extenuante trabalho, desceu as escadas em busca de abrigo e descanso. Ele e Aleixo, bem próximos, conversaram sobre a tempestade e trocaram histórias até o anoitecer.
O ambiente era frio, úmido. A coberta era nauseabunda, um cheiro acre de suor, urina e alcatrão misturados empesteava o ambiente. Naquela noite, queria resolver logo aquilo, não podia esperar mais. Esgueirava-se entre as macas, procurando Aleixo.
Não se viam, apenas adivinhavam-se por baixo dos cobertores.
“Depois de um silêncio cauteloso e rápido, Bom-Crioulo, conchegando-se ao grumete, disse-lhe qualquer coisa no ouvido. Aleixo conservou-se imóvel, sem respirar. Encolhido, as pálpebras cerrando-se instintivamente de sono, ouvindo, com o ouvido pegado ao convés, o marulhar das ondas na proa, não teve ânimo de murmurar uma palavra. Viu passarem, como em sonho, as mil e uma promessas de Bom-Crioulo; o quartinho da Rua da Misericórdia no Rio de Janeiro, os teatros, os passeios...; lembrou-se do castigo que o negro sofrera por sua causa; mas não disse nada. Uma sensação de ventura infinita espalhava-se-lhe em todo o corpo.
Começava a sentir no próprio sangue impulsos nunca experimentados, uma como vontade ingênita de ceder aos caprichos do negro, de abandonar-se-lhe para o que ele quisesse – uma vaga distensão dos nervos, um prurido de passividade...
- Ande logo!Murmurou apressadamente, voltando-se.
E consumou-se o delito contra a natureza.” (p. 37/8)
CAPÍTULO IV
O dia seguinte amanhece luminoso. Chegam ao Rio de Janeiro e Amaro sentia um misto de alegria e preocupação. Depois de mais de seis meses de escravidão no mar, isso que chamavam “servir à pátria”, enfim chegava à terra firme. No entanto, em vinte e quatro horas pode ver-se separado de seu grumete por ordens superiores. Por outro lado, alegra-se com a prova de amor que recebera:
“Ao pensar nisso Bom-Crioulo sentia uma febre extraordinária de erotismo, um delírio invencível de gozo pederasta...Agora compreendia nitidamente que só no homem, no próprio homem, ele podia encontrar aquilo que debalde procurava nas mulheres”. (p. 40)
O narrador reproduz seu monólogo interior, em que procura justificar seu desvio, tomando como exemplo o comportamento de outros, como o de um oficial.
“Se os brancos faziam, quanto mais os negros! É que nem todos têm força para resistir: a natureza pode mais que a vontade humana...” (p. 40)
Vem a tarde, mas recebem ordem para não desembarcar. Amaro dorme pesado, pois está cansado. Ao acordar, irrita-se pois tivera um verdadeiro esgotamento de líquido seminal. Irrita-o mais ainda o fato de não ter sentido gozo. Levanta-se, arruma suas coisas e sai resmungando, ameaçando quem cruzasse com ele. Só o encontro com Aleixo animou-o.
“Os outros pediam-lhe desculpa, humilhavam-se, adulavam-no, porque sabiam que o negro era meio doido.” (p. 41)
Enfim puderam descer. Passaram pelo decadente Largo do Paço, beberam alguma coisa e foram andando para a Rua da Misericórdia. Pararam defronte de um sobradinho, próximo ao Arsenal de Guerra. Em baixo, moravam uns pretos de Angola. Em cima, a D. Carolina, uma senhora redonda e meio idosa, que abraçou com alegria o Bom-Crioulo. Era uma portuguesa que alugava quartos. Não discriminava os fregueses.
O narrador faz uma retrospectiva, revelando que a portuguesa quando moça, já tivera seu bom período de aparência, uma casa na Rua da Lampadosa, chamavam-na Carola Bunda, tivera dinheiro ganho na prostituição, tivera homens, mas também adoecera e conhecera infortúnios.
Depois tropeçara pela vida, foi para Portugal, retornou ao Brasil, e agora vivia da renda dos aluguéis e da ajuda de uma amante, um açougueiro, senhor Brás, que aparecia às vezes e contribuía com cento e cinquenta mil réis “para o aluguel do sobradinho, fora a carne que mandava diariamente”. Contava, então, com o dinheiro dos aluguéis para segurar sua velhice.
Estimava o Bom-Crioulo desde o dia em que ele a salvara, na rua, de dois pilantras que a assaltavam e podiam até matá-la. Tornaram-se íntimos e, desde então, Amaro só se hospedava na Rua da Misericórdia.
Enquanto Bom-Crioulo contava a D. Carolina seu caso com o grumete, Aleixo reparava na decoração da sala de jantar. Tudo cheirando a sebo e cânfora, velho, poento e incolor.
Os marinheiros foram arranjados no comodozinho de cima, onde podiam ficar mais a sós.
CAPÍTULO V
“O quarto era independente, com janela para os fundos da casa, espécie de sótão roído pelo cupim e tresandando a ácido fênico. Nele morrera de febre amarela um portuguesinho recém-chegado. Mas Bom-Crioulo, conquanto receasse as febres de mau caráter, não se importou com isso, tratando de esquecer o caso e instalando-se definitivamente.” (p. 47)
O leito era uma cama dobrável muito usada, sobre a qual Amaro de manhã cobria com um grosso cobertor encarnado para esconder as nódoas.
Durante meses viveram ali uma vida tranquila. Bom-Crioulo enfeitou o quartinho com bugigangas. Cumpriam seus deveres a bordo e vinham á terra duas vezes por semana.
O grumete levava uma vida de felicidades. Era estimado por D. Carolina e como era comportado e asseado, tornou-se protegido dos oficiais.
Uma coisa apenas o incomodava: os caprichos libertinos de Amaro, pois este não se contentava só em possuí-lo a qualquer hora do dia ou da noite, “queria muito mais, obrigava-o a excessos, fazia dele um escravo, uma “mulher à-toa” propondo quanta extravagância lhe vinha à imaginação”, como quando exigiu que o rapaz se mostrasse para ele nuzinho em pêlo. Apesar da vergonha, Aleixo cedeu, revelando um corpo muito alvo, as formas “roliças de calipígio” (belas nádegas).
“Bom-Crioulo” ficou extático! A brancura láctea e maciça daquela carne tenra punha-lhe frêmitos no corpo, abalando-o nervosamente de um modo estranho, excitando-o como uma bebida forte, atraindo-o, alvoroçando-lhe o coração. Nunca vira formas de homem tão bem torneadas, braços assim, quadris rijos e carnudos como aqueles...Faltavam-lhe os seios para que Aleixo fosse uma verdadeira mulher!...Que beleza de pescoço, que delícia de ombros, que desespero!...”(p. 48/9)
Os desejos de Bom-Crioulo eram de touro! D. Carolina chamava o rapazinho de olhos azuis de “Bonitinho” e desdobrava-se em carinhos para ele.
Certo dia a corveta entrou para os diques.
“Era justamente em dezembro, mês de epidemias e de insuportável calor.” (p. 50)
Com a embarcação parada para reparos, os marinheiros ficam à solta. Amaro torna-se trabalhador de novo, obtendo concessões de imediato e, assim, multiplica os passeios à terra. Já faz quase um ano que está nessa vida. Começa a sentir-se magro e tem uma fraqueza e uma sonolência profunda, mas isso não chega a preocupá-lo, pois vive em paz de espírito vendo crescer a seu lado o Aleixo.
“Sua amizade ao grumete já não era lúbrica e ardente: mudara-se num sentimento calmo, numa afeição comum, sem estos febris nem zelos de amante apaixonado.” (p. 51)
D. Carolina, vendo a permanência dessa ligação, brinca com eles:
“Vocês acabam tendo filhos”.
Mas, certo dia, a corveta saiu do dique e Amaro se viu surpreendido, nomeado para outro navio, um grande navio de guerra. Ficou furioso por ter de se separar do seu amigo. Ameaçou-se, caso se engraçasse com algum oficial. E foi-se, triste, servir na sua nova casa no mar.
CAPÍTULO VI
No dia seguinte, Aleixo não encontrou o Bom-Crioulo no quarto. Adormeceu, esperando pelo negro. Quando acordou, ele não havia aparecido. Não importava, afinal não era impossível viver sem Amaro. Na verdade, nos últimos tempos, pensava mesmo em arranjar alguém melhor, de posição.
Seus pensamentos são interrompidos pela presença da portuguesa. D. Carolina, aproveitando-se da ausência do negro, inicia um processo de sedução do rapaz.
Conversaram enquanto ele se arrumava para uma volta no Passeio Público. Ela queria lhe falar quando voltasse.
Ele saiu, ela se perdeu em seus pensamentos: há dias metera na cabeça conquistar Aleixo. Tinha 38 anos, não estava tão acabada assim, e cansara dos marmanjos.
“Há dias metera-se-lhe na cabeça uma extravagância: conquistar Aleixo, o bonitinho, tomá-lo para si, tê-lo como amantezinho do seu coração avelhentado e gasto, amigar-se com ele secretamente, dando-lhe tudo quanto fosse preciso: roupa, calçados, almoço e jantar nos dias de folga – dando-lhe tudo enfim.” (p. 55)
A portuguesa torna-se muito meiga com o rapaz, guarda-lhe doces; passa ela mesma a ferro os lenços dele. Fingindo-se distraída, vai revelando-lhe pernas, braços, seios.
Um dia, Aleixo passa pelo corredor e dá com a porta aberta dos aposentos da mulher, que, na cama dormia com as pernas de fora, metida numa camisa curta. Ele excita-se, mas nem sonha que ela possa dar atenção a ele, ainda imberbe.
Quando ele voltou do Passeio, a portuguesa levou-o para o seu quarto com uma larga cama de casal. Elogiou-o, disse que estava apaixonada e passando das palavras à ação.
