Olá,
turmas!
Segue abaixo explicações sobre o gênero Resumo e
Resenha.
Leia e Observe a diferença entre ambos.
Depois, leia o resumo, a resenha e mais abaixo, o
texto "Cem Anos de Perdão", da autora Clarice Lispector, na sua
íntegra.
RESUMO
O resumo é uma síntese, uma redução do texto
original, um relato que gera em torno dos fatos principais de um texto. Se narrativo,
importante é destacar o narrador, os personagens principais e as ações que
motivaram o escritor, não se esquecendo do uso do tempo no passado, do espaço
onde as ações ocorreram, ou seja: o quê, com quem, onde, quando, como, causas e
consequências; se dissertativo, os fatos centrais e o que os justifica. É
importante pensar no uso da estrutura da prosa, a marcação exata do recuo de
parágrafo, o uso adequado das margens esquerda e direita, da separação silábica
na margem direita, na legibilidade da letra, ou seja, o uso adequado do código
escrito. O autor do resumo deve estar isento no texto, para isso, deve fazer
uso da 3ª. Pessoa e não expressar sua opinião nem emitir juízo de valor sobre
o texto original. Escreva algo entre 8 e 10 linhas. Lembre-se de citar, logo no
início, o nome da obra, e do autor.
Exemplo: Resumo
Cem Anos de Perdão
O conto Cem Anos de Perdão, de Clarice Lispector
narra as aventuras vividas durante a adolescência da protagonista, cujo nome não
é identificado na obra. A menina conta que, quando criança, e morando em
Recife, saía a passeio junto com uma amiguinha pelas ruas, espaço onde lhes chamava a atenção os jardins
dos palácios que encontravam e cuja beleza as duas admiravam. Um dia, a
protagonista, ao se encantar por uma rosa solitária, não teve dúvidas, entrou,
e enquanto a amiga vigiava, ela apanhou a rosa para si, ação que se repetirá no futuro, pois além de rosas, ela passou a
roubar também pitangas, as quais, dizia ela, estavam pedindo para serem
colhidas. Ao final, ela diz que nunca ninguém soube e que não se arrepende do
seu ato dizendo inclusive que ladrão de rosas e pitangas tem cem anos de
perdão.
LISPECTOR, Clarice.
RESENHA
Na resenha, siga as instruções quanto à elaboração do
resumo, pois a resenha, igualmente ao resumo, também é uma síntese. A diferença
é que neste texto, o autor deverá expressar sua opinião emitindo juízo de
valor, e no caso de resenhas de filmes, obras literárias, peças teatrais, e
outros eventos, é possível aconselhar o interlocutor, fazendo uma crítica
pessoal quanto à qualidade da obra. Ainda que seja possível a opinião, é importante
o uso da 3ª. Pessoa, ou corre-se o risco de exagerar na falta de
impessoalidade. Quanto ao número de linhas, escreva entre 8 a 10 linhas.
Exemplo: Resenha
Cem Anos de Perdão
O conto Cem Anos de Perdão, de Clarice Lispector
narra, de forma belíssima e poética, as aventuras vividas durante a
adolescência da protagonista, cujo nome não é identificado na obra. A menina
conta que, quando criança, e morando em Recife, saía com uma amiguinha a
passeio pelas ruas, espaço onde lhes chamava a atenção, os jardins dos palácios
que encontravam, e cuja beleza as duas admiravam. Um dia, a protagonista se
encantou por uma rosa solitária num belo jardim. Não teve dúvidas, entrou, e
enquanto a amiguinha vigiava, ela apanhou a rosa para si, sensação de puro
prazer por ter para si aquilo que tanto desejava. Depois, disso, esta
ação se tornou um hábito, que a levou, no futuro, a roubar também pitangas,
as quais, dizia ela, estavam pedindo para serem colhidas. Ao final ela diz que
nunca ninguém soube e que não se arrepende do seu ato dizendo inclusive que
ladrão de rosas e pitangas tem cem anos de perdão. No conto, é possível
perceber a emoção gerada pela expectativa da menina em ser surpreendida,
característica do espírito desafiador de todo adolescente.
LISPECTOR, Clarice.
Obra na íntegra:
Cem
Anos de Perdão
Quem nunca roubou não vai me entender. E quem
nunca roubou rosas, então é que jamais poderá me entender. Eu, em pequena,
roubava rosas.
Havia em Recife inúmeras ruas, as ruas dos
ricos, ladeadas por palacetes que ficavam no centro de grandes jardins. Eu e
uma amiguinha brincávamos muito de decidir a quem pertenciam os palacetes.
