Olá,
sextos anos CPM/16!
Roda de Leitura
Leitura
Semanal
Ao
aluno mediador da semana:
Mediação:
Você é o mediador entre o texto e o leitor;
Siga a
ordem localizando o seu número na chamada;
Escolha
um conto, ou crônica da lista abaixo e após a leitura, observe a data da sua
apresentação;
Na data
agendada, entregue uma cópia da obra a cada um dos colegas;
Entregue
o roteiro com resumo e uma cópia da obra à professora;
Apresente:
O autor
A obra
Leia
para o grupo o conto/crônica observando a entonação, a expressividade e a
pontuação;
Após a
leitura, faça uma crítica dando ênfase ao seu ponto de vista sobre a obra lida;
Aguarde
o feed back dos colegas e interaja com eles quanto ao ponto de vista de todos;
Aguarde
as considerações da professora.
Para a
turma:
Na aula
seguinte, todos os alunos deverão escrever e entregar uma resenha sobre uma das
obras apresentadas na Roda de Leitura.
Neste
formato:
- Nome,
nº, turma, data
-
Título da obra
- Nome
do aluno mediador da Roda de Leitura
-
Resenha da obra
-
Referência: fonte de onde o texto foi extraído.
Abaixo segue a lista dos contos indicados para o seu número na chamada.
Abaixo segue a lista dos contos indicados para o seu número na chamada.
Abaixo, imagem do Aeroporto Galeão, localizado na cidade do Rio de Janeiro
Viajou meu amigo Pedro. Fui levá-lo ao Galeão, onde esperamos três horas o seu quadrimotor. Durante esse tempo, não faltou assunto para nos entretermos, embora não falássemos da vã e numerosa matéria atual. Sempre tivemos muito assunto, e não deixamos de explorá-la a fundo. Embora Pedro seja extremamente parco de palavras e, a bem dizer, não se digne pronunciar nenhuma. Quando muito, emite sílabas; o mais é conversa de gestos e expressões, pelos quais se faz entender admiravelmente. É o seu sistema.
Passou
dois meses e meio em nossa casa, e foi hóspede ameno. Sorria para os moradores,
com ou sem motivo plausível. Era a sua arma, não direi secreta, porque
ostensiva. A vista da pessoa humana lhe dá prazer. Seu sorriso foi logo
considerado sorriso especial, revelador de suas intenções para com o mundo
ocidental e o oriental e em particular o nosso trecho de rua. Fornecedores,
vizinhos e desconhecidos, gratificados com esse sorriso (encantador, apesar da
falta de dentes),abonam a classificação.
Devo
admitir que Pedro, como visitante, nos deu trabalho: tinha horários especiais,
comidas especiais, roupas especiais, sabonetes especiais, criados especiais.
Mas sua simples presença e seu sorriso compensariam providências e privilégios
maiores. Recebia tudo com naturalidade, sabendo-se merecedor das distinções, e
ninguém se lembraria de achá-lo egoísta ou inoportuno. Suas horas de sono — e
lhe apraz dormir não só à noite como principalmente de dia — eram respeitadas
como ritos sacros a ponto de não ousarmos erguer a voz para não acordá-lo.
Acordaria sorrindo, como de costume, e não se zangaria com a gente, porém é que
não nos perdoaríamos o corte de seus sonhos. Assim, por conta de Pedro,
deixamos de ouvir muito concerto para violino e orquestra, de Bach, mas também
nossos olhos e ouvidos se forraram à tortura da TV. Andando na ponta dos pés,
ou descalços, levamos tropeções no escuro, mas sendo por amor de Pedro não
tinha importância.
Objeto
que visse em nossa mão, requisitava-o. Gosta de óculos alheios (e não os usa),
relógios de pulso, copos, xícaras e vidros em geral, artigos de escritório,
botões simples ou de punho.Nãoé colecionador; gosta das coisas para pegá-las,
mirá-las e (é seu costume ou sua mania, que se há de fazer) pô-las na boca.
Quem não o conhecer dirá que é péssimo costume, porém duvido que mantenha este
juízo diante de Pedro, de seu sorriso sem malícia e de suas pupilas azuis —
porque me esquecia de dizer que tem olhos azuis, cor que afasta qualquer
suspeita ou acusação apressada sobre a razão íntima de seus atos.
Poderia
acusá-lo de incontinência, porque não sabia distinguir entre os cômodos, e o
que lhe ocorria fazer, fazia em qualquer parte? Zangar-me com ele porque
destruiu a lâmpada do escritório? Não. Jamais me voltei para Pedro que ele não
me sorrisse; tivesse eu um impulso de irritação, e me sentiria desarmado com a
sua azul maneira de olhar-me. Eu sabia que essas coisas eram indiferentes à
nossa amizade — e, até, que a nossa amizade lhes conferia caráter necessário,
de prova; ou gratuito, de poesia e jogo.
Viajou
meu amigo Pedro. Fico refletindo na falta que faz um amigo de um ano de idade a
seu companheiro já vivido e puído. De repente o aeroporto ficou vazio.
*
Extraído de: Cadeira de balanço, Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora,
1976, p. 61, 62.
Oi, meus lindos! Assistam abaixo a declamação em vários idiomas do poema "No meio do caminho" de Drummond! Imperdível:
No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.
(Carlos Drummond de Andrade)
Oi, meus lindos! Assistam abaixo a declamação em vários idiomas do poema "No meio do caminho" de Drummond! Imperdível:
No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.
(Carlos Drummond de Andrade)
Tradução
para alguns idiomas declamados no vídeo:
INGLÊS
IN THE MIDDLE OF THE ROAD
In the middle of the road was a stone
was a stone in the middle of the road
was stone
in the middle of the road was a stone.
I shall never forget that event
in the life of my so tired eyes.
I shall never forget that in the middle of the road
was a stone
was a stone in the middle of the road
in the middle of the road was a stone.
in the life of my so tired eyes.
I shall never forget that in the middle of the road
was a stone
was a stone in the middle of the road
in the middle of the road was a stone.
(Mathew Shirts)
FRANCÊS
AU MILIEU DU CHEMIN
Au milieu du chemin y avait une pierre
y avait une pierre au milieu du chemin
y avait une pierre
au milieu du chemin y avait une pierre.
Jamais je n'oublierai cet évènement
dans la vie de mes rétines si fatiguées.
Jamais je noublierai qu'au milieu du chemin
y avait une pierre
y avait une pierre au milieu du chemin
au milieu du chemin y avait une pierre.
(Jean Claude Bernadet)
HOLANDÊS
MITTEN IM WEG
Mitten im Weg lag ein Stein
Lag ein Stein mitten im Weg
Lag ein Stein
Mitten im Weg lag ein Stein.
Nie werde ich dieses Ereignis
Im Leben meiner so ermudeten Netzhaut vergessen.
Nie werde ich vergessen dass mitten im Weg
Lag ein Stein
Lag ein Stein mitten im Weg
Mitten im Weg lag ein Stein.
Im Leben meiner so ermudeten Netzhaut vergessen.
Nie werde ich vergessen dass mitten im Weg
Lag ein Stein
Lag ein Stein mitten im Weg
Mitten im Weg lag ein Stein.
(Pieter
TJabbes)
ITALIANO
NEL MEZZO
DEL CAMMINO
Nel mezzo del cammino c'era un sasso
c'era un sasso nel mezzo del cammino
c'era un sasso
nel mezzo del cammino c'era un sasso.
Non
dimenticherò questa cosa accaduta
nella vita dei miei occhi così stanchi.
Non dimenticherò mai che nel mezzo del cammino
c'era un sasso
c'era un sasso nel mezzo del cammino
nel mezzo del cammino c'era un sasso.
nella vita dei miei occhi così stanchi.
Non dimenticherò mai che nel mezzo del cammino
c'era un sasso
c'era un sasso nel mezzo del cammino
nel mezzo del cammino c'era un sasso.
(Davi Arrigucci JR)
ALEMÃO
Mitten im Weg
Mitten im Weg lag ein stein
Lag ein stein
Mitten im Weg lag ein stein
Mitten im Weg lag ein stein
Nie werde ich dieses Ereignis
Im Leben meiner so ermudeten
Netzhaut vergessen.
Nie werde ich vergessen dass
mitten im Weg
Lag ein stein
Lag ein Stein mitten im Weg
Mitten im Weg lag ein stein
(Jane Binder)
LATIM
Media in via
Media in via erat lapis
erat lapis media in via
erat lapis
media in via erat lapis.
Non ero unquam immemor illius eventus
pervivi tam míhi in retinis defatigatis.
Non ero unquam immemor quod media in via
erat lapis
erat lapis media in via
media in via erat lapis.
(Sidney
Calheiros)
ESPANHOL
EN MEDIO
DEL CAMINO
En medio del camino había una piedra,
había una piedra en medio del camino,
había una piedra,
en medio del camino habia una piedra.
Nunca me olvidaré de ese acontecimiento
en la vida de mis retinas tan fatigadas.
Nunca me olvidaré que en medio del camino
había una piedra,
había una piedra en medio del camino
en medio del camino había una piedra.
(Laura Hosiasson)
Estátua de Carlos Drummonde de Andrade, no Rio de Janeiro.
Imagem de Carlos Drummond de Andrade
Demais esse autor, não é? Adoro-o!
Sobre um Aeroporto. Lugar onde decolam e pousam aviões que levam pessoas a todas as partes do mundo.
Abaixo segue trailer de um filme que se passa todo em um aeroporto: Terminal.
O protagonista é o ator Tom Hanks, que consegue dar vida a uma pessoa estrangeira proibida de entrar no país que visita e também de voltar ao seu país de origem.
O motivo que o leva a ficar retido no Aeroporto é que durante a sua viagem, houve um golpe de estado em seu país de origem, quando chega em Nova York, a cidade está em crise diplomática com o país dele. Sendo assim, nem pode entrar na cidade, nem pode voltar, o que torna engraçadas as experiências que ele vive no Aeroporto. Imperdível, se puderem, assistam ao filme na íntegra.
Sobre Bach:
Johan Sebastian Bach foi um músico alemão que escreveu e interpretou ao piano uma das músicas mais ouvidas e tocadas no mundo inteiro: Jesus Alegria dos Homens.
Jesus
alegria dos homens. É uma das peças mais populares de Bach, não somente pela
riqueza técnica
e beleza melódica, mas também por ser uma música propícia para ambientes de
culto e adoração
a Deus.
Essa
música é parte do último coral da cantata “Herz und Mund Tat und Leben” (BWV
147). Johann Schop, um virtuoso violinista e compositor alemão, compôs a
linha melódica deste coral e Bach compôs a harmonia e a instrumentação do
mesmo.
Cego, Bach faleceu em Leipzig, na Alemanha em 28 de julho de 1750, deixando um conjunto de obras primas da música ocidental.
Eis abaixo um vídeo com a cantata, geralmente apresentada em igrejas no natal.
Assista no vídeo abaixo também a cantora Sisel intepretando a música com sua voz melodiosa.
2 Da
utilidade dos animais
Carlos Drummond de Andrade
Carlos Drummond de Andrade
Terceiro
dia de aula. A professora é um amor. Na sala, estampas coloridas mostram
animais de todos os feitios. É preciso querer bem a eles, diz a professora, com
um sorriso que envolve toda a fauna, protegendo-a. Eles têm direito à vida,
como nós, e além disso são muito úteis. Quem não sabe que o cachorro é o maior
amigo da gente? Cachorro faz muita falta. Mas não é só ele, não.
A
galinha, o peixe, a vaca… Todos ajudam.
— Aquele
cabeludo ali, professora, também ajuda?
— Aquele?
É o iaque, um boi da Ásia Central. Aquele serve de montaria e de burro de
carga.
Do pêlo
se fazem perucas bacaninhas. E a carne, dizem que é gostosa.
— Mas se
serve de montaria, como é que a gente vai comer ele?
— Bem, primeiro serve para uma
coisa, depois para outra. Vamos adiante. Este
é o
texugo. Se vocês quiserem pintar a parede do quarto, escolham pincel de texugo.
Parece que é ótimo.
— Ele faz
pincel, professora?
— Quem, o
texugo? Não, só fornece o pêlo. Para pincel de barba também, que o Artuzinho
vai usar quando crescer.
Artuzinho
objetou que pretende usar barbeador elétrico.Além do mais, não gostaria de
pelar o texugo, uma vez que devemos gostar dele, mas a professora já explicava
a utilidade do canguru:
— Bolsas,
malas, maletas, tudo isso o couro do canguru dá pra gente. Não falando na
carne. Canguru é utilíssimo.
— Vivo,
fessora?
— A
vicunha, que vocês estão vendo aí, produz… produz é maneira de dizer, ela
fornece, ou por outra, com o pêlo dela nós preparamos ponchos, mantas,
cobertores etc.
— Depois
a gente come a vicunha, né fessora?
— Daniel,
não é preciso comer todos os animais. Basta retirar a lã da vicunha, que torna
a crescer…
— E a
gente torna a cortar? Ela não tem sossego, tadinha.
— Vejam
agora como a zebra é camarada.Trabalha no circo, e seu couro listrado serve
para forro de cadeira, de almofada e para tapete.Também se aproveita a carne,
sabem?
— A carne
também é listrada? Pergunta que desencadeia riso geral.
— Não
riam da Betty, ela é uma garota que quer saber direito as coisas. Querida, eu
nunca vi carne de zebra no açougue, mas posso garantir que não é listrada. Se
fosse, não deixaria de ser comestível por causa disso.
— Ah, o
pinguim? Este vocês já conhecem da praia do Leblon, onde costuma aparecer,
trazido pela correnteza. Pensam que só serve para brincar? Estão enganados. Vocês
devem respeitar o bichinho. O excremento – não sabem o que é? O cocô do pinguim
é um adubo maravilhoso: guano, rico em nitrato. O óleo feito com a gordura do
pinguim…
— A
senhora disse que a gente deve respeitar.
— Claro.
Mas o óleo é bom.
— Do
javali, professora, duvido que a gente lucre alguma coisa.
— Pois
lucra. O pêlo dá escovas de ótima qualidade.
— E o
castor?
— Pois
quando voltar a moda do chapéu para homens, o castor vai prestar muito
serviço.Aliás, já presta, com a pele usada para agasalhos. É o que se pode
chamar um bom exemplo.
— Eu,
hem?
— Dos
chifres do rinoceronte, Belá, você pode encomendar um vaso raro para o living
de sua casa. Do couro da girafa, Luís Gabriel, pode tirar um escudo de verdade,
deixando os pêlos da cauda para Teresa fazer um bracelete genial. A
tartaruga-marinha, meu Deus, é de uma utilidade que vocês não calculam.
Comem-se os ovos e toma-se a sopa: uma de-lí-cia. O casco serve para fabricar
pentes, cigarreiras, tanta coisa… O biguá é engraçado.
—
Engraçado como?
— Apanha
peixe pra gente.
— Apanha
e entrega, professora?
— Não é
bem assim.Você bota um anel no pescoço dele, e o biguá pega o peixe mas não pode
engolir. Então você tira o peixe da goela do biguá.
— Bobo
que ele é.
— Não. É
útil. Ai de nós se não fossem os animais que nos ajudam de todas as maneiras.
Por isso que eu digo: devemos amar os animais, e não maltratá-los de jeito
nenhum. Entendeu, Ricardo?
—
Entendi. A gente deve amar, respeitar, pelar e comer os animais, e aproveitar
bem o pêlo, o couro e os ossos.
In:“As
palavras que ninguém diz”.Coleção Mineiramente Drummond - Crônicas: Seleção
Luzia de Maria. Record, 1997.
