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domingo, 19 de outubro de 2014

GERACAO DE 45 E POS MODERNISMO

Olá, ternceiranistas!
Literatura para encerrar o ano:
Modernismo terceira fase, geração de 45 e Pós Modernismo



TERCEIRA FASE DO MODERNISMO E PÓS-MODERNISMO

Terceira Geração Modernista (1945-1960 + ou -)
Ou talvez já possamos falar em uma geração que veio depois do Modernismo...
A literatura brasileira, assim como o cenário sócio-político, passa por transformações.

A terceira geração modernista teve início  com a publicação de  Rosa extinta, de Domingos  Carvalho da Silva, O engenheiro, de João Cabral de Melo Neto, Predestinação, de Geraldo Vidigal, Ode e elegia, de Ledo  Ivo.  



A GERAÇAO DE 45

A geração que realizou a sua produção após o fim da Segunda Guerra Mundial viu uma renovação do movimento  modernista e dedicou-se à pesquisa e  à experimentação estética, embora  não tivesse  proposto  um novo movimento literário. 
 Fazem  parte da chamada Geração de  45 os autores já  citados e outros como  Clarice  Lispector e Lygia Fagundes Telles.
Uma das principais características da geração era o desejo de conciliar a modernidade e a tradição.

Nas artes visuais, a descrição da realidade cedeu  lugar à composição abstrata. Na literatura,  a pesquisa sobre a linguagem  literária tornou-se um ponto importante para o  trabalho de escritores que,  a exemplo do  que  já acontecera na geração anterior, usavam o  texto literário  para denunciar as injustiças sociais. Havia a preocupação com o aspecto formal do texto, o que  dividiu o grupo: de um lado, os  autores que  seguiam  a estética do Paranasianismo; do outro, os que  se dedicavam a  uma linguagem racional,  objetiva e sintética.

Além de  marcar o  início de uma nova geração  modernista, 1945 marca também  o  ano da  deposição de Getúlio Vargas – o  início de uma era de democratização  que se estenderia até 1964,  o  ano  do  Golpe Militar.  Nesse contexto, houve uma renovação do  gosto  pela  arte regional e popular, o  que  foi  compreendido  como  um caráter revolucionário. As artes oscilavam entre o  resgate do  passado e a busca do  novo.
Literariamente,  a geração de  1945 representou  um retorno  às conquistas de  1922: propunha-se a volta ao  passado, a revalorização da rima, da métrica, do  vocabulário requintado e das referências mitológicas.   Paradoxalmente, havia  um desejo de renovar a literatura  internacional lida no  Brasil; o grupo foi, então, influenciado pela leitura de escritores como Fernando Pessoa, T.S. Elliot,  Paul  Valèry e  Garcia Lorca.  
Esta geração combinava o nacionalismo  característico da geração de 22 e o  universalismo da geração de 30.

Fatos históricos
Fim do  Estado Novo  (1945)
Retorno de Vargas ao  poder (1951- 1954)
Presidência de Juscelino  Kubistschek (1956 – 1961)
Inauguração de  Brasília, como  nova capital  federal (1960)
Presidência de Jânio  Quadros (1961)
Presidência de João Goulart (1961 – março de  1964)

Características literárias:
Retorno  às conquistas  estéticas de  1922
Revalorização da rima, da métrica, do  vocabulário  erudito (influência parnasiana)
Referências mitológicas
Academicismo
Compromisso  social

Principais autores
Prosa:
Guimarães Rosa
Clarice Lispector

Poesia:
João  Cabral de Melo  Neto

PROSA
A prosa tanto no romance quanto nos contos busca uma literatura intimista, de sondagem psicológica, introspectiva, com destaque para Clarice Lispector.
Ao mesmo tempo, o regionalismo adquire uma nova dimensão com Guimarães Rosa e sua recriação dos costumes e da fala sertaneja, penetrando fundo na psicologia do jagunço do Brasil central.
Um traço característico comum a Clarice e Guimarães Rosa é a pesquisa da linguagem, por isso são chamados instrumentalistas.
Enquanto Guimarães Rosa preocupa-se com a manutenção do enredo com o suspense, Clarice abandona quase que completamente a noção de trama e detém-se no registro de incidentes do cotidiano ou no mergulho para dentro dos personagens.

AUTORES
João Guimarães Rosa(1908-1967)
Nasceu no interior de Minas Gerais. Filho de um comerciante da região, ali fez seus estudos primários, indo posteriormente a Belo Horizonte, onde cursou Medicina. Mudando-se para o Rio de Janeiro em 1932, fez concurso para a carreira de diplomata no então Ministério do Exterior, iniciando uma atividade que o levaria a várias partes do mundo. Ele nasceu em 27 de junho de 1908 na cidade de Cordisburgo, Minas Gerais. Autodidata, começou ainda criança a estudar diversos idiomas, iniciando pelo francês, quando nem completara 7 anos. Em 1925 matriculou-se na Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais, formando-se em 1930. No mesmo ano, casou-se com Lígia Cabral Penna, com quem teve duas filhas.
Passou a exercer a profissão de médico no interior de Minas Gerais, onde teve um primeiro encontro com os elementos e a realidade do sertão. Durante a Revolução Constitucionalista de 1932 atuou como médico voluntário. Mais tarde foi aprovado no concurso e ingressou na Força Pública. Em 1934 foi aprovado em um concurso para o Itamaraty e exerceu diversas funções diplomáticas no exterior, tais como a de cônsul em Hamburgo, na Alemanha – onde conheceu Aracy Moebius de Carvalho (Ara), sua segunda mulher. De volta ao Brasil, em 1951, assumiu outros cargos no Itamaraty, sendo promovido em 1958 a ministro de primeira classe, cargo correspondente a embaixador.
Ao lado de sua atividade profissional, como médico ou como diplomata, Guimarães Rosa nunca deixou de escrever. Tinha também paixão por aprender outros idiomas. Seus conhecimentos nesse campo impressionavam pela amplitude: falava fluentemente alemão, francês, inglês, espanhol, italiano e esperanto, além de um pouco de russo. Lia em sueco, holandês, latim e grego. Havia estudado também a gramática das seguintes línguas: húngaro, árabe, sânscrito, lituano, polonês, tupi, hebraico, japonês, tcheco, finlandês e dinamarquês.
A estreia literária de Guimarães Rosa se deu em 1929, quando a revista “O Cruzeiro” publicou alguns contos seus, vencedores de um concurso literário da edição. Seu primeiro livro, a coletânea de contos "Sagarana", foi publicado em 1946 e chamou muita atenção pelas inovações técnicas e riqueza de simbologias.
O escritor fez, em maio de 1952, um percurso de 240 quilômetros no sertão mineiro, durante dez dias, conduzindo uma boiada. Na viagem, anotou expressões, casos, histórias, procurando apreender de forma mais profunda aquele universo com o qual tinha contato desde a infância. Seu intuito era recriar literariamente o sertão, dando voz a seus personagens. Dessa viagem resultou seu único romance, "Grande Sertão: Veredas", publicado em 1956 e tido como um dos mais importantes textos da literatura brasileira de todos os tempos.
Em 1961, Guimarães Rosa recebeu da Academia Brasileira de Letras o Prêmio Machado de Assis pelo conjunto de sua obra. Candidatou-se à Academia Brasileira de Letras, pela segunda vez, em 1963 e foi eleito por unanimidade. Mas não foi empossado imediatamente, porque adiou a cerimônia enquanto pôde. Dizia ter medo de morrer no dia do evento. Só tomou posse em 16 de novembro de 1967. Três dias depois, em 19 de novembro, morreu subitamente em seu apartamento no Rio de Janeiro, de infarto.
Suas principais obras são: "Sagarana" (1946), "Grande Sertão: Veredas" (1956), "Corpo de Baile" (1956; atualmente é publicada em três volumes: "Manuelzão e Miguilim", "No Urubuquaquá, no Pinhém" e "Noites do Sertão") e "Primeiras Estórias" (1962).


 

Obras: Sagarana (contos-1946);
Corpo de Baile (novelas, 1956);
Grande sertão: veredas (romance, 1956);
Primeiras estórias (contos, 1962); Tutaméia (contos, 1967);
Estas estórias (contos, 1969) 



"Grande Sertão: Veredas" - Resumo da obra de Guimarães Rosa

A obra, uma das mais importantes da literatura brasileira, é elogiada pela linguagem e pela originalidade de estilo presentes no relato de Riobaldo, ex-jagunço que relembra suas lutas, seus medos e o amor reprimido por Diadorim.
O romance "Grande Sertão: Veredas" é considerado uma das mais significativas obras da literatura brasileira. Publicada em 1956, inicialmente chama atenção por sua dimensão – mais de 600 páginas – e pela ausência de capítulos. Guimarães Rosa fundiu nesse romance elementos do experimentalismo linguístico da primeira fase do modernismo e a temática regionalista da segunda fase do movimento, para criar uma obra única e inovadora.

Resumo
Durante a primeira parte da obra, o narrador em primeira pessoa, Riobaldo, faz um relato de fatos diversos e aparentemente desconexos entre si, que versam sobre suas inquietações sobre a vida. Os temas giram em torno das clássicas questões filosóficas ocidentais, tais como a origem do homem, reflexões sobre a vida, o bem e o mal, deus e o diabo. Porém, Riobaldo não consegue organizar suas ideias e expressa-las de modo satisfatório, o que gera um relato bastante caótico. Até que em certo ponto aparece Quelemén de Góis, que o ajuda em parte, e Riobaldo dá início à narrativa propriamente dita.
Riobaldo começa a rememorar seu passado e conta sobre sua mãe e como conhecera o menino Reinaldo, que se declarava ser “diferente”. Riobaldo admira a coragem do amigo. Quando sua mãe vem a falecer, ele é levado para viver com seu padrinho na fazenda São Gregório, onde conhece Joca Ramiro, grande chefe dos jagunços. Selorico Mendes, o padrinho, coloca-o para estudar e após um tempo Riobaldo começa a lecionar para Zé Bebelo, um fazendeiro da região. Pouco tempo depois, Zé Bebelo, que queria por fim na atuação dos jagunços pela região, convida Riobaldo para fazer parte de seu bando, o que esse aceita. Assim começa a história da primeira guerra narrada em "Grande Sertão: Veredas".
O bando dos jagunços liderado por Hermógenes entra em guerra zontra Zé Bebelo e os soldados do governo, mas logo Hermógenes foge da batalha. Riobaldo resolve desertar do bando de Zé Bebelo e encontra Reinaldo, que faz parte do bando de Joca Ramiro. Ele decide então juntar-se ao grupo também.
A amizade entre Riobaldo e Reinaldo se fortalece com o passar do tempo e Reinaldo o confidencia em segredo seu nome verdadeiro: Diadorim. Em certo momento dá-se a batalha entre o bando de Zé Bebelo e de Joca Ramiro, onde Zé Bebelo é capturado. Então, ele é julgado pelo tribunal composto dos líderes dos jagunços, dos quais Joca Ramiro é o chefe supremo. Hermógenes e Ricardão são favoráveis à pena capital. No fim do julgamento, porém, Joca Ramiro sentencia a soltura de Zé Bebelo, sob a condição de que ele vá para Goiás e não volte até segunda ordem. Após o julgamento, Riobaldo e Reinaldo juntam-se ao bando de Titão Passos, que também lutou ao lado de Hermógenes.
Após longo período de paz e bonança no sertão, um jagunço chamado Gavião-Cujo vai até o grupo de Titão informar que Joca Ramiro foi traído e morto por Hermógenes e Ricardão, que ficam conhecidos como “os judas”. Nesse ponto da narrativa, Riobaldo tem um caso amoroso com a prostituta Nhorinhá e, posteriormente, com Otacília, por quem se apaixona. Diadorim dica com raiva e durante uma discussão com Riobaldo ameaça-o com um punhal.
Os jagunços se reúnem para combater “os judas” e assim começa a segunda guerra, organizada sob novas lideranças: de um lado Hermógenes e Ricardão, assassinos de Joca Ramiro e traidores do bando; de outro, os jagunços liderados por Zé Bebelo, que retorna para vingar a morte de seu salvador. Em certo momento da narrativa os dois bandos se unem para tentar fugir do cerco armado pelos soldados do governo, mas o bando de Zé Bebelo foge na surdina do local e deixam Hermógenes e seu bando lutando sozinhos contra os soldados. Riobaldo entrega a pedra de topázio a Diadorim, o que simboliza a união entre os dois, mas esse recusa dizendo que devem esperar o fim da batalha.
Quando o grupo de Zé Bebelo chega às Veredas-Mortas, em dado momento Riobaldo faz um pacto com o diabo para que possam vencer o bando de Hermógenes. Sob o nome Urutu-Branco, ele assume a chefia do bando e Zé Bebelo deserta do grupo. Riobaldo pede para um jagunço entregar a pedra de topázio à Otacília, o que firma o compromisso de casamento entre os dois.
O bando liderado por Riobaldo (ou Urutu-Branco) segue em caça por Hermógenes, chegando até sua fazenda já em terras baianas. Lá eles aprisionam a mulher de Hermógenes e, não o encontrando, voltam para Minas Gerais. Em um primeiro momento, acham o bando de Ricardão e Urutu-Branco o mata. Por fim, encontram o grupo de Hermógenes no Paredão e há uma grande e sangrenta batalha. Diadorim enfrenta Hermógenes em confronto direto e ambos morrem. Riobaldo descobre, então, que Diadorim é na realidade a filha de Joca Ramiro, e se chama Maria Deodorina da Fé Bittancourt Marins.

PERSONAGENS

Riobaldo: é o personagem que narra a própria vida, desde a juventude, antes de virar jagunço. Nessa época, estudou e aprendeu a ler e a escrever, tornando-se professor de Zé Bebelo, seu futuro chefe. Quando entra para a vida de jagunço, a personagem é batizada de Tatarana, que significa “lagarta de fogo”, apelido dado em homenagem à sua exímia pontaria. Em um dado momento da narrativa, depois de um suposto pacto com o Diabo, Riobaldo-Ta tarana toma a liderança do grupo, sendo rebatizado de “Urutu Branco”.

Diadorim: personagem-chave do romance, é tida como homem durante quase toda a narrativa. Apenas nas últimas páginas o narrador conta que, depois de sua morte, quando o corpo é despido e lavado, descobre-se que se tratava de uma mulher. Diadorim havia conhecido Riobaldo, quando ainda eram jovens, em uma travessia do rio São Francisco. Nessa ocasião, ela já vivia disfarçada de menino e dizia chamar-se Reinaldo. Esse nome era secreto no meio da jagunçagem, utilizado apenas nos momentos em que ela e Riobaldo estavam a sós. Quando Riobaldo reencontra Reinaldo/Diadorim, tempos depois, passa para o bando de Joça Ramiro, motivado pela presença de Reinaldo. Riobaldo apaixona-se profundamente por Diadorim, o que provoca nele vários sentimentos contraditórios e de repressão, já que a paixão homossexual era uma relação impossível de ser aceita no meio jagunço.

Joca Ramiro:
grande chefe político e guerreiro, lidera a primeira guerra narrada no romance, e seu assassinato origina a segunda guerra. Em oposição a Hermógenes, Joca Ramiro é o grande guerreiro, o líder sábio, justo, corajoso. Aparece como encarnação das virtudes.

Zé Bebelo: personagem intrigante. Dono de uma oratória verborrágica, tinha ambições políticas, mas, segundo o narrador, começara tarde essa busca pelo poder. Zé Bebelo é extremamente orgulhoso e gaba-se de nunca se ter deixado comandar por ninguém. Conhece Riobaldo quando esse ainda não era jagunço e aprende com ele um pouco de português. Quando Riobaldo lhe toma a chefia, Zé Bebelo reconhece a força do oponente e decide deixar o grupo. Riobaldo tem uma relação diferenciada com Zé Bebelo, conservando sempre certo apreço por esse personagem.

Hermógenes:
para Riobaldo, Hermógenes era o “Cão”, o “Demo”. É o personagem mais odiado pelo narrador. Na primeira guerra, quando estão lutando do mesmo lado, Riobaldo já revela seu ódio por ele; na segunda guerra, quando Hermógenes e Ricardão assassinam Joça Ramiro, esse sentimento se acentua. No romance, Hermógenes é a personificação do mal.

Ricardão:
enquanto Zé Bebelo guerreava por ambições políticas e Hermógenes era motivado por sua natureza assassina, Ricardão tinha interesse apenas na questão financeira. Fazendeiro rico, guerreava para depois poder enriquecer em paz.


 Vídeo: Fragmento da série da Rede Globo  inspirada na obra Grande Sertão Veredas


 Fragmentos do romance Grande Sertão Veredas



O diabo existe e não existe
De primeiro, eu fazia e mexia, e pensar não pensava. Não possuía os prazos. Vivi puxando difícil de difícil, peixe vivo no moquém: quem mói no asp'ro não fantasêia. Mas, agora, feita a folga que me vem, e sem pequenos dessossegos, estou de range rede. E me inventei nesse gosto de especular idéia. O diabo existe e não existe. Dou o dito. Abrenúncio. Essas melancolias. O senhor vê: existe cachoeira; e pois? Mas cachoeira é barranco de chão, e água caindo por ele, retombando; o senhor consome essa água, ou desfaz o barranco, sobra cachoeira alguma? Viver é negócio muito perigoso... (2001, p. 26).

O diabo na rua, no meio do redemunho...
Explico ao senhor: o diabo vige dentro do homem, os crespos do homem - ou é o homem arruinado, ou o homem dos avessos. Solto, por si, cidadão, é que não tem diabo nenhum. Nenhum - é o que digo. O senhor aprova? (...) Bem, o diabo regula seu estado preto, nas criaturas, nas mulheres, nos homens, até nas crianças - eu digo. (...) E nos usos, nas plantas, nas águas, na terra, no vento... Estrumes... O diabo na rua, no meio do redemunho... (2001, p. 26).

A mandioca-mansa e a mandioca-brava
(...) Melhor, se arrepare: pois num chão, e com igual formato de ramos e folhas, não dá mandioca mansa, que se come comum, e a mandioca-brava, que mata? Agora, o senhor já viu uma estranhez? A mandioca doce pode de repente virar azangada - motivos não sei; às vezes se diz que é por replantada no terreno sempre, com mudas seguidas, de manaíbas - vai em amargando, de tanto em tanto, de si mesma toma peçonhas. E, ora veja: a outra, a mandioca-brava, também é que às vezes pode ficar mansa, a esmo, de se comer sem nenhum mal. (...) Arre, ele (o demo) está misturado em tudo (2001, p. 27).

O razoável sofrer e a alegria do amor
Que o que gasta, vai gastando o diabo de dentro da gente, aos pouquinhos, é o razoável sofrer. E a alegria de amor - compadre meu Quelemém diz. Família. Deveras? É, e não é. O senhor ache e não ache. Tudo é e não é... Quase todo mais grave criminoso feroz, sempre é muito bom marido, bom filho, bom pai, e é bom amigo-de-seus-amigos! Sei desses. Só que tem os depois - e Deus, junto. Vi muitas nuvens (2001, p. 27).

Sobre a maldade gratuita
O senhor não duvide - tem gente, nesse aborrecido mundo, que matam só para ver alguém fazer careta... (2001, p. 28).

Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa.
Compadre meu Quelémem sempre diz que eu posso aquietar meu temer de consciência, que sendo bem-assistido, terríveis bons espíritos me protegem. Ipe! Com gosto... Como é de são efeito, ajudo com meu querer acreditar. Mas nem sempre posso. O senhor saiba: eu toda a minha vida pensei por mim, forro, sou nascido diferente. Eu sou eu mesmo. Divêrjo de todo mundo... Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa. O senhor concedendo, eu digo: para pensar longe, sou cão mestre - o senhor solte em minha frente uma idéia ligeira, e eu rastreio essa por fundo de todos os matos, amém! (2001, p. 31).

Uma coisa é pôr idéias arranjadas, outra é lidar com país de pessoas
Uma coisa é pôr idéias arranjadas, outra é lidar com país de pessoas, de carne e sangue, de mil-e-tantas misérias... Tanta gente - dá susto de saber - e nenhum se sossega: todos nascendo, crescendo, se casando, querendo colocação de emprego, comida, saúde, riqueza, ser importante, querendo chuva e negócios bons... De sorte que carece de se escolher: ou a gente se tece de viver no safado comum, ou cuida de só religião só. Eu podia ser: padre sacerdote, se não chefe de jagunços; para outras coisas não fui parido (2001, p. 31).

Reza é que sara da loucura.
Hem? Hem? O que mais penso, testo e explico: todo-o-mundo é louco. O senhor, eu, nós, as pessoas todas. Por isso é que se carece principalmente de religião: para se desendoidecer, desdoidar. Reza é que sara da loucura. No geral. Isso é que é a salvação da alma... Muita religião, seu moço! Eu cá, não perco ocasião de religião. Aproveito de todas. Bebo água de todo rio... Uma só, para mim, é pouca, talvez não me chegue. (...) Tudo me quieta, me suspende. Qualquer sombrinha me refresca. (...) Muita gente não me aprova, acham que lei de Deus é privilégio, invariável (2001, p. 32).

Querer o bem com demais força, de incerto jeito
Viver é muito perigoso... Querer o bem com demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o mal, por principiar. Esses homens! Todos puxavam o mundo para si, para o concertar consertado. Mas cada um só vê e entende as coisas dum seu modo. Montante, o mais supro, mais sério - foi Medeiro Vaz (2001, p. 33).

A gente nunca deve de declarar que aceita inteiro o alheio
Compadre meu Quelemém nunca fala vazio, não substrata. Só que isto a ele não vou expor. A gente nunca deve de declarar que aceita inteiro o alheio - essa é a regra do rei! (2001, p. 39).

As pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas
O senhor... Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas - mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior (2001, p. 39).

Diadorim é a minha neblina

De mim, pessoa, vivo para a minha mulher, que tudo modo-melhor merece, e para a devoção. Bem-querer de minha mulher foi que me auxiliou, rezas dela, graças. Amor vem de amor. Digo. Em Diadorim, penso também - mas Diadorim é a minha neblina... (2001, p. 40).

Alma tem de ser coisa inteira supremada, muito mais do de dentro
(...) Vender sua própria alma... Invencionice falsa! E, alma, o que é? Alma tem de ser coisa inteira supremada, muito mais do de dentro, e é só, do que um se pensa: ah, alma absoluta! Decisão de vender alma é afoitez vadia, fantasiado de momento, não tem a obediência legal. (...) Então, se um menino menino é, e por isso não se autoriza de negociar... E a gente, isso sei, às vezes é só feito meninio. (...) Se tem alma, e tem, ela é de Deus estabelecida, nem que a pessoa queira ou não queira. Não é vendível (2001, p. 41).

O senhor sabe? Já tenteou sofrido o ar que é saudade?
Por esses longes todos eu passei, com pessoa minha no meu lado, a gente se querendo bem. O senhor sabe? Já tenteou sofrido o ar que é saudade? Diz-se que tem saudade de idéia e saudade de coração... (2001, p. 43).

Serra do Cafundó: início de uma geografia imaginária
Na Serra do Cafundó - ouvir trovão de lá, e retrovão, o senhor tapa os ouvidos, pode ser até que chore, de medo mau em ilusão, como quando foi menino. O senhor vê vaca parindo em tempestade. De em de, sempre, Urucúia acima, o Urucúia - tão as brabas vai... Tanta serra, esconde a lua. A serra ali corre torta. A serra faz ponta. (...) Hem? O senhor? Olhe: o rio Carinhanha é preto, o Paracatú moreno; meu, em belo, é o Urucúia - paz das águas... É vida! (2001, p. 43).

Diadorim me pôs o rastro dele para sempre em todas essas quisquilhas da natureza
Diadorim e eu, nós dois. A gente dava passeios. Com assim, a gente se diferenciava dos outros – porque jagunço não é muito de conversa continuada nem de amizades estreitas: a bem eles se misturam e desmisturam, de acaso, mas cada um é feito um por si. De nós dois juntos, ninguém nada não falava. Tinham a boa prudência. Dissesse um, caçoasse, digo – podia morrer. Se acostumavam de ver a gente parmente. Que nem mais maldavam. E estávamos conversando, perto do rego – bicame de velha fazenda, onde o agrião dá flor. Desse lusfús, ia escurecendo. Diadorim acendeu um foguinho, eu fui buscar sabugos. Mariposas passavam muitas, por entre as nossas caras, e besouros graúdos esbarravam. Puxava uma brisbisa. O ianso do vento revinha com o cheiro de alguma chuva perto. E o chiim dos grilos ajuntava o campo, aos quadrados. Por mim, só, de tantas minúcias, não era o capaz de me alembrar, não sou de à parada pouca coisa; mas a saudade me alembra. Que se hoje fosse. Diadorim me pôs o rastro dele para sempre em todas essas quisquilhas da natureza. Sei como sei. Som como os sapos sorumbavam. Diadorim, duro sério, tão bonito, no relume das brasas. Quase que a gente não abria boca; mas era um delém que me tirava para ele – o irremediável extenso da vida. Por mim, não sei que tontura de vexame, com ele calado eu a ele estava obedecendo quieto (2001, p. 45).

 Ódio com paciência; o senhor sabe?
(...) Diadorim dizia. - "Não posso ter alegria nenhuma, nem minha mera vida mesma, enquanto aqueles dois monstros não forem bem acabados..." E ele suspirava de ódio, como se fosse por amor; mas, no mais, não se alterava. De tão grande, o dele não podia mais ter aumento: parava sendo um ódio sossegado. Ódio com paciência; o senhor sabe? (...) E aquilo forte que ele sentia, ia se pegando em mim - mas não como ódio, mas em mim virando tristeza. Enquanto os dois monstros vivessem, simples Diadorim tanto não vivia (2001, p. 46).

Medeiro Vaz era homem sobre o sisudo, nos usos formado, não gastava as palavras
Com o comando de Medeiro Vaz, dali depois daquele carecido repouso, a gente revirava caminho, ia em cima dos outros - deles! - procurando combate. Munição não faltava. Nós estávamos em sessenta homens - mas todos cabras dos melhores. Chefe nosso, Medeiro Vaz, nunca perdia guerreiro. Medeiro Vaz era homem sobre o sisudo, nos usos formado, não gastava as palavras. Nunca relatava antes o projeto que tivesse, que marchas se ia amanhecer para dar. Também, tudo nele decidia a confiança de obediência. (...) Se ele em honrado juízo achasse que estava certo, Medeiro Vaz era solene de guardar o rosário na algibeira, se traçar o sinal-da-cruz e dar firme ordem para se matar uma a uma as mil pessoas. Desde o começo, eu apriciei aquela fortaleza de homem. O segredo dele era de pedra (2001, p. 47).

Ah, a mangaba boa só se colhe já caída no chão, de baixo... Nhorinhá
Digo: outro mês, outro longe – na Aroeirinha fizemos paragem. Ao que, num portal, vi uma mulher moça, vestida de vermelho, se ria. – “Ô moço da barba feita...” – ela falou. Na frente da boca, ela quando ria tinha os todos dentes, mostrava em fio. Tão bonita, só. Eu apeei e amarrei o animal num pau da cerca. Pelo dentro, minhas pernas doíam, por tanto que desses três dias a gente se sustava de custoso varar: circunstância de trinta léguas. Diadorim não estava perto, para me reprovar. De repente, passaram, aos galopes e gritos, uns companheiros, que tocavam um boi preto que iam sangrar e carnear em beira d’água. Eu nem tinha começado a conversar com aquela moça, e a poeira forte que deu no ar ajuntou nós dois, num grosso rojo avermelhado. Então eu entrei, tomei um café coado por mão de mulher, tomei refresco, limonada de pêra-do-campo. Se chamava Nhorinhá. Recebeu meu carinho no cetim do pêlo – alegria que foi, feito casamento, esponsal. Ah, a mangaba boa só se colhe já caída no chão, de baixo... Nhorinhá. Depois ela me deu de presente uma presa de jacaré, para traspassar no chapéu, com talento contra mordida de cobra; e me mostrou para beijar uma estampa de santa, dita meia milagrosa. Muito foi (2001, p. 50).


Esse, Liso do Sussuarão, é o mais longe - pra lá, pra lá, nos ermos
Mãe dela chegou, uma velha arregalada, por nome de Ana Duzuza: falada de ser filha de ciganos, e dona adivinhadora da boa ou má sorte da gente; naquele sertão essa dispôs de muita virtude. Ela sabia que a filha era meretriz, e até – contanto que fosse para os homens de fora do lugarejo, jagunços ou tropeiros – não se importava, mesmo dava sua placença. Comemos farinha com rapadura. E a Ana Duzuza me disse, vendendo forte segredo, que Medeiro Vaz ia experimentar passar de banda a banda o liso do Sussuarão. (...) Nada, nada vezes, e o demo: esse, Liso do Sussuarão, é o mais longe – pra lá, pra lá, nos ermos. Se emenda com si mesmo. Água, não tem. Crer que quando a gente entesta com aquilo o mundo se acaba: carece de se dar volta, sempre. Um é que dali não avança, espia só o começo, só. Ver o luar alumiando, mãe, e escutar como quantos gritos o vento se sabe sozinho, na cama daqueles desertos. Não tem excrementos. Não tem pássaros (2001, p. 49/50).