“Então ela, como se lhe houvessem aberto de repente uma caudal de gozo, cravou os dentes na face do grumete, numa fúria brutal, e segurando-o pelas nádegas, o olhar cintilante, o rosto congestionado, foi depô-lo na cama:
- Pr’aí, meu jasmim de estufa, pr’aí! Vais conhecer uma portuguesa velha de sangue quente. Deixa a inocência pro lado, vamos!...
Bateu a porta e começou a se despir a toda pressa, diante de Aleixo, enquanto ele deixava-se estar imóvel, muito admirado para essa mulher-homem que o queria deflorar aí assim, torpemente, como um animal.
- Anda, meu tolinho, despe-te também: aprende com tua velha...Anda, que eu estou que nem uma brasa!...
Aleixo não tinha tempo de coordenar as ideias. D. Carolina o absorvia, transfigurando-se a seus olhos.
Ela de ordinário tão meiga, tão comedida, tão escrupulosa mesmo, aparecia-lhe agora como um animal formidável, cheio de sensualidade, como uma vaca do campo extraordinariamente excitada, que se atira ao macho antes que ele prepare o bote...
Era incrível aquilo!
A mulher só faltava urrar!
E a sua admiração cresceu ainda mais quando ela, sacando fora a camisa ensopada de suor, caiu nua no leito, arquejante, segurando os seios moles, com um estranho fulgor no olhar de basilisco.
Mas Aleixo sabia, por Bom-Crioulo, até onde chega a animalidade humana, e, passado o primeiro momento de surpresa, sentiu que também era feito de carne e osso, como o negro e D. Carolina – valia a pena decerto uma noite como aquela!” (p. 58/9)
Combinaram se encontrar quando Bom-Crioulo não viesse á terra.
No outro dia, Aleixo sai de casa, pálido, com grandes olheiras, pensando:
“Se fosse possível não me encontrar mais, nunca mais com aquele negro, ah! Que felicidade!”
E a figura da mulher dançava em sua imaginação como um sonho diabólico.
CAPÍTULO VII
O narrador dirige o foco da narrativa para o Bom-Crioulo que sofre insatisfeito a vida dura no couraçado para o qual foi transferido. Enchia-se de ódio contra os superiores. Revoltava-se contra o quartel-general que o mandara da corveta para o couraçado. Fantasia desertar e fugir com o pequeno:
“Estavam enganadinhos! Bom-Crioulo tinha sangue nas guelras e era homem para viver só num deserto...” (p. 60)
A vigilância acontecia porque já no primeiro dia o crioulo fora recomendado ao imediato em bilhete especial.
“Muita cautela com o Amaro. É uma praça irrepreensível quando não bebe, mas chupando seu copito, guarda debaixo! Faz um salseiro dos diabos”.
Por isso os oficiais precaveram-se contra ele e não queriam deixá-lo desembarcar. Ficou assentado que ele teria folga só uma vez por mês. Amaro suportou três dias, mas no quarto, um sábado, pediu permissão para desembarcar. Como lhe recusaram, no dia seguinte, pela manhã, ofereceu-se para remar no escaler que ia às compras. Ao atracar, pediu permissão para “fazer uma necessidade” e fugiu direto para o seu quartinho, mas não encontrou Aleixo.
“Abriu as gavetinhas da mesa, revistou móveis, remexeu papéis, como quem procura um objeto, examinou a cama, farejando, tateando...O vidro de óleo não estava na cantoneira e tinha sofrido uma limpa; a garrafa de água Florida, que ele deixara pelo gargalo, quando muito podia ter seis dedos...; a latinha de graxa imobilizava-se no chão, de borco, ao pé do lavatório de ferro; o assoalho era uma imundície de pontas de cigarro e cuspo.
- Eu faço ideia!...murmurou Bom-Crioulo interpretando aquela desordem habitual! Eu faço ideia...” (p. 61)
Depois disso, acendeu um cigarro e deitou-se, só acordando ao meio-dia, quando foi chamado por D. Carolina. Conversaram e Amaro indaga sobre seu amante, mas a portuguesa mente, dizendo que o rapaz viera só um dia, na quinta-feira.
Amaro sai para comer alguma coisa e vai ruminado:
“Precisava tomar uma resolução, abandonar Aleixo, acabar de uma vez, meter-se a bordo, ou então amigar-se aí com uma rapariga de sua cor e viver tranquilo. Estava emagrecendo à toa, não comia, não tinha descanso, em termos de adoecer, de apanhar uma moléstia, por causa do “senhor Aleixo”. Se ao menos pudesse vê-lo todos os dias, como na corveta...; mas assim, longe um do outro? Não valia a pena, era cair no desfrute...” (p. 63)
Um amontoado de gente atrai Amaro, que se espanta de ver dois guardas tentarem inutilmente levantar um homem “acometido de gota, que se espojava no chão, babando, o rosto ensanguentado, a barba suja de areia, em contorções horrorosas”. (p. 64)
Amaro salta no meio e levanta o homem com as duas mãos, transportando-o assim até a Santa Casa de Misericórdia, como se pegasse uma criança, assombrando o povo com sua força. Depois toma um gole de cachaça e só com isso fica alterado. Resolve ir direto para bordo: “Vou porque quero, porque sou livre”.
Eram duas horas da tarde dominical e quase todo o comércio já estava fechado.
Desceu cambaleando para o Largo do Paço, com a mente turva, e os cachorros da rua começaram a provocá-lo.
No cais, grita para os marinheiros de um escaler, que fingem-se de distraídos, fazendo rir a um português que assistia à cena. Amaro descarrega no português a sua raiva. Brigam durante longo tempo e atraem a atenção dos curiosos, que formam um ajuntamento. O crioulo puxa uma navalha e o português foge.
Aproximam-se policiais e Amaro, que já estava de navalha em punho, enfrenta-os.
Aparece um primeiro-tenente da marinha, com mais seis marinheiros, prendendo Amaro como se fosse um animal feroz.
“Que luta para o embarcar! O negro escabujava, mordia, no auge de um desespero hidrofóbico, insultando, rogando pragas.
Afinal, lá conduziram à viva força, e a embarcação deslizou, toda branca, na baía calma...” (p. 68)
CAPÍTULO VIII
“O comandante do couraçado, bela estampa de militar fidalgo, irrepreensível e caprichoso, era o mesmo, aquele mesmo de quem, na frase tosca de Bom-Crioulo, falavam-se coisas...” (p. 68)
Amaro sente por ele uma repugnância instintiva:
“Esse homem nasceu para me fazer mal, pensava o negro supersticiosamente”.
Essa noite dorme Amaro em uma jaula de ferro estreita e sem luz, onde mal cabe um homem. Trancado ali, imóvel, com pés e mãos presos, só conseguiu adormecer de manhã, quando os outros já acordavam. Durante o sono, teve pesadelo com o português da briga. Iam se pegar de novo, mas Aleixo interferia impedindo o confronto. Eram onze horas, quando Amaro, ainda em jejum, foi retirado para o castigo.
“- Não se iluda a guarnição deste navio! Perorou o comandante. Desobediência, embriaguez e pederastia são crimes de primeira ordem. Não se iludam...” (p. 70)
Como da outra vez, Amaro recebeu as chibatadas sem um grito de dor. Quando terminou, o negro rodou e caiu sobre o convés, porejando sangue. Todo seu couro estava cortado pela chibata. Caiu quando já não restava qualquer energia no organismo e a dor sobrepujara a vontade. Vem o médico, aplica-lhe água com éter. Depois, Amaro é levado em um escaler para o hospital em terra.
Aleixo, naquele dia, estava de folga e aproveitou para visitar a portuguesa. Vai com medo de encontrar Bom-Crioulo e de ter de enfrentar os seus caprichos. Após descobrir o sexo heterossexual com a portuguesa, o rapaz “ficara abominando o negro, odiando-o quase, cheio de repugnância, cheio de nojo por aquele animal com formas de homem, que se dizia seu amigo unicamente para o gozar”. Sente que nunca o estimara.
Por sorte, encontrou D. Carolina a lavar roupa, conversam sobre o negro, rindo-se dele. Em seguida, ficou admirando a beleza do corpo da portuguesa, sua pele alva, enquanto ela terminava o serviço.
Sentiam uma atração irresistível.
D. Carolina ao ver o rapaz sente desejo de tomarem banho juntos, ali mesmo. Aquele amante moço fazia D. Carolina remoçar, como se fosse um milagroso afrodisíaco.
“Quis ela mesma despir o rapaz, tirar-lhe a camisa de meia, tirar-lhe as calças, pô-lo nu a seus olhos, Bom-Crioulo já lhe havia dito que Aleixo tinha formas de mulher.
Depois começou a se despir também...
O tanque estava cheio a transbordar. Via-se-lhe o fundo claro através da água límpida e fresca.
Ninguém os via naquela nudez primitiva, frente a frente – o corpo largo e mole da portuguesa em contraste com as formas ideais e rijas do efebo -, escandalosamente nus, pecadoramente bíblicos no silêncio do quintalejo ao abrigo do sol que vibrava em torno do pequeno alpendre a sua luz de ouro fulvo!
O que eles fizeram, antes e depois do banho, ninguém saberá nunca. Os muros do quintal abafaram toda essa misteriosa cena de erotismo consumada ali por trás da Rua da Misericórdia num belíssimo dia de novembro.” (p. 73)
Aleixo se comprazia naquele relacionamento com uma mulher mais experiente, sentia “um forte desejo de possuí-la sempre, sempre, a toda hora, uma vontade irresistível de mordê-la, de cheirá-la, de palpá-la num frenesi de gozo, num grande ímpeto selvagem de novilho insaciável”. (p. 74)
Aleixo mesmo naqueles momentos com a portuguesa, não podia esquecer de todo seu antigo amante. A figura do negro acompanhava-o com uma insistência de remorso. Tinha medo do gênio rancoroso e vingativo do outro. Isso fazia com que suas expansões com a portuguesa fossem incompletas.
A mulher, no entanto, não parecia preocupar-se muito com isso.