3
Hermenegildo
Hermenegildo é um
imigrante nordestino, com mais de trinta anos de vida, pouco mais de metro e
meio de altura e menos de sete anos de idade mental. Não que ele não seja
inteligente, não é isso. É apenas que ele não cresceu muito, nem por fora, nem
por dentro: ele é uma criança grande, simples e bem-humorada.
Hermenegildo, analfabeto
de pai e mãe, é faxineiro em casa de um amigo nosso, que tem uma bela
biblioteca. Vai daí, um dia o nosso amigo resolveu mandar Hermenegildo limpar
os livros. Entregou-lhe, pois, um pano macio, uma escova, mostrou como se faz
para tirar o pó e limpar as lindas capas e lombadas de couro com letras
douradas, e acrescentou:
- Você limpa os livros
um de cada vez: tira, limpa e põe de volta no mesmo lugar, do jeito que estava
antes. Entendeu?
Hermenegildo entendera.
E aquela tarde inteira, Hermenegildo passou a espanar, escovar e esfregar os
livros. À noite, o dono da casa chegou e foi inspecionar o serviço
- e ficou danado da
vida: os livros estavam limpos, é verdade, mas o resto! O patrão chamou
Hermenegildo e passou-lhe uma descompostura:
- É este o serviço que
você me fez? O que foi que eu lhe falei? Eu não disse que era para você por os
livros no mesmo lugar, do mesmo jeito que estavam antes? E o que foi que você
fez? Misturou tudo. Não há um só livro no lugar certo, e ainda por cima, metade
está de cabeça para baixo! O que é que você está pensando?!
E Hermenegildo, exibindo
num grande e cândido sorriso os alvos dentes que brilhavam na cara
morena:
- Penso que não tem importância
não, doutor: eu não sei ler, mas o senhor sabe.
Não dá para ralhar com o
Hermenegildo.
4 Um problema difícil
Era um
problema dos grandes. A turminha reuniu-se para discuti-lo e Xexéu voltou para
casa preocupado. Por mais que pensasse, não atinava com uma solução.
Afinal, o
que poderia ele fazer para resolver aquilo? Era apenas um menino!
Xexéu
decidiu falar com o pai e explicar direitinho o que estava acontecendo. O pai
ouviu calado, muito sério, compreendendo a gravidade da questão. Depois que o
garoto saiu da sala, o pai pensou um longo tempo. Era mesmo preciso enfrentar o
problema. Não estava em suas mãos, porém, resolver um caso tão difícil.
Procurou
o guarda do quarteirão, um sujeito muito amigo que já era conhecido de todos e
costumava sempre dar uma paradinha para aceitar um cafezinho oferecido por
algum dos moradores.
O guarda
ouviu com a maior das atenções. Correu depois para a delegacia e expôs ao
delegado tudo o que estava acontecendo.
O
delegado balançou a cabeça, concordando. Sim, alguma coisa precisava ser feita,
e logo! Na mesma hora, o delegado passou a mão no telefone e ligou para um
vereador, que costumava sensibilizar-se com os problemas da comunidade.
Do outro
lado da linha, o vereador ouviu sem interromper um só instante. Foi para a
prefeitura e pediu uma audiência ao prefeito. Contou tudo, tintim por tintim. O
prefeito ouviu todos os tintins e foi procurar um deputado estadual do mesmo
partido para contar o que havia.
O
deputado estadual não era desses políticos que só se lembram dos problemas da
comunidade na hora de pedir votos. Ligou para um deputado federal, pedindo uma
providência urgente. O deputado federal ligou para o governador do estado, que
interrompeu uma conferência para ouvi-lo.
O
problema era mesmo grave, e o governador voou até Brasília para pedir uma
audiência ao ministro.
O
ministro ouviu tudinho e, como já tinha reunião marcada com o presidente,
aproveitou e relatou-lhe o problema.
O
presidente compreendeu a gravidade da situação e convocou uma reunião
ministerial. O assunto foi debatido e, depois de ouvir todos os argumentos, o
presidente baixou um decreto para resolver a questão de uma vez por todas.
Aliviado,
o ministro procurou o governador e contou-lhe a solução. O governador então
ligou para o deputado federal, que ficou muito satisfeito. Falou com o deputado
estadual, que, na mesma hora, contou tudo para o prefeito. O prefeito mandou
chamar o vereador e mostrou-lhe que a solução já tinha sido encontrada.
O
vereador foi até a delegacia e disse a providência ao delegado. O delegado,
contente com aquilo, chamou o guarda e expôs a solução do problema. O guarda,
na mesma hora, voltou para a casa do pai do Xexéu e, depois de aceitar um café,
relatou-lhe satisfeito que o problema estava resolvido.
O pai do
Xexéu ficou alegríssimo e chamou o filho.
Depois de
ouvir tudo, o menino arregalou os olhos:
5 Vó caiu
na piscina
Carlos
Drummond de Andrade
Noite na
casa da serra, a luz apagou. Entra o garoto:
— Pai, vó
caiu na piscina.
— Tudo
bem, filho.
O garoto
insiste:
— Escutou
o que eu falei, pai?
—
Escutei, e daí? Tudo bem.
— Cê não
vai lá?
— Não
estou com vontade de cair na piscina.
— Mas ela
tá lá…
— Eu sei,
você já me contou. Agora deixe seu pai fumar um cigarrinho descansado.
— Tá
escuro, pai.
— Assim até é melhor. Eu gosto de
fumar no escuro. Daqui a pouco a luz volta. Se não voltar, dá no mesmo. Pede a
sua mãe pra acender a vela na sala. Eu fico aqui mesmo, sossegado.
— Pai…
— Meu
filho, vá dormir. É melhor você deitar logo. Amanhã cedinho a gente volta pro
Rio, e você custa muito a acordar. Não quero atrasar a descida por sua causa.
— Vó tá
com uma vela.
— Pois
então? Tudo bem. Depois ela acende.
— Já tá
acesa.
— Se está
acesa, não tem problema. Quando ela sair da piscina, pega a vela e volta
direitinho pra casa.
Não vai
errar o caminho, a distância é pequena, e você sabe muito bem que sua avó não
precisa de guia.
— Por que
cê não acredita no que eu digo?
— Como
não acredito? Acredito sim.
— Cê não
tá acreditando.
— Você
falou que a sua avó caiu na piscina, eu acreditei e disse. Que é que você
queria que eu dissesse?
— Não,
pai, cê não acreditou ni mim.
— Ah,
você está me enchendo.Vamos acabar com isso. Eu acreditei, viu? Estou te
dizendo que acreditei.
Quantas
vezes você quer que eu diga isso? Ou você acha que estou dizendo que acreditei
mas estou mentindo? Fique sabendo que seu pai não gosta de mentir.
— Não te
chamei de mentiroso.
— Não
chamou, mas está duvidando de mim. Bem, não vamos discutir por causa de uma
bobagem.
Sua avó
caiu na piscina, e daí? É um direito dela. Não tem nada de extraordinário cair
na piscina. Eu só não caio porque estou meio resfriado.
— Ô, pai,
cê é de morte!
O garoto
sai desolado. Aquele velho não compreende mesmo nada. Daí a pouco chega a mãe:
—
Eduardo, você sabe que dona Marieta caiu na piscina?
— Até
você, Fátima? Não chega o Nelsinho vir com esta ladainha?
—
Eduardo, está escuro que nem breu, sua mãe tropeçou, escorregou e foi parar
dentro da piscina, ouviu? Está com a vela acesa na mão, pedindo que tirem ela
de lá, Eduardo! Não pode sair sozinha, está com a roupa encharcada, pesando
muito, e se você não for depressa ela vai ter uma coisa! Ela morre, Eduardo!
— Como?
Por que aquele diabo não me disse isto? Ele falou apenas que ela tinha caído na
piscina, não explicou que ela tinha tropeçado, escorregado e caído!
Saiu
correndo, nem esperou a vela, tropeçou, quase que ia parar também dentro d’
água:
— Mamãe,
me desculpe! O menino não me disse nada direito. Falou só que a senhora caiu na
piscina. Eu pensei que a senhora estava se banhando.
— Está
bem, Eduardo — disse dona Marieta, safando-se da água pela mão do filho, e
sempre empunhando a vela que conseguira manter acesa.— Mas de outra vez você
vai prestar mais atenção no sentido dos verbos, ouviu? Nelsinho falou direito,
você é que teve um acesso de burrice,meu filho!
6 Lixo
Encontram-se
na área de serviço. Cada um com seu pacote de lixo. É a primeira vez que se
falam.
— Bom
dia.
— Bom
dia.
— A
senhora é do 610.
— E o
senhor do 612.
— É…
— Eu
ainda não lhe conhecia pessoalmente…
— Pois é…
—
Desculpe a minha indiscrição, mas tenho visto o seu lixo…
— O meu o
quê?
— O seu
lixo.
— Ah…
— Reparei
que nunca é muito. Sua família deve ser pequena…
— Na
verdade sou só eu.
— Mmmm.
Notei também que o senhor usa muita comida em lata.
— É que
eu tenho que fazer minha própria comida. E como não sei cozinhar…
—
Entendo.
— A
senhora também…
— Me
chame de você.
— Você
também perdoe a minha indiscrição, mas tenho visto alguns restos de comida em
seu lixo. Champignons, coisas assim…
—É que eu
gosto muito de cozinhar. Fazer pratos diferentes. Mas como moro sozinha, às
vezes sobra…
— A
senhora… Você não tem família?
— Tenho,
mas não aqui.
— No
Espírito Santo.
— Como é
que você sabe?
— Vejo
uns envelopes no seu lixo. Do Espírito Santo.
— É,
mamãe escreve todas as semanas.
— Ela é
professora?
— Isso é
incrível! Como foi que você adivinhou?
— Pela
letra no envelope. Achei que era letra de professora.
— O
senhor não recebe muitas cartas. A julgar pelo seu lixo.
— Pois é…
— No
outro dia tinha um envelope de telegrama amassado.
— É.
— Más
notícias?
— Meu
pai. Morreu.
— Sinto
muito.
— Ele já
estava bem velhinho. Lá no Sul. Há tempos não nos víamos.
— Foi por
isso que você recomeçou a fumar?
*
Comédias da vida privada - 101 Crônicas Escolhidas de Luís Fernando Veríssimo.
22a ed. Porto Alegre, L&PM, 1996.
7 O troco
Tatiana Belinky
“Na
esquina da Sete de Abril com a Bráulio Gomes, o cafezinho era ótimo, e eu não
deixava de saboreá-lo sempre que andava nas proximidades. Naquela tarde, lá
estava eu, como de costume, esperando no balcão pelo meu puro-sem-açúcar,
quando reparei no garoto parado do lado de fora. Teria uns doze anos, e a roupa
surrada, grande demais, sobrava no seu corpo magrinho. Seus olhos escuros e
tristes passavam de um freguês para outro, até que se detiveram em mim. Ele
aproximou-se timidamente e disse baixinho:
- A senhora podia me
comprar um sanduíche?
Eu até
lhe compraria o sanduíche, mas aquele lugar era um balcão de bar, não uma
sanduicheria!
- Sinto muito, aqui não vendem sanduíches, menino – falei.
- Sinto muito, aqui não vendem sanduíches, menino – falei.
Mas o garoto retrucou de
pronto:
- Eu sei, mas tem lá na
frente! – E indicou uma lanchonete do outro lado da rua, na esquina da Marconi.
- Espere um momento –
falei e abri a bolsa à procura de uns trocados para o tal sanduíche, que devia
custar dois ou três cruzeiros (o cruzeiro era a moeda brasileira até 1994,
quando foi substituído pelo real). Só que a menor nota que encontrei na
carteira era uma grandinha, de cinqüenta cruzeiros; muito mais que o
necessário. Mas o garoto era tão subnutrido, tinha uma carinha tão triste, que
lhe estendi a nota de cinquenta, pensando: “Ele bem que precisa, isto lhe dará
para muitos sanduíches, bom proveito!”. E voltei-me para o cafezinho que
acabava de chegar, já esquecida do menino que saíra correndo, sem mesmo um
“muito obrigado”.
O cafezinho estava bom,
bem quente, e eu, degustando-o devagarinho, ainda estava no meio da xícara,
quando de repente aquele menino surgiu diante de mim, com o sanduíche numa mão
e algumas notas de dinheiro na outra, que ele me estendeu, muito sério:
- O seu troco, dona!
E como eu ficasse parada, sem reagir – de surpresa
-, ele meteu o dinheiro na minha mão, resoluto, e então sorriu:
- Muito obrigado!
E
foi-se embora, rápido, antes que eu pudesse dizer-lhe “fique com o troco”, como
era a minha vontade.
É verdade que eu podia ter ido atrás dele, podia tê-lo chamado, mas algo me disse, lá no meu íntimo, que eu não devia fazer isso. Devia mais era aceitar a dignidade com que aquela criança pobre não abusou do meu gesto, que, evidentemente, entendeu não como uma esmola, mas como uma prova de confiança na sua correção...".
É verdade que eu podia ter ido atrás dele, podia tê-lo chamado, mas algo me disse, lá no meu íntimo, que eu não devia fazer isso. Devia mais era aceitar a dignidade com que aquela criança pobre não abusou do meu gesto, que, evidentemente, entendeu não como uma esmola, mas como uma prova de confiança na sua correção...".
BELINKY,
Tatiana. Onde já se viu?
5ª. reimp. São Paulo: Ática, 2008. (p. 28-29)
Tatiana
Belinky nasceu em
São Petersburgo, na Rússia, em 1919, e aos dez anos migrou com a família para
São Paulo. Com o marido Julio Gouveia, adaptou obras infantis para a TV - como
Sítio do Pica-Pau Amarelo de Monteiro Lobato, entre outros clássicos. Tatiana é
poeta, tradutora, dramaturga, e consagrou-se principalmente por sua obra para
crianças. Seus livros e traduções já receberam diversos prêmios, como o Nestlé,
o Jabuti e o "Melhor para Criança" da FNLIJ (Fundação Nacional do
Livro Infantil e Juvenil).
8 A Bola
Luís
Fernando Veríssimo
O pai deu
uma bola de presente ao filho. Lembrando o prazer que sentira ao ganhar a sua
primeira bola do pai. Uma número 5 sem tento oficial de couro. Agora não era
mais de couro, era de plástico. Mas era uma bola.
O garoto
agradeceu, desembrulhou a bola e disse “ legal! “. Ou os que os garotos dizem
hoje em dia quando gostam do presente ou não querem magoar o velho. Depois
começou a girar a bola, à procura de alguma coisa.
- Como é
que liga?- Perguntou.
- Como,
como é que liga? Não se liga.
O garoto
procurou dentro do papel de embrulho.
- Não tem
nenhuma instrução?
O pai
começou a desanimar e a pensar que os tempos são outros. Que os tempos
decididamente outros.
- Não
precisa manual de instrução.
- O que é
que ela faz?
- Ela não
faz nada. Você é que faz coisas com ela.
- O que?
-
Controla, chuta...
- Ah,
então é uma bola?
- Claro
que é uma bola.
- Uma
bola, bola. Uma bola mesmo.
- Você
pensou que fosse o quê?
- Nada,
não.
O
garotinho agradeceu, disse “ Legal! “, de novo, e dali a pouco o pai o
encontrou na frente da tevê, com a bola nova do lado, manejando os controles de
um videogame. Algo chamado MONSTER BALL, em que times de monstrinhos disputavam
a posse de uma bola em forma de blip eletrônico na tela ao mesmo tempo que
tentava se destruir mutuamente.
O garoto era bom no jogo. Tinha coordenação e raciocínio rápido. Estava ganhando da máquina.