Diadorim era assim: matar, se matava – era para ser um preparo. O Judas algum? – na faca!
Truco que, de repente, do lado mais impossível, a gente fosse surgir de sobrevento, soflagrar aqueles desprevenidos... Eu escutei, e perfiz até um arrepio. Mas Diadorim, de vez mais sério, temperou: – "Essa velha Ana Duzuza é que inferna e não se serve... Das perguntas que Medeiro Vaz fez, ela tirou por tino a tenção dele, e não devia de ter falado as pausas... Essa carece de morrer, para não ser leleira..." (...) Ouvi mal ouvi. Me vim d’águas frias. Diadorim era assim: matar, se matava – era para ser um preparo. O Judas algum? – na faca! (...) Eu não tive solércia de contradizer. As vontades de minha pessoa estavam entregues a Diadorim. A razão dele era do estilo acinte. (...) Mas, de seguinte, eu pensei: se matarem a velha Duzuza, pelo resguardar o segredo, então é capaz que matem a filha também, Nhorinhá... então é assassinar! Ah, que se puxou de mim uma decisão, e eu abri sete janelas: – "Disso que você disse, desconvenho! Bulir com a vida dessa mulher, para a gente dá atraso..." – eu o quanto falei. Diadorim me adivinhava: – "Já sei que você esteve com a moça filha dela..." – ele respondeu, seco, quase num chio (2001, p. 52).

Todo o mundo, então, todos, tinham de viver honrando a figura daquele, de Joca Ramiro, feito fosse Cristo Nosso Senhor, o exato?!
Diadorim pôs mão em meu braço. Do que me estremeci, de dentro, mas repeli esses alvoroços de doçura. Me deu a mão; e eu. Mas era como tivesse uma pedra pontuda entre as duas palmas. – “Você já paga tão escasso então por Joca Ramiro? Por conta duma bruxa feiticeira, e a má-vida da filha dela, aqui neste confim de gerais?!” – ele baixo exclamou. E tive ira. – “Dou!” – falei. Todo o mundo, então, todos, tinham de viver honrando a figura daquele, de Joca Ramiro, feito fosse Cristo Nosso Senhor, o exato?! E por aí eu já tinha pitado dois cigarros. Ser dono definito de mim, era o que eu queria, queria. Mas Diadorim sabia disso, parece que não deixava: (...) – "Riobaldo, escuta, pois então: Joca Ramiro era o meu pai..." – ele disse – não sei se estava pálido muito, e depois foi que se avermelhou. Devido o que, abaixou o rosto, para mais perto de mim (2001, p. 54).

Criatura gente é não e questão, corda de três tentos, três trancos.
Que Diadorim fosse o filho, agora de vez me alegrava, me assustava. Vontade minha foi declarar: – Redigo, Diadorim: estou com você, assente, em todo sistema, e com a memória de seu pai!... Mas foi o que eu não disse. Será por quê? Criatura gente é não e questão, corda de três tentos, três tranços. – “Pois, para mim, pra quem ouvir, no fato essa Ana Duzuza fica sendo minha mãe!” – foi o que eu disse. E, fechando, quase gritei: – “Por mim, pode cheirar que chegue o manacá: não vou! Reajo dessas barbaridades!..." (2001, p. 54).

Toda mãe vive de boa, mas cada uma cumpre sua paga prenda singular, que é a dela e dela, diversa bondade.
“Riobaldo, se lembra certo da senhora sua mãe? Me conta o jeito de bondade que era a dela...” (...) Na ação de ouvir, digo ao senhor, tive um menos gosto, na ação da pergunta. Só faço, que refugo, sempre quando outro quer direto saber o que é próprio o meu no meu, ah. Mas desci disso, o minuto, vendo que só mesmo Diadorim era que podia acertar esse tento, em sua amizade delicadeza. Ao que entendi. Assim devia de ser.Toda mãe vive de boa, mas cada uma cumpre sua paga prenda singular, que é a dela e dela, diversa bondade. E eu nunca tinha pensado nessa ordem. Para mim, minha mãe era a minha mãe, essas coisas. Agora, eu achava. A bondade especial de minha mãe tinha sido a de amor constando com a justiça, que eu menino precisava. E a de, mesmo no punir meus demaseios, querer-bem às minhas alegrias. A lembrança dela me fantasiou, fraseou – só face dum momento – feito grandeza cantável, feito entre madrugar e amanhecer (2001, p. 57).

O Liso do Sussuarão concebia silêncio, e produzia uma maldade – feito pessoa!
Como vou achar ordem para dizer ao senhor a continuação do martírio, em desde que as barras quebraram, no seguinte, na brumalva daquele falecido amanhecer, sem esperança em uma, sem o simples de passarinhos faltantes? Fomos. Eu abaixava os olhos, para não reter os horizontes, que trancados não alteravam, circunstavam. Do sol e tudo, o senhor pode completar, imaginado; o que não pode, para o senhor, é ter sido, vivido. Só saiba: o Liso do Sussuarão concebia silêncio, e produzia uma maldade – feito pessoa! Não destruí aqueles pensamentos: ir, e ir, vir – e só; e que Medeiro Vaz estava demente, sempre existido doidante, só agora pior, se destapava – era o que eu tinha rompência de gritar. E os outros, companheiros, que é que os outros pensavam? Sei? De certo nadas e noves – iam como o costume – sertanejos tão sofridos. Jagunço é homem já meio desistido por si... A calamidade de quente! E o esbraseado, o estufo, a dor do calor em todos os corpos que a gente tem. Os cavalos venteando – só se ouvia o resfol deles, cavalanços, e o trabalho custoso de suas passadas. Nem menos sinal de sombra. Água não havia. Capim não havia (2001, p. 67) .


Dia da gente desexistir é um certo decreto – por isso que ainda hoje o senhor aqui me vê.
De mim, entreguei alma no corpo, debruçado para a sela, numa quebreira. Até minhas testas formaram de chumbo. Valentia vale em todas horas? Repensei coisas de cabeça-branca. Ou eu variava? (...) Eu via, queria ver, antes de dar à casca, um pássaro voando sem movimento, o chão fresco remexido pela fossura duma anta, o cabecear das árvores, o riso do ar e o fogo feito duma arara. O senhor sabe o que é o frege dum vento, sem uma moita, um pé de parede pra ele se retrasar? Eu ambicionava o suíxo manso dum córrego nas lajes – o bom sumiço dum riacho mato a fundo. E adverti memória dos derradeiros pássaros do Bambual do Boi. Aqueles pássaros faziam arejo. Gritavam contra a gente, cada um asia sua sombra num palmo vivo d’água. O melhor de tudo é a água. No escaldado... "Saio daqui com vida, deserteio de jaguncismo, vou e me caso com Otacília!" – eu jurei, do proposto de meus todos sofrimentos. Mas mesmo depois, naquela hora, eu não gostava mais de ninguém: só gostava de mim, de mim! Novo que eu estava no velho do inferno. Dia da gente desexistir é um certo decreto – por isso que ainda hoje o senhor aqui me vê (2001, p. 68).

Medeiro Vaz, então – por primeira vez – abriu dos lados as mãos, de nada não poder fazer; e ele esteve de ombros rebaixados.
“Nós temos de voltar, chefe?" – Diadorim solicitou. Acabou de falar, e parou um gesto, para nós, a gente sofreasse. Tom bom; mas se via que Medeiro Vaz não podia outro querer, a não ser o que Diadorim perguntava. Medeiro Vaz, então – por primeira vez – abriu dos lados as mãos, de nada não poder fazer; e ele esteve de ombros rebaixados. Mais não vi, e entendi. Peguei minha cabaça, bebi gole, amargo de felém. Mas era mesmo o final de se voltar, Deus me disse. E – o senhor mais saiba – de supeto já eu estava remoçado, são, disposto! Todos influídos assim. Pra trás, sempre dá o prazer. Diadorim apalpou meu braço. Vi: os olhos dele marejados. Mor que depois eu soube – que, a idéia de se atravessar o Liso do Sussuarão, ele Diadorim era que a Medeiro Vaz tinha aconselhado (2001, p. 69).

Confiança – o senhor sabe – ela rodeia é o quente da pessoa.
Esbandalhados nós estávamos, escatimados naquela esfrega. Esmorecidos é que não. Nenhum se lastimava, filhos do dia, acho mesmo que ninguém se dizia de dar por assim. Jagunço é isso. Jagunço não se escabreia com perda nem derrota – quase que tudo para ele é o igual. Nunca vi. Pra ele a vida já está assentada: comer, beber, apreciar mulher, brigar, e o fim final. E todo o mundo não presume assim? Fazendeiro, também? Querem é trovão em outubro e a tulha cheia de arroz. Tudo que eu mesmo, do que mal houve, me esquecia. Tornava a ter fé na clareza de Medeiro Vaz, não desfazia mais nele, digo. Confiança – o senhor sabe – não se tira das coisas feitas ou perfeitas: ela rodeia é o quente da pessoa (2001, p. 72).


Deus come escondido, e o diabo sai por toda parte lambendo o prato...
Fui fogo, depois de ser cinza. Ah, algum, isto é que é, a gente tem de vassalar. Olhe: Deus come escondido, e o diabo sai por toda parte lambendo o prato... Mas eu gostava de Diadorim para poder saber que estes gerais são formosos (2001, p. 72).

Muitos meses se passaram, sem que houvesse combate contra o bando do Hermógenes, e os jagunços, no caminho de Goiás e fugindo das tropas do governo, encontraram a população de um arraial, marchando como se estivesse numa procissão.
É preciso de saber os trechos de se descer para Goiás: em debruçar para Goiás, o chapadão por lá vai terminando, despenha. Tem quebra-cangalhas e ladeiras terríveis vermelhas. Olhe: muito em além, vi lugares de terra queimada e chão que dá som – um estranho. Mundo esquisito! Brejo do Jatobazinho: de medo de nós, um homem se enforcou. Por aí, extremando, se chegava até no Jalapão – quem conhece aquilo? – tabuleiro chapadoso, proporema. Pois lá um geralista me pediu para ser padrinho de filho. O menino recebeu nome de Diadorim, também. Ah, quem oficiou foi o padre dos baianos, saiba o senhor: população de um arraial baiano, inteira, que marchava de mudada-homens, mulheres, as crias, os velhos, o padre com seus petrechos e cruz e a imagem da igreja – tendo até bandinha-de-música, como vieram com todos, parecendo nação de maracatu! Iam para os diamantes, tão longe, eles mesmo dizendo: “... nos rios...” (...) O padre, com chapéu-de-couro prà-trasado. Só era uma procissão sensata enchendo estrada, às poeiras, com o plequeio das alpercatas, as velhas tiravam ladainha, gente cantável. Rezavam, indo da miséria para a riqueza. E, pelo prazer de tomar parte no conforto de religião, acompanhamos esses até à Vila daPedra-de-Amolar. (...) O cortejo dos baianos dava parecença com uma festa. No sertão, até enterro simples é festa (2001, p. 73/74).

“Riobaldo, a colheita é comum, mas o capinar é sozinho...”
Às vezes eu penso: seria o caso de pessoas de fé e posição se reunirem, em algum apropriado lugar, no meio dos gerais, para se viver só em altas rezas, fortíssimas, louvando a Deus e pedindo glória do perdão do mundo. Todos vinham comparecendo, lá se levantava enorme igreja, não havia mais crimes, nem ambição, e todo sofrimento se espraiava em Deus, dado logo, até à hora de cada uma morte cantar. Raciocinei isso com compadre meu Quelemém, e ele duvidou com a cabeça: – “Riobaldo, a colheita é comum, mas o capinar é sozinho...” – ciente me respondeu (2001, p. 74).

Compadre meu Quelemém é um homem fora de projetos.
Compadre meu Quelemém é um homem fora de projetos. O senhor vá lá, na Jijujã. Vai agora, mês de junho. A estrelad’alva sai às três horas, madrugada boa gelada. É tempo da cana. Senhor vê, no escuro, um quebrapeito – e é ele mesmo, já risonho e suado, engenhando o seu moer. O senhor bebe uma cuia de garapa e dá a ele lembranças minhas. Homem de mansa lei, coração tão branco e grosso de bom, que mesmo pessoa muito alegre ou muito triste gosta de poder conversar com ele (2001, p. 75).

Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois no fim dá certo.
Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vaivem, e a vida é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar – é todos contra os acasos. Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois no fim dá certo. Mas, se não tem Deus, então, a gente não tem licença de coisa nenhuma! Porque existe dor. E a vida do homem está presa encantoada – erra rumo, dá em aleijões como esses, dos meninos sem pernas e braços. Dor não dói até em criancinhas e bichos, e nos doidos – não dói sem precisar de se ter razão nem conhecimento? E as pessoas não nascem sempre? Ah, medo tenho não é de ver morte, mas de ver nascimento. Medo mistério. O senhor não vê? O que não é Deus, é estado do demônio. Deus existe mesmo quando não há. Mas o demônio não precisa de existir para haver – a gente sabendo que ele não existe, aí é que ele toma conta de tudo. O inferno é um sem-fim que nem não se pode ver. Mas a gente quer Céu é porque quer um fim: mas um fim com depois dele a gente tudo vendo. Se eu estou falando às flautas, o senhor me corte. Meu modo é este. Nasci para não ter homem igual em meus gostos. O que eu invejo é sua instrução do senhor... (2001, p. 76).

O amor? Pássaro que põe ovos de ferro.
De Araçuaí, eu trouxe uma pedra de topázio. (...) Isto, sabe o senhor por que eu tinha ido lá daqueles lados? De mim, conto. Como é que se pode gostar do verdadeiro no falso? Amizade com ilusão de desilusão. Vida muito esponjosa. Eu passava fácil, mas tinha sonhos, que me afadigavam. Dos de que a gente acorda devagar. O amor? Pássaro que põe ovos de ferro. Pior foi quando peguei a levar cruas minhas noites, sem poder sono. Diadorim era aquela estreita pessoa – não dava de transparecer o que cismava profundo, nem o que presumia. Acho que eu também era assim. Dele eu queria saber? Só se queria e não queria. Nem para se definir calado, em si, um assunto contrário absurdo não concede seguimento. Voltei para os frios da razão. Agora, destino da gente, o senhor veja: eu trouxe a pedra de topázio para dar a Diadorim; ficou sendo para Otacília, por mimo; e hoje ela se possui é em mão de minha mulher! Ou conto mal? Reconto (2001, p. 77).

O Santos-Reis era o homem que vivo fazia mais falta – ele estava viajando para trazer recado e combinação, da parte de Só Candelário e Titão Passos
Passava era uma tropa, os diversos lotes de burros, que vinham de São Romão, levavam sal para Goiás. E o arrieiro-mestre relatando uma infeliz notícia, dessas da vida. – “Ele era alto, feições compridas, dentuço?” – Medeiro Vaz exigiu certeza. – “Olhe, pois era” – o arrieiro respondeu – “e, antes de morrer, deu o nome: que era Santos-Reis... Mais não propôs dizer, porque aí se exalou. Comandante, o senhor creia, nós tivemos grande pena...” A gente, em volta, se consternava. Aqueles tropeiros, no Cururu, tinham achado o Santos-Reis, que morria urgente; tinham acendido vela, e enterrado. Febres? Ao menos, mais, a alma descansasse. A gente tirou chapéus, em voto todos se benzendo. E o Santos-Reis era o homem que vivo fazia mais falta – ele estava viajando para trazer recado e combinação, da parte de Só Candelário e Titão Passos, chefes em nosso favor na outra grande banda do Rio (2001, p. 79).

Nem olhei Diadorim. Medeiro Vaz aprouve. Me encarou, demais, e despachou, em duríssimo: — “Vai, então, e no caminho não morre!”.
— “Agora alguém carece de ir...” — Medeiro Vaz decidiu, olhando salteado; amém! — nós apreciávamos. Eu espiei, caçando Diadorim, que ali bem defronte de mim se portava, mesmo segurava uma vara-de-ferrão, considerei nele certo propósito, de despique gandaiado. Apartei minhas vistas. Requeri, dei passo: — “Se sendo ordens, Chefe, eu gostava de ir...” Medeiro Vaz limpou a goela. A meio, eu estava me lançando, mas mais negaceando prosápia: duvidoso d’ele consentir; pelo bom atirador que eu era, o melhor e mor, necessitavam de mim, haviam de querer me mandar escoteiro, dizedor de mensagem? E aí se deu o que se deu — o isto é. Medeiro Vaz concordou! — “Mas carece de levar um companheiro...” — ele propôs. Aí em tanto eu não devia de me calar, deixar alheia a escolha do segundo, que não me competia? Ah, ânsia: que eu não queria o que de certo queria, e que podia se surtir de repente... E a vontade de fim, que me ora vinha ranger na boca, me levou num avanço: — “Sendo suas ordens, Chefe, o Sesfrêdo comigo vai...” — falei. Nem olhei Diadorim. Medeiro Vaz aprouve. Me encarou, demais, e despachou, em duríssimo: — “Vai, então, e no caminho não morre!” (2001, p. 79).

O real não está na saída nem na chagada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.
Por que era que eu estava procedendo à-toa-assim? Senhor, sei? O senhor vai pondo seu perceber. A gente vive repetido, o repetido, e, escorregável, num mim minuto, já está empurrado noutro galho. Acertasse eu com o que depois sabendo fiquei, para de lá de tantos assombros... Um está sempre no escuro, só no último derradeiro é que clareiam a sala. Digo: o real não está na saída nem na chagada: ele se dispões para a gente é no meio da travessia (2001, p. 80).

Diadorim me espreitava de longe, afetando a espécie de uma vagueza. 
Mire veja o que a gente é: mal dali a um átimo, eu selando meu cavalo e arrumando meus dobros, e já me muito entristecia. Diadorim me espreitava de longe, afetando a espécie de uma vagueza. No me despedir, tive precisão de dizer a ele, baixinho: — “Por teu pai vou, amigo, mano-oh-mano. Vingar Joca Ramiro...” A fraqueza minha, adulatória. Mas ele respondeu: — “Viagem boa, Riobaldo. E boa-sorte...” Despedir dá febre (2001, p. 80).
ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. 19. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.




O diabo existe e não existe
De primeiro, eu fazia e mexia, e pensar não pensava. Não possuía os prazos. Vivi puxando difícil de difícil, peixe vivo no moquém: quem mói no asp'ro não fantasêia. Mas, agora, feita a folga que me vem, e sem pequenos dessossegos, estou de range rede. E me inventei nesse gosto de especular idéia. O diabo existe e não existe. Dou o dito. Abrenúncio. Essas melancolias. O senhor vê: existe cachoeira; e pois? Mas cachoeira é barranco de chão, e água caindo por ele, retombando; o senhor consome essa água, ou desfaz o barranco, sobra cachoeira alguma? Viver é negócio muito perigoso... (2001, p. 26).

O diabo na rua, no meio do redemunho...
Explico ao senhor: o diabo vige dentro do homem, os crespos do homem - ou é o homem arruinado, ou o homem dos avessos. Solto, por si, cidadão, é que não tem diabo nenhum. Nenhum - é o que digo. O senhor aprova? (...) Bem, o diabo regula seu estado preto, nas criaturas, nas mulheres, nos homens, até nas crianças - eu digo. (...) E nos usos, nas plantas, nas águas, na terra, no vento... Estrumes... O diabo na rua, no meio do redemunho... (2001, p. 26).

A mandioca-mansa e a mandioca-brava
(...) Melhor, se arrepare: pois num chão, e com igual formato de ramos e folhas, não dá mandioca mansa, que se come comum, e a mandioca-brava, que mata? Agora, o senhor já viu uma estranhez? A mandioca doce pode de repente virar azangada - motivos não sei; às vezes se diz que é por replantada no terreno sempre, com mudas seguidas, de manaíbas - vai em amargando, de tanto em tanto, de si mesma toma peçonhas. E, ora veja: a outra, a mandioca-brava, também é que às vezes pode ficar mansa, a esmo, de se comer sem nenhum mal. (...) Arre, ele (o demo) está misturado em tudo (2001, p. 27).

O razoável sofrer e a alegria do amor
Que o que gasta, vai gastando o diabo de dentro da gente, aos pouquinhos, é o razoável sofrer. E a alegria de amor - compadre meu Quelemém diz. Família. Deveras? É, e não é. O senhor ache e não ache. Tudo é e não é... Quase todo mais grave criminoso feroz, sempre é muito bom marido, bom filho, bom pai, e é bom amigo-de-seus-amigos! Sei desses. Só que tem os depois - e Deus, junto. Vi muitas nuvens (2001, p. 27).

Sobre a maldade gratuita
O senhor não duvide - tem gente, nesse aborrecido mundo, que matam só para ver alguém fazer careta... (2001, p. 28).

Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa.
Compadre meu Quelémem sempre diz que eu posso aquietar meu temer de consciência, que sendo bem-assistido, terríveis bons espíritos me protegem. Ipe! Com gosto... Como é de são efeito, ajudo com meu querer acreditar. Mas nem sempre posso. O senhor saiba: eu toda a minha vida pensei por mim, forro, sou nascido diferente. Eu sou eu mesmo. Divêrjo de todo mundo... Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa. O senhor concedendo, eu digo: para pensar longe, sou cão mestre - o senhor solte em minha frente uma idéia ligeira, e eu rastreio essa por fundo de todos os matos, amém! (2001, p. 31).

Uma coisa é pôr idéias arranjadas, outra é lidar com país de pessoas
Uma coisa é pôr idéias arranjadas, outra é lidar com país de pessoas, de carne e sangue, de mil-e-tantas misérias... Tanta gente - dá susto de saber - e nenhum se sossega: todos nascendo, crescendo, se casando, querendo colocação de emprego, comida, saúde, riqueza, ser importante, querendo chuva e negócios bons... De sorte que carece de se escolher: ou a gente se tece de viver no safado comum, ou cuida de só religião só. Eu podia ser: padre sacerdote, se não chefe de jagunços; para outras coisas não fui parido (2001, p. 31).

Reza é que sara da loucura.
Hem? Hem? O que mais penso, testo e explico: todo-o-mundo é louco. O senhor, eu, nós, as pessoas todas. Por isso é que se carece principalmente de religião: para se desendoidecer, desdoidar. Reza é que sara da loucura. No geral. Isso é que é a salvação da alma... Muita religião, seu moço! Eu cá, não perco ocasião de religião. Aproveito de todas. Bebo água de todo rio... Uma só, para mim, é pouca, talvez não me chegue. (...) Tudo me quieta, me suspende. Qualquer sombrinha me refresca. (...) Muita gente não me aprova, acham que lei de Deus é privilégio, invariável (2001, p. 32).

Querer o bem com demais força, de incerto jeito
Viver é muito perigoso... Querer o bem com demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o mal, por principiar. Esses homens! Todos puxavam o mundo para si, para o concertar consertado. Mas cada um só vê e entende as coisas dum seu modo. Montante, o mais supro, mais sério - foi Medeiro Vaz (2001, p. 33).

A gente nunca deve de declarar que aceita inteiro o alheio
Compadre meu Quelemém nunca fala vazio, não substrata. Só que isto a ele não vou expor. A gente nunca deve de declarar que aceita inteiro o alheio - essa é a regra do rei! (2001, p. 39).

As pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas
O senhor... Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas - mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior (2001, p. 39).

Diadorim é a minha neblina
 De mim, pessoa, vivo para a minha mulher, que tudo modo-melhor merece, e para a devoção. Bem-querer de minha mulher foi que me auxiliou, rezas dela, graças. Amor vem de amor. Digo. Em Diadorim, penso também - mas Diadorim é a minha neblina... (2001, p. 40).

Alma tem de ser coisa inteira supremada, muito mais do de dentro
(...) Vender sua própria alma... Invencionice falsa! E, alma, o que é? Alma tem de ser coisa inteira supremada, muito mais do de dentro, e é só, do que um se pensa: ah, alma absoluta! Decisão de vender alma é afoitez vadia, fantasiado de momento, não tem a obediência legal. (...) Então, se um menino menino é, e por isso não se autoriza de negociar... E a gente, isso sei, às vezes é só feito meninio. (...) Se tem alma, e tem, ela é de Deus estabelecida, nem que a pessoa queira ou não queira. Não é vendível (2001, p. 41).

O senhor sabe? Já tenteou sofrido o ar que é saudade?
Por esses longes todos eu passei, com pessoa minha no meu lado, a gente se querendo bem. O senhor sabe? Já tenteou sofrido o ar que é saudade? Diz-se que tem saudade de idéia e saudade de coração... (2001, p. 43).

Serra do Cafundó: início de uma geografia imaginária
Na Serra do Cafundó - ouvir trovão de lá, e retrovão, o senhor tapa os ouvidos, pode ser até que chore, de medo mau em ilusão, como quando foi menino. O senhor vê vaca parindo em tempestade. De em de, sempre, Urucúia acima, o Urucúia - tão as brabas vai... Tanta serra, esconde a lua. A serra ali corre torta. A serra faz ponta. (...) Hem? O senhor? Olhe: o rio Carinhanha é preto, o Paracatú moreno; meu, em belo, é o Urucúia - paz das águas... É vida! (2001, p. 43).

Diadorim me pôs o rastro dele para sempre em todas essas quisquilhas da natureza
Diadorim e eu, nós dois. A gente dava passeios. Com assim, a gente se diferenciava dos outros – porque jagunço não é muito de conversa continuada nem de amizades estreitas: a bem eles se misturam e desmisturam, de acaso, mas cada um é feito um por si. De nós dois juntos, ninguém nada não falava. Tinham a boa prudência. Dissesse um, caçoasse, digo – podia morrer. Se acostumavam de ver a gente parmente. Que nem mais maldavam. E estávamos conversando, perto do rego – bicame de velha fazenda, onde o agrião dá flor. Desse lusfús, ia escurecendo. Diadorim acendeu um foguinho, eu fui buscar sabugos. Mariposas passavam muitas, por entre as nossas caras, e besouros graúdos esbarravam. Puxava uma brisbisa. O ianso do vento revinha com o cheiro de alguma chuva perto. E o chiim dos grilos ajuntava o campo, aos quadrados. Por mim, só, de tantas minúcias, não era o capaz de me alembrar, não sou de à parada pouca coisa; mas a saudade me alembra. Que se hoje fosse. Diadorim me pôs o rastro dele para sempre em todas essas quisquilhas da natureza. Sei como sei. Som como os sapos sorumbavam. Diadorim, duro sério, tão bonito, no relume das brasas. Quase que a gente não abria boca; mas era um delém que me tirava para ele – o irremediável extenso da vida. Por mim, não sei que tontura de vexame, com ele calado eu a ele estava obedecendo quieto (2001, p. 45).


Ódio com paciência; o senhor sabe?
(...) Diadorim dizia. - "Não posso ter alegria nenhuma, nem minha mera vida mesma, enquanto aqueles dois monstros não forem bem acabados..." E ele suspirava de ódio, como se fosse por amor; mas, no mais, não se alterava. De tão grande, o dele não podia mais ter aumento: parava sendo um ódio sossegado. Ódio com paciência; o senhor sabe? (...) E aquilo forte que ele sentia, ia se pegando em mim - mas não como ódio, mas em mim virando tristeza. Enquanto os dois monstros vivessem, simples Diadorim tanto não vivia (2001, p. 46).

Medeiro Vaz era homem sobre o sisudo, nos usos formado, não gastava as palavras
Com o comando de Medeiro Vaz, dali depois daquele carecido repouso, a gente revirava caminho, ia em cima dos outros - deles! - procurando combate. Munição não faltava. Nós estávamos em sessenta homens - mas todos cabras dos melhores. Chefe nosso, Medeiro Vaz, nunca perdia guerreiro. Medeiro Vaz era homem sobre o sisudo, nos usos formado, não gastava as palavras. Nunca relatava antes o projeto que tivesse, que marchas se ia amanhecer para dar. Também, tudo nele decidia a confiança de obediência. (...) Se ele em honrado juízo achasse que estava certo, Medeiro Vaz era solene de guardar o rosário na algibeira, se traçar o sinal-da-cruz e dar firme ordem para se matar uma a uma as mil pessoas. Desde o começo, eu apriciei aquela fortaleza de homem. O segredo dele era de pedra (2001, p. 47).

Ah, a mangaba boa só se colhe já caída no chão, de baixo... Nhorinhá
Digo: outro mês, outro longe – na Aroeirinha fizemos paragem. Ao que, num portal, vi uma mulher moça, vestida de vermelho, se ria. – “Ô moço da barba feita...” – ela falou. Na frente da boca, ela quando ria tinha os todos dentes, mostrava em fio. Tão bonita, só. Eu apeei e amarrei o animal num pau da cerca. Pelo dentro, minhas pernas doíam, por tanto que desses três dias a gente se sustava de custoso varar: circunstância de trinta léguas. Diadorim não estava perto, para me reprovar. De repente, passaram, aos galopes e gritos, uns companheiros, que tocavam um boi preto que iam sangrar e carnear em beira d’água. Eu nem tinha começado a conversar com aquela moça, e a poeira forte que deu no ar ajuntou nós dois, num grosso rojo avermelhado. Então eu entrei, tomei um café coado por mão de mulher, tomei refresco, limonada de pêra-do-campo. Se chamava Nhorinhá. Recebeu meu carinho no cetim do pêlo – alegria que foi, feito casamento, esponsal. Ah, a mangaba boa só se colhe já caída no chão, de baixo... Nhorinhá. Depois ela me deu de presente uma presa de jacaré, para traspassar no chapéu, com talento contra mordida de cobra; e me mostrou para beijar uma estampa de santa, dita meia milagrosa. Muito foi (2001, p. 50).