“Toda a noite foi um delírio de gozo e sensualidade. D. Carolina cevou o seu hermafroditismo agudo com beijos e abraços e sucções violentas...” (p. 75)
CAPÍTULO IX
Enquanto isso, no hospital, Bom-Crioulo sofria longe de seu amado, ouvindo gemidos aborrecedores e alimentando-se parcamente.
A lembrança de Aleixo não lhe saía da cabeça. Sonhava com a liberdade e com o amor do grumete.
O negro evitava a todos com seu olhar ameaçador e seu jeito carrancudo.
À noite, sozinho, sentia uma mistura de tristeza, desgosto e ódio: o companheiro não o procuraria? Teria arrumado outro?
Não conseguia apagar do espírito o mau pensamento de ver seu garoto nos braços de outro homem. Torturava-o o terrível ciúme.
Na enfermaria, nem a bela paisagem que se via da janela o animava.
Seu consolo era um retrato do Aleixo, uma fotografia barata tirada na Rua do Hospício, quando ele e o rapaz moravam juntos na corveta. Ao deitar-se beijava com carinho aquele retrato.
Angustiado, Amaro lembra-se de pedir a um empregado do hospital para escrever um bilhete ao Aleixo. Dita suas queixas e faz um pedido ao rapaz para que venha fazer-lhe uma visita no dia seguinte, que era um domingo.
Enviou o bilhete ao amigo e ficou esperando, sôfrego e apreensivo, uma resposta que não veio.
Aquele desprezo o encheu de cólera.
“Passou á hora do almoço, chegou a hora do jantar, entraram e saíram marinheiros, a sineta badalou novas baixas, tocou meio-dia, e nada! Nem sinal de Aleixo, nem sombra dele! – Era mesmo para uma pessoa danar! Se não quisesse ir, dissesse!
Veio á noite e a madrugada, mas nada do Bom-Crioulo dormir ou afastar do espírito a imagem importuna do ingrato namorado. Essa imagem o torturava, borboleta importuna a voejar em torno do desprezado.” (p. 79)
Nos dias seguintes, tentou esquecer, em vão, aquele vício, aquela paixão, aquela loucura que ele, tão forte, não conseguia dominar. Começou a pensar numa maneira de fugir do hospital.
Os dias passavam e a existência tornava-se cada vez mais insuportável. Uma noite foi preso quanto tentava escalar o muro do hospital...
CAPÍTULO X
D. Carolina e Aleixo viviam felizes, agora que a figura do negro desaparecera de suas vidas.
Aleixo encorpara, estava virando homem. O sotãozinho estava abandonado; viviam juntos no quarto dela. Aleixo, com ciúmes, quis que ela abandonasse o Manoel, que lhe ajudava a sustentar a casa. Ela disse que sim, mas às escondidas, encontrava-se com o amante para poder equilibrar o orçamento.
A vida era uma embarcação em mar de rosas. Até que chegou às mãos da portuguesa o bilhete do Bom-Crioulo.
D. Carolina rasgou-o em pedacinhos, mas depois ficou pensando, inquieta: tinha medo do que poderia acontecer se Amaro descobrisse tudo, cenas de sangue vinham-lhe à cabeça. Naquela noite, quase não conseguiu dormir.
No dia seguinte, Aleixo estranhou encontrar a porta da rua fechada, assim como os carinhos tantos que ela lhe dispensava naquela tarde. Entregava-se a ele quase maternalmente, para dissipar os temores do bilhete.
Como não dissesse nada, o rapaz amuou. O jantar foi de cara amarrada. Enfim, ele resolveu contar-lhe tudo. Aleixo surpreendeu-se: então Bom-Crioulo ainda pensava nele! Discutiram o assunto e resolveram esquecê-lo. Decidiram sair ao Passeio Público, para aproveitar a noite e espairecer.
CAPÍTULO XI
Ódio, amor e ciúme confundiam-se nos sentimentos de Bom-Crioulo. No hospital, durante o dia, ainda tentava se esquecer de Aleixo, mas à noite era tomado por um desespero incrível, agravado por feridas que haviam brotado por todo o seu corpo e não o deixavam dormir, tal a coceira provocada pela sarna.
Era um sábado, feriado, quando Bom-Crioulo reconheceu entre os marinheiros visitantes do hospital o Herculano, o Pinga da corveta! Foi ele quem lhe disse que Aleixo reinava na embarcação, muito íntimo dos oficiais, e que parecia amigado de uma rapariga em terra.
Bom-Crioulo ouviu aquilo engolindo uma onda de cólera. À noite, fugiu. Queria vingar-se; queria agora gozar o grumete maltratando-o, fazendo-o sofrer!
Planejou a fuga com cuidado; foi para as praias da ilha e ficou esperando o amanhecer, o descortinar-se dos Órgãos, de Niterói, da Barra, do Pão de Açúcar.
Conseguiu que um velho galego o levasse ao continente em um bote. Estava um dia lindo, um dia de galas e de liberdades!
CAPÍTULO XII
Bom-Crioulo chegou cedo à Rua da Misericórdia.
“É bem cedo e há pouco movimento na Rua da Misericórdia. Homens mal vestidos, operários e ganhadores, descem a rua numa lentidão arrastada. A vaca de leite, com as grandes tetas pesadas, passa no seu giro cotidiano, dócil, a baba a escorrer-lhe do focinho em fios de espuma. A carroça do lixo anda na sua faina matinal, parando aqui e ali. Pairava um cheiro forte de urina, assim como uma emanação agressiva de mictório público, envenenando a atmosfera, intoxicando a respiração.” (p. 97)
Aqui temos algumas marcas típicas do gosto naturalista. Ao contrário do escritor romântico que dirigia o foco de suas lentes para aspectos bonitos e agradáveis da realidade, como que fazendo um cartão postal da cidade do Rio de Janeiro, o naturalista registra o feio, o desagradável com objetividade.
Abrem-se botequins preguiçosos, lojas de negócio, e, assim como a luz, o movimento de transeuntes vai aumentando. Daqui e dali, surgem caras estranhas e amarrotadas pelo sono, como abelhas de um cortiço. A vida recomeça. E é nesse quadro que se recorta a figura de Amaro, seguindo em direção ao sobrado. Quando o vê, diminui o passo. Vem-lhe uma saudade! Foi ali que ele viveu o melhor de sua vida. Ali tinha aprendido a amar, a querer bem. Recorda toda sua aventura com o medido bonito. Mas quanto mais lembrava o passado, mais o ódio tomava conta dele. Não conseguia fixar seu olhar em nada.
“Começou, de repente, a sentir uma zoada no ouvido, um rumor vago de insetos, uma coisa desagradável, incômoda e amofinadora; tremiam-lhe as pernas; ia-lhe faltando a respiração. Era um mal-estar, um nervoso, uma aflição, um delírio, um vago desejo de matar, de assassinar, de ver sangue...” (p. 99)
Ao chegar, Amaro depara com a porta do sobrado fechada. Dá meia-volta e vai andando rua acima, meio sem rumo. De repente, dá com a padaria que fica quase defronte da portuguesa. Entra e puxa conversa com o funcionário, perguntando sobre a portuguesa e Aleixo. O que ouve deixa-o estarrecido:
“Acordam tarde. Ultimamente a porte vive fechada. Costumam sair juntos à noite...” (p. 99)
Amaro não quer acreditar e pede mais informações e o outro não se faz de rogado>
“Foram ao teatro, ontem, à “Tomada da Bastilha”. Conheço muito a D. Carolina. Dizem até que está amigada com o pequeno...” (p. 100)
No exato momento em que estão conversando, o funcionário mostra a Amaro que o rapaz está saindo do sobrado. Bom-Crioulo salta até Aleixo e inicia-se uma discussão de amante desprezado e enciumado, atraindo muita gente.
Forma-se um grande círculo em volta dos dois marinheiros, invisíveis agora. Começou um tumulto, um alvoroço, guardas aparecem.
De repente o povo recuou abrindo caminho, a portuguesa apareceu na janela e gritou: “Jesus!” Viu, no meio de duas fileiras de curiosos, o corpo ensanguentado do grumete.
“Aleixo passava nos braços de dois marinheiros, levado como um fardo, o corpo mole, a cabeça pendida para trás, os olhos imóveis, a boca entreaberta. O azul-escuro da camisa e a calça branca tinham grandes nódoas vermelhas. O pescoço estava envolvido num chumaço de panos. Os braços caíam-lhe, sem vida, inertes, bambos, numa frouxidão de membros mutilados.” (p. 101)
“Ninguém se importava com o outro, com o negro, que lá ia, rua abaixo, triste e desolado, entre baionetas, à luz quente da manhã: todos porém, todos queriam ver o cadáver, analisar o ferimento, meter o nariz na chaga...
Mas, um carro rodou, todo lúgubre, todo fechado, e a onda dos curiosos foi se espalhando, se espalhando, até caiu tudo na monotonia habitual, no eterno vaivém.” (p. 102)
CONSIDERAÇÕES
Massaud Moisés vê no “Bom-Crioulo” um romance que “focaliza o problema da escravidão, segundo um prisma abolicionista e republicano”. No entanto, a história do “negro fugido” Amaro não nos parece ter como eixo central o problema da escravidão.
Sem dúvida que esse problema aparece no romance e que a posição do autor é abolicionista e republicano.
“A disciplina militar, como todos os seus excessos, não se comparava ao penoso trabalho penoso trabalho da fazenda, ao regime terrível do tronco e do chicote. Havia muita diferença. (...) Ali ao menos, na fortaleza, ele tinha sua maca, seu travesseiro, sua roupa limpa, e comia bem, a fartar, como qualquer pessoa. (...) Depois, a liberdade, minha gente, só a liberdade valia por tudo! Ali não se olhava a cor ou a raça do marinheiro: todos eram iguais, tinham as mesmas regalias – o mesmo serviço, a mesma folga.”