O garoto era bom no jogo. Tinha coordenação e raciocínio rápido. Estava ganhando da máquina.
O pai
pegou a bola nova ensaiou algumas embaixadinhas. Conseguiu equilibrar a bola no
peito do pé, como antigamente, e chamou o garoto.
- Filho,
olha.
O garoto
disse “ legal “, mas não desviou os olhos da tela. O pai segurou a bola com as
mãos e a cheirou, tentando recuperar mentalmente o cheiro do couro. A bola
cheirava a nada. Talvez um manual de instrução fosse uma boia ideia, pensou.
Mas em inglês, para a garotada se interessar.
09 Um
apólogo
Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:
- Por que
está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale
alguma coisa neste mundo?
-
Deixe-me, senhora.
- Que a
deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável?
Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.
- Que
cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que
lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua
vida e deixe a dos outros.
- Mas
você é orgulhosa.
- Decerto
que sou.
- Mas por
quê?
- É boa!
Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose,
senão eu?
- Você?
Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu, e
muito eu?
- Você
fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição
aos babados...
- Sim,
mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem
atrás, obedecendo ao que eu faço e mando...
- Também
os batedores vão adiante do imperador.
- Você
imperador?
- Não
digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai
só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que
prendo, ligo, ajunto...
Estavam
nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto
se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não
andar atrás dela.
Chegou a
costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na
agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano
adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como
os galgos de Diana – para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:
- Então,
senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não repara que esta distinta
costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela,
unidinha a eles, furando abaixo e acima...
A linha
não respondia nada; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por
ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir
palavras loucas. A agulha, vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se
também, e foi andando.
E era
tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic
da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o
dia seguinte; continuou ainda nesse e no outro, até que no quarto acabou a
obra, e ficou esperando o baile.
Veio a
noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se,
levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E
enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava a um lado ou outro,
arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha, para
mofar da agulha, perguntou-lhe:
- Ora
agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do
vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas,
enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio
das mucamas? Vamos, diga lá.
Parece
que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor
experiência murmurou à pobre agulha: - Anda, aprende tola. Cansas-te em abrir
caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha
de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam,
fico.
Contei
esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça:
- Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!
Vocabulário:
- Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!
Vocabulário:
Diana, nome romano de Artemis, a deusa da caça na mitologia grega.
Ela era uma
das doze divindade gregas do Olimpo, a mais popular das deusas do panteão
grego, inicialmente ligada à floresta e à caça, depois associou-se também à luz
da lua e à magia.
Galgos: os cães que acompanham Diana.
Coser: costurar - diferente de cozer: cozinhar.
Melancolia: tristeza profunda.
Batedores: seguranças que se colocam a frente de autoridades para protegê-las, geralmente em motos, carros ou a pé.
Mucamas: serviçais, pessoas que faziam o serviço caseiro durante a escravidão.
Balaio: cesto.
Baronesa: esposa de Barão, título antigo de nobreza.
10
Piscina
Fernando Sabino emsua Biblioteca
Era
uma esplêndida residência, na Lagoa Rodrigo de Freitas, cercada de jardins e
tendo ao lado uma bela piscina. Pena que a favela, com seus barracos grotescos
se alastrando pela encosta do morro, comprometesse tanto a paisagem.
Diariamente desfilavam diante do portão aquelas mulheres silenciosas e magras,
lata d’água na cabeça. De vez em quando surgia sobre a grade a carinha de uma
criança, olhos grandes e atentos, espiando o jardim. Outras vezes eram as
próprias mulheres que se detinham e ficavam olhando.
Naquela manhã de sábado ele tomava seu gim-tônico no terraço, e a mulher um
banho de sol, estirada de maiô à beira da piscina, quando perceberam que alguém
os observava pelo portão entreaberto.
Era um ser encardido, cujos molambos em forma de saia não bastavam para
defini-la como mulher. Segurava uma lata na mão, e estava parada, à espreita,
silenciosa como um bicho. Por um instante as duas mulheres se olharam,
separadas pela piscina.
De súbito parecer à dona da casa que a estranha criatura se esgueirava, portão
a dentro, sem tirar dela os olhos. Ergueu-se um pouco, apoiando-se no cotovelo,
e a piscina, agachava-se junto à borda de azulejos, sempre a olhá-la, em
desafio, e agora colhia água com a lata. Depois, sem uma palavra, iniciou uma
cautelosa retirada, meio de lado, equilibrando a lata na cabeça – e em pouco
tempo sumia-se pelo portão.
Lá no terraço, o marido, fascinado, assistiu a toda a cena. Não durou mais de
um ou dois minutos, mas lhe pareceu sinistra como os instantes tensos de
silêncio e de paz que antecedem um combate.
11Televisão
para dois
Fernando
Sabino
Ao chegar, ele via uma luz que se coava por baixo da porta para o corredor às
escuras. Era enfiar a chave na fechadura e a luz se apagava. Na sala, punha a
mão na televisão, só para se certificar: quente, como desconfiava. Às vezes
ainda pressentia movimento na cozinha:
-Etelvina,
é
você?
A preta aparecida, esfregando os olhos:
-Ouvi o senhor chegar...Quer um cafezinho?
Um dia ele abriu o jogo:
-Se você quiser ver televisão, quando eu não estou em casa, pode ver à vontade.
-Não precisa não, doutor. Não gosto de televisão.
-E eu muito menos.
Solteirão, morando sozinho, pouco parava em casa. A pobre da cozinheira metida
lá no seu quarto o dia inteiro, sozinha também, sem ter muito o que fazer...
Mas a verdade é que ele curtia o seu futebolzinho aos domingos, o noticiário
todas as noites e mesmo um ou outro capítulo da novela, “só para fazer sono”,
como costumava dizer:
-Tenho horror de televisão.
Um dia Etelvina acabou concordando:
-Já que o senhor não se incomoda...
Não sabia que ia se arrepender tão cedo: ao chegar da rua, a luz azulada sob a
porta já não se apagava quando introduzia a chave na fechadura. A princípio ela
ainda se erguia da ponta do sofá onde ousava se sentar muito ereta:
-Quer que eu desligue, doutor?
Com o tempo, ela foi deixando de se incomodar quando o patrão entrava, mal
percebia a sua chegada. E ele ia se refugiar no quarto, a que se reduzira seu
espaço útil dentro de casa. Se precisava vir até a sala para apanhar um livro,
mal ousava acender a luz:
-Com licença...
Nem ao menos tinha mais liberdade de circular pelo apartamento em trajes
menores, que era o que lhe restava de comodidade, na solidão em que vivia: a
cozinheira lá na sala a noite toda, olhos pregados na televisão.
Pouco a pouco ela se punha cada vez mais à
vontade, já derreada no sofá, e se dando mesmo ao direito de só servir o jantar
depois da novela das oito. Às vezes, ele vinha para casa mais cedo,
especialmente para ver determinado programa que lhe haviam recomendado, ficava
sem jeito de estar ali olhando ao lado dela, sentados os dois como amiguinhos.
Muito menos ousaria perturbá-la, mudando o canal, se o que lhe interessava
estivesse sendo mostrado em outra estação.
A solução do problema lhe surgiu um dia, quando alguém, muito espantado que ele
não tivesse televisão em cores, sugeriu-lhe que comprasse uma:
-Etelvina, pode levar essa televisão lá para o seu quarto, que hoje vai chegar
outra para mim.
-Não precisava, doutor – disse ela, mostrando os dentes, toda feliz.
Ele passou a ver tranqüilamente o que quisesse na sua sala, em cores, e, o que
era melhor, de cuecas – quando não inteiramente nu, se bem o desejasse.
Até que uma noite teve a surpresa de ver a luz por debaixo da porta, ao chegar.
Nem bem entrara e já não havia ninguém na sala, como antes – a televisão ainda
quente. Foi à cozinha a pretexto de beber um copo d’água, esticou um olho para
o quarto na área: a luz azulada, a preta entretida com a televisão certamente
recém-ligada.
-Não pensa que me engana, minha velha – resmungou ele.
Aquilo se repetiu algumas vezes, antes que ele resolvesse acabar com o abuso:
afinal, ela já tinha a dela, que diabo. Entrou uma noite de supetão e flagrou a
cozinheira às gargalhadas com um programa humorístico.
-Qual é, Etelvina? A sua quebrou?
-Colorido é tão mais bonito...
Desde então a dúvida se instalou no seu espírito: não sabe se despede a
empregada, se lhe confia o novo aparelho e traz de volta para a sala o antigo,
se deixa que ela assista a seu lado aos programas em cores.
O que significa praticamente casar-se com ela, pois, segundo a mais nova
concepção de casamento, a verdadeira felicidade conjugal consiste em ver
televisão a dois.
12
Clarice Lispector
Ela era
gora, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados.
Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas.
Como se
não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto com balas. Mas
possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: Um pai
dono de livraria.
Pouco
aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um
livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai.
Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, com suas pontes mais do que
vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como “data natalícia” e
“saudade”.
Mas que
talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com
barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente
bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma
ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a
que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela
não lia.Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma
tortura chinesa. Como que casualmente, informou-me que possuía As Reinações de
Narizinho, de Monteiro Lobato.Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para
se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o e completamente acima de minhas
posses.
Disse-me
que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria. Até o
dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia,
eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.No dia
seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como
eu e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me
que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para
buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava
toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de
andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o
dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o
amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí
nenhuma vez.
Mas não
ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era
tranqüilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um
sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não
estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais
tarde, no decorrer da vida, o drama do “dia seguinte” com ela ia se repetir com
meu coração batendo.E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era
tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já
começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho.
Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer
esteja precisando danadamente que eu sofra.
Quanto
tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela
dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de
modo que o emprestei a outra menina.E eu, que não era dada a olheiras, sentia
as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.
Até que
um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a
sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e
diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve
uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora
achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo.Até que essa mãe
boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este
livro nunca saiu aqui de casa e você nem quis ler!
E o pior
para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta
horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de
perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta,
ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme
e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: “E
você fica com o livro por quanto tempo quiser”. Entendem? Valia mais do que me
dar o livro: “pelo tempo que eu quisesse” é tudo o que uma pessoa, grande ou
pequena, pode ter a ousadia de querer.Como contar o que se seguiu? Eu estava
estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o
livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que
segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto
tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente,
meu coração pensativo.
Chegando
em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois Ter o susto
de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de
novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga,
fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns
instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que
era a felicidade.
A
felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia.
Como demorei! Eu vivia no ar. Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha
delicada.Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo,
sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.Não era mais uma menina com um livro: era uma
mulher com o seu amante.
13 Uma
vela para Dario
Dalton
Trevisan
Dario
vinha apressado, guarda-chuva no braço esquerdo e, assim que dobrou a esquina,
diminuiu o passo até parar, encostando-se à parede de uma casa. Por ela
escorregando, sentou-se na calçada, ainda úmida de chuva, e descansou na pedra
o cachimbo.
Dois ou
três passantes rodearam-no e indagaram se não se sentia bem. Dario abriu a
boca, moveu os lábios, não se ouviu resposta. O senhor gordo, de branco,
sugeriu que devia sofrer de ataque.
Ele
reclinou-se mais um pouco, estendido agora na calçada, e o cachimbo tinha
apagado. O rapaz de bigode pediu aos outros que se afastassem e o deixassem
respirar. Abriu-lhe o paletó, o colarinho, a gravata e a cinta. Quando lhe
retiraram os sapatos, Dario roncou feio e bolhas de espuma surgiram no canto da
boca.
Cada
pessoa que chegava erguia-se na ponta dos pés, embora não o pudesse ver. Os
moradores da rua conversavam de uma porta à outra, as crianças foram
despertadas e de pijama acudiram à janela. O senhor gordo repetia que Dario
sentara-se na calçada, soprando ainda a fumaça do cachimbo e encostando o
guarda-chuva na parede. Mas não se via guarda-chuva ou cachimbo a seu lado.
A
velhinha de cabeça grisalha gritou que ele estava morrendo. Um grupo o arrastou
para o táxi da esquina. Já no carro a metade do corpo, protestou o motorista: -
Quem pagaria a corrida? Concordaram chamar a ambulância. Dario conduzido de
volta e recostado à parede – não tinha os sapatos nem o alfinete de pérola na
gravata.
Alguém
informou da farmácia na outra rua. Não carregaram Dario além da esquina; a
farmácia no fim do quarteirão e, além do mais, muito pesado. Foi largado na
porta de uma peixaria. Enxame de moscas lhe cobriram o rosto, sem que fizesse
um gesto para espantá-las.
Ocupado o
café próximo pelas pessoas que vieram apreciar o incidente e, agora, comendo e
bebendo, gozavam as delícias da noite. Dario ficou torto como o deixaram, no
degrau da peixaria, sem o relógio de pulso.
Um
terceiro sugeriu que lhe examinassem os papéis, retirados – com vários objetos
– de seus bolsos e alinhados sobre a camisa branca. Ficaram sabendo do nome,
idade, sinal de nascença. O endereço na carteira era de outra cidade.
Registrou-se
correria de mais de duzentos curiosos que, a essa hora, ocupavam toda a rua e
as calçadas: era a polícia. O carro negro investiu a multidão. Várias pessoas
tropeçaram no corpo de Dario, que foi pisoteado dezessete vezes.
O guarda
aproximou-se do cadáver e não pôde identificá-lo – os bolsos vazios. Restava a
aliança de ouro na mão esquerda, que ele próprio – quando vivo – só podia
destacar umedecida com sabonete. Ficou decidido que o caso era com o rabecão.
A última
boca repetiu – Ele morreu, ele morreu. A gente começou a se dispersar.
Dario levara duas horas para morrer, ninguém acreditou que estivesse no fim.
Agora, aos que podiam vê-lo, tinha todo o ar de um defunto.
Um senhor
piedoso despiu o paletó de Dario para lhe sustentar a cabeça. Cruzou as suas
mãos no peito. Não pôde fechar os olhos nem a boca, onde a espuma tinha
desaparecido. Apenas um homem morto e a multidão se espalhou, as mesas do café
ficaram vazias. Na janela, alguns moradores com almofadas para descansar os
cotovelos.
Um menino
de cor e descalço veio com uma vela, que acendeu ao lado do cadáver. Parecia
morto há muitos anos, quase o retrato de um morto desbotado pela chuva.
Fecharam-se
uma a uma as janelas e, três horas depois, lá estava Dario à espera do rabecão.
A cabeça agora na pedra, sem o paletó, e o dedo sem a aliança. A vela tinha
queimado até a metade e apagou-se às primeiras gotas da chuva, que voltava a
cair.
Biografia: Dalton Trevisan é curitibano.
Biografia: Dalton Trevisan é curitibano.
"O
que não me contam, eu escuto atrás das portas. O que não sei,
adivinho e, com sorte, você adivinha sempre o que,
cedo ou tarde, acaba acontecendo." (O vampiro de Curitiba, Dalton Trevisan)
adivinho e, com sorte, você adivinha sempre o que,
cedo ou tarde, acaba acontecendo." (O vampiro de Curitiba, Dalton Trevisan)
Nascido
em 14 de junho de 1925, o curitibano Dalton
Jérson Trevisan sempre
foi enigmático. Antes de chegar ao grande público, quando ainda era estudante
de Direito, costumava lançar seus contos em modestíssimos folhetos. Em 1945
estreou-se com um livro de qualidade incomum, Sonata ao Luar, e, no ano seguinte, publicou Sete Anos de Pastor.