 Esse, Liso do Sussuarão, é o mais longe - pra lá, pra lá, nos ermos
Mãe dela chegou, uma velha arregalada, por nome de Ana Duzuza: falada de ser filha de ciganos, e dona adivinhadora da boa ou má sorte da gente; naquele sertão essa dispôs de muita virtude. Ela sabia que a filha era meretriz, e até – contanto que fosse para os homens de fora do lugarejo, jagunços ou tropeiros – não se importava, mesmo dava sua placença. Comemos farinha com rapadura. E a Ana Duzuza me disse, vendendo forte segredo, que Medeiro Vaz ia experimentar passar de banda a banda o liso do Sussuarão. (...) Nada, nada vezes, e o demo: esse, Liso do Sussuarão, é o mais longe – pra lá, pra lá, nos ermos. Se emenda com si mesmo. Água, não tem. Crer que quando a gente entesta com aquilo o mundo se acaba: carece de se dar volta, sempre. Um é que dali não avança, espia só o começo, só. Ver o luar alumiando, mãe, e escutar como quantos gritos o vento se sabe sozinho, na cama daqueles desertos. Não tem excrementos. Não tem pássaros (2001, p. 49/50).

Diadorim era assim: matar, se matava – era para ser um preparo. O Judas algum? – na faca!
Truco que, de repente, do lado mais impossível, a gente fosse surgir de sobrevento, soflagrar aqueles desprevenidos... Eu escutei, e perfiz até um arrepio. Mas Diadorim, de vez mais sério, temperou: – "Essa velha Ana Duzuza é que inferna e não se serve... Das perguntas que Medeiro Vaz fez, ela tirou por tino a tenção dele, e não devia de ter falado as pausas... Essa carece de morrer, para não ser leleira..." (...) Ouvi mal ouvi. Me vim d’águas frias. Diadorim era assim: matar, se matava – era para ser um preparo. O Judas algum? – na faca! (...) Eu não tive solércia de contradizer. As vontades de minha pessoa estavam entregues a Diadorim. A razão dele era do estilo acinte. (...) Mas, de seguinte, eu pensei: se matarem a velha Duzuza, pelo resguardar o segredo, então é capaz que matem a filha também, Nhorinhá... então é assassinar! Ah, que se puxou de mim uma decisão, e eu abri sete janelas: – "Disso que você disse, desconvenho! Bulir com a vida dessa mulher, para a gente dá atraso..." – eu o quanto falei. Diadorim me adivinhava: – "Já sei que você esteve com a moça filha dela..." – ele respondeu, seco, quase num chio (2001, p. 52).

Todo o mundo, então, todos, tinham de viver honrando a figura daquele, de Joca Ramiro, feito fosse Cristo Nosso Senhor, o exato?!
Diadorim pôs mão em meu braço. Do que me estremeci, de dentro, mas repeli esses alvoroços de doçura. Me deu a mão; e eu. Mas era como tivesse uma pedra pontuda entre as duas palmas. – “Você já paga tão escasso então por Joca Ramiro? Por conta duma bruxa feiticeira, e a má-vida da filha dela, aqui neste confim de gerais?!” – ele baixo exclamou. E tive ira. – “Dou!” – falei. Todo o mundo, então, todos, tinham de viver honrando a figura daquele, de Joca Ramiro, feito fosse Cristo Nosso Senhor, o exato?! E por aí eu já tinha pitado dois cigarros. Ser dono definito de mim, era o que eu queria, queria. Mas Diadorim sabia disso, parece que não deixava: (...) – "Riobaldo, escuta, pois então: Joca Ramiro era o meu pai..." – ele disse – não sei se estava pálido muito, e depois foi que se avermelhou. Devido o que, abaixou o rosto, para mais perto de mim (2001, p. 54).

Criatura gente é não e questão, corda de três tentos, três trancos.
Que Diadorim fosse o filho, agora de vez me alegrava, me assustava. Vontade minha foi declarar: – Redigo, Diadorim: estou com você, assente, em todo sistema, e com a memória de seu pai!... Mas foi o que eu não disse. Será por quê? Criatura gente é não e questão, corda de três tentos, três tranços. – “Pois, para mim, pra quem ouvir, no fato essa Ana Duzuza fica sendo minha mãe!” – foi o que eu disse. E, fechando, quase gritei: – “Por mim, pode cheirar que chegue o manacá: não vou! Reajo dessas barbaridades!..." (2001, p. 54).

Toda mãe vive de boa, mas cada uma cumpre sua paga prenda singular, que é a dela e dela, diversa bondade.
“Riobaldo, se lembra certo da senhora sua mãe? Me conta o jeito de bondade que era a dela...” (...) Na ação de ouvir, digo ao senhor, tive um menos gosto, na ação da pergunta. Só faço, que refugo, sempre quando outro quer direto saber o que é próprio o meu no meu, ah. Mas desci disso, o minuto, vendo que só mesmo Diadorim era que podia acertar esse tento, em sua amizade delicadeza. Ao que entendi. Assim devia de ser.Toda mãe vive de boa, mas cada uma cumpre sua paga prenda singular, que é a dela e dela, diversa bondade. E eu nunca tinha pensado nessa ordem. Para mim, minha mãe era a minha mãe, essas coisas. Agora, eu achava. A bondade especial de minha mãe tinha sido a de amor constando com a justiça, que eu menino precisava. E a de, mesmo no punir meus demaseios, querer-bem às minhas alegrias. A lembrança dela me fantasiou, fraseou – só face dum momento – feito grandeza cantável, feito entre madrugar e amanhecer (2001, p. 57).

O Liso do Sussuarão concebia silêncio, e produzia uma maldade – feito pessoa!
Como vou achar ordem para dizer ao senhor a continuação do martírio, em desde que as barras quebraram, no seguinte, na brumalva daquele falecido amanhecer, sem esperança em uma, sem o simples de passarinhos faltantes? Fomos. Eu abaixava os olhos, para não reter os horizontes, que trancados não alteravam, circunstavam. Do sol e tudo, o senhor pode completar, imaginado; o que não pode, para o senhor, é ter sido, vivido. Só saiba: o Liso do Sussuarão concebia silêncio, e produzia uma maldade – feito pessoa! Não destruí aqueles pensamentos: ir, e ir, vir – e só; e que Medeiro Vaz estava demente, sempre existido doidante, só agora pior, se destapava – era o que eu tinha rompência de gritar. E os outros, companheiros, que é que os outros pensavam? Sei? De certo nadas e noves – iam como o costume – sertanejos tão sofridos. Jagunço é homem já meio desistido por si... A calamidade de quente! E o esbraseado, o estufo, a dor do calor em todos os corpos que a gente tem. Os cavalos venteando – só se ouvia o resfol deles, cavalanços, e o trabalho custoso de suas passadas. Nem menos sinal de sombra. Água não havia. Capim não havia (2001, p. 67) .
 
Dia da gente desexistir é um certo decreto – por isso que ainda hoje o senhor aqui me vê.
De mim, entreguei alma no corpo, debruçado para a sela, numa quebreira. Até minhas testas formaram de chumbo. Valentia vale em todas horas? Repensei coisas de cabeça-branca. Ou eu variava? (...) Eu via, queria ver, antes de dar à casca, um pássaro voando sem movimento, o chão fresco remexido pela fossura duma anta, o cabecear das árvores, o riso do ar e o fogo feito duma arara. O senhor sabe o que é o frege dum vento, sem uma moita, um pé de parede pra ele se retrasar? Eu ambicionava o suíxo manso dum córrego nas lajes – o bom sumiço dum riacho mato a fundo. E adverti memória dos derradeiros pássaros do Bambual do Boi. Aqueles pássaros faziam arejo. Gritavam contra a gente, cada um asia sua sombra num palmo vivo d’água. O melhor de tudo é a água. No escaldado... "Saio daqui com vida, deserteio de jaguncismo, vou e me caso com Otacília!" – eu jurei, do proposto de meus todos sofrimentos. Mas mesmo depois, naquela hora, eu não gostava mais de ninguém: só gostava de mim, de mim! Novo que eu estava no velho do inferno. Dia da gente desexistir é um certo decreto – por isso que ainda hoje o senhor aqui me vê (2001, p. 68).

Medeiro Vaz, então – por primeira vez – abriu dos lados as mãos, de nada não poder fazer; e ele esteve de ombros rebaixados.
“Nós temos de voltar, chefe?" – Diadorim solicitou. Acabou de falar, e parou um gesto, para nós, a gente sofreasse. Tom bom; mas se via que Medeiro Vaz não podia outro querer, a não ser o que Diadorim perguntava. Medeiro Vaz, então – por primeira vez – abriu dos lados as mãos, de nada não poder fazer; e ele esteve de ombros rebaixados. Mais não vi, e entendi. Peguei minha cabaça, bebi gole, amargo de felém. Mas era mesmo o final de se voltar, Deus me disse. E – o senhor mais saiba – de supeto já eu estava remoçado, são, disposto! Todos influídos assim. Pra trás, sempre dá o prazer. Diadorim apalpou meu braço. Vi: os olhos dele marejados. Mor que depois eu soube – que, a idéia de se atravessar o Liso do Sussuarão, ele Diadorim era que a Medeiro Vaz tinha aconselhado (2001, p. 69).

Confiança – o senhor sabe – ela rodeia é o quente da pessoa.
Esbandalhados nós estávamos, escatimados naquela esfrega. Esmorecidos é que não. Nenhum se lastimava, filhos do dia, acho mesmo que ninguém se dizia de dar por assim. Jagunço é isso. Jagunço não se escabreia com perda nem derrota – quase que tudo para ele é o igual. Nunca vi. Pra ele a vida já está assentada: comer, beber, apreciar mulher, brigar, e o fim final. E todo o mundo não presume assim? Fazendeiro, também? Querem é trovão em outubro e a tulha cheia de arroz. Tudo que eu mesmo, do que mal houve, me esquecia. Tornava a ter fé na clareza de Medeiro Vaz, não desfazia mais nele, digo. Confiança – o senhor sabe – não se tira das coisas feitas ou perfeitas: ela rodeia é o quente da pessoa (2001, p. 72).


Deus come escondido, e o diabo sai por toda parte lambendo o prato...
Fui fogo, depois de ser cinza. Ah, algum, isto é que é, a gente tem de vassalar. Olhe: Deus come escondido, e o diabo sai por toda parte lambendo o prato... Mas eu gostava de Diadorim para poder saber que estes gerais são formosos (2001, p. 72).

Muitos meses se passaram, sem que houvesse combate contra o bando do Hermógenes, e os jagunços, no caminho de Goiás e fugindo das tropas do governo, encontraram a população de um arraial, marchando como se estivesse numa procissão.
É preciso de saber os trechos de se descer para Goiás: em debruçar para Goiás, o chapadão por lá vai terminando, despenha. Tem quebra-cangalhas e ladeiras terríveis vermelhas. Olhe: muito em além, vi lugares de terra queimada e chão que dá som – um estranho. Mundo esquisito! Brejo do Jatobazinho: de medo de nós, um homem se enforcou. Por aí, extremando, se chegava até no Jalapão – quem conhece aquilo? – tabuleiro chapadoso, proporema. Pois lá um geralista me pediu para ser padrinho de filho. O menino recebeu nome de Diadorim, também. Ah, quem oficiou foi o padre dos baianos, saiba o senhor: população de um arraial baiano, inteira, que marchava de mudada-homens, mulheres, as crias, os velhos, o padre com seus petrechos e cruz e a imagem da igreja – tendo até bandinha-de-música, como vieram com todos, parecendo nação de maracatu! Iam para os diamantes, tão longe, eles mesmo dizendo: “... nos rios...” (...) O padre, com chapéu-de-couro prà-trasado. Só era uma procissão sensata enchendo estrada, às poeiras, com o plequeio das alpercatas, as velhas tiravam ladainha, gente cantável. Rezavam, indo da miséria para a riqueza. E, pelo prazer de tomar parte no conforto de religião, acompanhamos esses até à Vila daPedra-de-Amolar. (...) O cortejo dos baianos dava parecença com uma festa. No sertão, até enterro simples é festa (2001, p. 73/74).

“Riobaldo, a colheita é comum, mas o capinar é sozinho...”
Às vezes eu penso: seria o caso de pessoas de fé e posição se reunirem, em algum apropriado lugar, no meio dos gerais, para se viver só em altas rezas, fortíssimas, louvando a Deus e pedindo glória do perdão do mundo. Todos vinham comparecendo, lá se levantava enorme igreja, não havia mais crimes, nem ambição, e todo sofrimento se espraiava em Deus, dado logo, até à hora de cada uma morte cantar. Raciocinei isso com compadre meu Quelemém, e ele duvidou com a cabeça: – “Riobaldo, a colheita é comum, mas o capinar é sozinho...” – ciente me respondeu (2001, p. 74).

Compadre meu Quelemém é um homem fora de projetos.
Compadre meu Quelemém é um homem fora de projetos. O senhor vá lá, na Jijujã. Vai agora, mês de junho. A estrelad’alva sai às três horas, madrugada boa gelada. É tempo da cana. Senhor vê, no escuro, um quebrapeito – e é ele mesmo, já risonho e suado, engenhando o seu moer. O senhor bebe uma cuia de garapa e dá a ele lembranças minhas. Homem de mansa lei, coração tão branco e grosso de bom, que mesmo pessoa muito alegre ou muito triste gosta de poder conversar com ele (2001, p. 75).

Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois no fim dá certo.
Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vaivem, e a vida é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar – é todos contra os acasos. Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois no fim dá certo. Mas, se não tem Deus, então, a gente não tem licença de coisa nenhuma! Porque existe dor. E a vida do homem está presa encantoada – erra rumo, dá em aleijões como esses, dos meninos sem pernas e braços. Dor não dói até em criancinhas e bichos, e nos doidos – não dói sem precisar de se ter razão nem conhecimento? E as pessoas não nascem sempre? Ah, medo tenho não é de ver morte, mas de ver nascimento. Medo mistério. O senhor não vê? O que não é Deus, é estado do demônio. Deus existe mesmo quando não há. Mas o demônio não precisa de existir para haver – a gente sabendo que ele não existe, aí é que ele toma conta de tudo. O inferno é um sem-fim que nem não se pode ver. Mas a gente quer Céu é porque quer um fim: mas um fim com depois dele a gente tudo vendo. Se eu estou falando às flautas, o senhor me corte. Meu modo é este. Nasci para não ter homem igual em meus gostos. O que eu invejo é sua instrução do senhor... (2001, p. 76).

O amor? Pássaro que põe ovos de ferro.
De Araçuaí, eu trouxe uma pedra de topázio. (...) Isto, sabe o senhor por que eu tinha ido lá daqueles lados? De mim, conto. Como é que se pode gostar do verdadeiro no falso? Amizade com ilusão de desilusão. Vida muito esponjosa. Eu passava fácil, mas tinha sonhos, que me afadigavam. Dos de que a gente acorda devagar. O amor? Pássaro que põe ovos de ferro. Pior foi quando peguei a levar cruas minhas noites, sem poder sono. Diadorim era aquela estreita pessoa – não dava de transparecer o que cismava profundo, nem o que presumia. Acho que eu também era assim. Dele eu queria saber? Só se queria e não queria. Nem para se definir calado, em si, um assunto contrário absurdo não concede seguimento. Voltei para os frios da razão. Agora, destino da gente, o senhor veja: eu trouxe a pedra de topázio para dar a Diadorim; ficou sendo para Otacília, por mimo; e hoje ela se possui é em mão de minha mulher! Ou conto mal? Reconto (2001, p. 77).

O Santos-Reis era o homem que vivo fazia mais falta – ele estava viajando para trazer recado e combinação, da parte de Só Candelário e Titão Passos
Passava era uma tropa, os diversos lotes de burros, que vinham de São Romão, levavam sal para Goiás. E o arrieiro-mestre relatando uma infeliz notícia, dessas da vida. – “Ele era alto, feições compridas, dentuço?” – Medeiro Vaz exigiu certeza. – “Olhe, pois era” – o arrieiro respondeu – “e, antes de morrer, deu o nome: que era Santos-Reis... Mais não propôs dizer, porque aí se exalou. Comandante, o senhor creia, nós tivemos grande pena...” A gente, em volta, se consternava. Aqueles tropeiros, no Cururu, tinham achado o Santos-Reis, que morria urgente; tinham acendido vela, e enterrado. Febres? Ao menos, mais, a alma descansasse. A gente tirou chapéus, em voto todos se benzendo. E o Santos-Reis era o homem que vivo fazia mais falta – ele estava viajando para trazer recado e combinação, da parte de Só Candelário e Titão Passos, chefes em nosso favor na outra grande banda do Rio (2001, p. 79).

Nem olhei Diadorim. Medeiro Vaz aprouve. Me encarou, demais, e despachou, em duríssimo: — “Vai, então, e no caminho não morre!”.
— “Agora alguém carece de ir...” — Medeiro Vaz decidiu, olhando salteado; amém! — nós apreciávamos. Eu espiei, caçando Diadorim, que ali bem defronte de mim se portava, mesmo segurava uma vara-de-ferrão, considerei nele certo propósito, de despique gandaiado. Apartei minhas vistas. Requeri, dei passo: — “Se sendo ordens, Chefe, eu gostava de ir...” Medeiro Vaz limpou a goela. A meio, eu estava me lançando, mas mais negaceando prosápia: duvidoso d’ele consentir; pelo bom atirador que eu era, o melhor e mor, necessitavam de mim, haviam de querer me mandar escoteiro, dizedor de mensagem? E aí se deu o que se deu — o isto é. Medeiro Vaz concordou! — “Mas carece de levar um companheiro...” — ele propôs. Aí em tanto eu não devia de me calar, deixar alheia a escolha do segundo, que não me competia? Ah, ânsia: que eu não queria o que de certo queria, e que podia se surtir de repente... E a vontade de fim, que me ora vinha ranger na boca, me levou num avanço: — “Sendo suas ordens, Chefe, o Sesfrêdo comigo vai...” — falei. Nem olhei Diadorim. Medeiro Vaz aprouve. Me encarou, demais, e despachou, em duríssimo: — “Vai, então, e no caminho não morre!” (2001, p. 79).

O real não está na saída nem na chagada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.
Por que era que eu estava procedendo à-toa-assim? Senhor, sei? O senhor vai pondo seu perceber. A gente vive repetido, o repetido, e, escorregável, num mim minuto, já está empurrado noutro galho. Acertasse eu com o que depois sabendo fiquei, para de lá de tantos assombros... Um está sempre no escuro, só no último derradeiro é que clareiam a sala. Digo: o real não está na saída nem na chagada: ele se dispões para a gente é no meio da travessia (2001, p. 80).

Diadorim me espreitava de longe, afetando a espécie de uma vagueza. 
Mire veja o que a gente é: mal dali a um átimo, eu selando meu cavalo e arrumando meus dobros, e já me muito entristecia. Diadorim me espreitava de longe, afetando a espécie de uma vagueza. No me despedir, tive precisão de dizer a ele, baixinho: — “Por teu pai vou, amigo, mano-oh-mano. Vingar Joca Ramiro...” A fraqueza minha, adulatória. Mas ele respondeu: — “Viagem boa, Riobaldo. E boa-sorte...” Despedir dá febre (2001, p. 80).
ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. 19. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.

MINISSÉRIE REDE GLOBO " GRANDE SERTÃO VEREDAS" OBRA COMPLETA





CARACTERISTICAS DO AUTOR
Suas histórias são ambientadas no sertão de Minas Gerais ou em pequenos povoados da região, Apresenta o mundo sertanejo, investigando a natureza humana em sua essência, o que confere um sentido de universalidade ao seu regionalismo. É frequente o conflito entre o bem e o mal. No que se refere à linguagem, o autor não se limita a reproduzir a fala sertaneja, ele estiliza a linguagem regional, procurando neologismos, arcaísmos, onomatopeias, aliterações, inovações sintáticas. o resultado é uma língua original e de grande força expressiva.



Primeiras Estórias, de Guimarães Rosa
Análise da obra
O livro Primeiras estórias faz parte do terceiro tempo do Modernismo brasileiro e foi publicado em 1962. As 21 estórias, portanto, são narrativas preocupadas em tematizar, simbolicamente, os segredos da existência humana.
Trata-se do primeiro conjunto de histórias compactas a seguir a linha do conto tradicional, daí o "Primeiras" do título. O escritos acrescenta, logo após, o termo estória, tomando-o emprestado do inglês, em oposição ao termo História, designando algo mais próximo da invenção, ficção. Na obra há a intenção de apresentar fábulas para as crianças do futuro.
À primeira vista, a leitura de Primeiras Estórias pode, falsamente, parecer difícil e a linguagem soar erudita e ininteligível, mas essa é uma avaliação precipitada. Na verdade, o autor busca recuperar na escrita, a fala das personagens do sertão mineiro; a poesia presente nas imagens, sons e estruturas de uma linguagem que está à margem da norma estabelecida pelos padrões urbanos.
Quanto ao emprego dos tempos verbais, nota-se que, na maior parte das estórias, o relato se faz através de uma mistura do pretérito perfeito com o pretérito imperfeito do indicativo.
A obra aborda as diferentes faces do gênero: a psicológica, a fantástica, a autobiográfica, a anedótica, a satírica, vazadas em diferentes tons: o cômico, o trágico, o patético, o lírico, o sarcástico, o erudito, o popular.
As personagens embora variem muito quanto à faixa etária e experiência de vida, elas se ligam por um aspecto comum: suas reações psicossociais extrapolam o limite da normalidade. São crianças e adolescentes superdotados, santos, bandidos, gurus sertanejos, vampiros e, principalmente, loucos: sete estórias apresentam personagens com este traço.
A relação com a morte e com o desejo de imortalidade está presente em toda a obra de Guimarães Rosa, mas talvez com mais intensidade em "Primeiras Estórias".
Em cada um dos contos deste livro o narrador configura sua experiência de forma diferente, atravessando estágios emocionais distintos, conforme o ponto do percurso em que se encontra. Tanto em As Margens da Alegria, quanto em Os Cimos, contos extremos do livro, ele se identifica profundamente com o protagonista, como se ele espelhasse sua própria trajetória, sua infância, como se assim universalizasse, de certa forma, essa travessia. Ou seja, ele tenta perceber o que há de comum na infância de cada menino, nessas delicadas passagens, em seus estados de alma, nos dolorosos conflitos, nas fascinantes descobertas.
Os personagens de Rosa parecem caminhar pelas veredas da memória, vagar pelos labirintos de sua psique, ser guiados pelos fios das experiências por eles vividas e não completamente elaboradas no plano da consciência. Eles são movidos pela necessidade de transmitir suas vivências, para melhor compreendê-las e ordená-las em sua mente consciente. Diante do tempo transcorrido, os protagonistas rosianos mantêm uma constante atitude interrogativa.

Resumos dos contos
1. As margens da alegria - Narrado em terceira pessoa, esse primeiro conto de Sagarana, de Guimarães Rosa, é considerado, com o último, Os cimos, a moldura do livro, já que apresenta as mesmas personagens no mesmo ambiente.

2. Famigerado - Narrado em primeira pessoa, Famigerado, conto que faz parte da obra Primeiras estórias, de Guimarães Rosa, constitui-se num episódio cômico.

3. Sorôco, sua mãe, sua filha - Conto narrado em terceira pessoa, mas com a participação ambígua do narrador como personagem.

4. A menina de lá  - A menina de lá , conto de Guimarães Rosa, da obra Primeiras estórias, é narrado em terceira pessoa.
5. Os irmãos Dagobé - Conto de Primeiras estórias, obra de Guimarães Rosa, tem narração em primeira pessoa (alguém do arraial, presente no velório e no enterro, que registra suas impressões sobre os irmãos Dagobé e possíveis acontecimentos futuros).

6. A terceira margem do rio - Este conto é narrado em primeira pessoa e é o mais famoso e o mais aberto conto do autor.

7. Pirlimpsiquice - Conto narrado em primeira pessoa, apresentando um narrador protagonista.

8. Nenhum, nenhuma - No conto Nenhum, Nenhuma, a indefinição do espaço se articula com a questão do tempo, na medida em que todas as referências a espaços indefinidos misturam-se à memória perdida que o narrador tenta recuperar; o que ele talvez resuma da seguinte forma: As lembranças são outras distâncias....

9. Fatalidade - Conto narrado em primeira pessoa (testemunha), cujos personagens são: Meu Amigo, delegado filósofo, que já foi de tudo na vida, e Zé Centeralfe, caboclo perseguido por um valentão que lhe quer roubar a esposa.

10. Seqüência - Em Seqüência, décimo conto de Primeiras Estórias, e narrado em terceira pessoa, nos deparamos com a história de uma busca.

11. O espelho - O espelho é o centro da obra Primeiras Estórias, de Guimarães Rosa, onde o narrador, em primeira pessoa, conta de sua luta para provar a falta de lógica e de sentido do mundo.

12. Nada e a nossa condição - Conto com narrador em primeira pessoa (testemunha), cujo personagem central é Tio Man'Antônio, mais um dos loucos iluminados de Guimarães Rosa.

13. O cavalo que bebia cerveja - Narrado em primeira pessoa Reivalino, um homem do meio rural e tem como tema o mistério, a não aceitação daquilo que é diferente.

14. Um moço muito branco - Este conto é introduzido por uma precisão espaço-temporal atípica em Guimarães Rosa e pode ser classificado como fantástico.

15. Luas-de-mel - O conto, narrado em primeira pessoa, introduz o motivo, fundamental na obra rosiana, do eterno feminino.

16. A partida do audaz navegante - Conto narrado em terceira pessoa, onde há duas histórias justapostas: a que nos conta o narrador, envolvendo as crianças; e a que Brejeirinha inventa sobre o “Audaz Navegante”.
17. A benfazeja - Mais uma vez a idéia de que "quem não está preparado para a verdade não a pode enxergar".

18. Darandina - Conto narrado em primeira pessoa, por uma testemunha do episódio, um plantonista de um hospício.

19. Substância - Este conto tem como personagem principal Sionésio, homem simples, trabalhador e calado.

20. Tarantão, meu patrão - Outro conto com anticlímax. É a estória de um "louco-iluminado" da galeria roseana, o Iô Jão-de-Barros-Dinis-Robertes, narrada em primeira pessoa por Vagalume, ajudante-de-ordens do protagonista e encarregado de cuidar dele, que, envelhecido, era dado a doideiras e desatinos.

21. Os cimos - Narrado em terceira pessoa, neste conto é retomado o mesmo tema de As margens da Alegria: a descoberta do mundo, de sua magia, dos ritos da tristeza e da alegria, dos ritos da travessia e de superação do medo a e da dor.

CONTO Famigerado (fragmento)
— "Vosmecê agora me faça a boa obra de querer me ensinar o que é mesmo que é: fasmisgerado... faz-megerado... falmisgeraldo... familhas-gerado...?

Disse, de golpe, trazia entre dentes aquela frase. Soara com riso seco. Mas, o gesto, que se seguiu, imperava-se de toda a rudez primitiva, de sua presença dilatada. Detinha minha resposta, não queria que eu a desse de imediato. E já aí outro susto vertiginoso suspendia-me: alguém podia ter feito intriga, invencionice de atribuir-me a palavra de ofensa àquele homem; que muito, pois, que aqui ele se famanasse, vindo para exigir-me, rosto a rosto, o fatal, a vexatória satisfação?

— "Saiba vosmecê que saí ind'hoje da Serra, que vim, sem parar, essas seis léguas, expresso direto pra mor de lhe preguntar a pregunta, pelo claro..."

Se sério, se era. Transiu-se-me.

— "Lá, e por estes meios de caminho, tem nenhum ninguém ciente, nem têm o legítimo — o livro que aprende as palavras... É gente pra informação torta, por se fingirem de menos ignorâncias... Só se o padre, no São Ão, capaz, mas com padres não me dou: eles logo engambelam... A bem. Agora, se me faz mercê, vosmecê me fale, no pau da peroba, no aperfeiçoado: o que é que é, o que já lhe perguntei?"

Se simples. Se digo. Transfoi-se-me. Esses trizes:

— Famigerado?

— "Sim senhor..." — e, alto, repetiu, vezes, o termo, enfim nos vermelhões da raiva, sua voz fora de foco. E já me olhava, interpelador, intimativo — apertava-me. Tinha eu que descobrir a cara. — Famigerado? Habitei preâmbulos. Bem que eu me carecia noutro ínterim, em indúcias. Como por socorro, espiei os três outros, em seus cavalos, intugidos até então, mumumudos. Mas, Damázio:

— "Vosmecê declare. Estes aí são de nada não. São da Serra. Só vieram comigo, pra testemunho..."

Só tinha de desentalar-me. O homem queria estrito o caroço: o verivérbio.

— Famigerado é inóxio, é "célebre", "notório", "notável"...

— "Vosmecê mal não veja em minha grossaria no não entender. Mais me diga: é desaforado? É caçoável? É de arrenegar? Farsância? Nome de ofensa?"

— Vilta nenhuma, nenhum doesto. São expressões neutras, de outros usos...

— "Pois... e o que é que é, em fala de pobre, linguagem de em dia-de-semana?"

— Famigerado? Bem. É: "importante", que merece louvor, respeito...

— "Vosmecê agarante, pra a paz das mães, mão na Escritura?"