É importante observar que o retrato do imperador D. Pedro II, no quarto de Amaro, tão bem visto por este no capítulo VII do livro, poderia ir contra esta ideia e dar a entender que o livro é anti-republicano. Pelo contrário, o retrato do imperador reinando em um ambiente tão promíscuo e decadente como o quarto do sobradinho, não seria mais que alegórico de Sua Majestade a reinar em um país decadente, enfeitado por “móveis e objetos de fantasia rococó, “figuras”, enfeites, cousas sem valor muita vez trazidas de bordo...”
Outra temática importante a analisar é a negritude de Amaro. Se a posição do autor é francamente favorável a ele nesse aspecto em alguns momentos do romance (“...o drama do cativo parece avultar na medida de suas qualidades pessoais...”, bem notou Massaud Moisés), se algumas vezes surge sua figura como heróica (o mais forte marinheiro, o episódio de socorro a D. Carolina ou ao transeunte com gota), nem por isso o autor deixa de descrever o Bom-Crioulo com todos os preconceitos de sua época e das teorias deterministas de Taine. Como exemplo disso, vejam-se algumas expressões retiradas de certas passagens do livro, referentes a Amaro: “não tinha forças para resistir aos impulsos do sangue”, “desejo de posse animal”, “se os brancos faziam, quanto mais os negros!”, “momentos há em que os próprios animais caem extenuados”, “cousas do caráter africano”, “ignorante e grosseiro”, “desespero hidrofóbico”, “orgulho selvagem de animal ferido”, etc.
Segundo Antonio Candido:
“A orientação científica se apresenta como interpretação objetiva do comportamento das personagens, mas adquire logo matizes valorativos, na medida em que naquele tempo esta modalidade de interpretação tinha uma função desmistificadora, sendo ruptura com o idealismo e esforço para enxergar a vida na sua totalidade (...)”
A questão da negritude, porém, é secundária. “Bom-Crioulo” filia-se, sem dúvida nenhuma, à corrente naturalista que se preocupava com “temas singulares, extraordinários, frequentemente patológicos” (Erich Auerbach).
O tema central do romance é o homossexualismo, a pederastia.
Caminha tenta ser o mais imparcial possível, atendo-se à observação pura e simples, como bom naturalista. Afinal, “ninguém está livre de um vício”. Mas esta mesma palavra – “vício” – já denota uma postura negativa em relação ao assunto. E o que se lê sempre, nas linhas e entrelinhas, é não só o homossexualismo, mas o sexo em geral, tratado como desvio, forma animalesca de estar no mundo.
Nessa obra a linguagem, a construção dos personagens e do espaço são perpassados pela ideia de que o homossexualismo leva a uma degeneração do ser humano. Apenas para corroborar essa ideia, veja-se o comentário a seguir, em que se analisa a decadência do Bom-Crioulo a partir do momento em que passa a ter uma relação estável com Aleixo no sobradinho de Carolina; decadência que só irá se prolongar, física e mentalmente, até o final do romance:
“Ultimamente [Amaro] começou a achar-se magro, sentindo mesmo uns longes de fraqueza no peito. Quando trabalhava muito ou fazia qualquer esforço, vinha-lhe uma sonolência profunda, uma vontade de estirar o corpo na cama fresca e macia, um relaxamento dos nervos...Os próprios companheiros notavam certa mudança em sua fisionomia (...)”
CAPÍTULO I
Um narrador impessoal, valendo-se do foco narrativo em terceira pessoa, abre o primeiro capítulo do romance descrevendo, minuciosamente, uma corveta. Essa técnica é comum na estética realista-naturalista que visa criar meios para o leitor visualizar o cenário em que vai transcorrer a ação. Informa que o navio, um dia novo e bonito, agora está velho, com o casco negro e as velas encardidas, parecendo mais um esquife agourento.
Após montar o cenário, o narrador põe as personagens em movimento.
“A velha corveta enfrenta a calmaria em alto-mar. Às onze horas, em plena indolência, o tenente ordena toque de reunir no convés. Oficiais e marinheiros preparam-se para a cerimônia de punição dos rebeldes. O guardião Agostinho, companheiro respeitado e temido, mestre na chibata, aplicaria as penas, aquilo lhe dava um prazer especial.”
Entre eles, Herculano, com seu rosto imberbe de adolescente. “As unhas metiam náuseas, muito quilotadas de alcatrão, desleixadas mesmo. Triste figura essa, cujo aspecto deixava uma impressão desagradável e persistente.” (p.14)
A razão do castigo é que o grumete fora flagrado por um mulatinho esperto, quando se masturbava:
“Ora, aconteceu que, na véspera desse dia, Herculano foi surpreendido, por outro marinheiro, a praticar uma ação feia e deprimente do caráter humano. Tinham-no encontrado sozinho, junto à amurada, em pé, a mexer com o braço numa posição torpe, cometendo, contra si próprio, o mais vergonhoso dos atentados”. (p.16)
O mulato chamou o Sant’ana que veio e deu o flagrante. Herculano e Sant’ana brigaram. Por isso, ambos foram a castigo.
Herculano sofreu o seu sem reclamar, mas o Sant’ana tentou justificar-se, desculpar-se, mas de nada adiantou: vinte e cinco chibatadas para cada.
“- Hei de corrigi-los, bradava o comandante, aceso em súbita cólera, mal-humorado sob a luz ardentíssima do meio-dia tropical.
- Hei de corrigi-los: corja!
Nenhum frêmito de comoção na marinhagem, testemunha habitual daquelas cenas que já não logravam produzir efeitos sentimentais, como se fora a reprodução banal de um quadro muito visto.” (p.18)
O terceiro preso a ser castigado é exatamente o protagonista, Amaro, mais conhecido entre os marujos por Bom-Crioulo. Trata-se de um negro, muito robusto e seguro. Calmo quando sóbrio torna-se agressivo quando embriagado.
“Quando havia conflito no cais Pharoux, já toda a gente sabia que era o Bom-Crioulo ás volta com a polícia. Reunia povo, toda a população do litoral corria enchendo a praça, como se tivesse acontecido uma desgraça enorme, formavam-se partidos a favor da polícia e da marinha...uma coisa indescritível!” (p. 19)
O motivo de sua prisão agora, no alto-mar, a bordo da corveta, era outro:
“Bom-Crioulo esmurrara desapiedadamente um segunda-classe, porque este ousara, sem o seu consentimento, maltratar o grumete Aleixo, um belo marinheiro de olhos azuis, muito querido por todos e de quem diziam-se coisas.” (p.19)
O narrador traduz o sentimento interior de satisfação que toma conta de Amaro, que, se por um lado reconhece que agira mal, por outro está contente porque acredita que vai conquistar o grumete “como se conquista uma mulher formosa, uma terra virgem, um país de ouro”.
O guardião Agostinho desfere cento e cinquenta chicotadas sem que o hercúleo Amaro solte um gemido de fraqueza.
Estava terminado o castigo. A população voltava à faina.
CAPÍTULO II
O narrador faz uma retrospectiva, um flash-back, revelando a história de Amaro: aparecera no Rio de Janeiro vindo não se sabe de onde. Negro fugido, fora recrutado pela Marinha e apaixonara-se logo pela vida de bordo. Era uma liberdade tão grande para quem passara toda a vida na fazenda, preso ao cabo da enxada! Ganhou logo a afeição dos oficiais; nunca dava trabalho e aprendia rápido. Isso lhe valeu o apelido de Bom-Crioulo.
“Ali ao menos, na fortaleza, ele tinha sua maca, seu travesseiro, sua roupa limpa, e comia bem, a fartar, como qualquer pessoa, hoje boa carne cozida, amanhã suculenta feijoada, e, às sextas-feiras, um bacalhauzinho com pimenta e “sangue de Cristo”...Para que vida melhor? Depois, a liberdade, minha gente, só a liberdade valia por tudo! Ali não se olhava a cor ou a raça do marinheiro: todos eram iguais, tinham as mesmas regalias – o mesmo serviço, a mesma folga. – E quando a gente se faz estimar pelos superiores, quando não se tem inimigos, então é um viver abençoado esse: ninguém pensa no dia de amanhã!” (p. 22)
Durante o período de aprendizado, sonhava com poder embarcar definitivamente. Quando isso aconteceu, rapidamente ganhou a amizade e o respeito dos companheiros do cruzador de alto-mar, pela sua seriedade e força bruta.
Depois, sonhou em embarcar no navio do Almirante Albuquerque, que diziam recompensar bem seus bons marinheiros.
Quando embarcara na corveta, já tinha trinta anos, era marinheiro de segunda classe.
Com o passar do tempo seu comportamento começa a mudar. Descuidava-se da qualidade de seus serviços. Torna-se lento no cumprimento das obrigações: lerdava no mastro e mostrava-se aborrecido com as tarefas.
Diziam uns que a cachaça estava a perder o negro; outro, porém, insinuavam que Bom-Crioulo tornara-se assim, esquecido e indiferente, desde que Aleixo, o menino que embarcara como grumete no Sul.
“O certo é que o garoto de quinze anos abalara a alma de Amaro, dominando-a, como a força de um imã. (...) Esse movimento indefinível que acomete ao mesmo tempo duas naturezas de sexos contrários, determinando o desejo fisiológico da posse mútua, essa atração animal que faz o homem escravo da mulher e que em todas as espécies impulsiona o macho para a fêmea, sentiu-a Bom-Crioulo irresistivelmente ao cruzar a vista pela primeira vez com o grumetezinho.” (p. 26)
“Bom-Crioulo não se importava com os comentários, desde que não lhe viessem dizer na cara, senão veriam!”
Nota-se no fragmento transcrito uma das mais importantes características do Naturalismo. O narrador, como um cientista, friamente, tecnicamente, procura falar do assunto racionalmente, demonstrando uma visão de mundo materialista em que predomina a preocupação com o aspecto fisiológico, próprio do clínico-geral.
Aleixo era filho de uma família pobre de pescadores. A princípio, Bom-Crioulo o assustara, mas foi se acostumando aos carinhos e à solicitude de Amaro.