Entre
1946 e 1948, editou a revista Joaquim, "uma homenagem a todos os
Joaquins do Brasil". A publicação tornou-se porta-voz de uma geração de
escritores, críticos e poetas nacionais. Reunia ensaios assinados por Antonio
Cândido, Mario de Andrade e Otto Maria Carpeaux e poemas até então inéditos,
como O caso do vestido, de Carlos Drummond de Andrade. Além disso,
trazia traduções originais de Joyce, Proust, Kafka, Sartre e Gide e era
ilustrada por artistas como Poty, Di Cavalcanti e Heitor dos Prazeres.
Já
nessa época, Trevisan era avesso a fotografias e jamais dava
entrevistas.
Dedicando-se
exclusivamente ao conto (só teve um romance publicado: "A Polaquinha"),
Dalton Trevisan acabou se tornando o maior mestre brasileiro no gênero.
Em 1996, recebeu o Prêmio Ministério da Cultura de Literatura pelo conjunto de
sua obra. Mas Trevisan continua recusando a fama. Cria uma atmosfera de
suspense em torno de seu nome que o transforma num enigmático personagem. Não
cede o número do telefone, assina apenas "D. Trevis" e não recebe
visitas — nem mesmo de artistas consagrados. Enclausura-se em casa de tal forma
que mereceu o apelido de O Vampiro de Curitiba, título de um de
seus livros.
Trabalhador
incansável, fidelíssimo ao conto, elabora até a exaustão e a economia mais
absoluta, formiguinha, chuvinha renitente e criadeira, a ponto de chegar ao
tamanho do haicai, Dalton Trevisan insiste ontem, hoje, em Curitiba e
trabalhando sobre as gentes curitibanas ("curitibocas", vergasta-as
com chibata impiedosa) e prossegue, com independência solene e temperamento
singular, na construção e dissecação da supra-realidade de luas, crianças,
amantes, velhos, cachorros e vampiros. E polaquinhas, deveras."
Fonte:
site Releituras.
14 A
partida
Osman
Lins
Hoje,
revendo minhas atitudes quando vim embora, reconheço que mudei bastante.
Verifico também que estava aflito e que havia um fundo de mágoa ou desespero em
minha impaciência. Eu queria deixar minha casa, minha avó e seus cuidados.
Estava farto de chegar a horas certas, de ouvir reclamações; de ser vigiado,
contemplado, querido. Sim, também a afeição de minha avó incomodava-me. Era
quase palpável, quase como um objeto, uma túnica, um paletó justo que eu não
pudesse despir.
Ela vivia
a comprar-me remédios, a censurar minha falta de modos, a olhar-me, a repetir
conselhos que eu já sabia de cor. Era boa demais, intoleravelmente boa e
amorosa e justa.
Na
véspera da viagem, enquanto eu a ajudava a arrumar as coisas na maleta, pensava
que no dia seguinte estaria livre e imaginava o amplo mundo no qual iria desafogar-me:
passeios, domingos sem missa, trabalho em vez de livros, mulheres nas praias,
caras novas. Como tudo era fascinante! Que viesse logo. Que as horas corressem
e eu me encontrasse imediatamente na posse de todos esses bens que me
aguardavam. Que as horas voassem, voassem!
Percebi
que minha avó não me olhava. A princípio, achei inexplicável ela fizesse isso,
pois costumava fitar-me, longamente, com uma ternura que incomodava. Tive raiva
do que me parecia um capricho e, como represália, fui para a cama.
Deixei a
luz acesa. Sentia não sei que prazer em contar as vigas do teto, em olhar para
a lâmpada. Desejava que nenhuma dessas coisas me afetasse e irritava-me por
começar a entender que não conseguiria afastar-me delas sem emoção.
Minha avó
fechara a maleta e agora se movia, devagar, calada, fiel ao seu hábito de fazer
arrumações tardias. A quietude da casa parecia triste e ficava mais nítida com
os poucos ruídos aos quais me fixava: manso arrastar de chinelos, cuidadoso
abrir e lento fechar de gavetas, o tique-taque do relógio, tilintar de
talheres, de xícaras.
Por fim, ela veio ao meu quarto, curvou-se:
Por fim, ela veio ao meu quarto, curvou-se:
—
Acordado?
Apanhou o lençol e ia cobrir-me (gostava disto, ainda hoje o faz quando a visito); mas pretextei calor, beijei sua mão enrugada e, antes que ela saísse, dei-lhe as costas.
Apanhou o lençol e ia cobrir-me (gostava disto, ainda hoje o faz quando a visito); mas pretextei calor, beijei sua mão enrugada e, antes que ela saísse, dei-lhe as costas.
Não
consegui dormir. Continuava preso a outros rumores. E quando estes se esvaíam,
indistintas imagens me acossavam. Edifícios imensos, opressivos, barulho de
trens, luzes, tudo a afligir-me, persistente, desagradável — imagens de febre.
Sentei-me
na cama, as têmporas batendo, o coração inchado, retendo uma alegria dolorosa,
que mais parecia um anúncio de morte. As horas passavam, cantavam grilos, minha
avó tossia e voltava-se no leito, as molas duras rangiam ao peso de seu corpo.
A tosse passou, emudeceram as molas; ficaram só os grilos e os relógios.
Deitei-me.
Passava
de meia-noite quando a velha cama gemeu: minha avó levantava-se. Abriu de leve
a porta de seu quarto, sempre de leve entrou no meu, veio chegando e ficou de
pé junto a mim. Com que finalidade? — perguntava eu. Cobrir-me ainda?
Repetir-me conselhos? Ouvi-a então soluçar e quase fui sacudido por um acesso
de raiva. Ela estava olhando para mim e chorando como se eu fosse um cadáver —
pensei. Mas eu não me parecia em nada com um morto, senão no estar deitado.
Estava vivo, bem vivo, não ia morrer. Sentia-me a ponto de gritar. Que me
deixasse em paz e fosse chorar longe, na sala, na cozinha, no quintal, mas
longe de mim. Eu não estava morto.
Afinal,
ela beijou-me a fronte e se afastou, abafando os soluços. Eu crispei as mãos
nas grades de ferro da cama, sobre as quais apoiei a testa ardente. E adormeci.
Acordei pela madrugada. A princípio com tranqüilidade, e logo com obstinação, quis novamente dormir. Inútil, o sono esgotara-se. Com precaução, acendi um fósforo: passava das três. Restavam-me, portanto, menos de duas horas, pois o trem chegaria às cinco. Veio-me então o desejo de não passar nem uma hora mais naquela casa.
Acordei pela madrugada. A princípio com tranqüilidade, e logo com obstinação, quis novamente dormir. Inútil, o sono esgotara-se. Com precaução, acendi um fósforo: passava das três. Restavam-me, portanto, menos de duas horas, pois o trem chegaria às cinco. Veio-me então o desejo de não passar nem uma hora mais naquela casa.
Partir,
sem dizer nada, deixar quanto antes minhas cadeias de disciplina e de amor.
Com
receio de fazer barulho, dirigi-me à cozinha, lavei o rosto, os dentes,
penteei-me e, voltando ao meu quarto, vesti-me. Calcei os sapatos, sentei-me um
instante à beira da cama. Minha avó continuava dormindo. Deveria fugir ou falar
com ela? Ora, algumas palavras... Que me custava acordá-la, dizer-lhe adeus?
Ela
estava encolhida, pequenina, envolta numa coberta escura. Toquei-lhe no ombro,
ela se moveu, descobriu-se. Quis levantar-se e eu procurei detê-la. Não era preciso,
eu tomaria um café na estação. Esquecera de falar com um colega e, se fosse
esperar, talvez não houvesse mais tempo. Ainda assim, levantou-se. Ralhava
comigo por não tê-la despertado antes, acusava-se de ter dormido muito. Tentava
sorrir.
Não sei por
que motivo, retardei ainda a partida. Andei pela casa, cabisbaixo, à procura de
objetos imaginários enquanto ela me seguia, abrigada em sua coberta. Eu sabia
que desejava beijar-me, prender-se a mim, e à simples idéia desses gestos,
estremeci. Como seria se, na hora do adeus, ela chorasse?
Enfim,
beijei sua mão, bati-lhe de leve na cabeça. Creio mesmo que lhe surpreendi um
gesto de aproximação, decerto na esperança de um abraço final. Esquivei-me,
apanhei a maleta e, ao fazê-lo, lancei um rápido olhar para a mesa
(cuidadosamente posta para dois, com a humilde louça dos grandes dias e a velha
toalha branca, bordada, que só se usava em nossos aniversários.
(Osman
Lins nasceu a 5 de julho de 1924, em
Vitória de Santo Antão (PE). Publicou seu primeiro romance, O visitante, em
1955 e, em 1957, Os gestos. Em 1960, concluiu o curso de dramaturgia na Escola
de Belas Artes, da Universidade do Recife. Estreou peça de sua autoria, Lisbela
e o prisioneiro, no Rio de Janeiro, em 1961. No mesmo ano, editou o romance O Fiel
e a Pedra. Em seguida viajou para a Europa como bolsista da Alliance Française.
Em 1962, transferiu-se para São Paulo. Publicou, em 1966, Nove, novena,
narrativas e Um mundo estagnado, ensaios sobre livros didáticos de português e
a peça Guerra do "Cansa-Cavalo" . Obras do autor: O visitante (1955)
romance, Os gestos (1957) contos, O fiel e a pedra (1961) romance, Marinheiro
de primeira viagem (1963) notas de viagem, Lisbela e o prisioneiro (1964)
teatro, Nove, Novena (1966) narrativas, Um mundo estagnado (1966) ensaio,
"Capa Verde" e o Natal (1967) teatro infantil, Guerra do "Cansa
Cavalo" (1967) teatro, Guerra sem testemunhas: o escritor, sua condição e
a realidade social (1969) ensaio, Avalovara (1973) romance, Santa, automóvel e
soldado (1975) teatro, Lima Barreto e o espaço romanesco (1976) ensaio e A
Rainha dos Cárceres da Grécia (1976), romance.
Seu conto "A ilha no espaço" foi adaptado e apresentada no programa Caso Especial da TV Globo.
Seu conto "A ilha no espaço" foi adaptado e apresentada no programa Caso Especial da TV Globo.
15 Uma
Galinha
Clarice
Lispector
Era uma
galinha de domingo. Ainda viva porque não passava de nove horas da manhã.
Parecia
calma. Desde sábado encolhera-se num canto da cozinha. Não olhava para ninguém,
ninguém olhava para ela. Mesmo quando a escolheram, apalpando sua intimidade
com indiferença, não souberam dizer se era gorda ou magra. Nunca se adivinharia
nela um anseio.
Foi pois
uma surpresa quando a viram abrir as asas de curto vôo, inchar o peito e, em
dois ou três lances, alcançar a murada do terraço. Um instante ainda vacilou —
o tempo da cozinheira dar um grito — e em breve estava no terraço do vizinho,
de onde, em outro vôo desajeitado, alcançou um telhado. Lá ficou em adorno
deslocado, hesitando ora num, ora noutro pé. A família foi chamada com urgência
e consternada viu o almoço junto de uma chaminé. O dono da casa, lembrando-se
da dupla necessidade de fazer esporadicamente algum esporte e de almoçar,
vestiu radiante um calção de banho e resolveu seguir o itinerário da galinha:
em pulos cautelosos alcançou o telhado onde esta, hesitante e trêmula, escolhia
com urgência outro rumo. A perseguição tornou-se mais intensa. De telhado a
telhado foi percorrido mais de um quarteirão da rua. Pouco afeita a uma luta
mais selvagem pela vida, a galinha tinha que decidir por si mesma os caminhos a
tomar, sem nenhum auxílio de sua raça. O rapaz, porém, era um caçador
adormecido. E por mais ínfima que fosse a presa o grito de conquista havia
soado.
Sozinha
no mundo, sem pai nem mãe, ela corria, arfava, muda, concentrada. Às vezes, na
fuga, pairava ofegante num beiral de telhado e enquanto o rapaz galgava outros
com dificuldade tinha tempo de se refazer por um momento. E então parecia tão
livre.
Estúpida,
tímida e livre. Não vitoriosa como seria um galo em fuga. Que é que havia nas
suas vísceras que fazia dela um ser? A galinha é um ser. É verdade que não se
poderia contar com ela para nada. Nem ela própria contava consigo, como o galo
crê na sua crista. Sua única vantagem é que havia tantas galinhas que morrendo
uma surgiria no mesmo instante outra tão igual como se fora a mesma.
Afinal,
numa das vezes em que parou para gozar sua fuga, o rapaz alcançou-a. Entre
gritos e penas, ela foi presa. Em seguida carregada em triunfo por uma asa
através das telhas e pousada no chão da cozinha com certa violência. Ainda
tonta, sacudiu-se um pouco, em cacarejos roucos e indecisos. Foi então que
aconteceu. De pura afobação a galinha pôs um ovo. Surpreendida, exausta. Talvez
fosse prematuro. Mas logo depois, nascida que fora para a maternidade, parecia
uma velha mãe habituada. Sentou-se sobre o ovo e assim ficou, respirando,
abotoando e desabotoando os olhos. Seu coração, tão pequeno num prato, solevava
e abaixava as penas, enchendo de tepidez aquilo que nunca passaria de um ovo.
Só a menina estava perto e assistiu a tudo estarrecida. Mal porém conseguiu
desvencilhar-se do acontecimento, despregou-se do chão e saiu aos gritos:
— Mamãe,
mamãe, não mate mais a galinha, ela pôs um ovo! ela quer o nosso bem!
Todos
correram de novo à cozinha e rodearam mudos a jovem parturiente.
Esquentando
seu filho, esta não era nem suave nem arisca, nem alegre, nem triste, não era
nada, era uma galinha. O que não sugeria nenhum sentimento especial.
O pai, a
mãe e a filha olhavam já há algum tempo, sem propriamente um pensamento
qualquer. Nunca ninguém acariciou uma cabeça de galinha. O pai afinal
decidiu-se com certa brusquidão:
— Se você
mandar matar esta galinha nunca mais comerei galinha na minha vida!
— Eu
também! jurou a menina com ardor. A mãe, cansada, deu de ombros.
Inconsciente da vida que lhe fora entregue, a galinha passou a morar com a família. A menina, de volta do colégio, jogava a pasta longe sem interromper a corrida para a cozinha. O pai de vez em quando ainda se lembrava: "E dizer que a obriguei a correr naquele estado!" A galinha tornara-se a rainha da casa. Todos, menos ela, o sabiam. Continuou entre a cozinha e o terraço dos fundos, usando suas duas capacidades: a de apatia e a do sobressalto.
Inconsciente da vida que lhe fora entregue, a galinha passou a morar com a família. A menina, de volta do colégio, jogava a pasta longe sem interromper a corrida para a cozinha. O pai de vez em quando ainda se lembrava: "E dizer que a obriguei a correr naquele estado!" A galinha tornara-se a rainha da casa. Todos, menos ela, o sabiam. Continuou entre a cozinha e o terraço dos fundos, usando suas duas capacidades: a de apatia e a do sobressalto.
Mas
quando todos estavam quietos na casa e pareciam tê-la esquecido, enchia-se de
uma pequena coragem, resquícios da grande fuga — e circulava pelo ladrilho, o
corpo avançando atrás da cabeça, pausado como num campo, embora a pequena
cabeça a traísse: mexendo-se rápida e vibrátil, com o velho susto de sua
espécie já mecanizado.
Uma vez
ou outra, sempre mais raramente, lembrava de novo a galinha que se recortara
contra o ar à beira do telhado, prestes a anunciar. Nesses momentos enchia os
pulmões com o ar impuro da cozinha e, se fosse dado às fêmeas cantar, ela não
cantaria mas ficaria muito mais contente. Embora nem nesses instantes a
expressão de sua vazia cabeça se alterasse. Na fuga, no descanso, quando deu à
luz ou bicando milho — era uma cabeça de galinha, a mesma que fora desenhada no
começo dos séculos.
