Olá,
terceiranistas!
Segundo
Bimestre – Literatura
Formar grupos, elaborar um Mapa Conceitual de acordo com
a fase literária escolhida pelo grupo e apresentar escrita em
cartaz/paine/banner e oralmente em data agendada.
Valor: 1,5.
Valor: 1,5.
MODERNISMO
PRIMEIRA FASE
CARACTERÍSTICAS: Destrutiva,
anárquica, nacionalismo extremado, sarcasmo e ironia, predomínio da poesia.
AUTORES - POESIA
Oswald de Andrade
Manuel Bandeira
Cecília Meireles
AUTORES - PROSA
Mário de Andrade
Oswald de Andrade
Manuel Bandeira
Cecília Meireles
AUTORES - PROSA
Mário de Andrade
erro
de português
Quando
o português chegou
Debaixo duma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena! Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português
Debaixo duma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena! Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português
(Oswald de Andrade)
As
meninas da gare
Eram
três ou quatro moças bem
Moças
e bem gentis
Com
cabelos mui pretos pelas espáduas
E
suas vergonhas tão altas e tão saradinhas
Que
de nós as muito bem olharmos
Não
tínhamos nenhuma vergonha.
AMOR
AMOR
Humor
(Oswald
de Andrade)
Senhor
feudal
Se Pedro
segundo
Vier
aqui
Com história
Eu boto
ele na cadeia.
(Oswald
de Andrade)
Senhor
Que eu não fique nunca
Como esse velho inglês
Aí do lado
Que dorme numa cadeira
À espera de visitas que não vêm
(Primeiro caderno do aluno de poesia)
Oswald
de Andrade
A mulher automática
(De São Paulo) — Qual é o seu cargo?
— Esteno-dáctilo-serpente-contralto-secretária...
— Isso é novidade. Eu ouvi no rádio naquele debate sobre a mulher moderna: esteno-dáctilo-serpente-secretária — A mulher atual!
— Ainda tem mais! Ponha glamour!
— Que é isso?
— Glamour é assim como eu sou. De concurso!
O homem pálido que esperava há duas horas examinou com os olhos a morena iodada no coral solto do vestido, sandálias de purpurina, cabelo lustroso, brincos, balangandãs e pulseiras, um beiço em ciclamen por Salvador Dali.
— O senhor sabe? Comprei ontem um leque que cheira. É formidável! Da América!
A voz grossa trauteou "La vie en rose".
— Dei o fora no meu darling porque ele não me levou à boîte para ver o Charles Trenet. Fui com Mister Ubirajara.
— Quem é Mister Ubirajara?
— Acho que é canadense. Um gordo do anúncio. Tem gaita e possui um guarda-roupa perfeito. Dois ternos por dia! Me levou a Santo Amaro num 1950 formidável. Tomamos muitos drinks.
Na ante-sala de móveis mecânicos o telefone ressoou.
— Aposto que é o turco! Deixa tocar... Ele fala "negócio". Quer saber do "negócio" dele. Como se eu estivesse aqui para dar informações!
O telefone insiste.
— O senhor saber? Um marinheiro contrabandista foi ao meu apartamento levar uns cortes de tropical e uns relógios suíços. Não falava nenhuma língua. Disse por gestos que era marinheiro, da Suíça. Enquanto ele se bati um relógio-pulseira e pus ele pra fora. Começou gesticulando que faltava alguma coisa. Banquei a boba. O homem falou baiano: — Deixe de besteira moça! Não gosto disso não! Me dá o relógio!
O telefone continuava. Ela arrancou num gesto o fone e berrou:
— Não me encha! Não é aqui!
Desligou violentamente. A voz do outro lado ficou dizendo humildemente:
— Esbéra, mucinha!
— Que esbéra, nada! Se ele ligar outra vez dou o telefone do Cemitério do Araçá. Vou fazer ele falar com defunto!
Houve um silêncio rápido. O homem pálido perguntou:
— A senhora é contralto?
— Sou. O que a mulher tem de melhor é a voz! — gritou desaparecendo numa porta volante. — A voz e a saliva!
(Oswald de Andrade)
Este
texto foi publicado em "Obras Completas", Ed. Civilização Brasileira
- Rio de Janeiro, 1971, e extraído de “As cem melhores crônicas brasileiras”,
Ed. Objetiva – Rio de Janeiro, 2007, pág. 70, organização e introdução de
Joaquim Ferreira dos Santos.
Brasil
O Zé Pereira chegou de caravela
E preguntou pro guarani da mata virgem
— Sois cristão?