Se certo! Era para se empenhar a barba. Do que o diabo, então eu sincero disse:

— Olhe: eu, como o sr. me vê, com vantagens, hum, o que eu queria uma hora destas era ser famigerado — bem famigerado, o mais que pudesse!...

— "Ah, bem!..." — soltou, exultante.

Guimarães Rosa

Texto extraído do livro "Primeiras Estórias", Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1988


CLARICE LISPECTOR (1925-1977)
Nasceu na Ucrânia e ainda pequena veio com a família para o Brasil. Com apenas dezessete anos escreve o seu primeiro romance, que abriria uma nova tendência na literatura brasileira. 
Morreu prematuramente, encerrando uma carreira polêmica.
Obras: Perto do Coração Selvagem (1943); 
O Lustre (1946); 
A cidade sitiada (1949); 
Laços de família (1960); 
A legião estrangeira (1964);
A paixão segundo G. H.(1964);
A hora da estrela (1977). 
Escritora metafísica, romancista e contista, voltou-se mais para a interiorização das personagens, deixando a realidade que as cerca de lado. Considera-se uma obra revolucionária no conteúdo e na forma. Utilizou os mais diversos recursos de estilo, desprezou a linearidade do enredo, afastou-se dos procedimentos literários de sua época.  

Características: profunda subjetividade, fluxos de consciência, psicologismo exagerado; atmosfera de sonho e fantasia, fluidez, interiorização extrema dos personagens; ausência de enredos objetivos.

OBRAS DE CLARICE LISPECTOR : CLICK NO LINK ABAIXO:
http://www.claricelispector.com.br/obras.aspx 



Amor
Clarice Lispector

Um pouco cansada, com as compras deformando o novo saco de tricô, Ana subiu no bonde. Depositou o volume no colo e o bonde começou a andar. Recostou-se então no banco procurando conforto, num suspiro de meia satisfação.
  Os filhos de Ana eram bons, uma coisa verdadeira e sumarenta. Cresciam, tomavam banho, exigiam para si, malcriados, instantes cada vez mais completos. A cozinha era enfim espaçosa, o fogão enguiçado dava estouros. O calor era forte no apartamento que estavam aos poucos pagando. Mas o vento batendo nas cortinas que ela mesma cortara lembrava-lhe que se quisesse podia parar e enxugar a testa, olhando o calmo horizonte. Como um lavrador. Ela plantara as sementes que tinha na mão, não outras, mas essas apenas. E cresciam árvores. Crescia sua rápida conversa com o cobrador de luz, crescia a água enchendo o tanque, cresciam seus filhos, crescia a mesa com comidas, o marido chegando com os jornais e sorrindo de fome, o canto importuno das empregadas do edifício. Ana dava a tudo, tranqüilamente, sua mão pequena e forte, sua corrente de vida.
  Certa hora da tarde era mais perigosa. Certa hora da tarde as árvores que plantara riam dela. Quando nada mais precisava de sua força, inquietava-se. No entanto sentia-se mais sólida do que nunca, seu corpo engrossara um pouco e era de se ver o modo como cortava blusas para os meninos, a grande tesoura dando estalidos na fazenda. Todo o seu desejo vagamente artístico encaminhara-se há muito no sentido de tornar os dias realizados e belos; com o tempo, seu gosto pelo decorativo se desenvolvera e suplantara a íntima desordem. Parecia ter descoberto que tudo era passível de aperfeiçoamento, a cada coisa se emprestaria uma aparência harmoniosa; a vida podia ser feita pela mão do homem.
  No fundo, Ana sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme das coisas. E isso um lar perplexamente lhe dera. Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher, com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado. O homem com quem casara era um homem verdadeiro, os filhos que tivera eram filhos verdadeiros. Sua juventude anterior parecia-lhe estranha como uma doença de vida. Dela havia aos poucos emergido para descobrir que também sem a felicidade se vivia: abolindo-a, encontrara uma legião de pessoas, antes invisíveis, que viviam como quem trabalha — com persistência, continuidade, alegria. O que sucedera a Ana antes de ter o lar estava para sempre fora de seu alcance: uma exaltação perturbada que tantas vezes se confundira com felicidade insuportável. Criara em troca algo enfim compreensível, uma vida de adulto. Assim ela o quisera e o escolhera.
  Sua precaução reduzia-se a tomar cuidado na hora perigosa da tarde, quando a casa estava vazia sem precisar mais dela, o sol alto, cada membro da família distribuído nas suas funções. Olhando os móveis limpos, seu coração se apertava um pouco em espanto. Mas na sua vida não havia lugar para que sentisse ternura pelo seu espanto — ela o abafava com a mesma habilidade que as lides em casa lhe haviam transmitido. Saía então para fazer compras ou levar objetos para consertar, cuidando do lar e da família à revelia deles. Quando voltasse era o fim da tarde e as crianças vindas do colégio exigiam-na. Assim chegaria a noite, com sua tranqüila vibração. De manhã acordaria aureolada pelos calmos deveres. Encontrava os móveis de novo empoeirados e sujos, como se voltassem arrependidos. Quanto a ela mesma, fazia obscuramente parte das raízes negras e suaves do mundo. E alimentava anonimamente a vida. Estava bom assim. Assim ela o quisera e escolhera.
  O bonde vacilava nos trilhos, entrava em ruas largas. Logo um vento mais úmido soprava anunciando, mais que o fim da tarde, o fim da hora instável. Ana respirou profundamente e uma grande aceitação deu a seu rosto um ar de mulher.
  O bonde se arrastava, em seguida estacava. Até Humaitá tinha tempo de descansar. Foi então que olhou para o homem parado no ponto.

 A diferença entre ele e os outros é que ele estava realmente parado. De pé, suas mãos se mantinham avançadas. Era um cego.
O que havia mais que fizesse Ana se aprumar em desconfiança? Alguma coisa intranqüila estava sucedendo. Então ela viu: o cego mascava chicles... Um homem cego mascava chicles.
Ana ainda teve tempo de pensar por um segundo que os irmãos viriam jantar — o coração batia-lhe violento, espaçado. Inclinada, olhava o cego profundamente, como se olha o que não nos vê. Ele mascava goma na escuridão. Sem sofrimento, com os olhos abertos. O movimento da mastigação fazia-o parecer sorrir e de repente deixar de sorrir, sorrir e deixar de sorrir — como se ele a tivesse insultado, Ana olhava-o. E quem a visse teria a impressão de uma mulher com ódio. Mas continuava a olhá-lo, cada vez mais inclinada — o bonde deu uma arrancada súbita jogando-a desprevenida para trás, o pesado saco de tricô despencou-se do colo, ruiu no chão — Ana deu um grito, o condutor deu ordem de parada antes de saber do que se tratava — o bonde estacou, os passageiros olharam assustados.
Incapaz de se mover para apanhar suas compras, Ana se aprumava pálida. Uma expressão de rosto, há muito não usada, ressurgia-lhe com dificuldade, ainda incerta, incompreensível. O moleque dos jornais ria entregando-lhe o volume. Mas os ovos se haviam quebrado no embrulho de jornal. Gemas amarelas e viscosas pingavam entre os fios da rede. O cego interrompera a mastigação e avançava as mãos inseguras, tentando inutilmente pegar o que acontecia. O embrulho dos ovos foi jogado fora da rede e, entre os sorrisos dos passageiros e o sinal do condutor, o bonde deu a nova arrancada de partida.
Poucos instantes depois já não a olhavam mais. O bonde se sacudia nos trilhos e o cego mascando goma ficara atrás para sempre. Mas o mal estava feito.
A rede de tricô era áspera entre os dedos, não íntima como quando a tricotara. A rede perdera o sentido e estar num bonde era um fio partido; não sabia o que fazer com as compras no colo. E como uma estranha música, o mundo recomeçava ao redor. O mal estava feito. Por quê? Teria esquecido de que havia cegos? A piedade a sufocava, Ana respirava pesadamente. Mesmo as coisas que existiam antes do acontecimento estavam agora de sobreaviso, tinham um ar mais hostil, perecível... O mundo se tornara de novo um mal-estar. Vários anos ruíam, as gemas amarelas escorriam. Expulsa de seus próprios dias, parecia-lhe que as pessoas da rua eram periclitantes, que se mantinham por um mínimo equilíbrio à tona da escuridão — e por um momento a falta de sentido deixava-as tão livres que elas não sabiam para onde ir. Perceber uma ausência de lei foi tão súbito que Ana se agarrou ao banco da frente, como se pudesse cair do bonde, como se as coisas pudessem ser revertidas com a mesma calma com que não o eram.
O que chamava de crise viera afinal. E sua marca era o prazer intenso com que olhava agora as coisas, sofrendo espantada. O calor se tornara mais abafado, tudo tinha ganho uma força e vozes mais altas. Na Rua Voluntários da Pátria parecia prestes a rebentar uma revolução, as grades dos esgotos estavam secas, o ar empoeirado. Um cego mascando chicles mergulhara o mundo em escura sofreguidão. Em cada pessoa forte havia a ausência de piedade pelo cego e as pessoas assustavam-na com o vigor que possuíam. Junto dela havia uma senhora de azul, com um rosto. Desviou o olhar, depressa. Na calçada, uma mulher deu um empurrão no filho! Dois namorados entrelaçavam os dedos sorrindo... E o cego? Ana caíra numa bondade extremamente dolorosa.
Ela apaziguara tão bem a vida, cuidara tanto para que esta não explodisse. Mantinha tudo em serena compreensão, separava uma pessoa das outras, as roupas eram claramente feitas para serem usadas e podia-se escolher pelo jornal o filme da noite - tudo feito de modo a que um dia se seguisse ao outro. E um cego mascando goma despedaçava tudo isso. E através da piedade aparecia a Ana uma vida cheia de náusea doce, até a boca.

Só então percebeu que há muito passara do seu ponto de descida. Na fraqueza em que estava, tudo a atingia com um susto; desceu do bonde com pernas débeis, olhou em torno de si, segurando a rede suja de ovo. Por um momento não conseguia orientar-se. Parecia ter saltado no meio da noite.
Era uma rua comprida, com muros altos, amarelos. Seu coração batia de medo, ela procurava inutilmente reconhecer os arredores, enquanto a vida que descobrira continuava a pulsar e um vento mais morno e mais misterioso rodeava-lhe o rosto. Ficou parada olhando o muro. Enfim pôde localizar-se. Andando um pouco mais ao longo de uma sebe, atravessou os portões do Jardim Botânico.
Andava pesadamente pela alameda central, entre os coqueiros. Não havia ninguém no Jardim. Depositou os embrulhos na terra, sentou-se no banco de um atalho e ali ficou muito tempo. A vastidão parecia acalmá-la, o silêncio regulava sua respiração. Ela adormecia dentro de si.
De longe via a aléia onde a tarde era clara e redonda. Mas a penumbra dos ramos cobria o atalho.
Ao seu redor havia ruídos serenos, cheiro de árvores, pequenas surpresas entre os cipós. Todo o Jardim triturado pelos instantes já mais apressados da tarde. De onde vinha o meio sonho pelo qual estava rodeada? Como por um zunido de abelhas e aves. Tudo era estranho, suave demais, grande demais.
Um movimento leve e íntimo a sobressaltou — voltou-se rápida. Nada parecia se ter movido. Mas na aléia central estava imóvel um poderoso gato. Seus pêlos eram macios. Em novo andar silencioso, desapareceu.
Inquieta, olhou em torno. Os ramos se balançavam, as sombras vacilavam no chão. Um pardal ciscava na terra. E de repente, com mal-estar, pareceu-lhe ter caído numa emboscada. Fazia-se no Jardim um trabalho secreto do qual ela começava a se aperceber.
Nas árvores as frutas eram pretas, doces como mel. Havia no chão caroços secos cheios de circunvoluções, como pequenos cérebros apodrecidos. O banco estava manchado de sucos roxos. Com suavidade intensa rumorejavam as águas. No tronco da árvore pregavam-se as luxuosas patas de uma aranha. A crueza do mundo era tranqüila. O assassinato era profundo. E a morte não era o que pensávamos.
Ao mesmo tempo que imaginário — era um mundo de se comer com os dentes, um mundo de volumosas dálias e tulipas. Os troncos eram percorridos por parasitas folhudas, o abraço era macio, colado. Como a repulsa que precedesse uma entrega — era fascinante, a mulher tinha nojo, e era fascinante.
As árvores estavam carregadas, o mundo era tão rico que apodrecia. Quando Ana pensou que havia crianças e homens grandes com fome, a náusea subiu-lhe à garganta, como se ela estivesse grávida e abandonada. A moral do Jardim era outra. Agora que o cego a guiara até ele, estremecia nos primeiros passos de um mundo faiscante, sombrio, onde vitórias-régias boiavam monstruosas. As pequenas flores espalhadas na relva não lhe pareciam amarelas ou rosadas, mas cor de mau ouro e escarlates. A decomposição era profunda, perfumada... Mas todas as pesadas coisas, ela via com a cabeça rodeada por um enxame de insetos enviados pela vida mais fina do mundo. A brisa se insinuava entre as flores. Ana mais adivinhava que sentia o seu cheiro adocicado... O Jardim era tão bonito que ela teve medo do Inferno.
Era quase noite agora e tudo parecia cheio, pesado, um esquilo voou na sombra. Sob os pés a terra estava fofa, Ana aspirava-a com delícia. Era fascinante, e ela sentia nojo.
Mas quando se lembrou das crianças, diante das quais se tornara culpada, ergueu-se com uma exclamação de dor. Agarrou o embrulho, avançou pelo atalho obscuro, atingiu a alameda. Quase corria — e via o Jardim em torno de si, com sua impersonalidade soberba. Sacudiu os portões fechados, sacudia-os segurando a madeira áspera. O vigia apareceu espantado de não a ter visto.

 Enquanto não chegou à porta do edifício, parecia à beira de um desastre. Correu com a rede até o elevador, sua alma batia-lhe no peito — o que sucedia? A piedade pelo cego era tão violenta como uma ânsia, mas o mundo lhe parecia seu, sujo, perecível, seu. Abriu a porta de casa. A sala era grande, quadrada, as maçanetas brilhavam limpas, os vidros da janela brilhavam, a lâmpada brilhava — que nova terra era essa? E por um instante a vida sadia que levara até agora pareceu-lhe um modo moralmente louco de viver. O menino que se aproximou correndo era um ser de pernas compridas e rosto igual ao seu, que corria e a abraçava. Apertou-o com força, com espanto. Protegia-se tremula. Porque a vida era periclitante. Ela amava o mundo, amava o que fora criado — amava com nojo. Do mesmo modo como sempre fora fascinada pelas ostras, com aquele vago sentimento de asco que a aproximação da verdade lhe provocava, avisando-a. Abraçou o filho, quase a ponto de machucá-lo. Como se soubesse de um mal — o cego ou o belo Jardim Botânico? — agarrava-se a ele, a quem queria acima de tudo. Fora atingida pelo demônio da fé. A vida é horrível, disse-lhe baixo, faminta. O que faria se seguisse o chamado do cego? Iria sozinha... Havia lugares pobres e ricos que precisavam dela. Ela precisava deles... Tenho medo, disse. Sentia as costelas delicadas da criança entre os braços, ouviu o seu choro assustado. Mamãe, chamou o menino. Afastou-o, olhou aquele rosto, seu coração crispou-se. Não deixe mamãe te esquecer, disse-lhe. A criança mal sentiu o abraço se afrouxar, escapou e correu até a porta do quarto, de onde olhou-a mais segura. Era o pior olhar que jamais recebera. Q sangue subiu-lhe ao rosto, esquentando-o.
Deixou-se cair numa cadeira com os dedos ainda presos na rede. De que tinha vergonha?
Não havia como fugir. Os dias que ela forjara haviam-se rompido na crosta e a água escapava. Estava diante da ostra. E não havia como não olhá-la. De que tinha vergonha? É que já não era mais piedade, não era só piedade: seu coração se enchera com a pior vontade de viver.
 Já não sabia se estava do lado do cego ou das espessas plantas. O homem pouco a pouco se distanciara e em tortura ela parecia ter passado para o lados que lhe haviam ferido os olhos. O Jardim Botânico, tranqüilo e alto, lhe revelava. Com horror descobria que pertencia à parte forte do mundo — e que nome se deveria dar a sua misericórdia violenta? Seria obrigada a beijar um leproso, pois nunca seria apenas sua irmã. Um cego me levou ao pior de mim mesma, pensou espantada. Sentia-se banida porque nenhum pobre beberia água nas suas mãos ardentes. Ah! era mais fácil ser um santo que uma pessoa! Por Deus, pois não fora verdadeira a piedade que sondara no seu coração as águas mais profundas? Mas era uma piedade de leão.
Humilhada, sabia que o cego preferiria um amor mais pobre. E, estremecendo, também sabia por quê. A vida do Jardim Botânico chamava-a como um lobisomem é chamado pelo luar. Oh! mas ela amava o cego! pensou com os olhos molhados. No entanto não era com este sentimento que se iria a uma igreja. Estou com medo, disse sozinha na sala. Levantou-se e foi para a cozinha ajudar a empregada a preparar o jantar.
Mas a vida arrepiava-a, como um frio. Ouvia o sino da escola, longe e constante. O pequeno horror da poeira ligando em fios a parte inferior do fogão, onde descobriu a pequena aranha. Carregando a jarra para mudar a água - havia o horror da flor se entregando lânguida e asquerosa às suas mãos. O mesmo trabalho secreto se fazia ali na cozinha. Perto da lata de lixo, esmagou com o pé a formiga. O pequeno assassinato da formiga. O mínimo corpo tremia. As gotas d'água caíam na água parada do tanque. Os besouros de verão. O horror dos besouros inexpressivos. Ao redor havia uma vida silenciosa, lenta, insistente. Horror, horror. Andava de um lado para outro na cozinha, cortando os bifes, mexendo o creme. Em torno da cabeça, em ronda, em torno da luz, os mosquitos de uma noite cálida. Uma noite em que a piedade era tão crua como o amor ruim. Entre os dois seios escorria o suor. A fé a quebrantava, o calor do forno ardia nos seus olhos.
Depois o marido veio, vieram os irmãos e suas mulheres, vieram os filhos dos irmãos.
Jantaram com as janelas todas abertas, no nono andar. Um avião estremecia, ameaçando no calor do céu. Apesar de ter usado poucos ovos, o jantar estava bom. Também suas crianças ficaram acordadas, brincando no tapete com as outras. Era verão, seria inútil obrigá-las a dormir. Ana estava um pouco pálida e ria suavemente com os outros. Depois do jantar, enfim, a primeira brisa mais fresca entrou pelas janelas. Eles rodeavam a mesa, a família. Cansados do dia, felizes em não discordar, tão dispostos a não ver defeitos. Riam-se de tudo, com o coração bom e humano. As crianças cresciam admiravelmente em torno deles. E como a uma borboleta, Ana prendeu o instante entre os dedos antes que ele nunca mais fosse seu.
Depois, quando todos foram embora e as crianças já estavam deitadas, ela era uma mulher bruta que olhava pela janela. A cidade estava adormecida e quente. O que o cego desencadeara caberia nos seus dias? Quantos anos levaria até envelhecer de novo? Qualquer movimento seu e pisaria numa das crianças. Mas com uma maldade de amante, parecia aceitar que da flor saísse o mosquito, que as vitórias-régias boiassem no escuro do lago. O cego pendia entre os frutos do Jardim Botânico.
 Se fora um estouro do fogão, o fogo já teria pegado em toda a casa! pensou correndo para a cozinha e deparando com o seu marido diante do café derramado.

 — O que foi?! gritou vibrando toda.

 Ele se assustou com o medo da mulher. E de repente riu entendendo:

 — Não foi nada, disse, sou um desajeitado. Ele parecia cansado, com olheiras.

 Mas diante do estranho rosto de Ana, espiou-a com maior atenção. Depois atraiu-a a si, em rápido afago.

 — Não quero que lhe aconteça nada, nunca! disse ela.

 — Deixe que pelo menos me aconteça o fogão dar um estouro, respondeu ele sorrindo.

 Ela continuou sem força nos seus braços. Hoje de tarde alguma coisa tranqüila se rebentara, e na casa toda havia um tom humorístico, triste. É hora de dormir, disse ele, é tarde. Num gesto que não era seu, mas que pareceu natural, segurou a mão da mulher, levando-a consigo sem olhar para trás, afastando-a do perigo de viver.

 Acabara-se a vertigem de bondade.

 E, se atravessara o amor e o seu inferno, penteava-se agora diante do espelho, por um instante sem nenhum mundo no coração. Antes de se deitar, como se apagasse uma vela, soprou a pequena flama do dia.

Texto extraído no livro “Laços de Família”, Editora Rocco – Rio de Janeiro, 1998, pág. 19, incluído entre “Os cem melhores contos brasileiros do século”, Editora Objetiva – Rio de Janeiro, 2000, seleção de Ítalo Moriconi.

A HORA DA ESTRELA


Resumo

Para quem está acostumado com resumos tradicionais, não é fácil fazer a síntese de A Hora da Estrela. Isso porque, aparentemente, nada acontece. Logo nas primeiras linhas, o que se percebe é a presença de um autor – o escritor Rodrigo S. M. – às voltas com certos impasses de sua carreira, tentando dar início à narrativa da história da nordestina Macabéa em sua vida cotidiana no Rio de Janeiro. 

Rodrigo S. M. declara: “Pensar é um ato. Sentir é um fato” – e essas frases podem ser entendidas como uma apresentação da obra. De fato, as reflexões e os sentimentos registrados pelo escritor constituem parte da narrativa. Portanto, se o leitor espera algo acontecer para começar a fazer a sua síntese do romance, é bom se apressar, porque a história já começou.

Macabéa é introduzida aos poucos na narrativa, sobressaindo-se das reflexões de Rodrigo S. M. Ele se depara com ela em uma rua do Rio de Janeiro, quando, por intermédio de uma simples troca de olhares, a história da moça lhe é revelada. Alagoana, Macabéa perde os pais ainda muito criança e é criada por uma tia, que, no intuito de educá-la, dá-lhe constantes pancadas da cabeça com os nós dos dedos. Frequenta escola apenas até o terceiro ano primário e escreve muito mal. Mesmo assim, consegue levar adiante um curso de datilografia. 

A tia muda-se para o Rio de Janeiro e Macabéa a acompanha. Arranja emprego como datilógrafa. Depois da morte da mãe de criação, passa a dividir um quarto de pensão com quatro moças que trabalham como balconistas. Pouco convive com elas, que chegam muito cansadas à noite e dormem logo, enquanto Macabéa fica ouvindo a Rádio Relógio ao longo das madrugadas.
Certo dia, resolve faltar ao trabalho e sair para um passeio. Encontra-se então com Olímpico de Jesus, metalúrgico nordestino. Ele a chama de “senhorinha” e a convida para um passeio. Para ela, é o começo de um namoro. Em suas conversas, ela exibe,  sempre de forma precária, o conhecimento adquirido com as audições da Rádio Relógio, enquanto ele afirma sua disposição de crescer e ser alguém na vida. 
Em uma visita a Macabéa no local de trabalho, Olímpico conhece Glória, colega da namorada. Interessa-se por ela e abandona Macabéa. Sem ter exata noção do quanto isso a faz sofrer, Macabéa recolhe-se ao banheiro do escritório e passa com força o batom vermelho nos lábios, para se sentir uma estrela de cinema.
Constrangida por lhe roubar o namorado, Glória dá dinheiro a Macabéa e aconselha que ela procure uma cartomante. Macabéa acata a ideia e vai até Madama Carlota, que lhe prevê um futuro brilhante e o encontro próximo de um grande amor. Ao sair da cartomante, Macabéa morre atropelada. Os transeuntes se reúnem em torno dela, que se torna, pela primeira e última vez na vida, o centro das atenções. Como uma estrela de cinema.

Contexto
Quando Clarice Lispector surgiu no cenário cultural brasileiro, em 1944, com o romance Perto do coração selvagem, foi saudada como uma revelação das letras brasileiras.
Causou certo espanto a descoberta de que a autora que escrevia como uma mulher madura era, na verdade, ainda bastante jovem.
Essas circunstâncias prenunciaram aquilo que o tempo confirmou: Clarice era especial. Até como escritora.

Importância do livro
O romance A Hora da Estrela foi escrito em 1977, mas aborda um tema tradicional de nossa literatura: o contato do imigrante nordestino com a cidade grande. Esse assunto carrega uma forte carga política. Isso causou certo espanto, porque Clarice Lispector era vista como uma escritora alienada, distante desse tipo de temática. Aqui, ela aborda a questão sem abandonar o psicologismo de suas obras, mostrando as limitações daqueles que criticavam sua suposta alienação.

Período Histórico
O fundo político das obras de Clarice nunca é óbvio. A Hora da Estrela, por exemplo, tem como pano de fundo o autoritarismo da sociedade brasileira no período da ditadura militar iniciada em 1964. No entanto, o tratamento do tema é sutil, mostra-se a interiorização da condição de oprimido e a reprodução da condição de opressor no plano das relações pessoais.

Análise
O romance apresenta três níveis narrativos distintos, embora complementares e interpenetrantes. Em um desse níveis, temos a história da própria narrativa. Ela é constituída pelas digressões do narrador, Rodrigo S. M., que desenvolve reflexões a respeito do fazer artístico. Para ele, pensar a respeito já é um fato, o que faz com que seus pensamentos adquiram a condição de acontecimentos na narrativa.
Em outro nível, temos a história do narrador. Sua identificação é restrita ao nome e às iniciais de seu sobrenome: Rodrigo S. M. (curiosamente, recurso parcialmente explorado por Clarice em A paixão segundo G. H., romance de 1964). O escritor manifesta as preocupações sociais que lhe são suscitadas pelo contato com os problemas da cidade grande. Mas o que o interessa, de fato, como escritor, é a possibilidade de registrar o momento efêmero, passageiro, volátil, aproximando-se, nesse sentido, da própria Clarice.
Rodrigo tenta combater a tendência de interromper sua narrativa para falar de si mesmo, mas percebe aos poucos que falar do outro é falar de si mesmo. Assim, a humildade extrema da nordestina Macabéa é uma transposição metonímica de seu próprio estilo: simples e sem espaço para sentimentalismo.
Por fim, temos a história de Macabéa. Seu nome, de origem bíblica, associa-se à força e à resistência, o que lhe dá uma configuração irônica, já que o comportamento da personagem mostra o avesso dessas características. Como muitas outras personagens femininas de Clarice, Macabéa é solitária e reflexiva. A novidade fica por conta de sua origem social humilde, distante da classe média em que figuram aquelas personagens. 
Na trajetória de Macabéa, ganha destaque a relação com os outros. O namorado, Olímpico de Jesus, possui um senso de superioridade que acaba por distanciá-lo de Macabéa, escapando de um relacionamento amoroso que se caracteriza pela precariedade de sentimentos e de expressões de afeto. Glória, a colega de trabalho de Macabéa, é o par perfeito para ele, manifestando seu orgulho próprio por intermédio de uma sensualidade explícita. 
O silêncio de Macabéa contrasta com o domínio da palavra manifestado por todos ao seu redor: Olímpico com seu discurso de vencedor, Glória com a certeza de seus atrativos sexuais e o próprio narrador Rodrigo S. M., em suas constantes intervenções metalinguísticas.
As previsões de Madama Carlota são outras tantas palavras que prenunciam um impossível fim das carências de Macabéa. Ao consultar a cartomante, a moça se sente “grávida de futuro”. Mas esse será seu limite: prestes a alguma coisa que talvez nunca viesse a se realizar, Macabéa encontra a morte ao ser atropelada por um automóvel. Vira centro das atenções e conhece a sua hora da estrela. De um lado, é tarde demais para ela; de outro, é sua única chance de viver essa experiência. Vive-a com o brilho intenso de uma estrela, mas também com a mesma fugacidade.
Fonte: Fernando Marcílio
Mestre em Teoria Literária pela Unicamp
 
Filme inspirado na obra de Clarice Lispector



Características da obra A Hora da Estrela
Emprego dos fluxos de consciência.
Sondagem psicológica ( analisa profundamente a alma das personagens).
Emprego do monólogo interior: ( o narrador conversa consigo mesmo).
Emprego da metalinguagem.
Epifania (Revelação).

Estrutura da Obra
A época retratada é dos anos posteriores a 1950, percebendo aí a paixão da protagonista (Macabéa) pelas atrizes mais famosas de Hollywood, como Greta Garbo e Marylin Monrou. O tempo da narrativa está voltado mais para o psicológico.

Enredo.
A ação se passa no Rio de Janeiro, por umas poucas referências externas de ruas e locais característicos.
A hora da Estrela não segue uma ordem linear: há flashbacks iluminando o
passado, há idas e vindas do passado para o presente e vice-versa.
Além da alinearidade, há pelo menos três histórias encaixadas que se revezam diante dos nossos olhos de leitor:

1. A metanarrativa- Rodrigo S. M. conta a história de Macabéa: Esta é a narrativa central da obra: o escritor Rodrigo S.M. conta a história de Macabéa, uma nordestina que ele viu, de relance, na rua.