Até que
um dia mataram-na, comeram-na e passaram-se anos.
Texto extraído do livro “Laços de Família”, Editora Rocco — Rio de Janeiro, 1998,
pág. 30. Selecionado por Ítalo Moriconi, figura na publicação “Os Cem
Melhores Contos Brasileiros do Século”.
16 O
Homem Nu
Fernando
Sabino
Ao acordar, disse para a mulher:
— Escuta, minha filha: hoje é dia
de pagar a prestação da televisão, vem aí o sujeito com a conta, na
certa. Mas acontece que ontem eu não trouxe dinheiro da cidade, estou a
nenhum.
— Explique isso ao homem —
ponderou a mulher.
— Não gosto dessas coisas. Dá um
ar de vigarice, gosto de cumprir rigorosamente as minhas obrigações. Escuta:
quando ele vier a gente fica quieto aqui dentro, não faz barulho, para ele
pensar que não tem ninguém. Deixa ele bater até cansar — amanhã eu pago.
Pouco
depois, tendo despido o pijama, dirigiu-se ao banheiro para tomar um banho, mas
a mulher já se trancara lá dentro. Enquanto esperava, resolveu fazer um café.
Pôs a água a ferver e abriu a porta de serviço para apanhar o pão. Como
estivesse completamente nu, olhou com cautela para um lado e para outro antes
de arriscar-se a dar dois passos até o embrulhinho deixado pelo padeiro sobre o
mármore do parapeito. Ainda era muito cedo, não poderia aparecer ninguém. Mal
seus dedos, porém, tocavam o pão, a porta atrás de si fechou-se com estrondo,
impulsionada pelo vento.
Aterrorizado,
precipitou-se até a campainha e, depois de tocá-la, ficou à espera, olhando
ansiosamente ao redor. Ouviu lá dentro o ruído da água do chuveiro
interromper-se de súbito, mas ninguém veio abrir. Na certa a mulher pensava que
já era o sujeito da televisão. Bateu com o nó dos dedos:
— Maria!
Abre aí, Maria. Sou eu — chamou, em voz baixa.
Quanto
mais batia, mais silêncio fazia lá dentro.
Enquanto
isso, ouvia lá embaixo a porta do elevador fechar-se, viu o ponteiro subir
lentamente os andares... Desta vez, era o homem da televisão!
Não era.
Refugiado no lanço da escada entre os andares, esperou que o elevador passasse,
e voltou para a porta de seu apartamento, sempre a segurar nas mãos nervosas o
embrulho de pão:
— Maria,
por favor! Sou eu!
Desta vez
não teve tempo de insistir: ouviu passos na escada, lentos, regulares, vindos
lá de baixo... Tomado de pânico, olhou ao redor, fazendo uma pirueta, e assim
despido, embrulho na mão, parecia executar um ballet grotesco e mal ensaiado.
Os passos na escada se aproximavam, e ele sem onde se esconder. Correu para o
elevador, apertou o botão. Foi o tempo de abrir a porta e entrar, e a empregada
passava, vagarosa, encetando a subida de mais um lanço de escada. Ele respirou
aliviado, enxugando o suor da testa com o embrulho do pão.
Mas eis
que a porta interna do elevador se fecha e ele começa a descer.
— Ah,
isso é que não! — fez o homem nu, sobressaltado. E agora? Alguém lá
embaixo abriria a porta do elevador e daria com ele ali, em pêlo, podia mesmo
ser algum vizinho conhecido... Percebeu, desorientado, que estava sendo levado
cada vez para mais longe de seu apartamento, começava a viver um verdadeiro
pesadelo de Kafka, instaurava-se naquele momento o mais autêntico e desvairado
Regime do Terror!
— Isso é
que não — repetiu, furioso.
Agarrou-se
à porta do elevador e abriu-a com força entre os andares, obrigando-o a
parar. Respirou fundo, fechando os olhos, para ter a momentânea ilusão de
que sonhava. Depois experimentou apertar o botão do seu andar. Lá embaixo
continuavam a chamar o elevador. Antes de mais nada: "Emergência:
parar". Muito bem. E agora? Iria subir ou descer? Com cautela
desligou a parada de emergência, largou a porta, enquanto insistia em fazer o
elevador subir. O elevador subiu.
— Maria!
Abre esta porta! — gritava, desta vez esmurrando a porta, já sem nenhuma
cautela. Ouviu que outra porta se abria atrás de si.
Voltou-se,
acuado, apoiando o traseiro no batente e tentando inutilmente cobrir-se com o
embrulho de pão. Era a velha do apartamento vizinho:
— Bom
dia, minha senhora — disse ele, confuso. — Imagine que eu...
A velha,
estarrecida, atirou os braços para cima, soltou um grito:
—
Valha-me Deus! O padeiro está nu!
E correu
ao telefone para chamar a radiopatrulha:
— Tem um
homem pelado aqui na porta!
Outros
vizinhos, ouvindo a gritaria, vieram ver o que se passava:
— É um
tarado!
— Olha,
que horror!
— Não
olha não! Já pra dentro, minha filha!
Maria, a
esposa do infeliz, abriu finalmente a porta para ver o que era. Ele entrou como
um foguete e vestiu-se precipitadamente, sem nem se lembrar do banho. Poucos
minutos depois, restabelecida a calma lá fora, bateram na porta.
— Deve
ser a polícia — disse ele, ainda ofegante, indo abrir.
Não era:
era o cobrador da televisão.
Fernando
Sabino. Extraída do livro de mesmo nome, Editora do
Autor
- Rio de Janeiro, 1960, pág. 65.
17 Os
flamboyants
A manhã estava linda: céu azul, ventinho fresco. Infelizmente, muitas obrigações me aguardavam. Coisas que eu tinha de fazer. Aí, lembrei-me do menino-filósofo chamado Nietzsche que dizia que ficar em casa estudando, quando tudo é lindo lá fora, é uma evidência de estupidez. Mandei as obrigações às favas e fui caminhar na lagoa do Taquaral.
Bem, não fui mesmo caminhar. Meu desejo não era médico, caminhar para combater o colesterol. Caminhar, para mim, é uma desculpa para ver, para cheirar, para ouvir... Caminho para levar meus sentidos a dar um passeio. Tanta coisa: os patos, os gansos, os eucaliptos, as libélulas, a brisa acarinhando a pele — os pensamentos esquecidos dos deveres. Sem pensar, porque, como disse Caeiro, "pensar é estar doente dos olhos". Aí, quando já me preparava para ir embora, já no carro, vejo um amigo. Paramos. Papeamos. Ele, com uma máquina fotográfica. Andava por lá, fotografando. Não tenho autorização para dizer o nome dele. Vou chamá-lo de Romeu, aquele que amava a Julieta. Me confidenciou: "Vou fazer uma surpresa para a Julieta. Ela adora os flamboyants. E eles estão maravilhosos. Vou fazer um álbum de fotografias de flamboyants para ela... Você não quer vir até a nossa casa para tomar um cafezinho?"
Fui. Mas ele me advertiu: "Não diga nada para ela. É surpresa..." Esta história tem sua continuação um pouco abaixo. Recomeço em outro lugar.
As crianças da 3ª série do Parthenon, escola linda, me convidaram para uma visita. Elas tinham estado fazendo um trabalho sobre um livrinho que escrevi, O Gambá Que Não Sabia Sorrir. Queriam me mostrar. Foi uma gostosura. É uma felicidade sentir-se amado pelas crianças. Eu me senti feliz. Aí aconteceu uma coisa que não estava no programa. Uma menininha, na hora das perguntas, disse que ela havia lido a minha crônica Se Eu Tiver Apenas Um Ano a Mais de Vida...
Espantei-me ao saber que uma menina de nove anos lia minhas crônicas. Lia e gostava. Lia e entendia. Aí ela acrescentou: "Recortei a crônica e trouxe para a professora..." Confirmou-se aquilo de que eu sempre suspeitara: as crianças são mais sábias que os adultos. Porque o fato é que muitos adultos ficaram espantados e não quiseram brincar de fazer de contas que eles tinham apenas um ano a mais para viver. Ficaram com medo. Acharam mórbido.
As crianças, inconscientemente, sabem que a vida é coisa muito frágil, feito uma bolha de sabão. Minha filha Raquel tinha apenas dois anos. Eram seis horas da manhã. Eu estava dormindo. Ela saiu da caminha dela e veio me acordar. Veio me acordar porque ela estava lutando com uma idéia que a fazia sofrer. Sacudiu-me, eu acordei, sorri para ela, e ela me disse: "Papai, quando você morrer você vai sentir saudades?" Eu fiquei pasmo, sem saber o que dizer. Mas aí ela me salvou: "Não chore porque eu vou abraçar você..."
As crianças sabem que a vida é marcada por perdas. As pessoas morrem, partem. Partindo, devem sentir saudades — porque a vida é tão boa! Por isso, o que nos resta fazer é abraçar o que amamos enquanto a bolha não estoura.
Os adultos não sabem disso porque foram educados. Um dos objetivos da educação é fazer-nos esquecer da morte. Você conhece alguma escola em que se fale sobre a morte com os alunos? É preciso esquecer da morte para levar a sério os deveres. Esquecidos da morte, a bolha de sabão vira esfera de aço. Inconscientes da morte aceitamos como naturais as cargas de repressão, sofrimento e frustração que a realidade social nos impõe. Quem sabe que a vida é bolha de sabão passa a desconfiar dos deveres... E, como disse Walt Whitmann, "quem anda duzentos metros sem vontade, anda seguindo o próprio funeral, vestindo a própria mortalha".
O pessoal da poesia está levando a sério a brincadeira. Eu mesmo já fiz vários cortes drásticos em compromissos que assumi. Eram esferas de aço. Transformei-os em bolhas de sabão e os estourei. Pois o pessoal da poesia decidiu que, no programa de um ano de vida apenas, num dos nossos encontros não haveria leitura de poesia: haveria brinquedos e brincadeiras. Cada um trataria de desenterrar os brinquedos que os deveres haviam enterrado.
Obedeci. Abri o meu baú de brinquedos. Piões, corrupios, bilboquês, iô-iôs e uma infinidade de outros brinquedos que não têm nome. Seria indigno que eu levasse piões e não soubesse rodá-los. Peguei um pião e uma fieira e fui praticar. Estava rodando o pião no meu jardim quando um cliente chegou. Olhou-me espantado. Ele não imaginava que psicanalistas rodassem piões. Psicanalista é pessoa séria, ser do dever. Pião é coisa de criança, ser do prazer.
Acho que meus colegas psicanalistas concordariam com meu paciente. A teoria diz que um cliente nada deve saber da vida do psicanalista. O psicanalista deve ser apenas um espaço vazio, tela onde o paciente projeta suas identificações. Mas a minha vocação é a heresia. Ando na direção contrária. "Você sabe rodar piões?", eu perguntei. Ele não sabia. Acho que ficou com inveja. A sessão de terapia foi sobre isso. E ele me disse que um dos seus maiores problemas era o medo do ridículo. Crianças são ridículas. Adultos não são ridículos. Aí conversamos sobre uma coisa sobre a qual eu nunca havia pensado: que, talvez, uma das funções da terapia seja fazer com que as pessoas não tenham medo das coisas que os "outros" definem como ridículo. Quem não tem medo do ridículo está livre do olhar dos outros.
Preparei o encontro de poesia de um jeito diferente. Nada de sopas sofisticadas. Fui procurar macarrão de letrinha, coisa de criança. Não encontrei. Encontrei estrelinhas. Fiz sopa de estrelinhas. E toda festa de criança tem de ter cachorro-quente. Fiz molho de cachorro-quente. E nada de vinho. Criança não gosta de vinho. Gosta é de guaraná.
Foi uma alegria, todo mundo brincando: iô-iôs, piões, corrupios, bilboquês, quebra-cabeças, pererecas (aquelas bolas coloridas na ponta de um elástico)... Rimos a mais não poder. Todo mundo ficou leve. Aí tive uma idéia que muito me divertiu: que na sala de visitas das casas houvesse um baú de brinquedos. Quando a conversa fica chata, a gente abre o baú de brinquedos e faz o convite: "Não gostaria de brincar com corrupio?" E a gente começa a brincar com o corrupio e a rir. A visita fica pasma. Não entende. "Quem sabe, ao invés do corrupio, um bilboquê?" E a gente brinca com o bilboquê. Aí a gente estende o brinquedo para a visita e diz: "Por favor, nada de acanhamentos! Experimente. Você vai gostar..." São duas as possibilidades. Primeira: a visita brinca e gosta e dá risadas. Segunda: ela acha que somos ridículos e trata de se despedir para nunca mais voltar...
Pois a Julieta — aquela do Romeu — me trouxe uma pipa de presente. Vou empinar a pipa em algum gramado da Unicamp. E aí ela nos contou da surpresa que lhe fizera o Romeu. Fotografias de flamboyants vermelhos — que coisa mais romântica! Árvores em chamas, incendiadas! Cada apaixonado é um flamboyant vermelho! E nos contou das coisas que o Romeu tivera que fazer para que ela não descobrisse o que ele estava preparando.
Mas o mais bonito foi o que ele lhe disse, na entrega do presente. Não sei se foi isso mesmo que ele disse. Sei que foi mais ou menos assim: "Sabe, Julieta, aquela história de ter um ano apenas a mais para viver... Pensei que você gostava de flamboyants e que você ficaria feliz com um álbum de flamboyants. E concluí que, se eu tiver um ano apenas a mais para viver, o que quero é fazer as coisas que farão você feliz..."
Um ano apenas a mais para viver: aí os sentimentos se tornam puros. As palavras que devem ser ditas, devem ser ditas agora. Os atos que devem ser feitos, devem ser feitos agora. Quem acha que vai viver muito tempo fica deixando tudo para depois. A vida ainda não começou. Vai começar depois da construção da casa, depois da educação dos filhos, depois da segurança financeira, depois da aposentadoria...
As flores dos flamboyants, dentro de poucos dias, terão caído. Assim é a vida. É preciso viver enquanto a chama do amor está queimando...
O texto acima foi extraído do jornal "Correio
Popular", de Campinas (SP), onde o escritor mantém coluna bissemanal.
18 Conto
de Natal
Era um
Papai-Noel mais subdesenvolvido do que - digamos - o Piauí. Uma barba mixuruquíssima,
rala, encardida, que ele acabou por puxar para debaixo do queixo, na esperança
de diminuir o calor.
Sim,
porque fazia calor.
A calçada
refletia por debaixo das calças dos transeuntes o seu bafo quente, o que
ocorria também por debaixo das saias das passantes, mas esta imagem é mais
refrescante e talvez não dê ao leitor a idéia do calor que fazia. A turba
ignara ia e vinha, carregada de embrulhos, vítima da desonestidade dos
comerciantes, mas, ávida de comprar presentinhos.
E o Papai
Noel avacalhado ali na esquina, badalando. Era um sininho de som fino, que ele
badalava meio sem jeito, como se estivesse disfarçando alguma coisa sem aquela
dignidade de badalar de sino dos verdadeiros Papais- Noeis.
Também a
roupa era mixa! A blusa não tinha aquela vermelhidão dos Papais-Noeis de
capa de revistas. Nunquinha Madalena. Era cor-de-rosa, daquele cor-de-rosa das
camisas que usam componentes de blocos de sujo, no Carnaval carioca. Isto,
inclusive, talvez fosse verdade: aquele Papai-Noel era tão vagabundo que era
bem possível que tivesse aproveitado o uniforme do Carnaval anterior, para o
Natal.