— Não. Sou bravo, sou forte, sou filho da Morte
Teterê Tetê Quizá Quizá Quecê!
Lá longe a onça resmungava Uu! ua! uu!
O negro zonzo saído da fornalha
Tomou a palavra e respondeu
— Sim pela graça de Deus
Canhém Babá Canhém Babá Cum Cum!
E fizeram o Carnaval
(Oswald
de Andrade)
Relógio
As coisas são
As coisas vêm
As coisas vão
As coisas
Vão e vêm
Não em vão
As horas
Vão e vêm
Não em vão
(Oswald de Andrade)
Canto de regresso à pátria
Minha
terra tem palmares
Onde gorjeia o mar
Os passarinhos daqui
Não cantam como os de lá
Minha terra tem mais rosas
E quase que mais amores
Minha terra tem mais ouro
Minha terra tem mais terra
Ouro terra amor e rosas
Eu quero tudo de lá
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte pra São Paulo
Sem que veja a Rua 15
E o progresso de São Paulo
Onde gorjeia o mar
Os passarinhos daqui
Não cantam como os de lá
Minha terra tem mais rosas
E quase que mais amores
Minha terra tem mais ouro
Minha terra tem mais terra
Ouro terra amor e rosas
Eu quero tudo de lá
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte pra São Paulo
Sem que veja a Rua 15
E o progresso de São Paulo
(Oswald
de Andrade)
O Sul-Americano Calabar
Torcida indígena a favor de um imperialismo "civilizador". Leitor pequeno-burguês, não será você?
No Brasil há duas correntes de opinião: os que acreditam que a guerra holandesa acabou e os que sabem perfeitamente que ela continua, através de fundings, empréstimos e tomadas de poder por este ou aquele grupo calabarista.
(Oswald de Andrade)
Botafogo etc.
Beiramarávamos em auto pelo espelho de aluguel arborizado das avenidas marinhas sem sol. Losangos tênues de ouro bandeiranacionalizavam o verde dos montes interiores. No outro lado da baía a serra dos Órgãos serrava. Barcos. E o passado voltava na brisa de baforadas gostosas. Rolah ia vinha derrapava entrava em túneis. Copacabana era um veludo arrepiado na luminosa noite varada pelas frestas da cidade.
(Oswald de Andrade)
Oswald de Andrade (1890-1954) é um dos mais significativos autores modernistas da literatura brasileira. Participou da Semana de Arte Moderna, editou o jornal "O Homem do Povo" e ajudou a fundar "O Pirralho" e a "Revista Antropofágica". É de sua autoria o Manifesto Antropófago de 1928.
Fonte: Projeto Releiuras: Saiba mais sobre Oswald de Andrade e sua obra em http://www.releituras.com/oandrade_tupi.asphttp://www.releituras.com/oandrade_tupi.asp
Tupi or not tupi - This is the question – Manifesto Antropofágico assinado por Oswald de Andrade: Acesse pelo link: https://serantropofagia.wordpress.com/about/
https://serantropofagia.wordpress.com/about/
MANUEL
BANDEIRA
Pronominais
Dê-me
um cigarro
Diz
a gramática
Do professor
e do aluno
E do
mulato sabido
Mas o
bom negro e o bom branco
Da nação
brasileira
Dizem
todos os dias
Deixa
disso camarada
Me dá
um cigarro.
(Manuel
Bandeira)
Neologismo
Beijo
pouco, falo menos ainda
Mas invento
palavras
Que traduzem
a ternura mais funda
E mais
cotidiana
Inventei,
por exemplo, o verbo teadorar.
Intransitivo
Teadoro,
Teodora.
(Manuel
Bandeira)
Poema
tirado de uma notícia de jornal
João
gostoso era carregador de feira livre e morara
No morro
da Babilônia num barracão sem número.
Uma noite
ele chegou no bar Vinte de Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois
se atirou na Lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.
(Manuel
Bandeira)
Consoada
Quando
a Indesejadas das gentes chegar
(não
sei se dura ou caroável)
Talvez
eu tenha medo
Talvez
sorria e diga:
-
Alô, iniludível,
O meu
dia foi bom, pode a noite descer
(a
noite com seus sortilégios).
Encontrará
lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta
Com cada
coisa em seu lugar.
(Manuel
Bandeira)
Itinerário
de Pasárgada
Vou-me
embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me
embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive
E
como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.