2. A identificação da história do narrador com a da personagem-Rodrigo S.M. conta a história dele mesmo: esta narrativa dá-se sob a forma do encaixe, paralela à história de Macabéa. Está presente por toda a narrativa sob a forma de comentários e desvendamentos do narrador que se mostra, se oculta e se exibe diante dos nossos olhos.
Se por um lado, ele vê a jovem como alguém que merece amor, piedade e até um pouco
de raiva, por sua patética alienação, por outro lado, ele estabelece com ela um vínculo mais profundo, que é o da comum condição humana. Esta identidade, que ultrapassa as questões de classe, de gênero e de consciência de mundo, é um elemento de grande significação no romance, Rodrigo e Macabéa se confundem.
Narrador e protagonista, inseridos em uma escrita descontínua e imprevisível, permitem ao leitor a reflexão sobre uma época de transição, de incoerência, como um movimento em busca de uma nova estruturação da obra literária similar à insegurança, à ansiedade e ao sofrimento. O tema é oferecido, socializando a possibilidade de ruptura.
O narrador revela seu amor pela personagem principal e sofre com a sua desumanização, mas,
também, com a própria tendência em tornar-se insensível.
O foco narrativo escolhido é a primeira pessoa. O narrador lança mão, como recurso, das
digressões, o que, aspectualmente parece dar à narrativa uma característica alinear. Não se
engane: ele foge para o passado a fim de buscar informações.

CURIOSIDADES.
O livro a apresenta fartamente, em todos os momentos em que o narrador discute a palavra e o fazer narrativo. Interessante notar que, antes de iniciar a narrativa e logo após a 'Dedicatória do autor', aparecem os treze títulos que teriam sido cogitados para o livro.

Ação
O enredo não segue propriamente uma narrativa linear. Existem três polos que podem ser formados de certa forma como estruturas narrativas e que se misturam todo o tempo para formar narrativa.
1- Rodrigo conta a história de Macabéa.
2- Rodrigo conta sua própria história.
3- Rodrigo tece as artimanhas da própria narrativa para explicar criação, montagem e
apresentação do próprio texto.

Personagens
As personagens de Clarice Lispector são seres em busca da revelação de mundos desconhecidos dentro de si mesmos.
Macabéa: É a protagonista do romance, moça nordestina e humilde que enfrenta a vida na
Cidade grande– Rio de janeiro. Orgulha-se de ser datilógrafa (embora medíocre); virgem,
semi-analfabeta, gosta de goiabada com queijo e coca-cola. Quer ser estrela de cinema. Ouve notícias da Rádio – Relógio e não sabe empregá-las na conversação.

Rodrigo S.M.: É o  narrador da história de Macabéa. Afirma que é escritor  rico . Sente grande
Dificuldade para escrever e  não consegue  dar a  sua personagem um destino melhor.

Olímpico: É nordestino ambicioso e cheio de ilusões, possuidor de um passado sujo, vem
Também para a cidade em busca de ascensão  social. Rouba os próprios colegas de trabalho.
Foi namorado de Macabéa antes de conhecer Glória.  Matou um  homem antes  de vir para o
Rio.  Gosta de fazer discursos e mentir. Quer  ser deputado, o que acaba acontecendo segundo o narrador.

Glória: É colega de Macabéa na firma. Cheia de Carne. Apesar de branca e cabelos oxigenados, não consegue esconder sua origem mulata. Rouba o namorado da colega, mas por se sentir culpada, aconselha a amiga a ir em busca de uma cartomante, emprestando-lhe dinheiro.

Madame Carlota: É a cartomante que já foi prostituta e dona de bordel. Abusa da boa fé das pessoas lendo a sorte e predizendo o futuro. Serve de instrumento de felicidade para a protagonista por uns breves momentos.

Outros Personagens: Seu Raimundo (chefe de Macabéa), as colegas de quarto de Macabéa
e o Médico.

O jogo de Transfiguração A Hora da Estrela tem como chave de interpretação o princípio compositivo do jogo de transfiguração de identidade. Autor, narrador e personagem apresentam seus desempenhos constantemente intercambiados. O autor não se “esconde”
por trás de um narrador, mas com ele se confunde. O Narrador não se distancia da
personagem para apreendê-la com neutralidade, mas nela se projeta, projetando-se sobre ela também o autor.
A narrativa ficcional de A Hora da Estrela não é um espelho que devolve uma imagem que se
Pretende fiel à  realidade.
Na verdade, empreende um  movimento “especular”, nas duas acepções da palavra, movimento
Refletor e questionador  ao mesmo tempo, ou  seja, especulação, sondagem da realidade na linguagem.

Clarice Lispector nos apresenta, neste romance três histórias que  se entrecruzam:
a do escritor Rodrigo S.M.; a  da imigrante Macabéa no  Rio; e a  do próprio  ato de escrever

Conclusão
Assim, A  Hora da Estrela assume a  inventividade artística como metáfora da própria aventura
existencial.
Uma aventura renovada  pelo leitor a  cada novo  ato de leitura.
Fazendo da narrativa um jogo que incorpora a voz  do outro, a  transfiguração de identidade.
"Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer  coisa.  Não altera em
Nada ... Porque no fundo a  gente não está querendo alterar as coisas . A  gente está querendo
Desabrochar de um  modo ou  de outro...”
Fonte: Acesso educação.


ROMANCE
Perto do Coração Selvagem (fragmento)
No momento em que a tia foi pagar a compra, Joana tirou o livro e meteu cuidadosamente entre os outros, embaixo do braço. A tia empalideceu. Na rua a mulher buscou as palavras com cuidado: — Joana... Joana, eu vi...
Joana lançou-lhe um olhar rápido. Continuou silenciosa: — Mas você não diz nada? — não se conteve a tia, a voz chorosa.— Meu Deus, mas o que vai ser de você? — Não sé assuste, tia.

— Mas uma menina ainda... Você sabe o que fez ? — Sei...

— Sabe... sabe a palavra...?

— Eu roubei o livro, não é isso?

— Mas, Deus me valha! Eu já nem sei o que faço, pois ela ainda confessa!

— A senhora me obrigou a confessar.

— Você acha que se pode... que se pode roubar? — Bem... talvez não.

— Por que então...? — Eu posso.

— Você?! — gritou a tia.

— Sim, roubei porque. quis. Só roubarei quando quiser. Não faz mal nenhum.

— Deus me ajude quando faz mal Joana?

— Quando a gente rouba e tem medo. Eu não estou contente nem triste.

(Romance Perto do Coração Selvagem, Clarice Lispector )



MODERNISMO TERCEIRA FASE POESIA
Na poesia, surge uma geração de poetas que se opõem às conquistas e inovações dos modernistas de 22.
A nova proposta foi defendida, inicialmente, pela revista Orfeu (1947). Assim, negando a liberdade formal, as ironias, as sátiras e outras “brincadeiras” modernistas, os poetas de 45 buscam uma poesia mais “equilibrada e séria”.
Os modelos voltam a ser os Parnasianos e Simbolistas.

Autores
JOÃO CABRAL DE MELONETO (1920-1999)
Nasceu no Recife, filho de tradicional família pernambucana. Passou a infância no mundo dos engenhos e fez seus estudos com os maristas. Em 1945 ingressou na carreira diplomática, tendo servido numa série de cidades europeias.
Obras: Pedra do sono (1942);
O engenheiro (1945);
Psicologia da composição (1947);
O cão sem plumas (1950);
Morte e vida severina (1956);
A educação pela pedra(1966);
Museu de tudo (1975).

Características do autor
Linguagem depurada, precisa; ausência do pitoresco e do sentimental; busca da forma nua, despojada, obtida através do trabalho lúcido; reflexão permanente sobre a arte poética; poesia participante, denunciando o sofrimento dos nordestinos e a injustiça social.

MORTE E VIDA SEVERINA
Morte e vida severina  talvez seja a obra mais importante de João Cabral de Melo  Neto.
A obra foi  estruturada em  forma de auto  e escrita a pedido de Maria Clara Machado  que encomendou  ao  escritor uma peça natalina pernambucana. 
O personagem  Severino abandona o  sertão  em direção ao litoral,  tentando  encontrar um meio de sobreviver  à seca.



Análise - Morte e Vida Severina 

O poema Morte e Vida Severina foi publicado no ano de 1955 e é considerado a obra-prima do grande escritor pernambucano João Cabral de Melo Neto. Como toda obra-prima, tem vários aspectos que podem ser ressaltados:
É um poema dramático, ou seja, descreve em forma de diálogos as ações de seus personagens e possui uma estrutura que lembra um roteiro de peça teatral, como a introdução do leitor a cada cenário novo pelo narrador. A obra foi, inclusive, transformada em peça em 1965;

Aliás, o esquema de narração é em terceira pessoa, porém, a maior parte do poema é narrada pelo protagonista, em forma de diálogo com o leitor;

A estrutura de versificação é baseada em redondilhas. (versos de 5 ou 7 sílabas)
Além disso, tem um esquema de rimas baseado na homofonia dos versos pares.

Essas estruturas são típicas da Poesia Popular Nordestina, ou Literatura de Cordel.
É chamado de Auto de Natal Pernambucano, tanto por sua estrutura dramática, quanto por sua temática - morte e vida - que se desenvolve em ladainhas, rezas e suplícios;
É interessante ainda, notar como a narrativa do protagonista vai mudando conforme as regiões pernambucanas vão sendo percorridas, do Sertão, passando pelo:
 Agreste, Zona da Mata e chegando ao litoral na Região Metropolitana do Recife.


 


Assista a um trecho do filme Morte e vida severina, produzido em 2012 pela TV Escola.


POEMA NA ÍNTEGRA
O RETIRANTE EXPLICA AO LEITOR QUEM É E A QUE VAI

— O meu nome é Severino,
como não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria;
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.
Mas isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.
Como então dizer quem fala
ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino
da Maria do Zacarias,
lá da serra da Costela,
limites da Paraíba.
Mas isso ainda diz pouco:
se ao menos mais cinco havia
com nome de Severino
filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos,
já finados, Zacarias,
vivendo na mesma serra
magra e ossuda em que eu vivia.
Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas,
e iguais também porque o sangue
que usamos tem pouca tinta.

Na primeira parte do poema,  o personagem apresenta-se ao leitor e fala de sua sina.  
Ele é mais um Severino  entre  tantos  outros. Não recebeu sobrenome para individualizá-lo entre tantos  (“Meu  nome é  Severino[...]/ não tenho  outro de pia”); a vida é dura para todos os que  sofrem  com a seca (“Somos muitos Severinos/iguais em tudo na vida”). 
A morte, que ronda o  nordestino sem possibilidade de partir, também é descrita pelo retirante:

E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).
Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,
a de querer arrancar
algum roçado da cinza.
Mas, para que me conheçam
melhor Vossas Senhorias
e melhor possam seguir
a história de minha vida,
passo a ser o Severino
que em vossa presença emigra.

ENCONTRA DOIS HOMENS CARREGANDO UM DEFUNTO NUMA REDE, AOS GRITOS DE "Ó IRMÃOS DAS ALMAS! IRMÃOS DAS ALMAS! NÃO FUI EU QUE MATEI NÃO!"

— A quem estais carregando,
irmãos das almas,
embrulhado nessa rede?
dizei que eu saiba.
— A um defunto de nada,
irmão das almas,
que há muitas horas viaja
à sua morada.
— E sabeis quem era ele,
irmãos das almas,
sabeis como ele se chama
ou se chamava?
— Severino Lavrador,
irmão das almas,
Severino Lavrador,
mas já não lavra.
— E de onde que o estais trazendo,
irmãos das almas,
onde foi que começou
vossa jornada?
— Onde a Caatinga é mais seca,
irmão das almas,
onde uma terra que não dá
nem planta brava.

João  Cabral  usa seu  texto  para denunciar a luta por terra. O  retirante encontra um grupo  carregando um defunto em  uma rede:

— E foi morrida essa morte,
irmãos das almas,
essa foi morte morrida
ou foi matada?
— Até que não foi morrida,
irmão das almas,
esta foi morte matada,
numa emboscada.
— E o que guardava a emboscada,
irmão das almas,
e com que foi que o mataram,
com faca ou bala?
— Este foi morto de bala,
irmão das almas,
mais garantido é de bala,
mais longe vara.
— E quem foi que o emboscou,
irmãos das almas,
quem contra ele soltou
essa ave-bala?
— Ali é difícil dizer,
irmão das almas,
sempre há uma bala voando
desocupada.
— E o que havia ele feito,
irmãos das almas,
e o que havia ele feito
contra a tal pássara?
— Ter um hectares de terra,
irmão das almas,
de pedra e areia lavada
que cultivava.
— Mas que roças que ele tinha,
irmãos das almas,
que podia ele plantar
na pedra avara?
— Nos magros lábios de areia,
irmão das almas,
os intervalos das pedras,
plantava palha.
— E era grande sua lavoura,
irmãos das almas,
lavoura de muitas covas,
tão cobiçada?
— Tinha somente dez quadros,
irmão das almas,
todas nos ombros da serra,
nenhuma várzea.
— Mas então por que o mataram,
irmãos das almas,
mas então por que o mataram
com espingarda?
— Queria mais espalhar-se,
irmão das almas,
queria voar mais livre
essa ave-bala.
— E agora o que passará,
irmãos das almas,
o que é que acontecerá
contra a espingarda?
— Mais campo tem para soltar,
irmão das almas,
tem mais onde fazer voar
as filhas-bala.
— E onde o levais a enterrar,
irmãos das almas,
com a semente de chumbo
que tem guardada?
— Ao cemitério de Torres,
irmão das almas,
que hoje se diz Toritama,
de madrugada.
— E poderei ajudar,
irmãos das almas?
vou passar por Toritama,
é minha estrada.
— Bem que poderá ajudar,
irmão das almas,
é irmão das almas quem ouve
nossa chamada.
— E um de nós pode voltar,
irmão das almas,
pode voltar daqui mesmo
para sua casa.
— Vou eu, que a viagem é longa,
irmãos das almas,
é muito longa a viagem
e a serra é alta.
— Mais sorte tem o defunto,
irmãos das almas,
pois já não fará na volta
a caminhada.
— Toritama não cai longe,
irmão das almas,
seremos no campo santo
de madrugada.
— Partamos enquanto é noite,
irmão das almas,
que é o melhor lençol dos mortos
noite fechada.

O RETIRANTE TEM MEDO DE SE EXTRAVIAR PORQUE SEU GUIA, O RIO CAPIBARIBE, CORTOU COM O VERÃO

—  Antes de sair de casa
aprendi a ladainha
das vilas que vou passar
na minha longa descida.
Sei que há muitas vilas grandes,
cidades que elas são ditas;
sei que há simples arruados,
sei que há vilas pequeninas,
todas formando um rosário
cujas contas fossem vilas,
todas formando um rosário
de que a estrada fosse a linha.
Devo rezar tal rosário
até o mar onde termina,
saltando de conta em conta,
passando de vila em vila.
Vejo agora: não é fácil
seguir essa ladainha;
entre uma conta e outra conta,
entre uma a outra ave-maria,
há certas paragens brancas,
de planta e bicho vazias,
vazias até de donos,
e onde o pé se descaminha.
Não desejo emaranhar
o fio de minha linha
nem que se enrede no pêlo
hirsuto desta caatinga.
Pensei que seguindo o rio
eu jamais me perderia:
ele é o caminho mais certo,
de todos o melhor guia.
Mas como segui-lo agora
que interrompeu a descida?
Vejo que o Capibaribe,
como os rios lá de cima,
é tão pobre que nem sempre
pode cumprir sua sina
e no verão também corta,
com pernas que não caminham.
Tenho de saber agora
qual a verdadeira via
entre essas que escancaradas
frente a mim se multiplicam.
Mas não vejo almas aqui,
nem almas mortas nem vivas;
ouço somente à distância
o que parece cantoria.
Será novena de santo,
será algum mês-de-Maria;
quem sabe até se uma festa
ou uma dança não seria?

NA CASA A QUE O RETIRANTE CHEGA ESTÃO CANTANDO EXCELÊNCIAS PARA UM DEFUNTO, ENQUANTO UM HOMEM, DO LADO DE FORA,VAI PARODIANDO AS PALAVRAS DOS CANTADORES

— Finado Severino, quando passares em Jordão e o demônios te atalharem perguntando o que é que levas...
— Dize que levas cera, capuz e cordão mais a Virgem da Conceição.
— Finado Severino, etc. ...
— Dize que levas somente coisas de não: fome, sede, privação.
— Finado Severino, etc. ...

— Dize que coisas de não, ocas, leves: como o caixão, que ainda deves.
— Uma excelência dizendo que a hora é hora.
— Ajunta os carregadores que o corpo quer ir embora.
— Duas excelências...
— ... dizendo é a hora da plantação.
— Ajunta os carregadores...
— ... que a terra vai colher a mão.

CANSADO DA VIAGEM O RETIRANTE PENSA INTERROMPÊ-LA POR UNS INSTANTES E PROCURAR TRABALHO ALI ONDE SE ENCONTRA.

— Desde que estou retirando
só a morte vejo ativa,
só a morte deparei
e às vezes até festiva;
só a morte tem encontrado
quem pensava encontrar vida,
e o pouco que não foi morte
foi de vida severina
(aquela vida que é menos
vivida que defendida,
e é ainda mais severina
para o homem que retira).
Penso agora: mas porque
parar aqui eu não podia
e como o Capibaribe
interromper minha linha?
ao menos até que as águas
de uma próxima invernia
me levem direto ao mar
ao refazer sua rotina?
Na verdade, por uns tempos,
parar aqui eu bem podia
e retomar a viagem
quando vencesse a fadiga.
Ou será que aqui cortando
agora minha descida
já não poderei seguir
nunca mais em minha vida?
(será que a água destes poços
é toda aqui consumida
pelas roças, pelos bichos,
pelo sol com suas línguas?
será que quando chegar
o rio da nova invernia
um resto de água no antigo
sobrará nos poços ainda?)
Mas isso depois verei:
tempo há para que decida;
primeiro é preciso achar
um trabalho de que viva.
Vejo uma mulher na janela,
ali, que se não é rica,
parece remediada
ou dona de sua vida:
vou saber se de trabalho
poderá me dar notícia.

DIRIGE-SE À MULHER NA JANELA QUE DEPOIS DESCOBRE TRATAR-SE DE QUEM SE SABERÁ

— Muito bom dia, senhora,
que nessa janela está;
sabe dizer se é possível
algum trabalho encontrar?
— Trabalho aqui nunca falta
a quem sabe trabalhar;
o que fazia o compadre
na sua terra de lá?
— Pois fui sempre lavrador,
lavrador de terra má;
não há espécie de terra
que eu não possa cultivar.
— Isso aqui de nada adianta,
pouco existe o que lavrar;
mas diga-me, retirante,
que mais fazia por lá?
— Também lá na minha terra
de terra mesmo pouco há;
mas até a calva da pedra
sinto-me capaz de arar.
— Também de pouco adianta,
nem pedra há aqui que amassar;
diga-me ainda, compadre,
que mais fazia por lá?
— Conheço todas as roças
que nesta chã podem dar:
o algodão, a mamona,
a pita, o milho, o caroá.
— Esses roçados o banco
já não quer financiar;
mas diga-me, retirante,
o que mais fazia lá?
— Melhor do que eu ninguém
sei combater, quiçá,
tanta planta de rapina
que tenho visto por cá.
— Essas plantas de rapina
são tudo o que a terra dá;
diga-me ainda, compadre;
que mais fazia por lá?
— Tirei mandioca de chãs
que o vento vive a esfolar
e de outras escalavradas
pela seca faca solar.
— Isto aqui não é Vitória
nem é Glória do Goitá;
e além da terra, me diga,
que mais sabe trabalhar?
— Sei também tratar de gado,
entre urtigas pastorear:
gado de comer do chão
ou de comer ramas no ar.
— Aqui não é Surubim
nem Limoeiro, oxalá!
mas diga-me, retirante,
que mais fazia por lá?
— Em qualquer das cinco tachas
de um banguê sei cozinhar;
sei cuidar de uma moenda,
de uma casa de purgar.
— Com a vinda das usinas
há poucos engenhos já;
nada mais o retirante
aprendeu a fazer lá?
— Ali ninguém aprendeu
outro ofício, ou aprenderá:
mas o sol, de sol a sol,
bem se aprende a suportar.
— Mas isso então será tudo
em que sabe trabalhar?
vamos, diga, retirante,
outras coisas saberá.
— Deseja mesmo saber
o que eu fazia por lá?
comer quando havia o quê
e, havendo ou não, trabalhar.
— Essa vida por aqui
é coisa familiar;
mas diga-me retirante,
sabe benditos rezar?
sabe cantar excelências,
defuntos encomendar?
sabe tirar ladainhas,
sabe mortos enterrar?
— Já velei muitos defuntos,
na serra é coisa vulgar;
mas nunca aprendi as rezas,
sei somente acompanhar.
— Pois se o compadre soubesse
rezar ou mesmo cantar,
trabalhávamos a meias,
que a freguesia bem dá.
— Agora se me permite
minha vez de perguntar:
como senhora, comadre,
pode manter o seu lar?
— Vou explicar rapidamente,
logo compreenderá:
como aqui a morte é tanta,
vivo de a morte ajudar.
— E ainda se me permite
que volte a perguntar:
é aqui uma profissão
trabalho tão singular?
— É, sim, uma profissão,
e a melhor de quantas há:
sou de toda a região
rezadora titular.
— E ainda se me permite
mais outra vez indagar:
é boa essa profissão
em que a comadre ora está?
— De um raio de muitas léguas
vem gente aqui me chamar;
a verdade é que não pude
queixar-me ainda de azar.
— E se pela última vez
me permite perguntar:
não existe outro trabalho
para mim nesse lugar?
— Como aqui a morte é tanta,
só é possível trabalhar
nessas profissões que fazem
da morte ofício ou bazar.
Imagine que outra gente
de profissão similar,
farmacêuticos, coveiros,
doutor de anel no anular,
remando contra a corrente
da gente que baixa ao mar,
retirantes às avessas,
sobem do mar para cá.
Só os roçados da morte
compensam aqui cultivar,
e cultivá-los é fácil:
simples questão de plantar;
não se precisa de limpa,
de adubar nem de regar;
as estiagens e as pragas
fazem-nos mais prosperar;
e dão lucro imediato;
nem é preciso esperar
pela colheita: recebe-se
na hora mesma de semear.

O RETIRANTE CHEGA À ZONA DA MATA, QUE O FAZ PENSAR, OUTRA VEZ, EM INTERROMPER A VIAGEM

— Bem me diziam que a terra
se faz mais branda e macia
quando mais do litoral
a viagem se aproxima.
Agora afinal cheguei
nesta terra que diziam.
Como ela é uma terra doce
para os pés e para a vista.
Os rios que correm aqui
têm a água vitalícia.
Cacimbas por todo lado;
cavando o chão, água mina.
Vejo agora que é verdade
o que pensei ser mentira.
Quem sabe se nesta terra
não plantarei minha sina?
Não tenho medo de terra
(cavei pedra toda a vida),
e para quem lutou a braço
contra a piçarra da Caatinga
será fácil amansar
esta aqui, tão feminina.
Mas não avisto ninguém,
só folhas de cana fina;
somente ali à distância
aquele bueiro de usina;
somente naquela várzea
um banguê velho em ruína.
Por onde andará a gente
que tantas canas cultiva?
Feriando: que nesta terra
tão fácil, tão doce e rica,
não é preciso trabalhar
todas as horas do dia,
os dias todos do mês,
os meses todos da vida.
Decerto a gente daqui
jamais envelhece aos trinta
nem sabe da morte em vida,
vida em morte, severina;
e aquele cemitério ali,
branco na verde colina,
decerto pouco funciona
e poucas covas aninha.

ASSISTE AO ENTERRO DE UM TRABALHADOR DE EITO E OUVE O QUE DIZEM DO MORTO OS AMIGOS QUE O LEVARAM AO CEMITÉRIO

—  Essa cova em que estás,
com palmos medida,
é a cota menor
que tiraste em vida.
— É de bom tamanho,
nem largo nem fundo,
é a parte que te cabe
deste latifúndio.
— Não é cova grande,
é cova medida,
é a terra que querias
ver dividida.
— É uma cova grande
para teu pouco defunto,
mas estarás mais ancho
que estavas no mundo.
— É uma cova grande
para teu defunto parco,
porém mais que no mundo
te sentirás largo.
— É uma cova grande
para tua carne pouca,
mas a terra dada
não se abre a boca.

— Viverás, e para sempre,
na terra que aqui aforas:
e terás enfim tua roça.
— Aí ficarás para sempre,
livre do sol e da chuva,
criando tuas saúvas.
— Agora trabalharás
só para ti, não a meias,
como antes em terra alheia.
— Trabalharás uma terra
da qual, além de senhor,
serás homem de eito e trator.
— Trabalhando nessa terra,
tu sozinho tudo empreitas:
serás semente, adubo, colheita.
— Trabalharás numa terra
que também te abriga e te veste:
embora com o brim do Nordeste.
— Será de terra tua derradeira camisa:
te veste, como nunca em vida.
— Será de terra e tua melhor camisa:
te veste e ninguém cobiça.
— Terás de terra
completo agora o teu fato:
e pela primeira vez, sapato.
— Como és homem,
a terra te dará chapéu:
fosses mulher, xale ou véu.
— Tua roupa melhor
será de terra e não de fazenda:
não se rasga nem se remenda.
— Tua roupa melhor
e te ficará bem cingida:
como roupa feita à medida.

— Esse chão te é bem conhecido
(bebeu teu suor vendido).
— Esse chão te é bem conhecido
(bebeu o moço antigo).
— Esse chão te é bem conhecido
(bebeu tua força de marido).
— Desse chão és bem conhecido
(através de parentes e amigos).
— Desse chão és bem conhecido
(vive com tua mulher, teus filhos).
— Desse chão és bem conhecido
(te espera de recém-nascido).

— Não tens mais força contigo:
deixa-te semear ao comprido.
— Já não levas semente viva:
teu corpo é a própria maniva.
— Não levas rebolo de cana:
és o rebolo, e não de caiana.
— Não levas semente na mão:
és agora o próprio grão.
— Já não tens força na perna:
deixa-te semear na coveta.
— Já não tens força na mão:
deixa-te semear no leirão.

— Dentro da rede não vinha nada,
só tua espiga debulhada.
— Dentro da rede vinha tudo,
só tua espiga no sabugo.
— Dentro da rede coisa vasqueira,
só a maçaroca banguela.
— Dentro da rede coisa pouca,
tua vida que deu sem soca.

— Na mão direita um rosário,
milho negro e ressecado.
— Na mão direita somente
o rosário, seca semente.
— Na mão direita, de cinza,
o rosário, semente maninha.
— Na mão direita o rosário,
semente inerte e sem salto.

— Despido vieste no caixão,
despido também se enterra o grão.
— De tanto te despiu a privação
que escapou de teu peito a viração.
— Tanta coisa despiste em vida
que fugiu de teu peito a brisa.
— E agora, se abre o chão e te abriga,
lençol que não tiveste em vida.
— Se abre o chão e te fecha,
dando-te agora cama e coberta.
— Se abre o chão e te envolve,
como mulher com quem se dorme.

O RETIRANTE RESOLVE APRESSAR OS PASSOS PARA CHEGAR LOGO AO RECIFE

— Nunca esperei muita coisa,
digo a Vossas Senhorias.
O que me fez retirar
não foi a grande cobiça;
o que apenas busquei
foi defender minha vida
de tal velhice que chega
antes de se inteirar trinta;
se na serra vivi vinte,
se alcancei lá tal medida,
o que pensei, retirando,
foi estendê-la um pouco ainda.
Mas não senti diferença
entre o Agreste e a Caatinga,
e entre a Caatinga e aqui a Mata
a diferença é a mais mínima.
Está apenas em que a terra
é por aqui mais macia;
está apenas no pavio,
ou melhor, na lamparina:
pois é igual o querosene
que em toda parte ilumina,
e quer nesta terra gorda
quer na serra, de caliça,
a vida arde sempre, com
a mesma chama mortiça.
Agora é que compreendo
porque em paragens tão ricas
o rio não corta em poços
como ele faz na Caatinga:
vivi a fugir dos remansos
a que a paisagem o convida,
com medo de se deter
grande que seja a fadiga.
Sim, o melhor é apressar
o fim desta ladainha,
o fim do rosário de nomes
que a linha do rio enfia;
é chegar logo ao Recife,
derradeira ave-maria
do rosário, derradeira
invocação da ladainha,
Recife, onde o rio some
e esta minha viagem se fina.