Amaro, para mostrar ao grumete de olhos azuis o seu poder sobre os outros e também sua afeição, esmurra o segunda-classe, que ousou maltratá-lo.
Ao regressar do Sul, comenta o narrador, Amaro está mais forte, mais viçoso, mais homem. Já não revela mais tanta obediência, tanto respeito no tocante à disciplina.
Tornou-se um tipo comum, como a maioria dos marinheiros, já fala mal dos oficiais na ausência deles, trata-os com desdém. Após ser castigado por um comandante, de nome Varela, por ter agredido outro marinheiro, Amaro torna-se preguiçoso, insubmisso, ressentido e deixa de se importar com seus deveres, passava um mês no hospital, outro a bordo, outro de licença em terra, resmungando:
“Tolo era quem se matava. Havia de receber seu soldo quer trabalhasse quer não trabalhasse. -...que os pariu!” (p. 28)
O fato do texto estar entre aspas (além disso, no original, está depois do travessão) caracteriza a fala da personagem em discurso direto. Então deveria estar “Tolo é quem se mata...”, mas o escritor colocou os verbos no passado, como se o narrador estivesse reproduzindo a fala da personagem em discurso indireto. Temos então uma contaminação do discurso do narrador pelo da personagem.
CAPÍTULO III
A narrativa retorna ao tempo presente, isto é, ao momento final do primeiro capítulo, logo após o castigo dos três marinheiros. Todos na corveta regozijam-se com a esperança de chegar em breve à baía da Guanabara. Todos não, há um que preferia passar a vida toda no mar: Amaro. “Como haveria de ser a vida em terra depois de ter conhecido o grumete?”
“Era Bom-Crioulo, o negro Amaro, cujo espírito debatia-se, como um pássaro agonizante, em torno desta única ideia – o grumete Aleixo, que o não deixava mais pensar noutra coisa, que o torturava dolorosamente... – Maldita a hora em que o pequeno pusera os pés a bordo! Até então sua vida ia correndo como Deus queria, mais ou menos calma, sem preocupações incômodas, ora triste, ora alegre, é verdade, porque não há nada firme no mundo, mas, enfim, ia-se vivendo...E agora! Agora...hum, hum!...agora não havia remédio: era deixar o pau correr...” (p. 29)
Neste fragmento, a exclamação indica que houve mudança abrupta, marcada por um travessão, mas no meio da frase, sem abrir outro parágrafo e sem qualquer verbo de elocução. Quem está se expressando é Amaro.
No trecho final, tanto as hesitações, os pensamentos incompletos, a interjeição “hum, hum” que indica dúvida e impaciência do próprio protagonista.
Não entendia o que estava acontecendo. Nas duas únicas vezes que se metera com mulheres na vida, foram fracassadas.
Amaro passa o dia todo torturado por um incontrolável “desejo de unir-se ao marujo como se ele fora do outro sexo, de possuí-lo, de tê-lo junto a si, de amá-lo, de gozá-lo”.
Aleixo, por sua vez, ia satisfeito com a vida de grumete. Era o preferido dos oficiais, sempre muito asseado e composto.
Bom-Crioulo era o responsável por aquela transformação; ele ensinara o menino a se vestir, a conquistar simpatias.
Dera a ele um espelhinho, ensinara-o a dar laço na gravata, a usar o boné de lado, a camisa um bocadinho aberta.
Um belo domingo, o rapaz aparece tão lindo em seu uniforme branco que Amaro “ficou deslumbrado e por um triz esteve fazendo uma asneira. Seu desejo era abraçar o pequeno, ali na presença da guarnição, devorá-lo de beijos, esmagá-lo de carícias debaixo do seu corpo”. (p. 31)
Nesse mesmo dia, depois de terminada a leitura do Regulamento e feita á revista, Bom-Crioulo chama Aleixo à proa e entram numa longa conversa em que o negro propõe ao rapaz para morarem juntos, quando voltarem a terra.
Propôs protegê-lo e ensiná-lo a viver no Rio de Janeiro. Aleixo deixava-se levar pelos planos do amigo e fantasiava a vida na capital: morariam juntos em um quarto da Rua da Misericórdia. Conversavam e assistiam à passagem de um transatlântico carregado de imigrantes quando, de repente, o tempo mudou; uma montanha de nuvens se aproximava, viria uma tempestade. O navio agitava-se, preparando-se para a luta contra a natureza.
Durou uma hora e meia o aguaceiro, até que o sol iluminou de novo o horizonte, só o vento persistia.
Depois, os marinheiros aproveitaram o luar e a noite para festejar. Menos o Bom-Crioulo, que cansado do extenuante trabalho, desceu as escadas em busca de abrigo e descanso. Ele e Aleixo, bem próximos, conversaram sobre a tempestade e trocaram histórias até o anoitecer.
O ambiente era frio, úmido. A coberta era nauseabunda, um cheiro acre de suor, urina e alcatrão misturados empesteava o ambiente. Naquela noite, queria resolver logo aquilo, não podia esperar mais. Esgueirava-se entre as macas, procurando Aleixo.
Não se viam, apenas adivinhavam-se por baixo dos cobertores.
“Depois de um silêncio cauteloso e rápido, Bom-Crioulo, conchegando-se ao grumete, disse-lhe qualquer coisa no ouvido. Aleixo conservou-se imóvel, sem respirar. Encolhido, as pálpebras cerrando-se instintivamente de sono, ouvindo, com o ouvido pegado ao convés, o marulhar das ondas na proa, não teve ânimo de murmurar uma palavra. Viu passarem, como em sonho, as mil e uma promessas de Bom-Crioulo; o quartinho da Rua da Misericórdia no Rio de Janeiro, os teatros, os passeios...; lembrou-se do castigo que o negro sofrera por sua causa; mas não disse nada. Uma sensação de ventura infinita espalhava-se-lhe em todo o corpo.
Começava a sentir no próprio sangue impulsos nunca experimentados, uma como vontade ingênita de ceder aos caprichos do negro, de abandonar-se-lhe para o que ele quisesse – uma vaga distensão dos nervos, um prurido de passividade...
- Ande logo!Murmurou apressadamente, voltando-se.
E consumou-se o delito contra a natureza.” (p. 37/8)
CAPÍTULO IV
O dia seguinte amanhece luminoso. Chegam ao Rio de Janeiro e Amaro sentia um misto de alegria e preocupação. Depois de mais de seis meses de escravidão no mar, isso que chamavam “servir à pátria”, enfim chegava à terra firme. No entanto, em vinte e quatro horas pode ver-se separado de seu grumete por ordens superiores. Por outro lado, alegra-se com a prova de amor que recebera:
“Ao pensar nisso Bom-Crioulo sentia uma febre extraordinária de erotismo, um delírio invencível de gozo pederasta...Agora compreendia nitidamente que só no homem, no próprio homem, ele podia encontrar aquilo que debalde procurava nas mulheres”. (p. 40)
O narrador reproduz seu monólogo interior, em que procura justificar seu desvio, tomando como exemplo o comportamento de outros, como o de um oficial.
“Se os brancos faziam, quanto mais os negros! É que nem todos têm força para resistir: a natureza pode mais que a vontade humana...” (p. 40)
Vem a tarde, mas recebem ordem para não desembarcar. Amaro dorme pesado, pois está cansado. Ao acordar, irrita-se pois tivera um verdadeiro esgotamento de líquido seminal. Irrita-o mais ainda o fato de não ter sentido gozo. Levanta-se, arruma suas coisas e sai resmungando, ameaçando quem cruzasse com ele. Só o encontro com Aleixo animou-o.
“Os outros pediam-lhe desculpa, humilhavam-se, adulavam-no, porque sabiam que o negro era meio doido.” (p. 41)
Enfim puderam descer. Passaram pelo decadente Largo do Paço, beberam alguma coisa e foram andando para a Rua da Misericórdia. Pararam defronte de um sobradinho, próximo ao Arsenal de Guerra. Em baixo, moravam uns pretos de Angola. Em cima, a D. Carolina, uma senhora redonda e meio idosa, que abraçou com alegria o Bom-Crioulo. Era uma portuguesa que alugava quartos. Não discriminava os fregueses.
O narrador faz uma retrospectiva, revelando que a portuguesa quando moça, já tivera seu bom período de aparência, uma casa na Rua da Lampadosa, chamavam-na Carola Bunda, tivera dinheiro ganho na prostituição, tivera homens, mas também adoecera e conhecera infortúnios.
Depois tropeçara pela vida, foi para Portugal, retornou ao Brasil, e agora vivia da renda dos aluguéis e da ajuda de uma amante, um açougueiro, senhor Brás, que aparecia às vezes e contribuía com cento e cinquenta mil réis “para o aluguel do sobradinho, fora a carne que mandava diariamente”. Contava, então, com o dinheiro dos aluguéis para segurar sua velhice.
Estimava o Bom-Crioulo desde o dia em que ele a salvara, na rua, de dois pilantras que a assaltavam e podiam até matá-la. Tornaram-se íntimos e, desde então, Amaro só se hospedava na Rua da Misericórdia.
Enquanto Bom-Crioulo contava a D. Carolina seu caso com o grumete, Aleixo reparava na decoração da sala de jantar. Tudo cheirando a sebo e cânfora, velho, poento e incolor.
Os marinheiros foram arranjados no comodozinho de cima, onde podiam ficar mais a sós.
CAPÍTULO V
“O quarto era independente, com janela para os fundos da casa, espécie de sótão roído pelo cupim e tresandando a ácido fênico. Nele morrera de febre amarela um portuguesinho recém-chegado. Mas Bom-Crioulo, conquanto receasse as febres de mau caráter, não se importou com isso, tratando de esquecer o caso e instalando-se definitivamente.” (p. 47)
O leito era uma cama dobrável muito usada, sobre a qual Amaro de manhã cobria com um grosso cobertor encarnado para esconder as nódoas.
Durante meses viveram ali uma vida tranquila. Bom-Crioulo enfeitou o quartinho com bugigangas. Cumpriam seus deveres a bordo e vinham á terra duas vezes por semana.