(Manuel Bandeira)
Texto extraído do livro "Bandeira a Vida Inteira", Editora Alumbramento – Rio de Janeiro, 1986, pág. 90
PASÁRGADA: Campo dos Persas ou Tesouro. No poema, Manuel
Bandeira coloca Pasárgada como lugar imaginário onde seria possível a
realização da liberdade e concretização de todos os desejos huanos.
O
último poema
Assim eu quereria meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.
(Manuel
Bandeira)
Poema extraído do livro " Manuel Bandeira — 50 poemas escolhidos pelo autor", Ed. Cosac Naify – São Paulo, 2006, pág. 35.
Desencanto
Eu faço
versos como quem chora
De desalento...
de desencanto ...
Fecha
o meu livro, se por agora
Não tens
motivo nenhum de pranto.
Meu verso
é sangue. Volúpia ardente.
Tristeza
esparsa ... Remorso vão...
Dói-me
nas veias. Amargo e quente,
Cai,
gota a gota, do coração.
E nestes
versos de angústia rouba
Assim
dos lábios a vida corre,
Deixando
um acre sabor na boca
Eu faço
versos como quem morre.
(Manuel Bandeira)
O
bicho
“Vi ontem um bichoNa imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu
Deus, era um homem”.
(Manuel Bandeira)
Teresa
Teresa,
se algum sujeito bancar o
Sentimental
em cima de você
E te
jurar uma paixão do tamanho de um
Bonde
Se ele
chorar
Se ele
ajoelhar
Se ele
se rasgar todo
Não acredite
não Teresa
É lágrima
de cinema
É tapeação
Mentira
CAI
FORA!
(Manuel
Bandeira)
Comparação
da linguagem do Modernismo de Manuel Bandeira com a do Romantismo de Joaquim
Manoel de Macedo, autor de A Moreninha)
Mulher,
irmã, escuta-me! Não ames
Quando
a teus pés um homem terno e curvo
Jurar
amor, chorar pranto de sangue
Não creias,
não mulher: ele te engana!
As lágrimas
são gotas da mentira
E o
juramento, manto da perfídia!
(Joaquim Manoel de Macedo, Romantismo)
Excelentíssimo Prefeito
Senhor Hildebrando de Góis,
Permiti que, rendido o preito
A que fazeis jus por quem sois,
Um poeta já sexagenário,
Que não tem outra aspiração
Senão viver de seu salário
Na sua limpa solidão,
Peça vistoria e visita
A este pátio para onde dá
O apartamento que ele habita
No Castelo há dois anos já.
É um pátio, mas é via pública,
E estando ainda por calçar,
Faz a vergonha da República
Junto à Avenida Beira-Mar!
Indiferentes ao capricho
Das posturas municipais,
A ele jogam todo o seu lixo
Os moradores sem quintais.
Que imundície! Tripas de peixe,
Cascas de fruta e ovo, papéis...
Não é natural que me queixe?
Meu Prefeito, vinde e vereis!
Quando chove, o chão vira lama:
São atoleiros, lodaçais,
Que disputam a palma à fama
Das velhas maremas letais!
A um distinto amigo europeu
Disse eu: — Não é no Paraguai
Que fica o Grande Chaco, este é o
Grande Chaco! Senão, olhai!
Excelentíssimo Prefeito
Hildebrando Araújo de Góis
A quem humilde rendo preito,
Por serdes vós, senhor, quem sois!
Mandai calçar a via pública
Que, sendo um vasto lagamar,
Faz a vergonha da República
Junto à Avenida Beira-Mar!
(Manuel Bandeira)
Poema extraído do livro
"Manuel Bandeira
- Antologia Poética", Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 2001,
pág. 221.Manuel Bandeira: sua vida e sua obra estão em "Biografias".
Carlos
Drummond de Andrade (Manuel Bandeira)
Louvo o Padre, louvo o Filho,
O Espírito Santo louvo.
Isto feito, louvo aquele
Que ora chega aos sessent'anos
E no meio de seus pares
Prima pela qualidade:
O poeta lúcido e límpido
Que é Carlos Drummond de Andrade.
Prima em Alguma Poesia,
Prima no Brejo das Almas
Prima em Rosa do Povo,
No Sentimento do Mundo.
(Lírico ou participante,
Sempre é poeta de verdade
Esse homem lépido e limpo
Que é Carlos Drummond de Andrade).
Como é o fazendeiro do ar,
O obscuro enigma dos astros
Intui, capta em claro enigma.
Claro, alto e raro. De resto
Ponteia em viola de bolso
Inteiramente à vontade
O poeta diverso e múltiplo
Que é Carlos Drummond de Andrade.