CHEGANDO AO RECIFE, O RETIRANTE SENTA-SE PARA DESCANSAR AO PÉ DE UM MURO ALTO E CAIADO E OUVE, SEM SER NOTADO, A CONVERSA DE DOIS COVEIROS

— O dia de hoje está difícil;
não sei onde vamos parar.
Deviam dar um aumento,
ao menos aos deste setor de cá.
As avenidas do centro são melhores,
mas são para os protegidos:
há sempre menos trabalho
e gorjetas pelo serviço;
e é mais numeroso o pessoal
(toma mais tempo enterrar os ricos).
— Pois eu me daria por contente
se me mandassem para cá.
Se trabalhasses no de Casa Amarela
não estarias a reclamar.
De trabalhar no de Santo Amaro
deve alegrar-se o colega
porque parece que a gente
que se enterra no de Casa Amarela
está decidida a mudar-se
toda para debaixo da terra.
— É que o colega ainda não viu
o movimento: não é o que se vê.
Fique-se por aí um momento
e não tardarão a aparecer
os defuntos que ainda hoje
vão chegar (ou partir, não sei).
As avenidas do centro,
onde se enterram os ricos,
são como o porto do mar:
não é muito ali o serviço:
no máximo um transatlântico
chega ali cada dia,
com muita pompa, protocolo,
e ainda mais cenografia.
Mas este setor de cá
é como a estação dos trens:
diversas vezes por dia
chega o comboio de alguém.
— Mas se teu setor é comparado
à estação central dos trens,
o que dizer de Casa Amarela
onde não pára o vaivém?
Pode ser uma estação
mas não estação de trem:
será parada de ônibus,
com filas de mais de cem.
— Então por que não pedes,
já que és de carreira, e antigo,
que te mandem para Santo Amaro
se achas mais leve o serviço?
Não creio que te mandassem
para as belas avenidas
onde estão os endereços
e o bairro da gente fina:
isto é, para o bairro dos usineiros,
dos políticos, dos banqueiros,
e no tempo antigo, dos banguezeiros
(hoje estes se enterram em carneiros);
bairro também dos industriais,
dos membros das associações patronais
e dos que foram mais horizontais
nas profissões liberais.
Difícil é que consigas
aquele bairro, logo de saída.
— Só pedi que me mandassem
para as urbanizações discretas,
com seus quarteirões apertados,
com suas cômodas de pedra.
— Esse é o bairro dos funcionários,
inclusive extranumerários,
contratados e mensalistas
(menos os tarefeiros e diaristas).
Para lá vão os jornalistas,
os escritores, os artistas;
ali vão também os bancários,
as altas patentes dos comerciários,
os lojistas, os boticários,
os localizados aeroviários
e os de profissões liberais
que não se liberaram jamais.
— Também um bairro dessa gente
temos no de Casa Amarela:
cada um em seu escaninho,
cada um em sua gaveta,
com o nome aberto na lousa
quase sempre em letras pretas.
Raras as letras douradas,
raras também as gorjetas.
— Gorjetas aqui, também,
só dá mesmo a gente rica,
em cujo bairro não se pode
trabalhar em mangas de camisa;
onde se exige quépi
e farda engomada e limpa.
— Mas não foi pelas gorjetas,
não, que vim pedir remoção:
é porque tem menos trabalho
que quero vir para Santo Amaro;
aqui ao menos há mais gente
para atender a freguesia,
para botar a caixa cheia
dentro da caixa vazia.
— E que disse o Administrador,
se é que te deu ouvido?
— Que quando apareça a ocasião
atenderá meu pedido.
— E do senhor Administrador
isso foi tudo que arrancaste?
— No de Casa Amarela me deixou
mas me mudou de arrabalde.
— E onde vais trabalhar agora,
qual o subúrbio que te cabe?
— Passo para o dos industriários,
que é também o dos ferroviários,
de todos os rodoviários
e praças-de-pré dos comerciários.
— Passas para o dos operários,
deixas o dos pobres vários;
melhor: não são tão contagiosos
e são muito menos numerosos.
— É, deixo o subúrbio dos indigentes
onde se enterra toda essa gente
que o rio afoga na preamar
e sufoca na baixa-mar.
— É a gente sem instituto,
gente de braços devolutos;
são os que jamais usam luto
e se enterram sem salvo-conduto.
— É a gente dos enterros gratuitos
e dos defuntos ininterruptos.
— É a gente retirante
que vem do Sertão de longe.
— Desenrolam todo o barbante
e chegam aqui na jante.
— E que então, ao chegar,
não têm mais o que esperar.
— Não podem continuar
pois têm pela frente o mar.
— Não têm onde trabalhar
e muito menos onde morar.
— E da maneira em que está
não vão ter onde se enterrar.
— Eu também, antigamente,
fui do subúrbio dos indigentes,
e uma coisa notei
que jamais entenderei:
essa gente do Sertão
que desce para o litoral, sem razão,
fica vivendo no meio da lama,
comendo os siris que apanha;
pois bem: quando sua morte chega,
temos que enterrá-los em terra seca.
— Na verdade, seria mais rápido
e também muito mais barato
que os sacudissem de qualquer ponte
dentro do rio e da morte.
— O rio daria a mortalha
e até um macio caixão de água;
e também o acompanhamento
que levaria com passo lento
o defunto ao enterro final
a ser feito no mar de sal.
— E não precisava dinheiro,
e não precisava coveiro,
e não precisava oração
e não precisava inscrição.
— Mas o que se vê não é isso:
é sempre nosso serviço
crescendo mais cada dia;
morre gente que nem vivia.
— E esse povo lá de riba
 de Pernambuco, da Paraíba,
que vem buscar no Recife
poder morrer de velhice,
encontra só, aqui chegando
cemitérios esperando.
— Não é viagem o que fazem,
vindo por essas caatingas, vargens;
aí está o seu erro:
vêm é seguindo seu próprio enterro.

O RETIRANTE APROXIMA-SE DE UM DOS CAIS DO CAPIBARIBE

— Nunca esperei muita coisa,
é preciso que eu repita.
Sabia que no rosário
de cidade e de vilas,
e mesmo aqui no Recife
ao acabar minha descida,
não seria diferente
a vida de cada dia:
que sempre pás e enxadas
foices de corte e capina,
ferros de cova, estrovengas
o meu braço esperariam.
Mas que se este não mudasse
seu uso de toda vida,
esperei, devo dizer,
que ao menos aumentaria
na quartinha, a água pouca,
dentro da cuia, a farinha,
o algodãozinho da camisa,
ao meu aluguel com a vida.
E chegando, aprendo que,
nessa viagem que eu fazia,
sem saber desde o Sertão,
meu próprio enterro eu seguia.
Só que devo ter chegado
adiantado de uns dias;
o enterro espera na porta:
o morto ainda está com vida.
A solução é apressar
a morte a que se decida
e pedir a este rio,
que vem também lá de cima,
que me faça aquele enterro
que o coveiro descrevia:
caixão macio de lama,
mortalha macia e líquida,
coroas de baronesa
junto com flores de aninga,
e aquele acompanhamento
de água que sempre desfila
(que o rio, aqui no Recife,
não seca, vai toda a vida).

APROXIMA-SE DO RETIRANTE O MORADOR DE UM DOS MOCAMBOS QUE EXISTEM ENTRE O CAIS E A ÁGUA DO RIO

— Seu José, mestre carpina,
que habita este lamaçal,
sabes me dizer se o rio
a esta altura dá vau?
sabe me dizer se é funda
esta água grossa e carnal?
— Severino, retirante,
jamais o cruzei a nado;
quando a maré está cheia
vejo passar muitos barcos,
barcaças, alvarengas,
muitas de grande calado.
— Seu José, mestre carpina,
para cobrir corpo de homem
não é preciso muito água:
basta que chega ao abdome,
basta que tenha fundura
igual à de sua fome.
— Severino, retirante,
pois não sei o que lhe conte;
sempre que cruzo este rio
costumo tomar a ponte;
quanto ao vazio do estômago,
se cruza quando se come.
— Seu José, mestre carpina,
e quando ponte não há?
quando os vazios da fome
não se tem com que cruzar?
quando esses rios sem água
são grandes braços de mar?
— Severino, retirante,
o meu amigo é bem moço;
sei que a miséria é mar largo,
não é como qualquer poço:
mas sei que para cruzá-la
vale bem qualquer esforço.
— Seu José, mestre carpina,
e quando é fundo o perau?
quando a força que morreu
nem tem onde se enterrar,
por que ao puxão das águas
não é melhor se entregar?
— Severino, retirante,
o mar de nossa conversa
precisa ser combatido,
sempre, de qualquer maneira,
porque senão ele alaga
e devasta a terra inteira.
— Seu José, mestre carpina,
e em que nos faz diferença
que como frieira se alastre,
ou como rio na cheia,
se acabamos naufragados
num braço do mar miséria?
— Severino, retirante,
muita diferença faz
entre lutar com as mãos
e abandoná-las para trás,
porque ao menos esse mar
não pode adiantar-se mais.
— Seu José, mestre carpina,
e que diferença faz
que esse oceano vazio
cresça ou não seus cabedais,
se nenhuma ponte mesmo
é de vencê-lo capaz?
— Seu José, mestre carpina,
que lhe pergunte permita:
há muito no lamaçal
apodrece a sua vida?
e a vida que tem vivido
foi sempre comprada à vista?
— Severino, retirante,
sou de Nazaré da Mata,
mas tanto lá como aqui
jamais me fiaram nada:
a vida de cada dia
cada dia hei de comprá-la.
— Seu José, mestre carpina,
e que interesse, me diga,
há nessa vida a retalho
que é cada dia adquirida?
espera poder um dia
comprá-la em grandes partidas?
— Severino, retirante,
não sei bem o que lhe diga:
não é que espere comprar
em grosso tais partidas,
mas o que compro a retalho
é, de qualquer forma, vida.
— Seu José, mestre carpina,
que diferença faria
se em vez de continuar
tomasse a melhor saída:
a de saltar, numa noite,
fora da ponte e da vida?

UMA MULHER, DA PORTA DE ONDE SAIU O HOMEM, ANUNCIA-LHE O QUE SE VERÁ

— Compadre José, compadre,
que na relva estais deitado:
conversais e não sabeis
que vosso filho é chegado?
Estais aí conversando
em vossa prosa entretida:
não sabeis que vosso filho
saltou para dentro da vida?
Saltou para dento da vida
ao dar o primeiro grito;
e estais aí conversando;
pois sabei que ele é nascido.

APARECEM E SE APROXIMAM DA CASA DO HOMEM VIZINHOS, AMIGOS, DUAS CIGANAS ETC.

— Todo o céu e a terra
lhe cantam louvor.
Foi por ele que a maré
esta noite não baixou.
— Foi por ele que a maré
fez parar o seu motor:
a lama ficou coberta
e o mau-cheiro não voou.
— E a alfazema do sargaço,
ácida, desinfetante,
veio varrer nossas ruas
enviada do mar distante.
— E a língua seca de esponja
que tem o vento terral
veio enxugar a umidade
do encharcado lamaçal.

— Todo o céu e a terra
lhe cantam louvor
e cada casa se torna
num mocambo sedutor.
— Cada casebre se torna
no mocambo modelar
que tanto celebram os
sociólogos do lugar.
— E a banda de maruins
que toda noite se ouvia
por causa dele, esta noite,
creio que não irradia.
— E este rio de água cega,
ou baça, de comer terra,
que jamais espelha o céu,
hoje enfeitou-se de estrelas.

COMEÇAM A CHEGAR PESSOAS TRAZENDO PRESENTES PARA O RECÉM-NASCIDO

— Minha pobreza tal é
que não trago presente grande:
trago para a mãe caranguejos
pescados por esses mangues;
mamando leite de lama
conservará nosso sangue.
— Minha pobreza tal é
que coisa não posso ofertar:
somente o leite que tenho
para meu filho amamentar;
aqui são todos irmãos,
de leite, de lama, de ar.
— Minha pobreza tal é
que não tenho presente melhor:
trago papel de jornal
para lhe servir de cobertor;
cobrindo-se assim de letras
vai um dia ser doutor.
— Minha pobreza tal é
que não tenho presente caro:
como não posso trazer
um olho d'água de Lagoa do Carro,
trago aqui água de Olinda,
água da bica do Rosário.

 — Minha pobreza tal é
que grande coisa não trago:
trago este canário da terra
que canta corrido e de estalo.
— Minha pobreza tal é
que minha oferta não é rica:
trago daquela bolacha d'água
que só em Paudalho se fabrica.
— Minha pobreza tal é
que melhor presente não tem:
dou este boneco de barro
de Severino de Tracunhaém.
— Minha pobreza tal é
que pouco tenho o que dar:
dou da pitu que o pintor Monteiro
fabricava em Gravatá.

— Trago abacaxi de Goiana
e de todo o Estado rolete de cana.
— Eis ostras chegadas agora,
apanhadas no cais da Aurora.
— Eis tamarindos da Jaqueira
e jaca da Tamarineira.
— Mangabas do Cajueiro
e cajus da Mangabeira.
— Peixe pescado no Passarinho,
carne de boi dos Peixinhos.
— Siris apanhados no lamaçal
que há no avesso da rua Imperial.
— Mangas compradas nos quintais ricos
do Espinheiro e dos Aflitos.
— Goiamuns dados pela gente pobre
da Avenida Sul e da Avenida Norte.

FALAM AS DUAS CIGANAS QUE HAVIAM APARECIDO COM OS VIZINHOS

— Atenção peço, senhores,
para esta breve leitura:
somos ciganas do Egito,
lemos a sorte futura.
Vou dizer todas as coisas
que desde já posso ver
na vida desse menino
acabado de nascer:
aprenderá a engatinhar
por aí, com aratus,
aprenderá a caminhar
na lama, como goiamuns,
e a correr o ensinarão
o anfíbios caranguejos,
pelo que será anfíbio
como a gente daqui mesmo.
Cedo aprenderá a caçar:
primeiro, com as galinhas,
que é catando pelo chão
tudo o que cheira a comida;
depois, aprenderá com
outras espécies de bichos:
com os porcos nos monturos,
com os cachorros no lixo.
Vejo-o, uns anos mais tarde,
na ilha do Maruim,
vestido negro de lama,
voltar de pescar siris;
e vejo-o, ainda maior,
pelo imenso lamarão
fazendo dos dedos iscas
para pescar camarão.
— Atenção peço, senhores,
também para minha leitura:
também venho dos Egitos,
vou completar a figura.
Outras coisas que estou vendo
é necessário que eu diga:
não ficará a pescar
de jereré toda a vida.
Minha amiga se esqueceu
de dizer todas as linhas;
não pensem que a vida dele
há de ser sempre daninha.
Enxergo daqui a planura
que é a vida do homem de ofício,
bem mais sadia que os mangues,
tenha embora precipícios.
Não o vejo dentro dos mangues,
vejo-o dentro de uma fábrica:
se está negro não é lama,
é graxa de sua máquina,
coisa mais limpa que a lama
do pescador de maré
que vemos aqui, vestido
de lama da cara ao pé.
E mais: para que não pensem
que em sua vida tudo é triste,
vejo coisa que o trabalho
talvez até lhe conquiste:
que é mudar-se destes mangues
daqui do Capibaribe
para um mocambo melhor
nos mangues do Beberibe.

FALAM OS VIZINHOS, AMIGOS, PESSOAS QUE VIERAM COM PRESENTES ETC.

— De sua formosura
já venho dizer:
é um menino magro,
de muito peso não é,
mas tem o peso de homem,
de obra de ventre de mulher.
— De sua formosura
deixai-me que diga:
é uma criança pálida,
é uma criança franzina,
mas tem a marca de homem,
marca de humana oficina.
— Sua formosura
deixai-me que cante:
é um menino guenzo
como todos os desses mangues,
mas a máquina de homem
já bate nele, incessante.
— Sua formosura
eis aqui descrita:
é uma criança pequena,
enclenque e setemesinha,
mas as mãos que criam coisas
nas suas já se adivinha.

— De sua formosura
deixai-me que diga:
é belo como o coqueiro
que vence a areia marinha.
— De sua formosura
deixai-me que diga:
belo como o avelós
contra o Agreste de cinza.
— De sua formosura
deixai-me que diga:
belo como a palmatória
na caatinga sem saliva.
— De sua formosura
deixai-me que diga:
é tão belo como um sim
numa sala negativa.

— É tão belo como a soca
que o canavial multiplica.
— Belo porque é uma porta
abrindo-se em mais saídas.
— Belo como a última onda
que o fim do mar sempre adia.
— É tão belo como as ondas
em sua adição infinita.

— Belo porque tem do novo
a surpresa e a alegria.
— Belo como a coisa nova
na prateleira até então vazia.
— Como qualquer coisa nova
inaugurando o seu dia.
— Ou como o caderno novo
quando a gente o principia.

— E belo porque com o novo
todo o velho contagia.
— Belo porque corrompe
com sangue novo a anemia.
— Infecciona a miséria
com vida nova e sadia.
— Com oásis, o deserto,
com ventos, a calmaria.

O CARPINA FALA COM O RETIRANTE QUE ESTEVE DE FORA, SEM TOMAR PARTE EM NADA

— Severino retirante,
deixe agora que lhe diga:
eu não sei bem a resposta
da pergunta que fazia,
se não vale mais saltar
fora da ponte e da vida;
nem conheço essa resposta,
se quer mesmo que lhe diga;
é difícil defender,
só com palavras, a vida,
ainda mais quando ela é
esta que vê, severina;
mas se responder não pude
à pergunta que fazia,
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva.
E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
mesmo quando é uma explosão
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina.
Este é o mais conhecido dos trabalhos do poeta pernambucano, que no último dia nove estaria completando 82 anos de idade. 
Os versos foram extraídos do livro "João Cabral de Melo Neto - Obra Completa", Editora Nova Aguilar S.A. - Rio de Janeiro, 1994, pág. 171.


Carlos Nejar
Voltado para uma temática existencial a partir de Livro do Tempo e O Campeador e o Vento inicia um processo poético com uma visão mais realista em que o meio passa a fornecer matéria viva para a sua reflexão sobre o homem. Tem como característica a habilidade verbal, a capacidade metafórica e a grande força rítmica dos versos. Possui poesia filosofante e abertura para uma temática social.
Obras: Das Nações, Casa dos Arreios, Canga e Somos Poucos.

Tendências Poéticas

Concretismo
Em vez de sentimentalismos, tem-se concretudes;
Em vez de elementos estruturais (estrofes, rimas...), a própria palavra, a palavra-objeto;
Formas? Dispostas geometricamente, de modo a permitir que o leitor assimile a mensagem por vários ângulos. Neste poema, em especial, da esquerda para a direita, de cima para baixo e vice-versa;
Predomínio de imagens em detrimento ao caráter discursivo;

Elementos estes, dentre tantos outros, fazem-nos deparar com um novo estilo que norteou a poesia brasileira pós-Modernismo, demarcada, sobretudo, pelo visual.

Dessa forma, tendo em vista que a Literatura é concebida como a expressão do homem vivendo em meio a seu tempo, façamos uma breve retomada no contexto político que tanto demarcou a era em questão.

Contextualizamo-nos, pois, ao governo de Juscelino Kubitschek, que, pautado por forças desenvolvimentistas, fez-se notado por promover o crescimento industrial e urbano. Contudo, mescladas a esse avanço, apareciam a dívida social e a inflação. Assim, em meio a esse ínterim, graças a um discurso moralizante, subiu ao poder Jânio Quadros, demarcado pelas forças impetuosas de promover uma verdadeira faxina em prol de uma economia de uma ordem social mais justa. Depois de empossado, após sete meses de mandato teve de ceder lugar para seu sucessor, João Goulart. Instaurava-se, assim, um período de grandes instabilidades, tanto no campo político, quanto no econômico, o que resultou na formação de duas classes: de um lado as forças populares que clamavam por reformas sociais, e de outro os setores conservadores, temendo uma ameaça comunista.

Em 1964 entrava em cena o Golpe Militar, e com ele a fase da Ditadura, sem falar nos atos institucionais, sobretudo o AI 5. Surgiu, então, outra classe, dessa vez mais inteligente do que nunca, formada por movimentos estudantis, apoiados por professores, intelectuais e artistas, cujo intuito era o de promover uma verdadeira revolução social. Surgiu o cinema e instaurou-se a Bossa Nova (que contava com a participação de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque, notabilizados por uma visão engajada da cultura nacionalista). O Tropicalismo, fruto desta ascendência cultural, em muito se baseou nas ideias do grande mestre Oswald de Andrade, com seu Manifesto Antropofágico, traduzindo a realidade brasileira com humor e irreverência por meio da habilidade artística. 



Assim, sob forte influência de tais acontecimentos, surgiu também o Concretismo, originado em 1965 com a revista Noigandres, caracterizado como um movimento que reproduziu, tanto em forma quanto em conteúdo, as mudanças, ocasionadas pela industrialização, que tanto se fizeram presentes em solo brasileiro. Muitas de suas características já foram exaltadas por meio do poema que nos serviu de exemplo, cuja ideologia era fazer da palavra concreta objeto real para as manifestações voltadas para a crítica à sociedade, tendo no consumo exacerbado e no capitalismo sua principal “fonte de alimentação”.

Foi assim que seus principais precursores, Décio Pignatari, Haroldo e Augusto de Campos (sendo esses dois últimos irmãos), propuseram uma nova visão da arte poética, abnegada de sentimentalismos extremos e fundada na concretude de sentidos, explorando três de suas principais vertentes: a visual, a sonora e a semântica. 



Criada por Décio Pignatari e pelos irmãos Haroldo de Campos e Augusto de Campos, a poesia concreta atacava a produção poética da sua época, dominada pela geração de 1945, a quem os jovens paulistas acusavam de verbalismo, subjetivismo, falta de apuro e incapacidade de expressar a nova realidade gerada pela revolução industrial.

Esses poetas buscavam retomar o modernismo brasileiro dos anos 20, restaurando seu espírito rebelde e vanguardista. Tiveram como inspiração os poetas Oswald de Andrade e João Cabral de Melo Neto (o "poeta engenheiro", objetivo, conciso, que só cronologicamente pode ser colocado na geração de 45).



Cronologia
1952 Criação do Grupo Noigandres, por Décio Pignatari e Haroldo e Au­gusto de Campos. Surge o primeiro número da revista "Noigandres''.
1953 Viagem de Pignatari à Europa, onde ele se encontra com o poeta suíço-boliviano Eugen Gomringer, que realiza na Alemanha experimentações poéti­cas próximas da dos brasileiros.
1955 Augusto utiliza pela primeira vez a expressão "poesia concreta''.
1956 A Exposição Nacional de Poesia Concreta é realizada em São Paulo.
1957 A exposição é mostrada no Rio de Janeiro.
1958 É publicado em "Noigandres 4'' o "Plano-Piloto para Poesia Concreta''.

Características
Abolição do verso tradicional: eliminação dos laços sintáticos (preposições, conjunções, pronomes, etc.), gerando uma poesia objetiva, concreta, feita quase tão somente de substantivos e verbos;
Estrutura verbivocovisual: valorização do campo visual, do aspecto gráfico da letra, da cor e da disposição das palavras;
Ideograma: apelo à comunicação não-verbal;
Metacomunicação: simultaneidade da comunicação verbal e não-verbal;
Atomização: comumente as palavras são desmanchadas, criando outras significações;
Polissemia: múltiplos significados de palavras e de imagens;
Explicitação da materialidade da linguagem sob os aspectos visual e sonoro;
Ênfase no caráter não-discursivo da poesia com supressão ou relativização dos elos sintáticos.

Como uma espécie de denúncia, já antes ressaltada, a literatura se fez vista por intermédio de grandiosas criações, como esta de Décio Pignatari, na qual notadamente identificamos uma crítica ao imperialismo norte-americano e ao consumismo da sociedade moderna, cujo slogan é “Beba Coca-Cola”. Nele, o autor permite que o leitor faça possíveis interpretações, dada a disposição geometricamente composta das palavras. São nítidas, dentre muitas outras, interpretações voltadas para uma concepção degradante do produto em voga (no caso, a bebida), manifestada pelo uso dos vocábulos “babe, cola, caco, cloaca”, denotando algo voltado para o imundo, para o pegajoso.
A linguagem poética dos anos 50 assimila a rapidez das transformações que o país atravessa neste período, o que leva à criação de uma estética de vanguarda marcada pela comunicação imediata, visual, direta e concreta. É o concretismo, corrente que irá marcar toda a produção cultural posterior, não só quanto à literatura, mas também quanto à música, às artes plásticas e ao cinema. Seus fundadores e principais representantes foram:

Augusto de Campos (1931)
Deitava-se como um grande ensaísta polêmico no grupo Noigrandes, haja vista a contundência de seu artigo Concretismo e Ismo. 
Augusto de Campos publica:
O Rei menos o Reino (1951);
Poetamentos(1953), escreveu ensaios e algumas traduções.

Notar o espaçamento maior entre as letras nas duas primeiras linhas, bem como os espaçamentos forçados entre as palavras nas demais, visando a arredondar a forma dessa primeira estrofe (o que se repete no resto do poema). 
Não obstante, há aqui alguma impregnação da forma no próprio texto, através do campo semântico de palavras como ovo, novelo, folhos, dentro, centro, além de uma descrição baseada num cerrado jogo paronomástico que é um exemplo de poesia verbal bem realizada: “ovo // novelo // novo no velho // o filho em folhos // na jaula dos joelhos // infante em fonte // feto feito // dentro do // centro”.


O luxo só é luxo de perto, quando se está preso em suas paredes, em suas leituras em distúbio (é miopia) porque de longe todo aquele luxo é lixo? Estou aqui a lhe perguntar…
Deixa o Augusto de Campos responder:



Haroldo de Campos(1929)
Seu livro de estreia, Auto do Possesso(1950). 
Colaborou em vários números de Noigrandes com poemas como: A Cidade, Ciropédia ou A Educação do Príncipe. Em 1973 publicou Xadrez de Estrelas.
O poeta, tradutor e ensaísta Haroldo de Campos, morreu em agosto de 2003 em São Paulo aos 73 anos, lançou o movimento de poesia concreta em 1956.
Nascido em 19 de agosto de 1929, em São Paulo, Haroldo de Campos formou-se em direito pela Universidade de São Paulo em 1952, mesmo ano em que fundava, com Augusto de Campos e Décio Pignatari, o Grupo Noigandres, de poesia concretista.
Desde 1950, publicou mais de 30 livros, como "A Máquina do Mundo Repensada".
Em 1992, ganhou o Prêmio Jabuti de personalidade literária do ano. Em 1999, o Prêmio Jabuti de poesia foi conferido para seu livro "Crisantempo: No Espaço Curvo Nasce Um" (1998).


Considerado o "mais barroco" dos concretistas, Haroldo de Campos tem sua obra poética intimamente ligada ao movimento.
A crença em uma "crise no verso" o levou ao experimentalismo, à busca de novas formas de estruturação e sintaxe, em curtos poemas-objeto ou longos poemas em prosa. Leia aqui o poema Circum-lóquio, publicado originalmente no jornal  Folha  de São Paulo, Haroldo autorizou a reprodução do poema em Tanto que teve ilustração criada especialmente pelo grande Amilcar de Castro, também ligado ao movimento Concretista e falecido  em 2003.

 
Décio Pignatari (1927)

Décio Pignatari, Beba coca-cola, 1957

Atenção! As pausas, os brancos, as experimentações tipográficas e a posição assimétrica das linhas são signos que constroem a poesia. O espaço gráfico é funcional e passa a significar tanto quanto as palavras. Com a nova estrutura espaço-temporal, as palavras são apresentadas numa estrutura dinâmica de múltiplos movimentos simultâneos. Assim o poema torna-se um objeto passível de manipulação, permitindo múltiplas leituras (pode ser lido de cima para baixo, da direita para a esquerda, em diagonal etc.). Nesse sentido, o leitor é obrigado a ser ativo, a entrar no jogo do poema, pois sua leitura passa a construir o poema.

Preocupa-se mais com a poesia de novos códigos do que com a poesia propriamente dita. Seu livro de estreia: O Carrossel, escrito em 1950. 



Ronaldo Azeredo
Ronaldo Azeredo é o único poeta concreto que não escreveu versos.  Muito jovem alinhou-se ao Concretismo e criou algumas de suas peças mais emblemáticas. Por sua simplicidade de construção, estes poemas tornaram-se dos mais conhecidos e serviram até como uma espécie de modelo para a identificação dos procedimentos concretistas de modo geral: o poema como mera representação gráfica de uma ideia abstrata (“velocidade”) ou de um fenômeno natural, etc.
Fonte: POESIA CONCRETA / seleção de textos, notas, estudos biográfico, histórico e crítico e exercícios por Lumma Maria Simon, Vinícius Ávila Dantas.  São Paulo: Abril Educação, 1982.   (Literatura comentada)  Obra esgotada no mercado. 







      OUTROS POETAS DO CONCRETISMO


                                           José Lino Grünewald, Vai e vem, 1959.




                                          E. M. de Melo e Castro, Pêndulo, 1961.

 


POESIA-PRAXIS
Em fins da década de 50, surge uma nova tendência poética vanguardista: a poesia-práxis, que tem como principal representante Mário Chamie. A poética desse grupo vincula a palavra ao contexto extralinguístico. A respeito da poesia práxis, assim se manifesta Mário Chamie: "O autor práxis não escreve sobre temas. Ele parte de áreas (seja um fato externo ou emoção), procurando conhecer todos os significados e contradições possíveis e atuantes dessas áreas, através de elementos sensíveis que conferem a elas realidade e existência.”


PLANTIO (Mario Chamie)
Cava,
então descansa.
Enxada; fio de corte corre o braço
de cima
e marca: mês, mês de sonda.
Cova.

Joga,
então não pensa.
Semente; grão de poda larga a palma
de lado
e seca; rês, rês de malha.
Cava.

Calca
e não relembra.
Demência; mão de louco planta o vau
de perto
e talha: três, três de paus.
Cova.

Molha
e não dispensa.
Adubo; pó de esterco mancha o rego
de longo
e forma: nó, nó de resmo.
Joga.

Troca,
então condena.
Contrato; quê de paga perde o ganho
de hora
e troça: mais, mais de ano.
Calca.

Cova:
e não se espanta.
Plantio; fé e safra sofre o homem
de morte
e morre: rês, rés de fome
cava.