Tia
Zulmira, protegida pela sombra de uma marquise, aguardava condução e observava
o Papai Noel. Observava, por exemplo, que o Papai-Noel usava tênis (bossa nova
natalina), observava que o Papai-Noel não fazia anúncio de coisa nenhuma, ao
contrário de seus coleguinhas de outras esquinas, que traziam às costas grandes
cartazes coloridos com os nomes das lojas da cidade.
A velha,
num lampejo, percebeu tudo. Viu logo que, naquele Papai-Noel, tinha truque. E,
apenas para confirmar a sua teoria, abriu a bolsa, retirou um pedaço de papel e
escreveu:
— 500
cruzeiros no grupo do gato — 1.675 pelos sete lados... NCr$ 200,00 — centena
463 (invertido) . . . NCr$ 150,00.
Enrolou o
papelzinho no dinheiro correspondente e, saindo de debaixo da marquise, passou
disfarçadamente pelo Papai-Noel e espalmou na sua mão a fezinha. Papai Noe1
apanhou tudo e disse baixinho:
—
Obrigado, minha senhora. Um bom Natal para a senhora também.
Texto
extraído do livro "Dez em Humor", Editora Expressão e Cultura - Rio
de Janeiro, 1968, pág. 50.
19
Pescaria
Stanislaw
Ponte Preta
(Sérgio Porto)
(Sérgio Porto)
— Fomos
uns cinco pescar — conta-nos o amigo que há muito não encontrávamos. Tinha
comprado um molinete e, segundo nos confessou, desde menino sonhava em ter o
seu próprio molinete. Por isso aceitou o convite.
Quando o
encontramos, às 11 horas da noite de sábado, estava cansadíssimo e queria ir
dormir. Mesmo assim contou como foi a pescaria.
— Eles me
convidaram dizendo que estava dando muito pampo na Barra da Tijuca. Passaram lá
em casa às 7, me pegaram e saímos para comprar isca.
Ficaram
comprando isca e lá pelas 9 horas entraram num bar para tomar um negócio porque
estava ameaçando chuva e era preciso precaução. Às 11 horas, saíram do bar e
tinha um camarada na porta vendendo siris.
— Vivos?
— perguntamos:
- Nosso
amigo diz que sim e que, por isso mesmo, era preciso preparar.
inguém
levava comida para a pescaria e, portanto, até que seria bom cozinharem uns
siris para fazer o farnel.
Na casa
de um dele, a cozinheira foi avisada de que chegariam dentro em pouco com uma
centena de siris para preparar. E de fato chegaram, lá pelas duas da tarde.
Foi tudo
muito rápido. Às 5 horas os siris estavam prontinhos e todos sentados em volta
da mesa, para experimentar. Trouxeram umas cervejas e foram comendo, foram
comendo, até que chegou uma hora em que havia mais siris do que fome.
Resolveram tomar providências e telefonaram para uns amigos.
— Venham
comer siris.
Os amigos
chegaram com um violão e uma garrafa de uísque. Uísque vai, uísque vem, deu
fome outra vez. Eram oito horas quando a cozinheira salvou a situação com uma
panelada de carne-seca com abóbora. Uns sirizinhos antes, como aperitivo, e
todos caíram na carne-seca.
Então deu
vontade de cantar. Um lá pegou o violão, os outros suas caixas de fósforo e
começaram a lembrar sambas antigos.
E nosso
amigo, ainda com o caniço e o molinete na mão, confessa:
— Saí de
lá agora.
— E a
pescaria?
—
Pescaria? Que pescaria?
Texto extraído do livro "10 em Humor",
Editora Expressão e Cultura — Rio de Janeiro, 1968, pág. 54.
20 Recado ao Senhor 903
“Vizinho
– Quem fala aqui é o
homem do 1003. Recebi outro dia, consternado, a visita do zelador, que me
mostrou a carta em que o senhor reclamava contra o barulho em meu apartamento.
Recebi depois a sua própria visita pessoal – devia ser meia-noite – e a sua
veemente reclamação verbal. Devo dizer que estou desolado com tudo isso, e lhe
dou inteira razão. O regulamento do prédio é explícito e, se não o fosse, o
senhor ainda teria ao seu lado a Lei e a Polícia. Quem trabalha o dia inteiro
tem direito ao repouso noturno e é impossível repousar no 903 quando há vozes,
passos e músicas no 1003. Ou melhor: é impossível ao 903 dormir quando o 1003
se agita; pois como não sei o seu nome nem o senhor sabe o meu, ficamos
reduzidos a ser dois números, dois números empilhados entre dezenas de outros.
Eu, 1003, me limito a Leste pelo 1005, a Oeste pelo 1001, ao Sul pelo Oceano Atlântico,
ao Norte pelo 1004, ao alto pelo 1103 e embaixo pelo 903 – que é o senhor.
Todos esses números são comportados e silenciosos; apenas eu e o Oceano
Atlântico fazemos algum ruído e funcionamos fora dos horários civis; nós dois
apenas nos agitamos e bramimos ao sabor da maré, dos ventos e da lua. Prometo
sinceramente adotar, depois das 22 horas, de hoje em diante, um comportamento
de manso lago azul. Prometo.
Quem vier à minha casa
(perdão; ao meu número) será convidado a se retirar às 21:45, e explicarei: o
903 precisa repousar das 22 às 7 pois às 8:15 deve deixar o 783 para tomar o
109 que o levará até o 527 de outra rua, onde ele trabalha na sala 305. Nossa
vida, vizinho, está toda numerada; e reconheço que ela só pode ser tolerável
quando um número não incomoda outro número, mas o respeita, ficando dentro dos
limites de seus algarismos. Peço-lhe desculpas – e prometo silêncio.
Mas que me seja permitido
sonhar com outra vida e outro mundo, em que um homem batesse à porta do outro e
dissesse: "Vizinho, são três horas da manhã e ouvi música em tua casa.
Aqui estou". E o outro respondesse: "Entra, vizinho, e come de meu
pão e bebe de meu vinho. Aqui estamos todos a bailar e cantar, pois descobrimos
que a vida é curta e a lua é bela”.
E o homem trouxesse sua
mulher, e os dois ficassem entre os amigos e amigas do vizinho entoando canções
para agradecer a Deus o brilho das estrelas e o murmúrio da brisa nas árvores,
e o dom da vida, e a amizade entre os humanos, e o amor e a paz”
(BRAGA, Rubem. Recado ao senhor 903. In: Para gostar
de ler. Crônicas. 12 ed. São Paulo: Ática)
21 Grande
Edgar
Por Luis Fernando Verissimo
Por Luis Fernando Verissimo
Já deve
ter acontecido com você.
— Não
está se lembrando de mim?
Você não
está se lembrando dele. Procura, freneticamente, em todas as fichas armazenadas
na memória o rosto dele e o nome correspondente, e não encontra. E não há tempo
para procurar no arquivo desativado. Ele esta ali, na sua frente, sorrindo, os
olhos iluminados, antecipando sua resposta. Lembra ou não lembra?
Neste
ponto, você tem uma escolha. Há três caminhos a seguir.
Um,
curto, grosso e sincero.
— Não.
Você não
está se lembrando dele e não tem por que esconder isso. O "Não" seco
pode até insinuar uma reprimenda à pergunta. Não se faz uma pergunta assim,
potencialmente embaraçosa, a ninguém, meu caro. Pelo menos entre pessoas
educadas. Você deveria ter vergonha. Passe bem. Não me lembro de você e mesmo
que lembrasse não diria. Passe bem. Outro caminho, menos honesto mas igualmente
razoável, é o da dissimulação.
— Não me
diga. Você é o... o...
"Não
me diga", no caso, quer dizer "Me diga, me diga". Você conta com
a piedade dele e sabe que cedo ou tarde ele se identificará, para acabar com
sua agonia. Ou você pode dizer algo como:
—
Desculpe, deve ser a velhice, mas...
Este também é um apelo à piedade. Significa "não tortura um pobre desmemoriado, diga logo quem você é!". É uma maneira simpática de você dizer que não tem a menor idéia de quem ele é, mas que isso não se deve a insignificância dele e sim a uma deficiência de neurônios sua.
Este também é um apelo à piedade. Significa "não tortura um pobre desmemoriado, diga logo quem você é!". É uma maneira simpática de você dizer que não tem a menor idéia de quem ele é, mas que isso não se deve a insignificância dele e sim a uma deficiência de neurônios sua.
E há um
terceiro caminho. O menos racional e recomendável. O que leva à tragédia e à
ruína. E o que, naturalmente, você escolhe.
— Claro que estou me lembrando de você!
— Claro que estou me lembrando de você!
Você não
quer magoá-lo, é isso! Há provas estatísticas de que o desejo de não magoar os
outros está na origem da maioria dos desastres sociais, mas você não quer que
ele pense que passou pela sua vida sem deixar um vestígio sequer. E, mesmo,
depois de dizer a frase não há como recuar. Você pulou no abismo. Seja o que
Deus quiser. Você ainda arremata:
— Há
quanto tempo!
Agora
tudo dependerá da reação dele. Se for um calhorda, ele o desafiará.
— Então me diga quem sou.
— Então me diga quem sou.
Neste
caso você não tem outra saída senão simular um ataque cardíaco e esperar, e
falsamente desacordado, que a ambulância venha salvá-lo. Mas ele pode ser
misericordioso e dizer apenas:
— Pois é.
Ou:
— Bota
tempo nisso.
Você
ganhou tempo para pesquisar melhor a memória. Quem será esse cara meu Deus?
Enquanto resgata caixotes com fichas antigas no meio da poeira e das teias de
aranha do fundo do cérebro, o mantém à distância com frases neutras como jabs verbais.
— Como cê
tem passado?
— Bem,
bem.
— Parece
mentira.
— Puxa.
(Um
colega da escola. Do serviço militar. Será um parente? Quem é esse cara, meu
Deus?)
Ele esta
falando:
—Pensei
que você não fosse me reconhecer...
—O que é
isso?!
—Não,
porque a gente às vezes se decepciona com as pessoas.
—E eu ia
esquecer de você? Logo você?
—As
pessoas mudam. Sei lá.
— Que
idéia. (é o Ademar! Não, o Ademar já morreu. Você foi ao enterro dele. O...
o... como era o nome dele? Tinha uma perna mecânica. Rezende! Mas como saber se
ele tem uma perna mecânica? Você pode chutá-lo amigavelmente. E se chutar a
perna boa? Chuta as duas. "Que bom encontrar você!" e paf, chuta uma perna.
"Que saudade!" e paf, chuta a outra. Quem é esse cara?)
— É
incrível como a gente perde contato.
— É
mesmo.
Uma
tentativa. É um lance arriscado, mas nesses momentos deve-se ser audacioso.
— Cê tem
visto alguém da velha turma?
— Só o
Pontes.
— Velho
Pontes! (Pontes. Você conhece algum Pontes? Pelo menos agora tem um nome com o
qual trabalhar. Uma segunda ficha para localizar no sótão. Pontes, Pontes...)
— Lembra
do Croarê?
— Claro!
— Esse eu
também encontro, às vezes, no tiro ao alvo.
— Velho
Croarê. (Croarê. Tiro ao alvo. Você não conhece nenhum Croarê e nunca fez tiro
ao alvo. É inútil. As pistas não estão ajudando. Você decide esquecer toda
cautela e partir para um lance decisivo. Um lance de desespero. O último, antes
de apelar para o enfarte.)
—
Rezende...
— Quem? Não
é ele. Pelo menos isto esta esclarecido.
— Não
tinha um Rezende na turma?— Não me lembro.
— Devo
esta confundindo.
Silêncio.
Você sente que esta prestes a ser desmascarado.
Ele fala:
— Sabe
que a Ritinha casou?
— Não!
— Casou.
— Com
quem?
— Acho
que você não conheceu. O Bituca. (Você abandonou todos os escrúpulos. Ao diabo
com a cautela. Já que o vexame é inevitável, que ele seja total, arrasador .
Você esta tomado por uma espécie de euforia terminal. De delírio do abismo.
Como que não conhece o Bituca?)
— Claro
que conheci! Velho Bituca...
— Pois
casaram.
É a sua
chance. É a saída. Você passou ao ataque.
— E não
avisou nada?
— Bem...
— Não.
Espera um pouquinho. Todas essas acontecendo, a Ritinha casando com o Bituca, O
Croarê dando tiro, e ninguém me avisa nada?
— É que a
gente perdeu contato e...
— Mas meu
nome tá na lista meu querido. Era só dar um telefonema. Mandar um convite.
— É...
— E você acha que eu ainda não vou reconhecer você. Vocês é que se esqueceram de mim.
— E você acha que eu ainda não vou reconhecer você. Vocês é que se esqueceram de mim.
—
Desculpe, Edgar. É que...
— Não
desculpo não. Você tem razão. As pessoas mudam. ( Edgar. Ele chamou você de
Edgar. Você não se chama Edgar. Ele confundiu você com outro. Ele também não
tem a mínima idéia de quem você é. O melhor é acabar logo com isso. Aproveitar
que ele esta na defensiva. Olhar o relógio e fazer cara de "Já?!".).
— Tenho
que ir. Olha, foi bom ver você, viu?
— Certo,
Edgar. E desculpe, hein?
— O que é
isso? Precisamos nos ver mais seguido.
— Isso.
— Reunir
a velha turma.
— Certo.
— E olha,
quando falar com a Ritinha e o Manuca...
— Bituca.
— E o
Bituca, diz que eu mandei um beijo. Tchau, hein?
— Tchau,
Edgar!
Ao se
afastar, você ainda ouve, satisfeito, ele dizer "Grande Edgar". Mas
jura que é a última vez que fará isso. Na próxima vez que alguém lhe perguntar
"Você está me reconhecendo?" não dirá nem não. Sairá correndo.
Texto
extraído do livro "As Mentiras que os Homens Contam", Editora
Objetiva - Rio de Janeiro, 2001, pág. 13.
22 Apelo
Dalton
Trevisan
Amanhã
faz um mês que a Senhora está longe de casa. Primeiros dias, para dizer a
verdade,
não senti falta, bom chegar tarde, esquecido na conversa de esquina. Não foi
ausência por uma semana: o batom ainda no lenço, o prato na mesa por engano, a
imagem de relance no espelho.
Com
os dias, Senhora, o leite primeira vez coalhou. A notícia de sua perda veio aos
poucos: a pilha de jornais ali no chão, ninguém os guardou debaixo da escada.
Toda a casa era um corredor deserto, até o canário ficou mudo. Não dar parte de
fraco, ah, Senhora, fui beber com os amigos. Uma hora da noite eles se iam.
Ficava só, sem o perdão de sua presença, última luz na varanda, a todas as
aflições do dia.
Sentia falta da pequena briga pelo sal no tomate — meu
jeito de querer bem. Acaso é saudade, Senhora? Às suas violetas, na janela, não
lhes poupei água e elas murcham. Não tenho botão na camisa. Calço a meia
furada. Que fim levou o saca-rolha? Nenhum de nós sabe, sem a Senhora,
conversar com os outros: bocas raivosas mastigando. Venha para casa, Senhora,
por favor.
Biografia:
Dalton Trevisan é um dos melhores contistas brasileiros contemporâneos. Seus
contos reproduzem um cotidiano de angústia, numa linguagem direta e popular.
Ele é um mestre do conto, autor de narrativas, predominantemente, curtas.