Louvo
o Padre, o Filho, o Espírito
Santo, e após outra Trindade
Louvo: o homem, o poeta, o amigo
Que é Carlos Drummond de Andrade.
Santo, e após outra Trindade
Louvo: o homem, o poeta, o amigo
Que é Carlos Drummond de Andrade.
(Manuel
Bandeira)
Texto extraído
do livro "Antologia Poética - Manuel Bandeira", Editora Nova
Fronteira – Rio de Janeiro, 2001, pág. 183.Manuel Bandeira: sua vida e sua obra estão em "Biografias".
Fonte:
Releituras
Biografia
de Manuel Bandeira, acesse o link abaixo:
http://www.releituras.com/mbandeira_bio.asphttp://www.releituras.com/mbandeira_bio.asp
CECÍLIA
MEIRELES
Características
Poesia
intimista
Espiritualista
Instrospectiva
Viagem
interior
Relação
vida x morte
Eterno
x passageiro
Solidão
Música
(a musicalidade é ordenada pelos sons dos pares de versos)
Motivo (a única certeza é o fim da
existência)
Eu
canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.
(Cecília
Meireles)
Retrato
Eu
não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?
(Cecília
Meireles)
Serenata
Permita que eu feche os meus olhos,
pois é muito longe e tão tarde!
Pensei que era apenas demora,
e cantando pus-me a esperar-te.
Permite que agora emudeça:
que me conforme em ser sozinha.
Há uma doce luz no silencio,
e a dor é de origem divina.
Permite que eu volte o meu rosto
para um céu maior que este mundo,
e aprenda a ser dócil no sonho
como as estrelas no seu rumo.
Permita que eu feche os meus olhos,
pois é muito longe e tão tarde!
Pensei que era apenas demora,
e cantando pus-me a esperar-te.
Permite que agora emudeça:
que me conforme em ser sozinha.
Há uma doce luz no silencio,
e a dor é de origem divina.
Permite que eu volte o meu rosto
para um céu maior que este mundo,
e aprenda a ser dócil no sonho
como as estrelas no seu rumo.
(Cecília
Meireles)
Murmúrio
Traze-me um pouco das sombras serenas
que as nuvens transportam por cima do dia!
Um pouco de sombra, apenas,
- vê que nem te peço alegria.
Traze-me um pouco da alvura dos luares
que a noite sustenta no teu coração!
A alvura, apenas, dos ares:
- vê que nem te peço ilusão.
Traze-me um pouco da tua lembrança,
aroma perdido, saudade da flor!
- Vê que nem te digo - esperança!
- Vê que nem sequer sonho - amor!
Traze-me um pouco das sombras serenas
que as nuvens transportam por cima do dia!
Um pouco de sombra, apenas,
- vê que nem te peço alegria.
Traze-me um pouco da alvura dos luares
que a noite sustenta no teu coração!
A alvura, apenas, dos ares:
- vê que nem te peço ilusão.
Traze-me um pouco da tua lembrança,
aroma perdido, saudade da flor!
- Vê que nem te digo - esperança!
- Vê que nem sequer sonho - amor!
(Cecília
Meireles)
Canção
No desequilíbrio dos mares,
as proas giram sozinhas...
Numa das naves que afundaram
é que certamente tu vinhas.
Eu te esperei todos os séculos
sem desespero e sem desgosto,
e morri de infinitas mortes
guardando sempre o mesmo rosto
Quando as ondas te carregaram
meu olhos, entre águas e areias,
cegaram como os das estátuas,
a tudo quanto existe alheias.
Minhas mãos pararam sobre o ar
e endureceram junto ao vento,
e perderam a cor que tinham
e a lembrança do movimento.
E o sorriso que eu te levava
desprendeu-se e caiu de mim:
e só talvez ele ainda viva
dentro destas águas sem fim.
No desequilíbrio dos mares,
as proas giram sozinhas...
Numa das naves que afundaram
é que certamente tu vinhas.
Eu te esperei todos os séculos
sem desespero e sem desgosto,
e morri de infinitas mortes
guardando sempre o mesmo rosto
Quando as ondas te carregaram
meu olhos, entre águas e areias,
cegaram como os das estátuas,
a tudo quanto existe alheias.
Minhas mãos pararam sobre o ar
e endureceram junto ao vento,
e perderam a cor que tinham
e a lembrança do movimento.
E o sorriso que eu te levava
desprendeu-se e caiu de mim:
e só talvez ele ainda viva
dentro destas águas sem fim.
(Cecilia
Meireles)
Motivo
da rosa
Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.