O grumete levava uma vida de felicidades. Era estimado por D. Carolina e como era comportado e asseado, tornou-se protegido dos oficiais.
Uma coisa apenas o incomodava: os caprichos libertinos de Amaro, pois este não se contentava só em possuí-lo a qualquer hora do dia ou da noite, “queria muito mais, obrigava-o a excessos, fazia dele um escravo, uma “mulher à-toa” propondo quanta extravagância lhe vinha à imaginação”, como quando exigiu que o rapaz se mostrasse para ele nuzinho em pêlo. Apesar da vergonha, Aleixo cedeu, revelando um corpo muito alvo, as formas “roliças de calipígio” (belas nádegas).
“Bom-Crioulo” ficou extático! A brancura láctea e maciça daquela carne tenra punha-lhe frêmitos no corpo, abalando-o nervosamente de um modo estranho, excitando-o como uma bebida forte, atraindo-o, alvoroçando-lhe o coração. Nunca vira formas de homem tão bem torneadas, braços assim, quadris rijos e carnudos como aqueles...Faltavam-lhe os seios para que Aleixo fosse uma verdadeira mulher!...Que beleza de pescoço, que delícia de ombros, que desespero!...”(p. 48/9)
Os desejos de Bom-Crioulo eram de touro! D. Carolina chamava o rapazinho de olhos azuis de “Bonitinho” e desdobrava-se em carinhos para ele.
Certo dia a corveta entrou para os diques.
“Era justamente em dezembro, mês de epidemias e de insuportável calor.” (p. 50)
Com a embarcação parada para reparos, os marinheiros ficam à solta. Amaro torna-se trabalhador de novo, obtendo concessões de imediato e, assim, multiplica os passeios à terra. Já faz quase um ano que está nessa vida. Começa a sentir-se magro e tem uma fraqueza e uma sonolência profunda, mas isso não chega a preocupá-lo, pois vive em paz de espírito vendo crescer a seu lado o Aleixo.
“Sua amizade ao grumete já não era lúbrica e ardente: mudara-se num sentimento calmo, numa afeição comum, sem estos febris nem zelos de amante apaixonado.” (p. 51)
D. Carolina, vendo a permanência dessa ligação, brinca com eles:
“Vocês acabam tendo filhos”.
Mas, certo dia, a corveta saiu do dique e Amaro se viu surpreendido, nomeado para outro navio, um grande navio de guerra. Ficou furioso por ter de se separar do seu amigo. Ameaçou-se, caso se engraçasse com algum oficial. E foi-se, triste, servir na sua nova casa no mar.
CAPÍTULO VI
No dia seguinte, Aleixo não encontrou o Bom-Crioulo no quarto. Adormeceu, esperando pelo negro. Quando acordou, ele não havia aparecido. Não importava, afinal não era impossível viver sem Amaro. Na verdade, nos últimos tempos, pensava mesmo em arranjar alguém melhor, de posição.
Seus pensamentos são interrompidos pela presença da portuguesa. D. Carolina, aproveitando-se da ausência do negro, inicia um processo de sedução do rapaz.
Conversaram enquanto ele se arrumava para uma volta no Passeio Público. Ela queria lhe falar quando voltasse.
Ele saiu, ela se perdeu em seus pensamentos: há dias metera na cabeça conquistar Aleixo. Tinha 38 anos, não estava tão acabada assim, e cansara dos marmanjos.
“Há dias metera-se-lhe na cabeça uma extravagância: conquistar Aleixo, o bonitinho, tomá-lo para si, tê-lo como amantezinho do seu coração avelhentado e gasto, amigar-se com ele secretamente, dando-lhe tudo quanto fosse preciso: roupa, calçados, almoço e jantar nos dias de folga – dando-lhe tudo enfim.” (p. 55)
A portuguesa torna-se muito meiga com o rapaz, guarda-lhe doces; passa ela mesma a ferro os lenços dele. Fingindo-se distraída, vai revelando-lhe pernas, braços, seios.
Um dia, Aleixo passa pelo corredor e dá com a porta aberta dos aposentos da mulher, que, na cama dormia com as pernas de fora, metida numa camisa curta. Ele excita-se, mas nem sonha que ela possa dar atenção a ele, ainda imberbe.
Quando ele voltou do Passeio, a portuguesa levou-o para o seu quarto com uma larga cama de casal. Elogiou-o, disse que estava apaixonada e passando das palavras à ação.
“Então ela, como se lhe houvessem aberto de repente uma caudal de gozo, cravou os dentes na face do grumete, numa fúria brutal, e segurando-o pelas nádegas, o olhar cintilante, o rosto congestionado, foi depô-lo na cama:
- Pr’aí, meu jasmim de estufa, pr’aí! Vais conhecer uma portuguesa velha de sangue quente. Deixa a inocência pro lado, vamos!...
Bateu a porta e começou a se despir a toda pressa, diante de Aleixo, enquanto ele deixava-se estar imóvel, muito admirado para essa mulher-homem que o queria deflorar aí assim, torpemente, como um animal.
- Anda, meu tolinho, despe-te também: aprende com tua velha...Anda, que eu estou que nem uma brasa!...
Aleixo não tinha tempo de coordenar as ideias. D. Carolina o absorvia, transfigurando-se a seus olhos.
Ela de ordinário tão meiga, tão comedida, tão escrupulosa mesmo, aparecia-lhe agora como um animal formidável, cheio de sensualidade, como uma vaca do campo extraordinariamente excitada, que se atira ao macho antes que ele prepare o bote...
Era incrível aquilo!
A mulher só faltava urrar!
E a sua admiração cresceu ainda mais quando ela, sacando fora a camisa ensopada de suor, caiu nua no leito, arquejante, segurando os seios moles, com um estranho fulgor no olhar de basilisco.
Mas Aleixo sabia, por Bom-Crioulo, até onde chega a animalidade humana, e, passado o primeiro momento de surpresa, sentiu que também era feito de carne e osso, como o negro e D. Carolina – valia a pena decerto uma noite como aquela!” (p. 58/9)
Combinaram se encontrar quando Bom-Crioulo não viesse á terra.
No outro dia, Aleixo sai de casa, pálido, com grandes olheiras, pensando:
“Se fosse possível não me encontrar mais, nunca mais com aquele negro, ah! Que felicidade!”
E a figura da mulher dançava em sua imaginação como um sonho diabólico.
CAPÍTULO VII
O narrador dirige o foco da narrativa para o Bom-Crioulo que sofre insatisfeito a vida dura no couraçado para o qual foi transferido. Enchia-se de ódio contra os superiores. Revoltava-se contra o quartel-general que o mandara da corveta para o couraçado. Fantasia desertar e fugir com o pequeno:
“Estavam enganadinhos! Bom-Crioulo tinha sangue nas guelras e era homem para viver só num deserto...” (p. 60)
A vigilância acontecia porque já no primeiro dia o crioulo fora recomendado ao imediato em bilhete especial.
“Muita cautela com o Amaro. É uma praça irrepreensível quando não bebe, mas chupando seu copito, guarda debaixo! Faz um salseiro dos diabos”.
Por isso os oficiais precaveram-se contra ele e não queriam deixá-lo desembarcar. Ficou assentado que ele teria folga só uma vez por mês. Amaro suportou três dias, mas no quarto, um sábado, pediu permissão para desembarcar. Como lhe recusaram, no dia seguinte, pela manhã, ofereceu-se para remar no escaler que ia às compras. Ao atracar, pediu permissão para “fazer uma necessidade” e fugiu direto para o seu quartinho, mas não encontrou Aleixo.
“Abriu as gavetinhas da mesa, revistou móveis, remexeu papéis, como quem procura um objeto, examinou a cama, farejando, tateando...O vidro de óleo não estava na cantoneira e tinha sofrido uma limpa; a garrafa de água Florida, que ele deixara pelo gargalo, quando muito podia ter seis dedos...; a latinha de graxa imobilizava-se no chão, de borco, ao pé do lavatório de ferro; o assoalho era uma imundície de pontas de cigarro e cuspo.
- Eu faço ideia!...murmurou Bom-Crioulo interpretando aquela desordem habitual! Eu faço ideia...” (p. 61)
Depois disso, acendeu um cigarro e deitou-se, só acordando ao meio-dia, quando foi chamado por D. Carolina. Conversaram e Amaro indaga sobre seu amante, mas a portuguesa mente, dizendo que o rapaz viera só um dia, na quinta-feira.
Amaro sai para comer alguma coisa e vai ruminado:
“Precisava tomar uma resolução, abandonar Aleixo, acabar de uma vez, meter-se a bordo, ou então amigar-se aí com uma rapariga de sua cor e viver tranquilo. Estava emagrecendo à toa, não comia, não tinha descanso, em termos de adoecer, de apanhar uma moléstia, por causa do “senhor Aleixo”. Se ao menos pudesse vê-lo todos os dias, como na corveta...; mas assim, longe um do outro? Não valia a pena, era cair no desfrute...” (p. 63)
Um amontoado de gente atrai Amaro, que se espanta de ver dois guardas tentarem inutilmente levantar um homem “acometido de gota, que se espojava no chão, babando, o rosto ensanguentado, a barba suja de areia, em contorções horrorosas”. (p. 64)
Amaro salta no meio e levanta o homem com as duas mãos, transportando-o assim até a Santa Casa de Misericórdia, como se pegasse uma criança, assombrando o povo com sua força. Depois toma um gole de cachaça e só com isso fica alterado. Resolve ir direto para bordo: “Vou porque quero, porque sou livre”.
Eram duas horas da tarde dominical e quase todo o comércio já estava fechado.
Desceu cambaleando para o Largo do Paço, com a mente turva, e os cachorros da rua começaram a provocá-lo.
No cais, grita para os marinheiros de um escaler, que fingem-se de distraídos, fazendo rir a um português que assistia à cena. Amaro descarrega no português a sua raiva. Brigam durante longo tempo e atraem a atenção dos curiosos, que formam um ajuntamento. O crioulo puxa uma navalha e o português foge.