Diferença entre Concretismo e Poesia Práxis

Em relação ao poema concreto “OVO”, de Augusto de Campos inferimos que o autor explora muito mais o visual. Além de estabelecer um jogo sonoro, visual e semântico, realiza um trabalho especial com as palavras, utilizando-se de alguns fonemas, representados pelo /f/, /v/ e /n/. Tem-se, assim, o poema-objeto, fruto da matéria propriamente dita, cuja finalidade se resume tão somente ao ato de ver e ler, ora conjugado de forma simultânea.

As características do  poema práxis “Plantio”, de Mario Chamie estão voltadas mais para o conteúdo do que para a forma (como ocorreu na poesia concreta) propriamente dita.
E foi justamente dessa forma que ocorreu na poesia-práxis, isto é: como repúdio ao formalismo cultuado pelos poetas do Concretismo, a poesia-práxis permitiu com que o poema, em vez de se apresentar como um objeto de natureza fechada, evidenciasse como algo transformável, haja vista que permite ao leitor participar, interferir e manipular por meio das interpretações realizadas através da leitura. Como resposta a tal pressuposto, voltando ao segundo poema, o ato de plantar representa metaforicamente o ato de viver, materializado, também, por um processo contínuo. Essa vertente tem dois representantes principais: Mário Chamie, autor já retratado, e Cassiano Ricardo.
A título de reforçar ainda mais os novos posicionamentos exaltados com essa nova forma de fazer poesia, observe um diálogo estabelecido entre Mário Chamie e José Castello, por ocasião de uma entrevista concedida ao jornal O Estado de São Paulo, datada de 19/06/01:
Estado -Em que medida as ideias da chamada Instauração Práxis ainda são atuais? Em que medida os conceitos que desenvolve ainda podem operar e influir na poesia brasileira de hoje?
Mário Chamie -Movimentos e escolas literárias tendem a ser datados com o passar do tempo. A Práxis se caracterizou por combater escolas e movimentos. Ela trouxe ao debate das vanguardas, entre nós, algumas formulações críticas e criativas opostas a sistemas fechados de doutrinas estéticas. Por isso, o seu alvo principal, nos anos 60, foi o concretismo, então modelo de autoritarismo poético. Todo autoritarismo é ortodoxo e sectário. O concretismo, enquanto movimento centralizador, nasceu sob o império do controle, já a partir do seu manifesto nuclear, o chamado Plano-Piloto. Para Práxis, a palavra poética nunca é refém de uma teoria prévia. A liberdade de sua criação é, em si, uma heterodoxia ativa. Quando o poeta, no exercício dessa liberdade, encontra ou inventa a sua palavra, ele não precisa pedir a bênção consensual ao receituário de nenhum plano preestabelecido. Daí porque Práxis não é um episódio datado na história de nossa literatura. Sua presença combativa impediu que, nos anos 60, fosse imposto um discurso hegemônico e exclusivista à nossa poesia. Isso preparou o terreno e legitimou a pluralidade de alternativas de nossa produção artística, dos anos 70 até hoje. Antônio Candido sintetizou muito bem essa legitimação ao escrever: "A Poesia Práxis recuperou o verso de maneira renovada e intensificou a referência às circunstâncias do mundo".
Fonte: http://www.revista.agulha.nom.br/disseram36.html


AGIOTAGEM (Mario Chamie)

um
dois
três
o juro:o prazo
o pôr / o cento / o mês / o ágio


p o r c e n t a g i o.

dez
cem
mil
o lucro:o dízimo
o ágio / a mora / a monta em péssimo

e m p r é s t i m o.

muito
nada
tudo
a quebra:a sobra
a monta / o pé / o cento / a quota

h a j a   n o t a
agiota.

  SIDERURGIA S.O.S. (Mario Chamie)


Se  der  o  ouro  sidéreo  opus  horáriO
Sem   sol   o   sal   do   erário   saláriO

Ser der orgia  semistério o empresáriO
Siderurgia   do   opus  o  só  do  eráriO

Se  der  a  via  do  pus   opus    erradO
Se der o certo no errado o  empregadO

Se  der  errado  no certo o emprecáriO

 
O TOLO E O SÁBIO (Mario Chamie)
O sábio que há em você
não sabe o que sabe
o tolo que não se vê.

Sabe que não se vê
o tolo que não sabe
o que há de sábio em você.

Mas do tolo que há em você
não sabe o sábio que você vê.

 
Nascida em 1962, a poesia práxis foi um movimento que surgiu a partir da dissidência de um grupo de poetas que compunham o Concretismo. Sendo assim, a poesia práxis surgiu como uma ruptura aos moldes do Concretismo, tais como o formalismo e o culto pela forma propriamente dita, representado pela palavra-objeto que seria a palavra de ordem. O marco de fundação deste movimento foi a publicação do livro “Lavra-lavra”, de Mário Chamie, e o primeiro documento teórico de sua instauração foi o intitulado “Manifesto Didático”


As características da poesia práxis
Em contraposição ao formalismo concretista, a poesia práxis é considerada como uma matéria-prima capaz de ser transformada, possuindo um aspecto dinâmico. Se, no Concretismo, a “palavra-coisa” era a mais exaltada, na poesia práxis tem-se a “palavra-energia”, com a valorização da palavra em seu contexto extralinguístico, mantendo uma forte ligação com a realidade social. Esta modalidade não se caracteriza como algo fechado, muito pelo contrário, permite a interferência do leitor com a abertura para múltiplas interpretações. Na poesia concreta, a forma de expressão era a comunicação através do visual; a poesia práxis surge revalorizando o ritmo, a palavra e o verso.

Principais representantes
A poesia práxis foi bem representada por Mário Chamie e Cassiano Ricardo, que valorizavam muito mais o conteúdo do que a forma em si.
Além deles, podemos destacar os seguintes autores e suas respectivas obras:
Armando Freitas Filho – Palavra (1963);
Mauro Gama – Corpo Verbal (1964);
Antonio Carlos Cabral – Diadiário cotidiano (1964);
Ivone Geanetti Fonseca – A fala e a forma (1964);
Camargo Méier – Cartilha (1964).
Como exemplo de poesia práxis, veja a seguir uma criação de Cassiano Ricardo:
Os nomes dados a terra descoberta
Por se tratar de uma ilha deram-lhe o nome
de ilha de Vera-Cruz.
      Ilha cheia de graça
      Ilha cheia de pássaros
      Ilha cheia de luz.
      Ilha verde onde havia
      mulheres morenas e nuas
      anhangás a sonhar com histórias de luas
      e cantos bárbaros de pajés em poracés batendo os pés.
Depois mudaram-lhe o nome
      pra terra de Santa Cruz.
      Terra cheia de graça
      Terra cheia de pássaros
      Terra cheia de luz.
A grande terra girassol onde havia guerreiros de tanga e
onças ruivas deitadas à sombra das árvores
mosqueadas de sol
Mas como houvesse em abundância,
certa madeira cor de sangue, cor de brasa
e como o fogo da manhã selvagem
fosse um brasido no carvão noturno da paisagem,
e como a Terra fosse de árvores vermelhas
e se houvesse mostrado assaz gentil,
       deram-lhe o nome de Brasil.
       Brasil cheio de graça
       Brasil cheio de pássaros
       Brasil cheio de luz.   


Poesia Social
Ferreira Gullar (1930- )

Surge em 1957, como forma de reação contra os excessos formais do concretismo, a poesia social, mais comunicativa e voltada para os problemas do país. Fazem parte desse grupo Ferreira Gullar, Thiago de Melo, Affonso Ávila e Jamil Haddad.
Em se tratando dos movimentos literários, torna-se evidente que alguns se complementam e outros se opõem em relação às suas ideologias. Em face dessa realidade, tomemos como exemplo o Concretismo, cujo foco se voltou muito mais para a forma do que para o conteúdo propriamente dito. Assim, seus seguidores optaram por trabalhar a parte material da palavra, explorando-a nos seus mais íntimos aspectos, sobretudo os sonoros, visuais e semânticos, fazendo do visual, do simbólico, seu ponto de partida e, por que não dizer?, de chegada, haja vista que a poesia concreta ainda é bastante influente no panorama literário vigente.

Dessa forma, como afirmado anteriormente, em consonância com esse movimento (o Concretismo), surgiu a poesia social, atuando como uma espécie de contraposição ao radicalismo cultuado pelo movimento anterior. Os autores dessa modalidade de poesia, diferentemente do que fizeram os concretistas, reabilitaram o verso e o sentimento lírico por excelência, fazendo de tais recursos um instrumento de denúncia social.

Frente a essa linha de pensamento, autores como Ferreira Gullar, Thiago de Melo e Afonso Romano de Sant’Anna fizeram da palavra, demarcada por uma linguagem beirada ao cotidiano, o principal alvo de participação junto aos problemas sociais e políticos que assolaram a época em questão.

Assim, de modo a constatarmos tais pressupostos, analisemos uma das muitas criações de Ferreira Gullar, intitulada “Não há vagas”:

O preço do feijão
não cabe no poema. O preço do arroz
não cabe no poema.

Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão

O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em seus arquivos.

Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras.
- porque o poema, senhores,
está fechado:
“não há vagas”

Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço

O poema, senhores,
não fede nem cheira.


Como afirmam notáveis estudiosos, emerge de Ferreira Gullar uma autêntica relação demarcada pelo corpo a corpo com a poesia, cuja habilidade se faz vista pela busca da expressão, a qual se dá por intermédio do sofrimento do povo, dos fatos relativos ao próprio cotidiano (como ocorre no poema em questão). Enfim, podemos atestar no poema uma nítida crítica, assim como afirmado anteriormente, cujo alvo principal é a realidade circundante, levando em conta as mazelas oriundas dos fatos sociais de uma forma geral. Tais pressupostos se manifestam noutra de suas criações, intitulada “Agosto 1964” :

Entre lojas de flores e de sapatos, bares,
mercados, butiques,
viajo
num ônibus Estrada de Ferro - Leblon.
Viajo do trabalho, a noite em meio,
fatigado de mentiras.

O ônibus sacoleja. Adeus, Rimbaud,
relógios de lilazes, concretismo,
neoconcretismo, ficções da juventude, adeus,
que a vida
eu a compro à vista aos donos do mundo.
Ao peso dos impostos, o verso sufoca,
a poesia agora responde a inquérito
policial-militar.

Digo adeus à ilusão
Mas não ao mundo. Mas não à vida,
meu reduto e meu reino.
Do salário injusto,
da punição injusta,
da humilhação, da tortura,
do terror,
retiramos algo e com ele construímos
um artefato.

Ferreira Gullar (l930)

Em suas obras, Ferreira Gullar, inicialmente, voltou-se aos experimentos concretistas, passando depois a uma opção participante, de uso da poesia como denúncia e crítica. Empregando muitas vezes ritmos e temas da literatura de cordel, Gullar põe a nu as tensões sociais, expondo forte conteúdo ideológico.

                             A POESIA MARGINAL


A Poesia Marginal ou a Geração Mimeógrafo surge na década de 70 no Brasil, de forma a representar o movimento sociocultural que atingiu as artes (música, cinema, teatro, artes plásticas) sobretudo, a literatura, e influenciou diretamente na produção cultural do país.
Sendo assim, esse movimento dito "marginal", absorveu o grito silenciado pela Ditadura Militar e, portanto, a união de artistas em geral, agitadores culturais, educadores e professores, fez com que buscassem uma forma de divulgação da arte e da cultura brasileira, reprimida pelo sistema totalitário que vigorava no país.
Para tanto, inspirado nos movimentos de contracultura, a denominação “Geração Mimeógrafo” remete justamente à sua principal característica, ou seja, a substituição dos meios tradicionais de circulação de obras para os meios alternativos de divulgação empregado pelos artistas independentes ou os “representantes da cultura marginal”, os quais sentiram a necessidade de se expressarem e, sobretudo, divulgarem suas ideias.
Dessa forma, a partir desse movimento revolucionário literário, a produção poética “fora do sistema” era divulgada pelos próprios poetas a partir de pequenas tiragens de cópias, que realizam nos toscos folhetos mimeografados, os quais vendiam sua arte a baixo custo, nos bares, praças, teatros, cinemas, universidades, dentre outros.
Numa das vertentes desse movimento sociocultural e artístico, surge notadamente a “Poesia Marginal”, aquela que abrolha do cerne da periferia, representando a voz da minoria. Nesse ínterim, os poetas marginais recusam qualquer modelo literário, de forma que não se “encaixam” em nenhuma escola ou tradição literária.
A poesia marginal é formada, em sua maioria, por pequenos textos, alguns com apelo visual (fotos, quadrinhos, etc.), absorvidos por uma linguagem coloquial (traços da oralidade), espontânea, inconsciente, a partir de temática cotidiana e erótica, permeadas de sarcasmo, humor, ironia, palavrões e gírias da periferia. 
Desse movimento marginal surgem poetas que se destacaram como 


LITERATURA
Chacal, 
Cacaso, 
Paulo Leminki 
e Torquato Neto.
 

MÚSICA
Tom Zé, 
Jorge Mautner,
 Luiz Melodia 


ARTES PLÁSTICAS
Lygia Clark 
Hélio Oiticica
Uma das frases mais conhecidas do artista Hélio Oiticica demonstra sua proximidade com a Geração Mimeógrafo: “Seja Marginal Seja Herói”.


HÉLIO OITICICA

“Seja marginal, seja herói”. 


Com essa frase, Hélio Oiticica apresenta para o mundo uma gama de trabalhos que culminaram em uma explosão de pura liberdade e paixão artística que provocou um estandalhaço em seu tempo criando um movimento conhecido como marginália.


Hélio Oiticica foi um dos mais importantes artistas da segunda metade do século XX. Suas ideias produziram uma mudança de parametros éticos e estéticos, sob um novo prisma. Um inovador no campo da arte e a cultura. Sem dúvida, sua obra merece ser sempre repensada e reavaliada.

A arte fora dos limites do tradicional 


A marginália passou a fazer parte do debate cultural brasileiro quando exteriorizou uma nova feição estética e inúmeras  perspectivas sobre o mundo  a partir do final de 1968, estendendo-se até meados da década de setenta.
É nesse período que surgem o cinema marginal, (Rogério Sganzerla e Ozualdo Candeias). Na literatura e na poesia o tema da marginália, vai mais longe ainda: serviu de alento para autores como Francisco Alvim, Gramiro de Matos e Torquato Neto.
No campo musical, a ideia do artista marginal é substituída pelo rótulo do músico maldito, se transfigura em poeta maldito, cujos principais nomes desse período são Jards Macalé, Sérgio Sampaio, Jorge Mautner e Luiz Melodia.
Fonte 
http://www.heliooiticia.org.br 

                                  VÍDEO HELIO OITICICA



PAULO LEMINSKI 

PAULO LEMINSKI

Poeta Curitibano e grande representante da poesia marginal, Paulo Leminski Filho (1944-1989), durante sua vida atuou como crítico literário, escritor, tradutor e professor. Escreveu contos, poemas, haicais, ensaios, biografias, literatura infanto-juvenil, traduções e, além disso, realizou parcerias musicais. Publicou seus primeiros poemas na revista concretista “Invenções” e colaborou com outras revistas de vanguarda.
Algumas de suas obras que merecem destaque: Catatau (1976), Curitiba, Etecetera (1976), Não fosse isso e era menos/ não fosse tanto e era quase (1980), Caprichos e relaxos (1983), Jesus (1984), Distraídos Venceremos (1987), Agora É que São Elas (1984), Metamorfose, uma viagem pelo imaginário grego (1994). 
Segue abaixo, uma poesia que esboça sua temática marginal:

“Marginal é quem escreve à margem,
deixando branca a página
para que a paisagem passe
e deixe tudo claro à sua passagem.
Marginal, escrever na entrelinha,
sem nunca saber direito
quem veio primeiro,
o ovo ou a galinha”.
 
 
 

Escritor, crítico literário e tradutor, Paulo Leminski foi um dos mais expressivos poetas de sua geração.
Influenciado pelos dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos deixou uma obra vasta que, passados 25 anos de sua morte, continua exercendo forte influência nas novas gerações de poetas brasileiros.
Seu livro “Metamorfose” foi o ganhador do Prêmio Jabuti de Poesia, em 1995.
Entre suas traduções estão obras de James Joyce, John Fante, Samuel Beckett e Yukio Mishima. Na música teve poemas gravados por Caetano Veloso, Gilberto Gil, Guilherme Arantes; e parcerias com Itamar Assumpção, José Miguel Wisnik e Wally Salomão.
Paulo Leminski morreu no dia 7 de junho de 1989, em consequência de uma cirrose hepática que o acompanhou por vários anos. 
Poemas do livro “Melhores Poemas de Paulo Leminski”, organização de Fred Góes, editora Global.

Bem no fundo
No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto
a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo
extinto por lei todo o remorso,
maldito seja quem olhar pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais
mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos
saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.

Dor elegante
Um homem com uma dor
É muito mais elegante
Caminha assim de lado
Com se chegando atrasado
Chegasse mais adiante
Carrega o peso da dor
Como se portasse medalhas
Uma coroa, um milhão de dólares
Ou coisa que os valha
Ópios, édens, analgésicos
Não me toquem nesse dor
Ela é tudo o que me sobra
Sofrer vai ser a minha última obra

Invernáculo
Esta língua não é minha,
qualquer um percebe.
Quem sabe maldigo mentiras,
vai ver que só minto verdades.
Assim me falo, eu, mínima,
quem sabe, eu sinto, mal sabe.
Esta não é minha língua.
A língua que eu falo trava
uma canção longínqua,
a voz, além, nem palavra.
O dialeto que se usa
à margem esquerda da frase,
eis a fala que me lusa,
eu, meio, eu dentro, eu, quase.

O que quer dizer
O que quer dizer diz.
Não fica fazendo
o que, um dia, eu sempre fiz.
Não fica só querendo, querendo,
coisa que eu nunca quis.
O que quer dizer, diz.
Só se dizendo num outro
o que, um dia, se disse,
um dia, vai ser feliz.

M. de memória
Os livros sabem de cor
milhares de poemas.
Que memória!
Lembrar, assim, vale a pena.
Vale a pena o desperdício,
Ulisses voltou de Tróia,
assim como Dante disse,
o céu não vale uma história.
um dia, o diabo veio
seduzir um doutor Fausto.
Byron era verdadeiro.
Fernando, pessoa, era falso.
Mallarmé era tão pálido,
mais parecia uma página.
Rimbaud se mandou pra África,
Hemingway de miragens.
Os livros sabem de tudo.
Já sabem deste dilema.
Só não sabem que, no fundo,
ler não passa de uma lenda.

Parada cardíaca
Essa minha secura
essa falta de sentimento
não tem ninguém que segure,
vem de dentro.
Vem da zona escura
donde vem o que sinto.
Sinto muito,
sentir é muito lento.

Razão de ser
Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?

Aviso aos náufragos
Esta página, por exemplo,
não nasceu para ser lida.
Nasceu para ser pálida,
um mero plágio da Ilíada,
alguma coisa que cala,
folha que volta pro galho,
muito depois de caída.
Nasceu para ser praia,
quem sabe Andrômeda, Antártida
Himalaia, sílaba sentida,
nasceu para ser última
a que não nasceu ainda.
Palavras trazidas de longe
pelas águas do Nilo,
um dia, esta pagina, papiro,
vai ter que ser traduzida,
para o símbolo, para o sânscrito,
para todos os dialetos da Índia,
vai ter que dizer bom-dia
ao que só se diz ao pé do ouvido,
vai ter que ser a brusca pedra
onde alguém deixou cair o vidro.
Não e assim que é a vida?

Amar você é
coisa de minutos…
Amar você é coisa de minutos
A morte é menos que teu beijo
Tão bom ser teu que sou
Eu a teus pés derramado
Pouco resta do que fui
De ti depende ser bom ou ruim
Serei o que achares conveniente
Serei para ti mais que um cão
Uma sombra que te aquece
Um deus que não esquece
Um servo que não diz não
Morto teu pai serei teu irmão
Direi os versos que quiseres
Esquecerei todas as mulheres
Serei tanto e tudo e todos
Vais ter nojo de eu ser isso
E estarei a teu serviço
Enquanto durar meu corpo
Enquanto me correr nas veias
O rio vermelho que se inflama
Ao ver teu rosto feito tocha
Serei teu rei teu pão tua coisa tua rocha
Sim, eu estarei aqui

Adminimistério
Quando o mistério chegar,
já vai me encontrar dormindo,
metade dando pro sábado,
outra metade, domingo.
Não haja som nem silêncio,
quando o mistério aumentar.
Silêncio é coisa sem senso,
não cesso de observar.
Mistério, algo que, penso,
mais tempo, menos lugar.
Quando o mistério voltar,
meu sono esteja tão solto,
nem haja susto no mundo
que possa me sustentar.
Meia-noite, livro aberto.
Mariposas e mosquitos
pousam no texto incerto.
Seria o branco da folha,
luz que parece objeto?
Quem sabe o cheiro do preto,
que cai ali como um resto?
Ou seria que os insetos
descobriram parentesco
com as letras do alfabeto?
Sintonia para pressa e presságio
Escrevia no espaço.
Hoje, grafo no tempo,
na pele, na palma, na pétala,
luz do momento.
Soo na dúvida que separa
o silêncio de quem grita
do escândalo que cala,
no tempo, distância, praça,
que a pausa, asa, leva
para ir do percalço ao espasmo.
Eis a voz, eis o deus, eis a fala,
eis que a luz se acendeu na casa
e não cabe mais na sala.

Não discuto
não discuto
com o destino
o que pintar
eu assino

A lua no cinema
A lua foi ao cinema,
passava um filme engraçado,
a história de uma estrela
que não tinha namorado.
Não tinha porque era apenas
uma estrela bem pequena,
dessas que, quando apagam,
ninguém vai dizer, que pena!
Era uma estrela sozinha,
ninguém olhava pra ela,
e toda a luz que ela tinha
cabia numa janela.
A lua ficou tão triste
com aquela história de amor
que até hoje a lua insiste:
— Amanheça, por favor!

Sem título
Eu tão isósceles
Você ângulo
Hipóteses
Sobre o meu tesão
Teses sínteses
Antíteses
Vê bem onde pises
Pode ser meu coração

OUTROS POEMAS PAULO LEMINSKI 


 
A chamada poesia marginal apresenta linguagem diversificada, com textos muito próximos da prosa. Os temas, relacionados ao cotidiano, são abordados em tom coloquial, de conversa íntima, de confissão pessoal. Os poetas "marginais" preocupam-se principalmente com a expressão, ao contrário dos concretistas, que davam maior valor à construção do poema.
A poesia marginal denuncia a situação de medo em que vivia o país, ainda sob ditadura militar.
A Poesia Marginal ou Geração Mimeógrafo ocorreu entre os anos 1970 e 80 em função da censura imposta pela ditadura civil-militar. 
A principal característica do gênero foi a substituição dos meios tradicionais de circulação das obras — editoras e livrarias — por meios alternativos: pequenas tiragens com cópias mimeografadas comercializadas a baixo custo e vendidas de mão em mão.
Os poemas abaixo foram publicados nos livros “26 Poetas Hoje”, organizado por Heloisa Buarque de Hollanda, e “Poesia Jovem Anos 70”, de Carlos Alberto M. Pereira e Heloísa Buarque de Hollanda.

CHACAL

Nascido no Rio de janeiro em 1951, o nome “Chacal” é o pseudônimo de Ricardo de Carvalho Duarte, que junto à Cacaso destacou-se como poeta marginal na geração mimeógrafo. Chacal é poeta e letrista brasileiro; mimeografou sua obra “Muito Prazer”, em 1971. Outras obras que merecem destaque: Preço da Passagem (1972), América (1975), Quampérius (1977), Olhos Vermelhos (1979), Boca Roxa (1979), Tontas Coisas (1982), Drops de Abril (1983), Comício de Tudo (1986), Letra Elétrika (1994), Belvedere (2007).
 

Rápido Rasteiro 

vai ter uma festa
que eu vou dançar
até o sapato pedir pra parar.
aí eu paro, tiro o sapato
e danço o resto da vida

CACASO

Antônio Carlos Ferreira de Brito, conhecido como Cacaso (1944-1987), foi um dos maiores representantes da poesia marginal, sendo uma das vozes que colaborou com o grito de liberdade, o qual o país almejava diante da repressão causada pela ditadura. Podemos notar essa temática expressa em muitos de seus versos, por exemplo no Poema “Lar doce lar”: “Minha pátria é minha infância: por isso vivo no exílio”.
Cacaso, mineiro nascido em Uberaba, foi escritor, professor, crítico e letrista. Deixou um grande legado para a literatura brasileira, com mais de 20 cadernos, alguns em forma de diários, com poemas, fotos e ilustrações. Algumas obras que merecem destaque: A palavra cerzida (1967), Grupo escolar (1974), Beijo na boca (1975), Segunda classe (1975), Na corda bamba (1978) e Mar de mineiro (1982).
 

 Jogos Florais

Minha terra tem palmeiras
onde canta o tico-tico.
Enquanto isso o sabiá
vive comendo o meu fubá.
Ficou moderno o Brasil
ficou moderno o milagre:
a água já não vira vinho,
vira direto vinagre.

Minha terra tem Palmares
memória cala-te já.
Peço licença poética
Belém capital Pará.
Bem, meus prezados senhores
dado o avançado da hora
errata e efeitos do vinho
o poeta sai de fininho.

(será mesmo com dois esses
que se escreve paçarinho?)


TORQUATO NETO

Poeta piauiense, Torquato Pereira de Araújo Neto (1944-1972) foi escritor, jornalista, cineasta (ator e diretor) e letrista de música popular. Organizou a revista de poesias vanguardistas “Navilouca” (1974) e participou dos movimentos de contracultura como a Tropicália, o Concretismo e a Poesia Marginal.
Nas palavras do artista: “Escute, meu chapa: um poeta não se faz com versos. É o risco, é estar sempre a perigo sem medo, é inventar o perigo e estar sempre recriando dificuldades pelo menos maiores, é destruir a linguagem e explodir com ela (…). Quem não se arrisca não pode berrar”. Sua obra que mais se destacada, disposta em dois volumes é: “Torquatália: do lado de dentro” e "Geleia Real”, publicada postumamente, em 2005. Com apenas 28, cometeu suicídio, na cidade do Rio de Janeiro.

Cogito

eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível
eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora

eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim
eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim.

UMA NOITE
Afonso Henriques Neto

o tio cuspia pardais de cinco em cinco minutos.
esta grama de lágrimas forrando a alma inteira
(conforme se diz da jaula de nervos)
recebe os macios passos de toda a família
na casa evaporada

mais os vazios passos
de ela própria menina.

a avó puxava linhas de cor de dentro dos olhos.
uma gritaria de primos e bruxas escalava o vento
escalpelava a tempestade
pedaços de romã podre
no bolor e charco do tanque.

o pai conduzia a festa
como um barqueiro
puxando peixes mortos

nós
os irmãos
jogávamos no fogo
dentaduras pétalas tranças
fotografias cuspes aniversários
e sempre
uma canção
só cal e ossos
a mãe de nuvem parindo orquídeas no cimento.


Nicolas Behr

Nicolas Behr é poeta brasileiro nascido em Cuiabá, em 1958. Grande representante da Geração mimeógrafo e da Poesia Marginal. Lançou sua primeira obra mimeografada em 1977, intitulada “Iogurte com farinha”. Outras obras que merecem destaque: Grande Circular (1978), Caroço de Goiaba (1978), Chá com Porrada (1978), Com a Boca na Botija (1979), Brasiléia Desvairada (1979), L2 Noves Fora W3 (1980), Porque Construi Braxília (1993), Segredo Secreto (1996), Umbigo (2001), dentre outras.
  

Receita

Ingredientes:
2 conflitos de gerações
4 esperanças perdidas
3 litros de sangue fervido
5 sonhos eróticos
2 canções dos beatles

Modo de preparar
dissolva os sonhos eróticos
nos dois litros de sangue fervido
e deixe gelar seu coração

leve a mistura ao fogo
adicionando dois conflitos de gerações
às esperanças perdidas

corte tudo em pedacinhos
e repita com as canções dos beatles
o mesmo processo usado com os sonhos
eróticos mas desta vez deixe ferver um
pouco mais e mexa até dissolver

parte do sangue pode ser substituído
por suco de groselha
mas os resultados não serão os mesmos
sirva o poema simples ou com ilusões

TIRA-TEIMA
Bernardo Vilhena

Tire a faca do peito
e o medo dos olhos
Ponha uns óculos escuros
e saia por aí. Dando bandeira

Tire o nó da garganta
que a palavra corre fácil
sem desculpas nem contornos
Direta: do diafragma ao céu da boca

Tire o trinco da porta
liberte a corrente de ar
Deixe os bons ventos levantarem a poeira
levando o cisco ao olho grande

Tire a sorte na esquina
na primeira cigana ou no velho realejo
Leia o horóscopo e olhe o céu
lembre-se das estrelas e da estrada
Tire o corpo da reta
e o cu da seringa
que malandro é você, rapaz
o lado bom da faca é o cabo

Tire a mulher mais bonita
pra dançar e dance
Dance olhando dentro dos olhos
até que ela morra de vergonha

Tire o revólver e atire
a primeira pedra
a última palavra
a praga e a sorte
a peste, ou o vírus?