Rosas verá, só de cinzas franzida,
mortas, intactas pelo teu jardim.
Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim.
E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.
Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.
Rosas verá, só de cinzas franzida,
mortas, intactas pelo teu jardim.
Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim.
E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.
(Cecília
Meireles)
Discurso
E
aqui estou, cantando.
Um poeta é sempre irmão do vento e da água:
deixa seu ritmo por onde passa.
Venho de longe e vou para longe:
mas procurei pelo chão os sinais do meu caminho
e não vi nada, porque as ervas cresceram e as serpentes
andaram.
Também procurei no céu a indicação de uma trajetória,
mas houve sempre muitas nuvens.
E suicidaram-se os operários de Babel.
Pois aqui estou, cantando.
Se eu nem sei onde estou,
como posso esperar que algum ouvido me escute?
Ah! Se eu nem sei quem sou,
como posso esperar que venha alguém gostar de mim?
Um poeta é sempre irmão do vento e da água:
deixa seu ritmo por onde passa.
Venho de longe e vou para longe:
mas procurei pelo chão os sinais do meu caminho
e não vi nada, porque as ervas cresceram e as serpentes
andaram.
Também procurei no céu a indicação de uma trajetória,
mas houve sempre muitas nuvens.
E suicidaram-se os operários de Babel.
Pois aqui estou, cantando.
Se eu nem sei onde estou,
como posso esperar que algum ouvido me escute?
Ah! Se eu nem sei quem sou,
como posso esperar que venha alguém gostar de mim?
(Cecília
Meireles)
Da obra Romanceiro da Inconfidência
Romance XXIV ou da Bandeira da
Inconfidência
Através
de grossas portas,
sentem-se
luzes acesas,
—
e há indagações minuciosas
dentro
das casas fronteiras:
olhos
colados aos vidros,
mulheres
e homens à espreita,
caras
disformes de insônia,
vigiando
as ações alheias.
Pelas
gretas das janelas,
pelas frestas das esteiras,
agudas setas atiram
a
inveja e a maledicência.
Palavras
conjeturadas
oscilam
no ar de surpresas,
como
peludas aranhas
na
gosma das teias densas,
rápidas
e envenenadas,
engenhosas,
sorrateiras.
Atrás
de portas fechadas,
à
luz de velas acesas,
brilham
fardas e casacas,
junto
com batinas pretas.
E
há finas mãos pensativas,
entre
galões, sedas, rendas,
e
há grossas mãos vigorosas,
de
unhas fortes, duras veias,
e
há mãos de púlpito e altares,
de
Evangelhos, cruzes, bênçãos.
Uns
são reinóis, uns, mazombos;
e
pensam de mil maneiras;
mas
citam Vergílio e Horácio,
e
refletem, e argumentam,
falam
de minas e impostos,
de
lavras e de fazendas,
de ministros e rainhas
e das colônias inglesas.
Atrás de portas fechadas,
à luz de velas acesas,
uns
sugerem, uns recusam,
uns
ouvem, uns aconselham.
Se
a derrama for lançada,
há
levante, com certeza.
Corre-se
por essas ruas?
Corta-se
alguma cabeça?
Do
cimo de alguma escada,
profere-se
alguma arenga?
Que
bandeira se desdobra?
Com
que figura ou legenda?
Coisas
da Maçonaria,
do Paganismo ou da Igreja?
A Santíssima Trindade?
Um
gênio a quebrar algemas?
Atrás
de portas fechadas,
à
luz de velas acesas,
entre
sigilo e espionagem,
acontece
a Inconfidência.
E
diz o Vigário ao Poeta:
"Escreva-me
aquela letra
do
versinho de Vergílio..."
E
dá-lhe o papel e a pena.
E
diz o Poeta ao Vigário,
com
dramática prudência:
"Tenha
meus dedos cortados
antes
que tal verso escrevam..."
LIBERDADE,
AINDA QUE TARDE,
ouve-se
em redor da mesa.
E a bandeira já está viva,
e sobe, na noite imensa.
E
os seus tristes inventores
já são réus — pois se atreveram
a falar em Liberdade
(que
ninguém sabe o que seja).
Através de grossas portas,
sentem-se luzes acesas,
—
e há indagações minuciosas
dentro
das casas fronteiras.
"Que
estão fazendo, tão tarde?
Que
escrevem, conversam, pensam?
Mostram
livros proibidos?
Lêem notícias nas Gazetas?
Terão recebido cartas
de
potências estrangeiras?"