Aproximam-se policiais e Amaro, que já estava de navalha em punho, enfrenta-os.
Aparece um primeiro-tenente da marinha, com mais seis marinheiros, prendendo Amaro como se fosse um animal feroz.
“Que luta para o embarcar! O negro escabujava, mordia, no auge de um desespero hidrofóbico, insultando, rogando pragas.
Afinal, lá conduziram à viva força, e a embarcação deslizou, toda branca, na baía calma...” (p. 68)
CAPÍTULO VIII
“O comandante do couraçado, bela estampa de militar fidalgo, irrepreensível e caprichoso, era o mesmo, aquele mesmo de quem, na frase tosca de Bom-Crioulo, falavam-se coisas...” (p. 68)
Amaro sente por ele uma repugnância instintiva:
“Esse homem nasceu para me fazer mal, pensava o negro supersticiosamente”.
Essa noite dorme Amaro em uma jaula de ferro estreita e sem luz, onde mal cabe um homem. Trancado ali, imóvel, com pés e mãos presos, só conseguiu adormecer de manhã, quando os outros já acordavam. Durante o sono, teve pesadelo com o português da briga. Iam se pegar de novo, mas Aleixo interferia impedindo o confronto. Eram onze horas, quando Amaro, ainda em jejum, foi retirado para o castigo.
“- Não se iluda a guarnição deste navio! Perorou o comandante. Desobediência, embriaguez e pederastia são crimes de primeira ordem. Não se iludam...” (p. 70)
Como da outra vez, Amaro recebeu as chibatadas sem um grito de dor. Quando terminou, o negro rodou e caiu sobre o convés, porejando sangue. Todo seu couro estava cortado pela chibata. Caiu quando já não restava qualquer energia no organismo e a dor sobrepujara a vontade. Vem o médico, aplica-lhe água com éter. Depois, Amaro é levado em um escaler para o hospital em terra.
Aleixo, naquele dia, estava de folga e aproveitou para visitar a portuguesa. Vai com medo de encontrar Bom-Crioulo e de ter de enfrentar os seus caprichos. Após descobrir o sexo heterossexual com a portuguesa, o rapaz “ficara abominando o negro, odiando-o quase, cheio de repugnância, cheio de nojo por aquele animal com formas de homem, que se dizia seu amigo unicamente para o gozar”. Sente que nunca o estimara.
Por sorte, encontrou D. Carolina a lavar roupa, conversam sobre o negro, rindo-se dele. Em seguida, ficou admirando a beleza do corpo da portuguesa, sua pele alva, enquanto ela terminava o serviço.
Sentiam uma atração irresistível.
D. Carolina ao ver o rapaz sente desejo de tomarem banho juntos, ali mesmo. Aquele amante moço fazia D. Carolina remoçar, como se fosse um milagroso afrodisíaco.
“Quis ela mesma despir o rapaz, tirar-lhe a camisa de meia, tirar-lhe as calças, pô-lo nu a seus olhos, Bom-Crioulo já lhe havia dito que Aleixo tinha formas de mulher.
Depois começou a se despir também...
O tanque estava cheio a transbordar. Via-se-lhe o fundo claro através da água límpida e fresca.
Ninguém os via naquela nudez primitiva, frente a frente – o corpo largo e mole da portuguesa em contraste com as formas ideais e rijas do efebo -, escandalosamente nus, pecadoramente bíblicos no silêncio do quintalejo ao abrigo do sol que vibrava em torno do pequeno alpendre a sua luz de ouro fulvo!
O que eles fizeram, antes e depois do banho, ninguém saberá nunca. Os muros do quintal abafaram toda essa misteriosa cena de erotismo consumada ali por trás da Rua da Misericórdia num belíssimo dia de novembro.” (p. 73)
Aleixo se comprazia naquele relacionamento com uma mulher mais experiente, sentia “um forte desejo de possuí-la sempre, sempre, a toda hora, uma vontade irresistível de mordê-la, de cheirá-la, de palpá-la num frenesi de gozo, num grande ímpeto selvagem de novilho insaciável”. (p. 74)
Aleixo mesmo naqueles momentos com a portuguesa, não podia esquecer de todo seu antigo amante. A figura do negro acompanhava-o com uma insistência de remorso. Tinha medo do gênio rancoroso e vingativo do outro. Isso fazia com que suas expansões com a portuguesa fossem incompletas.
A mulher, no entanto, não parecia preocupar-se muito com isso.
“Toda a noite foi um delírio de gozo e sensualidade. D. Carolina cevou o seu hermafroditismo agudo com beijos e abraços e sucções violentas...” (p. 75)
CAPÍTULO IX
Enquanto isso, no hospital, Bom-Crioulo sofria longe de seu amado, ouvindo gemidos aborrecedores e alimentando-se parcamente.
A lembrança de Aleixo não lhe saía da cabeça. Sonhava com a liberdade e com o amor do grumete.
O negro evitava a todos com seu olhar ameaçador e seu jeito carrancudo.
À noite, sozinho, sentia uma mistura de tristeza, desgosto e ódio: o companheiro não o procuraria? Teria arrumado outro?
Não conseguia apagar do espírito o mau pensamento de ver seu garoto nos braços de outro homem. Torturava-o o terrível ciúme.
Na enfermaria, nem a bela paisagem que se via da janela o animava.
Seu consolo era um retrato do Aleixo, uma fotografia barata tirada na Rua do Hospício, quando ele e o rapaz moravam juntos na corveta. Ao deitar-se beijava com carinho aquele retrato.
Angustiado, Amaro lembra-se de pedir a um empregado do hospital para escrever um bilhete ao Aleixo. Dita suas queixas e faz um pedido ao rapaz para que venha fazer-lhe uma visita no dia seguinte, que era um domingo.
Enviou o bilhete ao amigo e ficou esperando, sôfrego e apreensivo, uma resposta que não veio.
Aquele desprezo o encheu de cólera.
“Passou á hora do almoço, chegou a hora do jantar, entraram e saíram marinheiros, a sineta badalou novas baixas, tocou meio-dia, e nada! Nem sinal de Aleixo, nem sombra dele! – Era mesmo para uma pessoa danar! Se não quisesse ir, dissesse!
Veio á noite e a madrugada, mas nada do Bom-Crioulo dormir ou afastar do espírito a imagem importuna do ingrato namorado. Essa imagem o torturava, borboleta importuna a voejar em torno do desprezado.” (p. 79)
Nos dias seguintes, tentou esquecer, em vão, aquele vício, aquela paixão, aquela loucura que ele, tão forte, não conseguia dominar. Começou a pensar numa maneira de fugir do hospital.
Os dias passavam e a existência tornava-se cada vez mais insuportável. Uma noite foi preso quanto tentava escalar o muro do hospital...
CAPÍTULO X
D. Carolina e Aleixo viviam felizes, agora que a figura do negro desaparecera de suas vidas.
Aleixo encorpara, estava virando homem. O sotãozinho estava abandonado; viviam juntos no quarto dela. Aleixo, com ciúmes, quis que ela abandonasse o Manoel, que lhe ajudava a sustentar a casa. Ela disse que sim, mas às escondidas, encontrava-se com o amante para poder equilibrar o orçamento.
A vida era uma embarcação em mar de rosas. Até que chegou às mãos da portuguesa o bilhete do Bom-Crioulo.
D. Carolina rasgou-o em pedacinhos, mas depois ficou pensando, inquieta: tinha medo do que poderia acontecer se Amaro descobrisse tudo, cenas de sangue vinham-lhe à cabeça. Naquela noite, quase não conseguiu dormir.
No dia seguinte, Aleixo estranhou encontrar a porta da rua fechada, assim como os carinhos tantos que ela lhe dispensava naquela tarde. Entregava-se a ele quase maternalmente, para dissipar os temores do bilhete.
Como não dissesse nada, o rapaz amuou. O jantar foi de cara amarrada. Enfim, ele resolveu contar-lhe tudo. Aleixo surpreendeu-se: então Bom-Crioulo ainda pensava nele! Discutiram o assunto e resolveram esquecê-lo. Decidiram sair ao Passeio Público, para aproveitar a noite e espairecer.
CAPÍTULO XI
Ódio, amor e ciúme confundiam-se nos sentimentos de Bom-Crioulo. No hospital, durante o dia, ainda tentava se esquecer de Aleixo, mas à noite era tomado por um desespero incrível, agravado por feridas que haviam brotado por todo o seu corpo e não o deixavam dormir, tal a coceira provocada pela sarna.
Era um sábado, feriado, quando Bom-Crioulo reconheceu entre os marinheiros visitantes do hospital o Herculano, o Pinga da corveta! Foi ele quem lhe disse que Aleixo reinava na embarcação, muito íntimo dos oficiais, e que parecia amigado de uma rapariga em terra.
Bom-Crioulo ouviu aquilo engolindo uma onda de cólera. À noite, fugiu. Queria vingar-se; queria agora gozar o grumete maltratando-o, fazendo-o sofrer!
Planejou a fuga com cuidado; foi para as praias da ilha e ficou esperando o amanhecer, o descortinar-se dos Órgãos, de Niterói, da Barra, do Pão de Açúcar.
Conseguiu que um velho galego o levasse ao continente em um bote. Estava um dia lindo, um dia de galas e de liberdades!
CAPÍTULO XII
Bom-Crioulo chegou cedo à Rua da Misericórdia.
“É bem cedo e há pouco movimento na Rua da Misericórdia. Homens mal vestidos, operários e ganhadores, descem a rua numa lentidão arrastada. A vaca de leite, com as grandes tetas pesadas, passa no seu giro cotidiano, dócil, a baba a escorrer-lhe do focinho em fios de espuma. A carroça do lixo anda na sua faina matinal, parando aqui e ali. Pairava um cheiro forte de urina, assim como uma emanação agressiva de mictório público, envenenando a atmosfera, intoxicando a respiração.” (p. 97)
Aqui temos algumas marcas típicas do gosto naturalista. Ao contrário do escritor romântico que dirigia o foco de suas lentes para aspectos bonitos e agradáveis da realidade, como que fazendo um cartão postal da cidade do Rio de Janeiro, o naturalista registra o feio, o desagradável com objetividade.