MUITO OBRIGADO
Francisco Alvim

Ao entrar na sala
cumprimentei-o com três palavras
boa tarde senhor
Sentei-me defronte dele
(como me pediu que fizesse)
Bonita vista
pena que nunca a aviste
Colhendo meu sangue: a agulha
enfiada na ponta do dedo
vai procurar a veia quase no sovaco
Discutir o assunto
fume do meu cigarro
deixa experimentar o seu
(Quanto ganhará este sujeito)
Blazer, roseta, o país voltando-lhe
no hábito do anel profissional
Afinal, meu velho, são trinta anos
hoje como ontem ao meio-dia
Uma cópia deste documento
que lhe confio em amizade
Sua experiência nos pode ser muito útil
não é incômodo algum
volte quando quiser


Ana Cristina César

Poetisa, tradutora e crítica literária carioca, Ana Cristina César (1952-1983) é considerada uma das principais figuras femininas da geração mimeógrafo, com a publicação de edições independentes: “Cenas de Abril” e “Correspondência Completa”. Além dessas, outras obras: Luvas de Pelica (1980), Literatura não é documento (1980), A Teus Pés (1982), Inéditos e Dispersos (1985). Comete suicídio, aos 31 anos no Rio de Janeiro ao se atirar da janela de seu quarto.
 

Soneto

Pergunto aqui se sou louca
Quem quer saberá dizer
Pergunto mais, se sou sã
E ainda mais, se sou eu

Que uso o viés pra amar
E finjo fingir que finjo
Adorar o fingimento
Fingindo que sou fingida

Pergunto aqui meus senhores
quem é a loura donzela
que se chama Ana Cristina
E que se diz ser alguém
É um fenômeno mor
Ou é um lapso sutil?

AMOR BASTANTE
Paulo Leminski

quando eu vi você
tive uma ideia brilhante
foi como se eu olhasse
de dentro de um diamante
e meu olho ganhasse
mil faces num só instante

basta um instante
e você tem amor bastante

OLHOS DE RESSACA
Geraldo Carneiro

minha deusa negra quando anoitece
desce as escadas do apartamento
e procura a estátua no centro da praça
onde faz o ponto provisoriamente

eu fico na cama pensando na vida
e quando me canso abro a janela
enxergando o porto e suas luzes foscas
o meu coração se queixa amargamente
penso na morena do andar de baixo
e no meu destino cego, sufocado
nesse edifício sórdido & sombrio
sempre mal e mal vivendo de favores

e a minha deusa corre os esgotos
essa rede obscura sob as cidades
desde que a noite é noite e o mundo é mundo
senhora das águas dos encanamentos

eu escuto o samba mais dolente & negro
e a luz difusa que vem do inferninho
no primeiro andar do prédio condenado
brilha nos meus tristes olhos de ressaca

e a minha deusa, a pantera do catre
consagrada à fome e à fertilidade
bebe o suor de um marinheiro turco
e às vezes os olhos onde a lua

eu recordo os laços na beira da cama
percorrendo o álbum de fotografias
e não me contendo enquanto me visto
chego à janela e grito pra estátua

se não fosse o espelho que me denuncia
e a obrigação de guerras e batalhas
eu me arvoraria a herói como você, meu caro
pra fazer barulho e preservar os cabarés.
(Fonte: Revista Bula)

 
O TROPICALISMO
Retomando a antropofagia oswaldiana, o Tropicalismo foi um forte movimento cultural iniciado em l967, a partir dos Festivais de Música Popular Brasileira da TV Record.
Propondo uma postura nacionalista crítica e de ruptura forma, os tropicalistas realizaram uma verdadeira revolução estética no cenário cultural brasileiro. Influenciados pelo concretismo no que diz respeito à estética, tiveram entre seus criadores os nomes de:
Caetano Veloso,
Gilberto Gil,
Tom Zé,
Os Mutantes (conjunto do qual participava Rita Lee),
o maestro Rogério Duprat
e os poetas Caouban e Torquato Neto

 
Tropicalismo
Retomando a antropofagia oswaldiana, o Tropicalismo foi um forte movimento cultural iniciado em l967, a partir dos Festivais de Música Popular Brasileira da TV Record.
Propondo uma postura nacionalista crítica e de ruptura forma, os tropicalistas realizaram uma verdadeira revolução estética no cenário cultural brasileiro. Influenciados pelo concretismo no que diz respeito à estética, tiveram entre seus criadores os nomes de:
Caetano Veloso,
Gilberto Gil,
Tom Zé,
Os Mutantes (conjunto do qual participava Rita Lee),
o maestro Rogério Duprat
e os poetas Caouban e Torquato Neto. 


O Tropicalismo foi um movimento artístico do final da década de 1960 que buscou reinventar as artes brasileiras, sobretudo a música, e romper com as tendências nacionalistas defendidas por setores de esquerda que queriam afastar a arte brasileira da influência norte-americana. Quem defendia o Tropicalismo achava impossível conciliar a evolução musical e cultural do país, e consequentemente, o progresso e o projeto de independência nacional, sem levar em conta a inserção nos acontecimentos do período, como a revolução sexual e a Guerra Fria. O movimento se apoiou em teses modernistas como o Antropofagismo, que acreditava ser possível absorver e reaproveitar de maneira benéfica os conteúdos dos produtos culturais estrangeiros.

Entre 1967 e 1968 os músicos Tom Zé, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Os Mutantes, o produtor musical Rogério Duprat, o maestro Júlio Medaglia, os escritores José Agrippino de Paula e Torquato Neto, o teatrólogo José Celso Martinez Corrêa e os artistas plásticos como Lygia Clark e Hélio Oiticica, entre outros, fizeram parte de um projeto criativo que resultou no disco-manifesto "Tropicália ou Panis et Circensis". A característica principal deste grupo era a miscelânea de ideias e estéticas que uniam temas urbanos e modernos aos folclóricos e populares. Na música, a guitarra elétrica e outros equipamentos elétricos apareciam ao lado de instrumentos tradicionais da música brasileira. Toda essa miscelânea resultou num momento cultural único, que ficou marcado pela explosão de ideias e também pela efemeridade. O Ato Institucional número 5, em dezembro de 1968, marcou o endurecimento da Ditadura Militar que resultou no fim da tolerância do regime em relação aos seus críticos e no exílio de milhares de intelectuais e artistas (entre eles, Caetano Veloso e Gilberto Gil).

Ainda que tenha durado pouco, a Tropicália levou a cultura brasileira a aceitar sua inserção no mundo contemporâneo. 
A irreverência, a contestação, o experimentalismo, o colorido tropical, a busca das raízes da cultura brasileira, sempre aliados a uma ideia de "modernização", de dissolução das dicotomias entre cultura tradicional e cultura pop, refinamento e popularização, tradição e vanguarda, solidificaram o movimento. O questionamento dos costumes, da moral, do comportamento da juventude, numa sociedade brasileira ainda marcada pela tradição, realizou-se assimilando aspectos da contracultura, da arte pop, do feminismo e da rebeldia da juventude mundial.

A revista Bravo destacou o mais  trabalho de Tom Zé, aos 75 anos,   fiel ao legado modernizador do Tropicalismo. 
Ao lançar um disco com a participação de jovens cantores como Mallu Magalhães, Emicida e Rodrigo Amarante, o cantor deixa claro que os ideais da Tropicália continuam pertinentes para a cultura brasileira contemporânea. 





 Tom Zé foi um dos principais nomes do movimento. 
Ao lado de Gilberto Gil, Caetano Veloso, Os Mutantes, Torquato Neto, Gal Costa, Nara Leão, Capinam e o maestro Rogério Duprat, Tom Zé fez parte do disco "Tropicália ou Panis et circensis", lançado como um manifesto tropicalista em 1968. No álbum estão algumas  canções que resumem as ideias do Tropicalismo entre elas "Parque industrial", composta por Tom Zé, "Geleia Geral" de Torquato Neto e Gilberto Gil, e "Panis et circensis", de Gilberto Gil e Caetano Veloso.

O cantor usa a ironia como uma forma de crítica, presente por exemplo na canção "Panis et circensis". "As pessoas na sala de jantar" podem ser identificadas com a classe média brasileira, sempre preocupadas em manter as aparências e se escandalizando com os "tigres e leões", sem se ater à necessidade de transformação e evolução, que movimentos de vanguarda costumam propor.

Na canção "Parque industrial", a crítica fica mais evidente, com a apresentação da nação brasileira em uma festa com sabor antropofágico, em que as "garotas propaganda, aeromoças e ternuras no cartaz", convivem com o "jornal popular que nunca se espreme", porque pode derramar sangue. Tudo isso diante de um "céu de anil", com "bandeirolas no cordão". Ainda temos a "revista moralista" com a lista dos pecados da "vedete" (vedete era o termo usado para se nomear as atrizes do teatro de revista, bastante popular na época. As vedetes hoje seriam comparáveis às "modelos" que vivem buscando o próximo "reality show" para manter-se em evidência, ou as atrizes de novela).

Mesmo parecendo superficiais aos olhos de hoje, essas críticas eram pertinentes. O debate sobre o que seria a arte "autêntica" deixava grupos opostos à beira do pugilato, e levou a organização de manifestações que beiram a ingenuidade, como a passeata "contra a guitarra elétrica", organizada por setores da MPB e que contou com a presença de Elis Regina e do próprio Gilberto Gil. Também vale mencionar a vaia que Caetano Veloso e Os Mutantes receberam, no Festival da TV Record, porque ousaram apresentar a música É proibido proibir" com o uso de instrumentos elétricos. Esses eventos dão uma dimensão do conservadorismo de setores da sociedade brasileira e também do impacto que a proposta vanguardista do Tropicalismo causou.
Também marcaram o movimento, as  obras do artista plástico Hélio Oiticica, em especial "Os Parangolés", misto de objeto artístico, vestimenta e instalação ambulante, inspirado nas roupas usadas pelos moradores de rua do Rio de Janeiro.

Tropicália, de Caetano Veloso:
Sobre a cabeça os aviões
Sob os meus pés, os caminhões
Aponta contra os chapadões, meu nariz

Eu organizo o movimento
Eu oriento o carnaval
Eu inauguro o monumento
No planalto central do país

Viva a bossa, sa, sa
Viva a palhoça, ça, ça, ça, ça

O monumento é de papel crepom e prata
Os olhos verdes da mulata
A cabeleira esconde atrás da verde mata
O luar do sertão

O monumento não tem porta
A entrada é uma rua antiga,
Estreita e torta
E no joelho uma criança sorridente,
Feia e morta,
Estende a mão

Viva a mata, ta, ta

Viva a mulata, ta, ta, ta, ta

No pátio interno há uma piscina
Com água azul de Amaralina
Coqueiro, brisa e fala nordestina

E faróis
Na mão direita tem uma roseira
Autenticando eterna primavera
E no jardim os urubus passeiam
A tarde inteira entre os girassóis

Viva Maria, ia, ia
Viva a Bahia, ia, ia, ia, ia

No pulso esquerdo o bang-bang
Em suas veias corre muito pouco sangue
Mas seu coração
Balança a um samba de tamborim

Emite acordes dissonantes
Pelos cinco mil alto-falantes
Senhoras e senhores
Ele pões os olhos grandes sobre mim

Viva Iracema, ma, ma
Viva Ipanema, ma, ma, ma, ma

Domingo é o fino-da-bossa
Segunda-feira está na fossa
Terça-feira vai à roça

Porém, o monumento
É bem moderno
Não disse nada do modelo
Do meu terno
Que tudo mais vá pro inferno, meu bem
Que tudo mais vá pro inferno, meu bem

Viva a banda, da, da
Carmen Miranda, da, da, da da, da da da

(Tom Zé)

De vez em quando
todos os olhos se voltam pra mim,
de lá de dentro da escuridão,
esperando e querendo
que eu seja um herói.

Mas eu sou inocente,
eu sou inocente,
eu sou inocente.

De vez em quando
todos os olhos se voltam pra mim,
de lá do fundo da escuridão
esperando e querendo
que eu saiba.

Mas eu não sei de nada,
eu não sei de ná,
eu não sei de ná.

De vez em quando
todos os olhos se voltam pra mim,
de lá do fundo da escuridão
esperando que eu seja um deus
querendo apanhar, querendo que eu bata,
querendo que eu seja um Deus.

Mas eu não tenho chicote,
eu não tenho chicote,
eu não tenho chicó.

Mas eu sou até fraco,
eu sou até fraco,
eu sou até fraco.

Tô
(Tom Zé)
Tô bem de baixo prá poder subir
Tô bem de cima prá poder cair
Tô dividindo prá poder sobrar
Desperdiçando prá poder faltar
Devagarinho prá poder caber
Bem de leve prá não perdoar
Tô estudando prá saber ignorar
Eu tô aqui comendo para vomitar

Eu tô te explicando
Prá te confundir
Eu tô te confundindo
Prá te esclarecer
Tô iluminado
Prá poder cegar
Tô ficando cego
Prá poder guiar

Suavemente prá poder rasgar
Olho fechado prá te ver melhor
Com alegria prá poder chorar
Desesperado prá ter paciência
Carinhoso prá poder ferir
Lentamente prá não atrasar
Atrás da vida prá poder morrer
Eu tô me despedindo prá poder voltar

Defeito 3: politicar
(Tom Zé)

Bis Filha da prática
Filha da tática
Filha da máquina
Essa gruta sem-vergonha
Na entranha
Não estranha nada

Meta sua grandeza
No Banco da esquina
Vá tomar no Verbo
Seu filho da letra

Meta sua usura
Na multinacional
Vá tomar na virgem
Seu filho da cruz.

Meta sua moral
Regras e regulamentos
Escritórios e gravatas
Sua sessão solene.

Pegue, junte tudo
Passe vaselina
Enfie, soque, meta
No tanque de gasolina.
"Somos um povo infeliz, bombardeado pela felicidade" (Disco "Tom Zé", 1968):

Somos um povo infeliz, bombardeado pela felicidade. O sorriso deve ser muito velho, apenas ganhou novas atribuições. Hoje, industrializado, procurado, fotografado, caro (às vezes), o sorriso vende. Vende creme dental, passagens, analgésicos, fraldas, etc. E como a realidade sempre se confundiu com os gestos, a televisão prova diariamente, que ninguém mais pode ser infeliz. Entretanto, quando os sorrisos descuidam, os noticiários mostram muita miséria. Enfim, somos um povo infeliz, bombardeado pela felicidade. (As vezes por outras coisas também). É que o cordeiro, de Deus convive com os pecados do mundo. E até já ganhou uma condecoração. Resta o catecismo, e nós todos perdidos.

Os inocentes ainda não descobriram que se conseguiu apaziguar Cristo com os privilégios. (Naturalmente Cristo não foi consultado). Adormecemos em berço esplêndido e acordamos cremedentalizados, tergalizados, yêyêlizados, sambatizados e missificados pela nossa própria máquina deteriorada de pensar. "-Você é compositor de música "jovem" ou de música "Brasileira"?" A alternativa é falsa para quem não aceita a juventude contraposta à brasilidade.. (Não interessa a conotação que emprestam à primeira palavra).

Eu sou a fúria quatrocentona de uma decadência perfumada com boas maneiras e não quero amarrar minha obra num passado de laço de fita com boemias seresteiras. Pois é que quando eu abri os olhos e vi, tive muito medo: pensei que todos iriam corar de vergonha, numa danação dilacerante. Qual nada. A hipocrisia (é com z?) já havia atingido a indiferença divina da anestesia... E assistindo a tudo da sacada dos palacetes, o espelho mentiroso de mil olhos de múmias embalsamadas, que procurava retratar-me como um delinquente. Aqui, nesta sobremesa de preto pastel recheado com versos musicados e venenosos, eu lhes devolvo a imagem. Providenciem escudos, bandeiras, tranquilizantes, antiácidos, antifiséticos e reguladores intestinais. Amém.
TOM ZÉ
P.S.: Nobili, Bernardo, Corisco, João Araújo, Shapiro, Satoru, Gauss, Os Versáteis, Os Brazoes, Guilherme Araújo, O Quartetão, Sandino e Cozzela, (todos de avental) fizeram este pastel comigo.
A sociedade vai ter uma dor de barriga moral


Manifestos "Defeito de fabricação" e "Estética do plágio"(Disco "Com defeito de fabricação", 1998):
Defeito de Fabricação
O Terceiro Mundo tem uma crescente população. A maioria se transforma em uma espécie de "andróides", quase sempre analfabetos e com escassa especialização para o trabalho.
Isso acontece aqui nas favelas do Rio, São Paulo e do Nordeste do país. E em toda a periferia da civilização.
Esses andróides são mais baratos que o robô operário fabricado em Alemanha e Japão.
Mas revelam alguns "defeitos" inatos, como criar, pensar, dançar, sonhar; são defeitos muito perigoso para o Patrão Primeiro Mundo.
Aos olhos dele, nós, quando praticamos essas coisas por aqui, somos "andróides"
COM DEFEITO DE FABRICAÇÃO.
Pensar sempre será uma afronta.
Ter idéias, compor, por exemplo, é ousar. No umbral da História, o projeto de juntar fibras vegetais e criar a arte de tecer foi uma grande ousadia. Pensar sempre será .

A Estética do Plágio

A Estética de Com Defeito de Fabricação re-utiliza a sinfonia cotidiana do lixo civilizado, orquestrada por instrumentos convencionais ou não : brinquedos, carros, apitos, serras, orquestra de Hertz, ruído das ruas, etc. , junto com um alfabeto sonoro de emoções contidas nas canções e símbolos musicais que marcaram cada passo da nossa vida afetiva. A forma é dançável, rítmica, quase sempre A-B-A. Com coros, refrões e dentro dos parâmetros da música popular.
O aproveitamento desse alfabeto se dá em pequenas "células", citações e plágios. Também pelo esgotamento das combinações com os sete graus da escala diatônica (mesmo acrescentando alterações e tons vizinhos) esta prática desencadeia sobre o universo da música tradicional uma estética do plágio, uma estética do arrastão (**).
Podemos concluir, portanto, que terminou a era do compositor, a era autoral, inaugurando-se a Era do Plagicombinador, processando-se uma entropia acelerada.

** Arrastão: Técnica de roubo urbano, inaugurada em praias do Rio de Janeiro. Um pequeno grupo corre violentamente através de uma multidão e "varre" dinheiro, anéis, bolsas, às vezes até as roupas das pessoas.

Bibliografia
Panamérica. José Agrippino de Paula. Editora Papagaio, 2001.
Tropicalista lenta luta. Tom Zé. Publifolha, 2003.
Verdade Tropical. Caetano Veloso. Companhia de Bolso, 2012.
Tropicália: A história de uma revolução musical. Carlos Calado. Editora 34, 1997.
Tropicália: um caldeirão cultural. Getúlio MacCord. Editora Ferreira, 2011.
Noites tropicais. Nelson Motta. Edição de Bolso. Ponto de Leitura, 2009.

Discografia
Tom Zé. Columbia/Sony Music, 1968/ 2000.
Se o caso é chorar/ Todos os olhos. Tom Zé. Série Dois Momentos, Vol. 14. Continental, 2000.
Estudando o samba/ Correio da Estação do Brás. Tom Zé. Série Dois Momentos, Vol. 15. Continental, 2000. |
Com defeito de fabricação. Tom Zé. Luaka Bop/WEA, 1998. Tropicália ou Panis et Circensis. Vários artistas. Polygram, 1993.
Série Millenium: Tropicália. Vários artistas. Universal Music, 1999.
Fonte Site: Gene que educa

ARTES PLÁSTICAS
Nas artes plásticas, a figura máxima da Tropicália foi Hélio Oiticica, artista incompreendido em sua época e hoje internacionalmente conhecido. Toquato Neto, que suicidou-se em 1972, ainda hoje possui poemas que são conhecidos.
A seguir veremos um que foi musicado por Sérgio Brito: Go back
 
Você me chama
Eu quero ir pro cinema
Você reclama
Meu coração não contenta
Você me ama
Mas de repente
A madrugada mudou
E certamente
Aquele trem já passou
E se passou, passou
Daqui pra melhor, foi
Só quero saber do que pode dar certo
Não tenho tempo a perder



Geração de 50\60
No campo da ficção, duas tendências principais dominaram a literatura brasileira durante as décadas de 50\60.
De um lado esta a nova narrativa de temática agrária, com seis autores hoje consagrados:
João Guimarães Rosa
Benito Barreto,
Ariano Suassuna,
José Cândido de Carvalho,
Mário Palmério
e João Ubaldo Ribeiro.

De outro deve ser destacado um surto de obras importantes de temática urbana em que se sobressaem diversos autores, dos quais podem ser citados
Antonio Callado,
Clarisse Lispector,
Ligia Fagundes Telles,
Dalton Trevisan
e Rubem Fonseca.

Características
Linguisticamente, há uma clara e forte presença da variante caboclo-sertaneja da língua portuguesa; estruturalmente, a verossimilhança, típica do romance tradicional, não é respeitada, como é o caso de Sargento Getúlio e O Coronel e o lobisomem, nas quais o protagonista narra a própria morte; tematicamente, todas as obras possuem um traço comum: a ação se desenvolve no interior, no sertão, em regiões de pequena propriedade, surgindo um conflito entre o mundo agrário e a civilização urbana.

Benito Barreto (1929)
Nasceu no nordeste de Minas Gerais. Filho de um pequeno proprietário e comerciante inicia sua atividade como militante de uma organização política de esquerda. Nesta condição, viaja pelo nordeste do país. Mais tarde inicia o curso de letras, desistindo em seguida e dedicando-se ao jornalismo, profissão em que continua atuando até hoje.
Obra: Os Guainãs (Epopeia sertaneja que fala das fala das operações militares desencadeadas a partir da crise política ocorrida a partir de 1964, quando foi deposto o presidente João Goulart)

Lygia Fagundes Telles(1923)
Natural de São Paulo, Lygia Fagundes Telles fixa em seus relatos um universo semelhante ao de Clarice Lispector: o universo burguês feminino. Mas com algumas diferenças, pois, mesmo mantendo o interesse no movimento psicológico, é capaz de configurar com maior objetividade o mundo exterior. Obras: Ciranda de pedra, Verão no aquário, Antes do baile verde, As meninas, Seminário dos ratos e A disciplina do amor.

Dalton Trevisan(1925)
Mestre na arte do conto curto e cruel, é criador de uma espécie de mitologia de sua cidade natal, Curitiba. Faz sua estreia na literatura em 1954. Obras: Novelas Nada Exemplares; A Guerra Conjugal; Cemitério de Elefantes; O vampiro de Curitiba. A obra de Dalton Trevisan capta flagrantes do cotidiano, do ambiente doméstico à marginalidade, revelando o lado patético, grotesco ou lírico destas cenas. Como o próprio autor declara, vai buscar sua inspiração em notícias policiais, frases no ar, bulas de remédio, pequenos anúncios,...

José Cândido de Carvalho
Obra: O Coronel e o Lobisomem. Na linha do realismo-mágico e da estilização da linguagem regional, o autor publica um só livro importante. Seu herói, o Coronel Ponciano de Azevedo Furtano, abandona o mundo mágico do interior, com suas sereias e lobisomens, fascinado pela beleza de Dª Esmeraldina. Na cidade é envolvido pela malícia de sua dama ( e do marido), que lhe encoraja as pretensões, abstendo-se de realizá-las. Explorado, empobrecido, observa atônito a ingratidão e a insensibilidade dos antigos aduladores, para morrer abandonado e louco. Notável no romance a grande força expressiva e a originalidade da linguagem.

Rubem Fonseca (1925)
É romancista, roteirista de cinema e um grande mestre do conto. Os temas e recursos técnicos deste autor por vezes choca a sensibilidade do leitor. Apresenta temas, modos de falar e situações do marginal, da prostituta, da classe inculta da cidade. Narra em primeira pessoa de modo a confundir autor e personagem. Perseguido pela censura, teve suas obras proibidas de serem comercializadas, políticos, sociais e econômicos. Obras: Sargento Getúlio Viva; O povo Brasileiro; O Sorriso do Lagarto.

José J. Veiga(1915)
Natural de Corumbá, Mato Grosso, estreou na literatura em 1959, numa coletânea de contos.Tem como principais características a presença de situações fantásticas, que são alegorias sobre a repressão vivida no Brasil durante a ditadura militar. Obras:A Hora dos Ruminantes, Sombras de Reis, Barbudos, Os pecados da tribo.

Antonio Callado(1917)
A obra de Antonio Callado representa o pontao mais alto da literatura empenhada em fazer um papel da realidade brasileira contemporânea. Obras:A Madona de Cedro(1958), Quarup(1967), Memórias de Aldenham House(1989).

Josué Guimarães
Linguagem tradicional, por vezes um tanto descuidada, e o gosto do romance histórico. Josué Guimarães narra a trajetória dos colonos alemães, ao chegarem ao Rio Grande do Sul. Obras: A Ferro e Fogo (Tempo de Solidão; Tempo de Guerra). Os Tambores Silenciosos; É Tarde Para Saber; Dona Anja; Camilo Mortágua.

Moacir Scliar
Considerado um representante do realismo mágico, Scliar é hoje um dos escritores de maior projeção, com várias obras premiadas. Suas obras são caracterizadas pela presença frequente do fantástico, que às vezes parece um artifício pitoresco para melhor exprimir a realidade. Sua narrativa é centrada na comunidade judaica do Rio Grande do Sul. Obras: Carnaval dos Animais, A Guerra do Bonfim, O Exército de um Homem Só, O Doutor Miragem, O Centauro no Jardim, A Orelha de Van Gogh e O Olho Enigmático.

Luiz Antônio de Assis Brasil
Nota-se a preocupação em desmistificar os heróis de nossa História, apresentando-os em sua dimensão humana, com falhas, com fraquezas, mas exaltando também os momentos de grandeza. Também revela gosto pelo romance histórico, narrando principalmente a colonização açoriana no Rio Grande do Sul. Obras: Um quarto de légua em quadro, A Prole do Corvo, Bacia das Almas, Videiras de Cristal, Cães de Província e a Trilogia Um Castelo no Pampa (Perversas Famílias, Pedra de Memória ).

Luís Fernando Veríssimo
Cronista e cartunista de projeção nacional, Veríssimo tem se destacado por fazer uma crítica bem humorada de nossa sociedade. Descrevem a paisagem urbana e mostram tipos brasileiros do cotidiano. Algumas crônicas desenhadas com personagens como As Cobras, A Família Brasil captam o humor trágico da sociedade brasileira e as perplexidades da geração adulta diante da nova geração. Obras: Ed Mort e Outras Histórias, O Analista de Bagé, A Velhinha de Taubaté, A Mulher do Silva, A Grande Mulher Nua, O Popular e O Jardim do Diabo.

Charles Kiefer
Contista e romancista de temática heterogênea, suas obras dão atenção principalmente à crise da sociedade agrária imigrante do sul. O igualmente jovem escritor nos dá testemunho daqueles tempos obscuros, que vêm se estendendo até nossos dias, como reflexo de um regime totalitário. Obras: Caminhando na Chuva, O Pêndulo do Relógio, Quem Faz Gemer a Terra, A Face do Abismo, Dedos de Pianista e Valsa para Bruno Stein.

Caio Fernando de Abreu
Autor cuja temática reflete com muita verdade o mundo atual e seus problemas. Em seus contos desfilam personagens marginalizados na sociedade brasileira, indivíduos oprimidos e solitários que buscam sentido para viver. Obras: Limite, O Ovo Apunhalado, Pedras de Calcutá, Morangos Mofados, Os Dragões Não Conhecem o Paraíso e Triângulos das Águas e Mel e Girassóis.
Teatro Contemporâneo

Nelson Rodrigues (1912-1980)
Considerado nosso maior dramaturgo, suas obras provocam reações extremas que oscilam entre amor e ódio. Polêmico em suas colocações, criador de frases e expressões consagradas, Nelson retrata em suas peças a vida cotidiana do brasileiro de classe média, apontando seus vícios e seus aspectos desumanos como adultérios, incesto, traição, loucura, suicídio,... Em 1943, a encenação de Vestido de Noiva renovou por completo as bases formais e ideológicas do teatro brasileiro. Até então nosso mundo teatral vivia de textos importados, em geral de duvidosa qualidade. Já as peças nacionais primavam pela alienação da realidade e por valerem-se de uma linguagem extremamente artificial. Porém, o aspecto renovador não se reduziria a uma questão estilística: a renovação estava conjuntamente na matéria-prima de seus textos. Obras: Vestido de Noiva; Álbum de família; Beijo no asfalto; Toda nudez será castigada.

Gianfrancesco Guarnieri (1934)
Autor preocupado com as denúncias dos problemas da realidade brasileira. Obras: Eles não usam Black-Tie; A semente Castro Alves pede passagem.

Ariano Suassuna (1955)
Pernambucano, Ariano foi buscar nas fontes populares o motivo de sua dramaturgia. A principal peça que ele escreveu foi um auto, O Auto da Compadecida, que tem a dimensão de uma farsa, apresentada como pantomima e na qual a religiosidade tradicional do mundo nordestino combina-se com admirável criatividade e saudável irreverência social. Recentemente, Ariano Suassuna voltou a suas fontes para escrever o romance A pedra do Reino, que veio a comprovar a multiplicidade de seu talento.

Chico Buarque de Holanda (1944)
Escreveu: Calabar, Roda-viva, Ópera do Malandro, e, juntamente com Paulo Pontes, Gota d’ Água.

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