(Antiguidades
de Nimes
em
Vila Rica suspensas!
Cavalo
de La Fayette
saltando
vastas fronteiras!
Ó
vitórias, festas, flores
das
lutas da Independência!
Liberdade
- essa palavra,
que
o sonho humano alimenta:
que
não há ninguém que explique,
e
ninguém que não entenda!)
E
a vizinhança não dorme:
murmura,
imagina, inventa.
Não
fica bandeira escrita,
mas
fica escrita a sentença.
(Cecília
Meireles)
Com
este lindo texto extraído do livro "Romanceiro da Inconfidência", Editora Letras e
Artes - Rio de Janeiro, 1965, pág. 70, homenageamos a autora que, no dia
07-11-2001, estaria completando 100 anos de idade.
Fonte:
http://www.releituras.com/cmeireles_romanceiro.asp
Biografia
Poetisa, professora, pedagoga e
jornalista, cuja poesia lírica e altamente personalista, freqüentemente simples
na forma mas contendo imagens e simbolismos complexos, deu a ela importante
posição na literatura brasileira do século XX. Nasceu na cidade do Rio de
Janeiro em 07/11/1901 e veio a falecer na mesma cidade em 09/11/64. Casou-se
duas vezes e deixou três filhas.
Embora vivendo sob ifluência do
Modernismo, apresenta ainda em sua obra heranças do simbolismo e técnicas do
classicismo, gongorismo, romantismo, parnasianismo, realismo e surrealismo,
razão pela aual sua poesia é considerada intemporal.
Órfã desde tenra idade (aos 3 anos já
perdera os pais e três irmãos que nem chegou a conhecer), foi criada pela avó
Jacinta Garcia Benevides. Desde cedo habituou-se ao exercício da solidão, tendo
precocemente desenvolvido sua consciência e sensibilidade. Começou a escrever
poesia aos 9 anos de iddade. Tornou-se professora pública aos 16, destacando-se
como aluna exemplar, merecendo a estima dos mestres. Dois anos depois iniciou
sua carreira literária com a publicação de Espectros (1919), uma coleção de
sonetos simbolistas.
A década de 20 foi uma época de
revolução na literatura braisleira, mas o trabalho de Cecília naquele período
mostra pouca afinidade com as tendências nacionalistas então em voga, ou com o
verso livre e a linguagem coloquial. Boa parte dos críticos, inclusive,
consideram suas formas mais tradicionais de poema (como sonetos) o ponto mais
alto de sua obra. Com Nunca mais . . . e Poema dos Poemas (1923) adere ao
Modernismo. Em 1924 sai Criança meu amor e em 1925 Baladas para El-Rei.
Entre 1925 e 1939 dedicou-se à sua
carreira docente publicando vários livros infantis e fundando, em 1934 a
Biblioteca Infantil do Rio de Janeiro (a primeira biblioteca infantil do país).
A partir deste ano ensinou literatura brasileira em Portugal (Lisboa e Coimbra)
e em 1936 foi nomeada para a UFRJ, recém-fundada.
Cecília reaparece no cenário poético
após 14 anos de silêncio com Viagem (1939), considerado um marco de maturidade
e individualidade na sua obra: recebeu o prêmio de poesia daquele ano da
Academia Brasileira de Letras. Daí em diante dedicou-se à carreira literária,
publicando regularmente até a sua morte. Vários de seus livros são inspirados
nas muitas viagens que fez, viagens estas de grande significação, pois a autora
extraiu do contato com gente, costumes e idiomas diferentes matéria de melhor
compreensão da vida e da humanidade.
Entre os vários livros de poesia
publicados após 1939 tem-se: Vaga Música (1942), Mar Absoluto e Outros Poemas
(1945), Retrato Natural (1949), Romanceiro da Inconfidência (1953), Metal
Rosicler (1960), Poemas Escritos na Índia (1962), Solombra (1963) e Ou Isto ou
Aquilo (temática infantil, 1964).
Escreveu também em prosa, dedicando-se
a assuntos pedagógicos e folclóricos. Produziu também prosa lírica, com temas
versando sobre sua infância, suas viagens e crônicas circunstanciais. Algumas
de suas obras em prosa: Giroflê giroflá (1956), Escolha seu Sonho (1964) e
Inéditos (crônicas - 1968).
Autor do romance: Macunaíma,
o herói sem nenhum caráter.
Macunaíma é o herói central da obra de Mário de Andrade.
Contrariando o modelo do heroico indígena brasileira no Romantismo, o autor
rompe o padrão expondo um herói sem nenhum caráter.