Abrem-se botequins preguiçosos, lojas de negócio, e, assim como a luz, o movimento de transeuntes vai aumentando. Daqui e dali, surgem caras estranhas e amarrotadas pelo sono, como abelhas de um cortiço. A vida recomeça. E é nesse quadro que se recorta a figura de Amaro, seguindo em direção ao sobrado. Quando o vê, diminui o passo. Vem-lhe uma saudade! Foi ali que ele viveu o melhor de sua vida. Ali tinha aprendido a amar, a querer bem. Recorda toda sua aventura com o medido bonito. Mas quanto mais lembrava o passado, mais o ódio tomava conta dele. Não conseguia fixar seu olhar em nada.
“Começou, de repente, a sentir uma zoada no ouvido, um rumor vago de insetos, uma coisa desagradável, incômoda e amofinadora; tremiam-lhe as pernas; ia-lhe faltando a respiração. Era um mal-estar, um nervoso, uma aflição, um delírio, um vago desejo de matar, de assassinar, de ver sangue...” (p. 99)
Ao chegar, Amaro depara com a porta do sobrado fechada. Dá meia-volta e vai andando rua acima, meio sem rumo. De repente, dá com a padaria que fica quase defronte da portuguesa. Entra e puxa conversa com o funcionário, perguntando sobre a portuguesa e Aleixo. O que ouve deixa-o estarrecido:
“Acordam tarde. Ultimamente a porte vive fechada. Costumam sair juntos à noite...” (p. 99)
Amaro não quer acreditar e pede mais informações e o outro não se faz de rogado>
“Foram ao teatro, ontem, à “Tomada da Bastilha”. Conheço muito a D. Carolina. Dizem até que está amigada com o pequeno...” (p. 100)
No exato momento em que estão conversando, o funcionário mostra a Amaro que o rapaz está saindo do sobrado. Bom-Crioulo salta até Aleixo e inicia-se uma discussão de amante desprezado e enciumado, atraindo muita gente.
Forma-se um grande círculo em volta dos dois marinheiros, invisíveis agora. Começou um tumulto, um alvoroço, guardas aparecem.
De repente o povo recuou abrindo caminho, a portuguesa apareceu na janela e gritou: “Jesus!” Viu, no meio de duas fileiras de curiosos, o corpo ensanguentado do grumete.
“Aleixo passava nos braços de dois marinheiros, levado como um fardo, o corpo mole, a cabeça pendida para trás, os olhos imóveis, a boca entreaberta. O azul-escuro da camisa e a calça branca tinham grandes nódoas vermelhas. O pescoço estava envolvido num chumaço de panos. Os braços caíam-lhe, sem vida, inertes, bambos, numa frouxidão de membros mutilados.” (p. 101)
“Ninguém se importava com o outro, com o negro, que lá ia, rua abaixo, triste e desolado, entre baionetas, à luz quente da manhã: todos porém, todos queriam ver o cadáver, analisar o ferimento, meter o nariz na chaga...
Mas, um carro rodou, todo lúgubre, todo fechado, e a onda dos curiosos foi se espalhando, se espalhando, até caiu tudo na monotonia habitual, no eterno vaivém.” (p. 102)
CONSIDERAÇÕES
Massaud Moisés vê no “Bom-Crioulo” um romance que “focaliza o problema da escravidão, segundo um prisma abolicionista e republicano”. No entanto, a história do “negro fugido” Amaro não nos parece ter como eixo central o problema da escravidão.
Sem dúvida que esse problema aparece no romance e que a posição do autor é abolicionista e republicano.
“A disciplina militar, como todos os seus excessos, não se comparava ao penoso trabalho penoso trabalho da fazenda, ao regime terrível do tronco e do chicote. Havia muita diferença. (...) Ali ao menos, na fortaleza, ele tinha sua maca, seu travesseiro, sua roupa limpa, e comia bem, a fartar, como qualquer pessoa. (...) Depois, a liberdade, minha gente, só a liberdade valia por tudo! Ali não se olhava a cor ou a raça do marinheiro: todos eram iguais, tinham as mesmas regalias – o mesmo serviço, a mesma folga.”
É importante observar que o retrato do imperador D. Pedro II, no quarto de Amaro, tão bem visto por este no capítulo VII do livro, poderia ir contra esta ideia e dar a entender que o livro é anti-republicano. Pelo contrário, o retrato do imperador reinando em um ambiente tão promíscuo e decadente como o quarto do sobradinho, não seria mais que alegórico de Sua Majestade a reinar em um país decadente, enfeitado por “móveis e objetos de fantasia rococó, “figuras”, enfeites, cousas sem valor muita vez trazidas de bordo...”
Outra temática importante a analisar é a negritude de Amaro. Se a posição do autor é francamente favorável a ele nesse aspecto em alguns momentos do romance (“...o drama do cativo parece avultar na medida de suas qualidades pessoais...”, bem notou Massaud Moisés), se algumas vezes surge sua figura como heróica (o mais forte marinheiro, o episódio de socorro a D. Carolina ou ao transeunte com gota), nem por isso o autor deixa de descrever o Bom-Crioulo com todos os preconceitos de sua época e das teorias deterministas de Taine. Como exemplo disso, vejam-se algumas expressões retiradas de certas passagens do livro, referentes a Amaro: “não tinha forças para resistir aos impulsos do sangue”, “desejo de posse animal”, “se os brancos faziam, quanto mais os negros!”, “momentos há em que os próprios animais caem extenuados”, “cousas do caráter africano”, “ignorante e grosseiro”, “desespero hidrofóbico”, “orgulho selvagem de animal ferido”, etc.
Segundo Antonio Candido:
“A orientação científica se apresenta como interpretação objetiva do comportamento das personagens, mas adquire logo matizes valorativos, na medida em que naquele tempo esta modalidade de interpretação tinha uma função desmistificadora, sendo ruptura com o idealismo e esforço para enxergar a vida na sua totalidade (...)”
A questão da negritude, porém, é secundária. “Bom-Crioulo” filia-se, sem dúvida nenhuma, à corrente naturalista que se preocupava com “temas singulares, extraordinários, frequentemente patológicos” (Erich Auerbach).
O tema central do romance é o homossexualismo, a pederastia.
Caminha tenta ser o mais imparcial possível, atendo-se à observação pura e simples, como bom naturalista. Afinal, “ninguém está livre de um vício”. Mas esta mesma palavra – “vício” – já denota uma postura negativa em relação ao assunto. E o que se lê sempre, nas linhas e entrelinhas, é não só o homossexualismo, mas o sexo em geral, tratado como desvio, forma animalesca de estar no mundo.
Nessa obra a linguagem, a construção dos personagens e do espaço são perpassados pela ideia de que o homossexualismo leva a uma degeneração do ser humano. Apenas para corroborar essa ideia, veja-se o comentário a seguir, em que se analisa a decadência do Bom-Crioulo a partir do momento em que passa a ter uma relação estável com Aleixo no sobradinho de Carolina; decadência que só irá se prolongar, física e mentalmente, até o final do romance:
“Ultimamente [Amaro] começou a achar-se magro, sentindo mesmo uns longes de fraqueza no peito. Quando trabalhava muito ou fazia qualquer esforço, vinha-lhe uma sonolência profunda, uma vontade de estirar o corpo na cama fresca e macia, um relaxamento dos nervos...Os próprios companheiros notavam certa mudança em sua fisionomia (...)”
RESUMO
Ainda no
tempo da escravidão, Amaro, aos dezoito anos de idade, ingressa na Marinha.
Logo, ganha a admiração dos oficiais pelo seu caráter e modos ingênuos. O que
acabou lhe rendendo o apelido de Bom-Crioulo.
Contudo,
durante uma viagem, o rapaz teve contato com a cachaça e, quando isso
acontecia, ele ficava violento. Nessa mesma viagem ele conheceu Aleixo, grumete
do qual, com o tempo, aproximou-se cada vez mais.
Ao
aportar no Rio de Janeiro, Amaro encontra sua amiga Dona Carolina e consegue um
quartinho para ele e Aleixo ficarem. Com o navio atracado, sempre desciam a
terra e ficava no quartinho. Com o tempo, os três passaram a formar uma
família.
Amaro
teve que partir, mas Aleixo ficou e queixou-se para Dona Carolina dos abusos
sexuais que sofria e do desgosto que sentia em relação ao negro. Mais tarde, a
ex-prostituta acaba declarando que queria ter o jovem para si, na cama.
Bom-Crioulo
foge no escaler das compras e vai esperar inutilmente por se amado. Contudo,
esse não aparece e o rapaz acaba saindo, bebendo e arranjando briga. Com isso,
acaba sendo preso e sofre uma surra de chibata, tendo que ser hospitalizado.
Nessa altura,
Aleixo já dormia com Dona Carolina e exigia que ela acabasse com seus casos com
outros homens.
Amaro
escreve um bilhete à Aleixo que acaba caindo nas mãos de Dona Carolina antes.
Ela, então, o faz em pedaços. O rapaz entra em desespero, achando ter sido
trocado por outro. Depois de receber a notícia de que Aleixo estava muito amigo
dos oficiais, foge do hospital levando consigo uma navalha.
Lá fora,
soube que Dona Carolina e Aleixo saíam à noite e levantavam-se tarde todos os
dias. Ao avistar o seu amado, precipitou-se sobre ele, xingando-o e
agarrando-lhe. Com o tumulto, Dona Carolina aparece na janela e vê o jovem
ensanguentado.
A
narrativa termina com Aleixo sendo levado nos braços por dois marinheiros, já
morto. Enquanto Bom-Crioulo é preso pelos guardas.
Fonte:
Site Passei Web e Site Algo Sobre
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.