Trevisan nasceu em Curitiba (PR), em 14 de junho de 1925. Curitiba é a cidade
na qual ambienta a maioria de suas histórias. Formou-se na Faculdade de Direito
do Paraná. Em 1945, lança sua primeira coletânea de contos, Sonata ao Luar.
Liderou em Curitiba o grupo literário que publicou (de 1946 a 1948) a Revista
Joaquim, em homenagem a todos os “Joaquins” do Brasil. O escritor vive até hoje
na cidade de Curitiba, onde atua também como advogado e na administração de sua
fábrica de objetos de vidro.
23 JOSUÉ
Dalton
Trevisan
Às treze
horas de ontem, na rua Barão de Serro Azul, o ciclista Josué dos Santos
costurava a sua magrela – epa, uma finta! Uai, nova firula! Olé, outro fininho!
– pelo trânsito selvagem.
Na seção
de ocorrências policias consta que era funileiro autônomo. É tudo o que
sabemos, além de que morreu. Um ciclista qualquer, curvado sobre o guidão,
riscando o trim, trim da campainha.
a volta
do almoço corria decerto para atender a um chamado, quando o caminhão, na
ultrapassagem, matou-o quase de imediato. Josué ainda moço, não se foi sem
deixar um recado, ao contrário dos velhos ciclistas exaustos de tanto pedalar.
O
caminhão passou por cima do corpo e da bicicleta de Josué. Não morreu de
pronto. Iniciou uma frase:
–
Avi...se... Ma...ri...
E mais
nada. A bicicleta e o corpo, um só Josué. Ao separarem cabeça torta e guidão
retorcido, que fim o levou?
O
caminhoneiro, após exame de dosagem alcoólica, liberado seguiu viagem. Josué,
esse, conduzido ao necrotério, um dos braços arrastando no chão.
Para que
cidade, a uma hora da tarde no relógio da catedral, tripulou o seu pássaro de
roda sem aros? Já desviara antes de caminhões que lhe mordiam a nuca e,
dobrando-se sobre o guidão, girava destemido os pedais. O vento na cara, por
onde o suor escorria, quase ergueu voo na praça Tiradentes se um guarda na
esquina não fecha o sinal.
Outra vez
monta o seu cavalinho de arame e sai chispado para a morte, a uma da tarde em
todos os relógios da praça Tiradentes. É a hora em que os caminhões almoçam
ciclistas. Entre um para-choque com dez toneladas de carga e o magro peito de
Josué, quem pode mais?
O baque
fundiu o moço e o brinquedo de passeio em bicicleta cubista. Primeiro ela
pousou num galho florido de ipê, depois na torre esquerda da catedral e, já
pintada de ouro, se perde na próxima nuvem.
No reino
dos ciclistas os caminhões são proibidos e Josué entrou sem perigo no céu,
ainda que na contramão.
O sangue
derramado no asfalto viajou nos pneus de carros em várias direções. Algumas
gotas para o norte, outras para a cordilheira dos Andes, as mais preciosas para
a rua da namorada: era sangue do coração de Josué.
Ele
morreu como um bom ciclista: quase de imediato. Se um de nós cai, outro já
decola a uma da tarde, o peito impávido contra a baioneta calada dos
para-choques. Investe aos saltos, o coração pequeno de medo e nenhum pensa em
usar colete de aço.
Josué,
humilde e buliçoso pardal da cidade. Os passarões menosprezam os pobres
pardaizinhos, que não têm penas coloridas nem cantam. Eco ao trim, trim da
nossa campainha – ai, ai, socorro! – igual apelo é o seu pipio aflito.
Agora
todos sabemos, Josué, da sua curta biografia. Precisou morrer para ser
lembrado, ao menos por instante. Josué dos Santos, ciclista do sem fim azul e,
ao que parece, funileiro autônomo.
Em cada
esquina desta cidade a morte pede carona.
Amanhã
qual de nós, ao lhe estender a mão, estará fazendo a sua última cortesia?
(Texto
inédito que aparecerá no livro A Mão na Pena, a ser lançado pela editora Arte
& Letra)
24 O Assalto
Carlos Drumond de Andrade
A
casa luxuosa no Leblon é guardada por um molosso de feia catadura, que dorme de
olhos abertos, ou talvez nem durma, de tão vigilante. Por isso, a família vive
tranqüila, e nunca se teve notícia de assalto a residência tão protegida.
Até
a semana passada. Na noite de quinta-feira, um homem conseguiu abrir o pesado
portão de ferro e penetrar no jardim. Ia fazer o mesmo com a porta da casa,
quando o cachorro, que muito de astúcia o deixara chegar até lá, para
acender-lhe o clarão de esperança e depois arrancar-lhe toda ilusão, avançou
contra ele, abocanhando-lhe a perna esquerda. O ladrão quis sacar do revólver,
mas não teve tempo para isto. Caindo ao chão, sob as patas do inimigo,
suplicou-lhe com os olhos que o deixasse viver, e com a boca prometeu que nunca
mais tentaria assaltar aquela casa. Falou em voz baixa, para não despertar os
moradores, temendo que se agravasse a situação. O animal pareceu compreender a
súplica do ladrão, e deixou-o sair em estado deplorável.
No
jardim ficou um pedaço da calça. No dia seguinte, a empregada não entendeu bem
por que uma voz, pelo telefone, disse que era da Saúde Pública e indagou se o
cão era vacinado. Nesse momento o cão estava junto da doméstica, e abanou o
rabo, afirmativamente.
25 Escorrendo
Antonio Prata
Aos
5 anos de idade o mundo é esmagadoramente mais forte do que a gente. (Aos 30
também, mas aprendemos umas manhas que, se não anulam a desproporção, ao menos
disfarçam nossa pequenez).
A
ignorância não é uma bênção, é uma condenação: compreender a origem dos nossos
incômodos faz uma grande diferença. Mas como, com tão poucas palavras ao nosso dispor?
Palavras são ferramentas que usamos para desmontar o mundo e remontá-lo dentro
da nossa cabeça. Sem as ferramentas precisas, ficamos a espanar parafusos com pontas
de facas, a destruir porcas com alicates.
Com
2 anos, meu nariz escorria sem parar na sala de aula. Eu não sabia assoar, nem
sequer sabia que existia isso: assoar. Apenas enxugava o que descia na manga do
uniforme, conformado, até ficar com o nariz assado.
Lembro-me
bem da sensação da meia sendo comida pela galocha enquanto eu andava. A cada
passo, ela ia se engruvinhando mais e mais na frente do pé, faltando no
calcanhar, e eu aceitava o infortúnio como se fosse uma praga rogada pelos
deuses, uma sina. Não passava pela minha cabeça trocar de meia, desistir da
galocha, pedir ajuda aos adultos: a vida era assim, não havia o que fazer.
Numas
férias, meu pai apareceu antes do combinado para pegar minha irmã e eu na casa
dos meus avós. Durante 400 quilômetros, falou que existiam pessoas boas e
pessoas más, que aconteciam coisas que a gente não conseguia entender, que
mesmo as pessoas más podiam fazer coisas boas e as pessoas boas, coisas más. Já
quase chegando a São Paulo, contou que nosso vizinho, de 6 anos, tinha levado
um tiro.
Naquela
noite, enquanto as crianças da rua brincavam - mais quietas do que o habitual,
sob um véu inominável -, um dos garotos disse: "Bem-feito! Ele é muito
chato".
Hoje,
penso que pode ter sido sua maneira de lidar com uma realidade esmagadoramente mais
forte do que ele.
Meu
vizinho, felizmente, sobreviveu. Nossa ingenuidade é que não: ficou ali,
estirada entre amendoeiras e paralelepípedos, sendo iluminada pela lâmpada
intermitente de mercúrio, depois que todas as crianças voltaram para suas
casas.
(Antonio Prata, autor
desta crônica, também escreveu o livro O Inferno
Atrás da Pia (107 págs., Ed. Objetiva).
Atrás da Pia (107 págs., Ed. Objetiva).
26 O tesouro no quintal
Moacyr Scliar
Moacyr Scliar
Era uma família grande, a nossa: pai,
mãe, cinco filhos. Grande e pobre. Papai, pedreiro, mal conseguia nos
sustentar. Mamãe ajudava como podia, fazendo faxinas e costurando para fora,
mas mesmo assim a vida era bastante difícil. Papai vivia bolando formas de reforçar
nosso orçamento doméstico ou de, pelo menos, diminuir as despesas. Foi assim
que lhe ocorreu a ideia da horta.
Morávamos numa minúscula casa de
subúrbio, não longe de uma bela praia, que, contudo, raramente frequentávamos:
era lugar de ricos. Casa pobre, a nossa, sem nenhum conforto. Mas, por alguma
razão, tinha um quintal bastante grande. Do qual, para dizer a verdade, não
cuidávamos. O capim ali crescia viçoso e no meio dele jaziam, abandonados,
pneus velhos, latas, pedaços de tijolos e telhas. Papai olhava para aquilo,
pesaroso: parecia-lhe um desperdício de espaço e de terra. Um dia chamou os
dois filhos mais velhos, meu irmão Pedro e eu próprio, e anunciou: vamos fazer
uma horta neste quintal.
Proposta mais do que adequada. Nós
quase não comíamos legumes e verduras, porque eram muito caros. Mas, se
plantássemos ali tomate, alface, agrião, cenoura, teríamos uma fonte extra de
alimento - e o mais importante, sem custo.
Sem custo, mas não sem trabalho. Para
começar, teríamos de capinar aquilo tudo e revirar a terra para depois plantar
e colher. Meu pai não hesitou: vocês dois, que são os mais velhos, vão fazer
isso.
Não gostamos muito da determinação.
Não éramos preguiçosos, mas preparar a terra para fazer uma horta não era bem o
nosso sonho e representaria um grande esforço. Contudo, não tínhamos
alternativa. Quando papai dava uma ordem, era para valer. E, no caso, ele tinha
o decidido apoio da mamãe, que era de uma família de agricultores e gostava de
plantar.
Quem prepararia a terra? Foi a pergunta
que fiz ao Pedro, que, além de mais velho, era o líder entre os irmãos.
Pergunta para a qual ele já tinha a resposta:
- Isso é coisa para o Antônio.
Antônio era o irmão do meio. Com 9
anos, era um menino quieto, sonhador. Mas não era muito do batente, de modo que
fiquei em dúvida: como convencêlo a fazer o trabalho?
- Deixa comigo - disse Pedro, que se
considerava muito esperto. - Eu sei como convencer o cara.
E sabia mesmo. Porque Pedro era dono
de uma lábia fantástica, argumentava como ninguém. Ah, sim, e sabia contar
histórias - inventadas por ele, claro. Era com uma história que pretendia
motivar o Antônio a capinar o pátio.
Eu estava junto, quando ele contou a
tal história. Era uma boa história: segundo um famoso professor, séculos antes
piratas franceses haviam andado pela nossa região e ali haviam enterrado um
tesouro. Expulsos pelos portugueses, nunca mais tinham retornado, de modo que a
arca com jóias e moedas de ouro ainda estava no mesmo lugar, que podia ser o
pátio de nossa casa.
- O tesouro será a nossa salvação -
concluiu Pedro , entusiasmado.
Antônio estava impressionado. Se havia
coisa em que acreditava, era em histórias. Aliás, estava sempre lendo - era o
maior frequentador da biblioteca do colégio.
- Quem sabe procuramos esse tesouro? -
perguntou ele.
Era exatamente o que Pedro queria
ouvir.
- Se você está disposto, eu lhe
arranjo uma enxada...
Antônio mostrava-se mais do que
disposto. No dia seguinte, um feriado, lá estava ele, enxada em punho, cavando
a terra, diante do olhar admirado da família. Papai até perguntou o que tinha
acontecido.
- Ele se ofereceu para fazer o
trabalho - disse Pedro, dando de ombros.
Para encurtar a história: tesouro
algum apareceu, mas, um mês depois, tínhamos uma horta no quintal. Antônio
acabou descobrindo a trama de Pedro, mas não ficou zangado. Inspirado pelo
acontecimento, escreveu uma história, com a qual ganhou um prêmio literário da
prefeitura. Uma boa grana, que ele usou para comprar livros. Hoje é um
conhecido jornalista e escritor. Acho que ele acabou, mesmo, encontrando o
tesouro.
27 Cem Anos de Perdão
Clarice Lispector
Quem
nunca roubou não vai me entender. E quem nunca roubou rosas, então é que jamais
poderá me entender. Eu, em pequena, roubava rosas.
Havia
em Recife inúmeras ruas, as ruas dos ricos, ladeadas por palacetes que ficavam
no centro de grandes jardins. Eu e uma amiguinha brincávamos muito de decidir a
quem pertenciam os palacetes. "Aquele branco é meu." "Não, eu já
disse que os brancos são meus." Parávamos às vezes longo tempo, a cara
imprensada nas grades, olhando.
Começou
assim. Numa dessas brincadeiras de "essa casa é minha", paramos
diante de uma que parecia um pequeno castelo. No fundo via-se o imenso pomar.
E, à frente, em canteiros bem ajardinados, estavam plantadas as flores.
Bem,
mas isolada no seu canteiro estava uma rosa apenas entreaberta
cor-de-rosa-vivo. Fiquei feito boba, olhando com admiração aquela rosa
altaneira que nem mulher feita ainda não era. E então aconteceu: do fundo de
meu coração, eu queria aquela rosa para mim. Eu queria, ah como eu queria. E
não havia jeito de obtê-la. Se o jardineiro estivesse por ali, pediria a rosa,
mesmo sabendo que ele nos expulsaria como se expulsam moleques. Não havia
jardineiro à vista, ninguém. E as janelas, por causa do sol, estavam de
venezianas fechadas. Era uma rua onde não passavam bondes e raro era o carro
que aparecia. No meio do meu silêncio e do silêncio da rosa, havia o meu desejo
de possuí-la como coisa só minha. Eu queria poder pegar nela.
queria
cheirá-la até sentir a vista escura de tanta tonteira de perfume.
Então
não pude mais. O plano se formou em mim instantaneamente, cheio de paixão. Mas,
como boa realizadora que eu era, raciocinei friamente com minha amiguinha,
explicando-lhe qual seria o seu papel: vigiar as janelas da casa ou a
aproximação ainda possível do jardineiro, vigiar os transeuntes raros na rua. Enquanto
isso, entreabri lentamente o portão de grades um pouco enferrujadas, contando
já com o leve rangido. Entreabri somente o bastante para que meu esguio corpo
de menina pudesse passar. E, pé ante pé, mas veloz, andava pelos pedregulhos
que rodeavam os canteiros. Até chegar à rosa foi um século de coração batendo.
Eis-me
afinal diante dela. Para um instante, perigosamente, porque de perto ela é
ainda mais linda. Finalmente começo a lhe quebrar o talo, arranhando-me com os
espinhos, e chupando o sangue dos dedos.
E,
de repente - ei-la toda na minha mão. A corrida de volta ao portão tinha também
de ser sem barulho. Pelo portão que deixara entreaberto, passei segurando a
rosa. E então nós duas pálidas, eu e a rosa, corremos literalmente para longe
da casa.
O que é
que fazia eu com a rosa? Fazia isso: ela era minha. Levei-a para casa,
coloquei-a num copo d'água, onde ficou soberana, de pétalas grossas e
aveludadas, com vários entretons de rosa-chá. No centro dela a cor se
concentrava mais e seu coração quase parecia vermelho.
Foi tão
bom.Foi tão bom que simplesmente passei a roubar rosas. O processo era sempre o
mesmo: a menina vigiando, eu entrando, eu quebrando o talo e fugindo com a rosa
na mão. Sempre com o coração batendo e sempre com aquela glória que ninguém me
tirava.