O personagem encarna a figura do malandro, traía os
irmãos tomando-lhes as mulheres, mentia, praticava safadezas, jogava no bicho e
usava palavrões.
Figura símbolo da civilização: choque entre uma cultura
europeia e uma primitiva. (a indígena)
LENDAS: tentativa de simbolizar o grande conflito vital
que é o Brasil.
Observe a linguagem inovadora e o neologismo do autor.
Fragmentos:
“No
fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói da nossa gente.
Era preto
retinto e filho do medo e da noite.
Já na
meninice fez coisas de sarapantar”.
“-
Qual o quê! ... Quando urubu está de caipora o de baixo caga no de cima, este
mundo não tem jeito mais e vou pro céu”!.
“A
Ursa-maior é Macunaíma. É mesmo o herói capenga que de tanto penar na terra sem
saúde e com muita saúva se aborreceu de tudo, foi-se embora e banza solitário
no campo vasto do céu”.
Resumo
Macunaíma
nasce e já manifesta sua principal característica: a preguiça. O herói vive às
margens do mítico rio Uraricoera com sua mãe e seus irmãos, Maanape e Jiguê,
numa tribo amazônica. Após a morte da mãe, os três irmãos partem em busca de
aventuras. Macunaíma encontra Ci, Mãe do Mato, rainha das Icamiabas. Depois de
dominá-la, com a ajuda dos irmãos, faz dela sua mulher, tonando-se assim
imperador do Mato Virgem.
O herói
tem um filho com Ci e esse morre, ela morre também e é transformada em estrela.
Antes de morrer dá a Macunaíma um amuleto, a muiraquitã (pedra verde em forma
de sáurio), que ele perde e que vai parar nas mãos do mascate peruano Venceslau
Pietro Pietra, o gigante Piaimã, comedor de gente. Como o gigante mora em São
Paulo, Macunaíma e seus irmãos vão para lá, na tentativa de recuperar a
muiraquitã.
Após
falhar com o plano de se vestir de francesa para seduzir o gigante e recuperar
a pedra, Macunaíma foge para o Rio de janeiro. Lá encontra Vei, a deusa sol, e
promete casamento a uma de suas filhas, mas namora uma portuguesa e enfurece a
deusa. Depois de muitas aventuras por todo o Brasil na tentativa de reaver a
sua pedra, o herói a resgata e regressa para a sua tribo.
Ao fim da
narrativa, vem a vingança de Vei: ela manda um forte calor, que estimula a sensualidade
do herói e o lança nos braços de uma uiara traiçoeira, que o mutila e faz com
que ele perca de novo – dessa vez irremediavelmente – a muiraquitã. Cansado de
tudo, Macunaíma vai para o céu transformado na Constelação da Ursa Maior.
Contexto
Sobre o
autor
Mário de Andrade foi a figura central do movimento de vanguarda de São Paulo e figura-chave do movimento modernista que culminou na Semana de Arte Moderna de 1922. O escritor foi um dos integrantes do “Grupo dos Cinco”, que deu início ao modernismo no Brasil, formado também por Oswald de Andrade, Anita Malfatti, Tarsila do Amaral e Menotti Del Picchia.
Mário de Andrade foi a figura central do movimento de vanguarda de São Paulo e figura-chave do movimento modernista que culminou na Semana de Arte Moderna de 1922. O escritor foi um dos integrantes do “Grupo dos Cinco”, que deu início ao modernismo no Brasil, formado também por Oswald de Andrade, Anita Malfatti, Tarsila do Amaral e Menotti Del Picchia.
Importância
do livro
Mário de Andrade inaugura uma nova organização da linguagem literária. Utiliza provérbios do povo brasileiro e aproxima a língua escrita ao modo de falar, apresentando, assim, uma crítica à língua culta prestigiada no Brasil. A obra apresenta humor e criatividade, o que faz com que se torne afinada com a literatura de vanguardista da época. O livro possui estrutura inovadora, não seguindo uma ordem cronológica e espacial. Valoriza a cultura brasileira ao mesmo tempo em que sobrepõe a esta traços do Dadaísmo, Futurismo, Expressionismo e Surrealismo.
Mário de Andrade inaugura uma nova organização da linguagem literária. Utiliza provérbios do povo brasileiro e aproxima a língua escrita ao modo de falar, apresentando, assim, uma crítica à língua culta prestigiada no Brasil. A obra apresenta humor e criatividade, o que faz com que se torne afinada com a literatura de vanguardista da época. O livro possui estrutura inovadora, não seguindo uma ordem cronológica e espacial. Valoriza a cultura brasileira ao mesmo tempo em que sobrepõe a esta traços do Dadaísmo, Futurismo, Expressionismo e Surrealismo.