"Aquele branco é meu." "Não, eu já disse que os brancos são
meus." Parávamos às vezes longo tempo, a cara imprensada nas grades,
olhando.
Começou assim. Numa dessas brincadeiras de
"essa casa é minha", paramos diante de uma que parecia um pequeno
castelo. No fundo via-se o imenso pomar. E, à frente, em canteiros bem
ajardinados, estavam plantadas as flores.
Bem, mas isolada no seu canteiro estava uma
rosa apenas entreaberta cor-de-rosa-vivo. Fiquei feito boba, olhando com
admiração aquela rosa altaneira que nem mulher feita ainda não era. E então
aconteceu: do fundo de meu coração, eu queria aquela rosa para mim. Eu queria,
ah como eu queria. E não havia jeito de obtê-la. Se o jardineiro estivesse por
ali, pediria a rosa, mesmo sabendo que ele nos expulsaria como se expulsam
moleques. Não havia jardineiro à vista, ninguém.
As
janelas, por causa do sol, estavam de venezianas fechadas. Era uma rua onde não
passavam bondes e raro era o carro que aparecia. No meio do meu silêncio e do
silêncio da rosa, havia o meu desejo de possuí-la como coisa só minha. Eu
queria poder pegar nela. Queria cheirá-la até sentir a vista escura de tanta
tonteira de perfume.
Então não pude mais. O plano se formou em mim
instantaneamente, cheio de paixão. Mas, como boa realizadora que eu era,
raciocinei friamente com minha amiguinha, explicando-lhe qual seria o seu
papel: vigiar as janelas da casa ou a aproximação ainda possível do jardineiro,
vigiar os transeuntes raros na rua.
Enquanto isso, entreabri lentamente o portão
de grades um pouco enferrujadas, contando já com o leve rangido. Entreabri
somente o bastante para que meu esguio corpo de menina pudesse passar. E, pé
ante pé, mas veloz, andava pelos pedregulhos que rodeavam os canteiros. Até
chegar à rosa foi um século de coração batendo.
Eis-me afinal diante dela. Para um instante,
perigosamente, porque de perto ela é ainda mais linda. Finalmente começo a lhe
quebrar o talo, arranhando-me com os espinhos, e chupando o sangue dos dedos.
E, de repente - ei-la toda na minha mão. A corrida
de volta ao portão tinha também de ser sem barulho. Pelo portão que deixara
entreaberto, passei segurando a rosa. E então nós duas pálidas, eu e a rosa,
corremos literalmente para longe da casa.
O que é que fazia eu com a rosa? Fazia isso:
ela era minha.
Levei-a para casa, coloquei-a num copo d'água, onde ficou soberana, de pétalas
grossas e aveludadas, com vários entretons de rosa-chá. No centro dela a cor se
concentrava mais e seu coração quase parecia vermelho.
Foi tão bom. Foi tão bom que simplesmente
passei a roubar rosas. O processo era sempre o mesmo: a menina vigiando, eu
entrando, eu quebrando o talo e fugindo com a rosa na mão. Sempre com o coração
batendo e sempre com aquela glória que ninguém me tirava.
Também roubava pitangas. Havia uma igreja
presbiteriana perto de casa, rodeada por uma sebe verde, alta e tão densa que
impossibilitava a visão da igreja.
Nunca cheguei a vê-la, além de uma ponta de
telhado. A sebe era de pitangueira. Mas pitangas são frutas que se escondem: eu
não via nenhuma.
Então, olhando antes para os lados para ver
se ninguém vinha, eu metia a mão por entre as grades, mergulhava-a dentro da
sebe e começava a apalpar até meus dedos sentirem o úmido da frutinha. Muitas
vezes na minha pressa, eu esmagava uma pitanga madura demais com os dedos que
ficavam como ensanguentados. Colhia várias que ia comendo ali mesmo, umas até
verdes demais, que eu jogava fora.
Nunca ninguém soube. Não me arrependo: ladrão
de rosas e de pitangas tem 100 anos de perdão. As pitangas, por exemplo, são
elas mesmas que pedem para ser colhidas, em vez de amadurecer e morrer no
galho, virgens.
LISPECTOR,
Clarice
Mais informações sobre resumo/resenha, clique no link abaixo:
Quem nunca roubou não vai me entender. E quem
nunca roubou rosas, então é que jamais poderá me entender. Eu, em pequena,
roubava rosas.