Período
histórico
Um dos romances mais importantes do modernismo brasileiro, “Macunaíma” foi lançado em 1928. O livro busca uma valorização da cultura nacional.
Um dos romances mais importantes do modernismo brasileiro, “Macunaíma” foi lançado em 1928. O livro busca uma valorização da cultura nacional.
Análise
A partir
dos temas folclóricos e mitológicos, Mário de Andrade cria uma nova linguagem
literária. Não apenas pelo tema, mas também com o uso de provérbios e tentando
aproximar-se o máximo possível da língua oral. O autor chega a representar uma
"gozação" de Macunaíma à forma culta de falar dizendo que o povo
"fala numa língua e escreve noutra", na "Carta pras
Icamiabas".
A obra
tem um aspecto nacionalista, mas aponta também para os “defeitos” do país.
Consegue seguir a tendência literária mundial, mas imprime um tom nacional e
originário. Com isso, “Macunaíma” torna-se a melhor representação das propostas
do Movimento da Antropofagia (1928), iniciado por Oswald de Andrade, que
buscava equiparar a cultura brasileira às outras culturas de prestígio. O
Movimento Antropofágico tinha como pretensão aproveitar as qualidades de outras
culturas, mas transformá-las em algo verdadeiramente nacional, por isso a
metáfora de “comer” ou “devorar” o que vem de fora.
A
descentralização da cultura é um dos objetivos do Modernismo e pode ser
percebida na obra de Andrade. O autor cumpre com tal corrente ao tratar do
nacionalismo em torno do verde-amarelismo, buscando os motivos indígenas,
folclóricos, nativos e americanos, contra a inspiração nos temas europeus.
Macunaíma também apresenta a “descentralização da cultura” na língua,
ilustrando "o vocabulário regional de todos os pontos do Brasil" com
suas frases feitas e provérbios de propriedade coletiva. Um dos principais
valores do livro é exatamente essa mistura linguística.
Para
escrever o livro, foi preciso que o autor pesquisasse sobre as lendas e mitos
indígenas, pois está presente na obra a linguagem popular e oral de várias
regiões do país. Por isso, Mario de Andrade o chama de rapsódia. E a
partir desta descrição dos mitos presentes no imaginário popular, Mário também inventa,
de maneira irônica, vários mitos da modernidade. O personagem “Macunaíma” serve
como alegoria para sintetizar o caráter brasileiro. Desta forma, podemos
reconhecer na obra uma crítica e uma reflexão sobre o que seria o povo
brasileiro: sem um caráter definido, vivendo em um país grande como o corpo de
Macunaíma, mas imaturo, característica que é simbolizada pela cabeça pequena do
herói.
Personagens
-
Macunaíma: é o protagonista do livro, "o herói sem nenhum caráter" e
preguiçoso. Vive numa tribo na Amazônia e assume diversas faces. Ao mergulhar
num poço encantado se transforma em um homem branco, loiro e de olhos azuis.
-
Maanape: um dos irmãos de Macunaíma. Simboliza a figura do negro.
- Jiguê:
um dos irmãos de Macunaíma. Simboliza a figura do índio.
- Sofará:
mulher de Jiguê. Era bem moça, apanhava de Jiguê por ficar “brincando” na mata
com Macunaíma enquanto devia trabalhar.
- Iriqui:
nova mulher de Jiguê. Era linda, mas também foi deixada por Jiguê quando este
descobriu que ela também “brincava” com Macunaíma.
- Ci: é a
responsável pela peregrinação de Macunaíma, já que foi ela quem lhe deu a pedra
Muiraquitã. Ela foi o verdadeiro amor de Macunaíma.
- Capei:
uma grande cobra que Macuína teve que enfrentar.
- Piaimã:
é o gigante que roubou a muiraquitã de Macunaíma. Torna-se a principal oposição
do herói e motivo pelo qual ele parte em sua jornada para São Paulo. No final,
o herói mata Piaimã e toma de volta a pedra.
- Vei: é
a representação do sol, apesar de ser mulher. Tem duas filhas e quer que
Macunaíma se case com uma delas. Porém Macunaíma não fica com nenhuma de suas
filhas
- Ceiuci:
mulher do gigante. Era gulosa e já tentou devorar Macunaíma.
Link para estudo aprofundado sobre a obra Macunaíma:







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