Havia em Recife inúmeras ruas, as ruas dos
ricos, ladeadas por palacetes que ficavam no centro de grandes jardins. Eu e
uma amiguinha brincávamos muito de decidir a quem pertenciam os palacetes.
"Aquele branco é meu." "Não, eu já disse que os brancos são
meus." Parávamos às vezes longo tempo, a cara imprensada nas grades,
olhando.
Começou assim. Numa dessas brincadeiras de
"essa casa é minha", paramos diante de uma que parecia um pequeno
castelo. No fundo via-se o imenso pomar. E, à frente, em canteiros bem
ajardinados, estavam plantadas as flores.
Bem, mas isolada no seu canteiro estava uma
rosa apenas entreaberta cor-de-rosa-vivo. Fiquei feito boba, olhando com
admiração aquela rosa altaneira que nem mulher feita ainda não era. E então
aconteceu: do fundo de meu coração, eu queria aquela rosa para mim. Eu queria,
ah como eu queria. E não havia jeito de obtê-la. Se o jardineiro estivesse por
ali, pediria a rosa, mesmo sabendo que ele nos expulsaria como se expulsam
moleques. Não havia jardineiro à vista, ninguém.
As
janelas, por causa do sol, estavam de venezianas fechadas. Era uma rua onde não
passavam bondes e raro era o carro que aparecia. No meio do meu silêncio e do
silêncio da rosa, havia o meu desejo de possuí-la como coisa só minha. Eu
queria poder pegar nela. Queria cheirá-la até sentir a vista escura de tanta
tonteira de perfume.
Então não pude mais. O plano se formou em mim
instantaneamente, cheio de paixão. Mas, como boa realizadora que eu era,
raciocinei friamente com minha amiguinha, explicando-lhe qual seria o seu
papel: vigiar as janelas da casa ou a aproximação ainda possível do jardineiro,
vigiar os transeuntes raros na rua.
Enquanto isso, entreabri lentamente o portão
de grades um pouco enferrujadas, contando já com o leve rangido. Entreabri
somente o bastante para que meu esguio corpo de menina pudesse passar. E, pé
ante pé, mas veloz, andava pelos pedregulhos que rodeavam os canteiros. Até
chegar à rosa foi um século de coração batendo.
Eis-me afinal diante dela. Para um instante,
perigosamente, porque de perto ela é ainda mais linda. Finalmente começo a lhe
quebrar o talo, arranhando-me com os espinhos, e chupando o sangue dos dedos.
E, de repente - ei-la toda na minha mão. A corrida
de volta ao portão tinha também de ser sem barulho. Pelo portão que deixara
entreaberto, passei segurando a rosa. E então nós duas pálidas, eu e a rosa,
corremos literalmente para longe da casa.
O que é que fazia eu com a rosa? Fazia isso:
ela era minha.
Levei-a para casa, coloquei-a num copo d'água, onde ficou soberana, de pétalas grossas e aveludadas, com vários entretons de rosa-chá. No centro dela a cor se concentrava mais e seu coração quase parecia vermelho.
Levei-a para casa, coloquei-a num copo d'água, onde ficou soberana, de pétalas grossas e aveludadas, com vários entretons de rosa-chá. No centro dela a cor se concentrava mais e seu coração quase parecia vermelho.
Foi tão bom. Foi tão bom que simplesmente
passei a roubar rosas. O processo era sempre o mesmo: a menina vigiando, eu
entrando, eu quebrando o talo e fugindo com a rosa na mão. Sempre com o coração
batendo e sempre com aquela glória que ninguém me tirava.
Também roubava pitangas. Havia uma igreja
presbiteriana perto de casa, rodeada por uma sebe verde, alta e tão densa que
impossibilitava a visão da igreja.
Nunca cheguei a vê-la, além de uma ponta de
telhado. A sebe era de pitangueira. Mas pitangas são frutas que se escondem: eu
não via nenhuma.
Então, olhando antes para os lados para ver
se ninguém vinha, eu metia a mão por entre as grades, mergulhava-a dentro da
sebe e começava a apalpar até meus dedos sentirem o úmido da frutinha. Muitas
vezes na minha pressa, eu esmagava uma pitanga madura demais com os dedos que
ficavam como ensanguentados. Colhia várias que ia comendo ali mesmo, umas até
verdes demais, que eu jogava fora.
Nunca ninguém soube. Não me arrependo: ladrão
de rosas e de pitangas tem 100 anos de perdão. As pitangas, por exemplo, são
elas mesmas que pedem para ser colhidas, em vez de amadurecer e morrer no
galho, virgens.
LISPECTOR,
Clarice
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