Também roubava pitangas. Havia uma igreja
presbiteriana perto de casa, rodeada por uma sebe verde, alta e tão densa que
impossibilitava a visão da igreja. Nunca cheguei a vê-la, além de uma ponta de
telhado. A sebe era de pitangueira. Mas pitangas são frutas que se escondem: eu
não via nenhuma. Então, olhando antes para os lados para ver se ninguém vinha,
eu metia a mão por entre as grades, mergulhava-a dentro da sebe e começava a
apalpar até meus dedos sentirem o úmido da frutinha. Muitas vezes na minha
pressa, eu esmagava uma pitanga madura demais com os dedos que ficavam como
ensanguentados. Colhia várias que ia comendo ali mesmo, umas até verdes demais,
que eu jogava fora.
Nunca
ninguém soube. Não me arrependo: ladrão de rosas e de pitangas tem 100 anos de
perdão. As pitangas, por exemplo, são elas mesmas que pedem para ser colhidas,
em vez de amadurecer e morrer no galho, virgens.
Fernando Sabino
A caminho de casa,
entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na
realidade estou adiando o momento de escrever.
A perspectiva me
assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano
nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu
pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano,
fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao
circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num
flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico,
torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada
para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se
repete na lembrança: "assim eu quereria o meu último poema". Não
sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim,
onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.
Ao fundo do botequim
um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao
longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos
e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três
anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também
à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de
curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a
instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que
se preparam para algo mais que matar a fome.
Passo a
observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou
do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no
balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando
imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este
ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A
mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua
presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem
atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho -- um
bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular.
A negrinha, contida
na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom
deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três,
pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe
remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O
pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também,
atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.
São três velinhas
brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E
enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a
um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força,
apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito
compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos:
"parabéns pra você, parabéns pra você..." Depois a mãe recolhe
as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo
com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para
ela com ternura — ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo
que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como
a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito,
a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido —
vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre
num sorriso.
Assim eu quereria
minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.
Texto extraído do livro "A Companheira de Viagem", Editora do Autor
- Rio de Janeiro, 1965, pág. 174.
29 Pechada
Luís Fernando Veríssimo
O apelido foi instantâneo. No primeiro dia de
aula, o aluno novo já estava sendo chamado de "Gaúcho". Porque era
gaúcho. Recém-chegado do Rio Grande do Sul, com um sotaque carregado.
— Aí, Gaúcho!
— Fala, Gaúcho!
Perguntaram para a professora por que o
Gaúcho falava diferente. A professora explicou que cada região tinha seu
idioma, mas que as diferenças não eram tão grandes assim. Afinal, todos falavam
português. Variava a pronúncia, mas a língua era uma só. E os alunos não
achavam formidável que num país do tamanho do Brasil todos falassem a mesma
língua, só com pequenas variações?
— Mas o Gaúcho fala "tu"! — disse o
gordo Jorge, que era quem mais implicava com o novato.
— E fala certo — disse a professora.
— Pode-se dizer "tu" e pode-se
dizer "você". Os dois estão certos. Os dois são português.
O gordo Jorge fez cara de quem não se
entregara.
Um dia o Gaúcho chegou tarde na aula e
explicou para a professora o que acontecera.
— O pai atravessou a sinaleira e pechou.
— O que?
— O pai. Atravessou a sinaleira e pechou.
A professora sorriu. Depois achou que não era
caso para sorrir. Afinal, o pai do menino atravessara uma sinaleira e pechara.
Podia estar, naquele momento, em algum hospital. Gravemente pechado. Com
pedaços de sinaleira sendo retirados do seu corpo.
— O que foi que ele disse, tia? — quis saber
o gordo Jorge.
— Que o pai dele atravessou uma sinaleira e
pechou.
— E o que é isso?
— Gaúcho... Quer dizer, Rodrigo: explique
para a classe o que aconteceu.
— Nós vinha...
— Nós vínhamos.
— Nós vínhamos de auto, o pai não viu a
sinaleira fechada, passou no vermelho e deu uma pechada noutro auto.
A professora varreu a classe com seu sorriso.
Estava claro o que acontecera? Ao mesmo tempo, procurava uma tradução para o
relato do gaúcho. Não podia admitir que não o entendera. Não com o gordo Jorge
rindo daquele jeito.
"Sinaleira", obviamente, era sinal,
semáforo. "Auto" era automóvel, carro. Mas "pechar" o que
era? Bater, claro. Mas de onde viera aquela estranha palavra? Só muitos dias
depois a professora descobriu que "pechar" vinha do espanhol e queria
dizer bater com o peito, e até lá teve que se esforçar para convencer o gordo
Jorge de que era mesmo brasileiro o que falava o novato. Que já ganhara outro
apelido: Pechada.
— Aí, Pechada!
— Fala, Pechada!
Caso você queira, pode trocar o seu por um dos contos abaixo:
Ruth Rocha
Naquele tempo eu até que achava natural que as coisas fossem daquele jeito.
Eu nem desconfiava que existissem lugares muito diferentes...
Eu ia pra escola todos os dias de manhã e quando chegava, logo, logo, eu tinha que me meter no vidro.
É, no vidro!
Cada menino ou menina tinha um vidro e o vidro não dependia do tamanho de cada um, não!
O vidro dependia da classe em que a gente estudava.
Naquele tempo eu até que achava natural que as coisas fossem daquele jeito.
Eu nem desconfiava que existissem lugares muito diferentes...
Eu ia pra escola todos os dias de manhã e quando chegava, logo, logo, eu tinha que me meter no vidro.
É, no vidro!
Cada menino ou menina tinha um vidro e o vidro não dependia do tamanho de cada um, não!
O vidro dependia da classe em que a gente estudava.
Se você
estava no primeiro ano ganhava um vidro de um tamanho.
Se você fosse do segundo ano seu vidro era um pouquinho maior.
E assim, os vidros iam crescendo à medida em que você ia passando de ano.
Se não passasse de ano era um horror.
Você tinha que usar o mesmo vidro do ano passado.
Coubesse ou não coubesse.
Aliás nunca ninguém se preocupou em saber se a gente cabia nos vidros.
E pra falar a verdade, ninguém cabia direito.
Uns eram muito gordos, outros eram muito grandes, uns eram pequenos e ficavam afundados no vidro, nem assim era confortável.
Os muitos altos de repente se esticavam e as tampas dos vidros saltavam longe, ás vezes até batiam no professor.
Ele ficava louco da vida e atarrachava a tampa com força, que era pra não sair mais.
A gente não escutava direito o que os professores diziam, os professores não entendiam o que a gente falava...
As meninas ganhavam uns vidros menores que os meninos.
Ninguém queria saber se elas estavam crescendo depressa, se não cabia nos vidros, se
respiravam direito...
A gente só podia respirar direito na hora do recreio ou na aula de educação física.
Mas aí a gente já estava desesperado, de tanto ficar preso e começava a correr, a gritar, a
bater uns nos outros.
As meninas, coitadas, nem tiravam os vidros no recreio. e na aula de educação física elas ficavam atrapalhadas, não estavam acostumadas a ficarem livres, não tinha jeito nenhum para Educação Física.
Dizem, nem sei se é verdade, que muitas meninas usavam vidros até em casa.
E alguns meninos também. Estes eram os mais tristes de todos.
Nunca sabiam inventar brincadeiras, não davam risada á toa, uma tristeza!
Se agente reclamava?
Alguns reclamavam.
E então os grandes diziam que sempre tinha sido assim; ia ser assim o resto da vida.
Uma professora, que eu tinha, dizia que ela sempre tinha usado vidro, até pra dormir, por isso que ela tinha boa postura.
Uma vez um colega meu disse pra professora que existem lugares onde as escolas não usam vidro nenhum, e as crianças podem crescer a vontade.
Então a professora respondeu que era mentira, que isso era conversa de comunistas. Ou até coisa pior...
Se você fosse do segundo ano seu vidro era um pouquinho maior.
E assim, os vidros iam crescendo à medida em que você ia passando de ano.
Se não passasse de ano era um horror.
Você tinha que usar o mesmo vidro do ano passado.
Coubesse ou não coubesse.
Aliás nunca ninguém se preocupou em saber se a gente cabia nos vidros.
E pra falar a verdade, ninguém cabia direito.
Uns eram muito gordos, outros eram muito grandes, uns eram pequenos e ficavam afundados no vidro, nem assim era confortável.
Os muitos altos de repente se esticavam e as tampas dos vidros saltavam longe, ás vezes até batiam no professor.
Ele ficava louco da vida e atarrachava a tampa com força, que era pra não sair mais.
A gente não escutava direito o que os professores diziam, os professores não entendiam o que a gente falava...
As meninas ganhavam uns vidros menores que os meninos.
Ninguém queria saber se elas estavam crescendo depressa, se não cabia nos vidros, se
respiravam direito...
A gente só podia respirar direito na hora do recreio ou na aula de educação física.
Mas aí a gente já estava desesperado, de tanto ficar preso e começava a correr, a gritar, a
bater uns nos outros.
As meninas, coitadas, nem tiravam os vidros no recreio. e na aula de educação física elas ficavam atrapalhadas, não estavam acostumadas a ficarem livres, não tinha jeito nenhum para Educação Física.
Dizem, nem sei se é verdade, que muitas meninas usavam vidros até em casa.
E alguns meninos também. Estes eram os mais tristes de todos.
Nunca sabiam inventar brincadeiras, não davam risada á toa, uma tristeza!
Se agente reclamava?
Alguns reclamavam.
E então os grandes diziam que sempre tinha sido assim; ia ser assim o resto da vida.
Uma professora, que eu tinha, dizia que ela sempre tinha usado vidro, até pra dormir, por isso que ela tinha boa postura.
Uma vez um colega meu disse pra professora que existem lugares onde as escolas não usam vidro nenhum, e as crianças podem crescer a vontade.
Então a professora respondeu que era mentira, que isso era conversa de comunistas. Ou até coisa pior...
Tinha menino que tinha até de
sair da escola porque não havia jeito de se acomodar nos
vidros. E tinha uns que mesmo quando saíam dos vidros ficavam do mesmo jeitinho, meio
encolhidos, como se estivessem tão acostumados que até estranhavam sair dos vidros.
Mas uma vez, veio para minha escola um menino, que parece que era favelado, carente, essas coisas que as pessoas dizem pra não dizer que é pobre.
Aí não tinha vidro pra botar esse menino.
Então os professores acharam que não fazia mal não, já que ele não pagava a escola mesmo...
Então o Firuli, ele se chamava Firuli, começou a assistir as aulas sem estar dentro do vidro.
O engraçado é que o Firuli desenhava melhor que qualquer um, o Firuli respondia perguntas mais depressa que os outros, o Firuli era muito mais engraçado...
E os professores não gostavam nada disso...
Afinal, o Firuli podia ser um mal exemplo pra nós...
E nós morríamos de inveja dele, que ficava no bem-bom, de perna esticada, quando queria ele espreguiçava, e até mesmo que gozava a cara da gente que vivia preso.
Então um dia um menino da minha classe falou que também não ia entrar no vidro.
Dona Demência ficou furiosa, deu um coque nele e ele acabou tendo que se meter no vidro, como qualquer um.
Mas no dia seguinte duas meninas resolveram que não iam entrar no vidro também:
- Se o Firuli pode por que é que nós não podemos?
Mas Dona Demência não era sopa.
Deu um coque em cada uma, e lá se foram elas, cada uma pro seu vidro...
Já no outro dia a coisa tinha engrossado.
Já tinha oito meninos que não queriam saber de entrar nos vidros.
Dona Demência perdeu a paciência e mandou chamar seu Hermenegildo que era o diretor lá da escola.
Seu Hermenegildo chegou muito desconfiado:
- Aposto que essa rebelião foi fomentada pelo Firuli. É um perigo esse tipo de gente aqui na escola. Um perigo!
A gente não sabia o que é que queria dizer fomentada, mas entendeu muito bem que ele
estava falando mal do Firuli.
E seu Hermenegildo não conversou mais. Começou a pegar as meninos um por um e enfiar á força dentro dos vidros.
Mas nós estávamos loucos para sair também, e pra cada um que ele conseguia enfiar dentro do vidro - já tinha dois fora.
E todo mundo começou a correr do seu Hermenegildo, que era pra ele não pegar a gente, e na correria começamos a derrubar os vidros.
E quebramos um vidro, depois quebramos outro e outro mais dona Demência já estava na janela gritando - SOCORRO! VÂNDALOS! BÁRBAROS! (pra ela bárbaro era xingação).
Chamem o Bombeiro, o exército da Salvação, a Polícia Feminina...
Os professores das outras classes mandaram cada um, um aluno para ver o que estava
acontecendo.
E quando os alunos voltaram e contaram a farra que estava na 6° série todo mundo ficou
assanhado e começou a sair dos vidros.
Na pressa de sair começaram a esbarrar uns nos outros e os vidros começaram a cair e a quebrar.
Foi um custo botar ordem na escola e o diretor achou melhor mandar todo mundo pra casa, que era pra pensar num castigo bem grande, pro dia seguinte.
Então eles descobriram que a maior parte dos vidros estava quebrada e que ia ficar muito caro comprar aquela vidraria tudo de novo.
Então diante disso seu Hermenegildo pensou um pocadinho, e começou a contar pra todo mundo que em outros lugares tinha umas escolas que não usavam vidro nem nada, e que dava bem certo, as crianças gostavam muito mais.
E que de agora em diante ia ser assim: nada de vidro, cada um podia se esticar um bocadinho, não precisava ficar duro nem nada, e que a escola agora ia se chamar Escola Experimental.
Dona Demência, que apesar do nome não era louca nem nada, ainda disse timidamente:
- Mas seu Hermenegildo, Escola Experimental não é bem isso...
Seu Hermenegildo não se pertubou:
- Não tem importância. A gente começa experimentando isso. Depois a gente experimenta outras coisas...
E foi assim que na minha terra começaram a aparecer as Escolas Experimentais.
Depois aconteceram muitas coisas, que um dia eu ainda vou contar...
Leia e assista mais sobre Ruth Rocha clicando no link abaixo:
http://avosidade.com.br/ruth-rocha-crianca-gosta-de-graca-e-de-emocao/
vidros. E tinha uns que mesmo quando saíam dos vidros ficavam do mesmo jeitinho, meio
encolhidos, como se estivessem tão acostumados que até estranhavam sair dos vidros.
Mas uma vez, veio para minha escola um menino, que parece que era favelado, carente, essas coisas que as pessoas dizem pra não dizer que é pobre.
Aí não tinha vidro pra botar esse menino.
Então os professores acharam que não fazia mal não, já que ele não pagava a escola mesmo...
Então o Firuli, ele se chamava Firuli, começou a assistir as aulas sem estar dentro do vidro.
O engraçado é que o Firuli desenhava melhor que qualquer um, o Firuli respondia perguntas mais depressa que os outros, o Firuli era muito mais engraçado...
E os professores não gostavam nada disso...
Afinal, o Firuli podia ser um mal exemplo pra nós...
E nós morríamos de inveja dele, que ficava no bem-bom, de perna esticada, quando queria ele espreguiçava, e até mesmo que gozava a cara da gente que vivia preso.
Então um dia um menino da minha classe falou que também não ia entrar no vidro.
Dona Demência ficou furiosa, deu um coque nele e ele acabou tendo que se meter no vidro, como qualquer um.
Mas no dia seguinte duas meninas resolveram que não iam entrar no vidro também:
- Se o Firuli pode por que é que nós não podemos?
Mas Dona Demência não era sopa.
Deu um coque em cada uma, e lá se foram elas, cada uma pro seu vidro...
Já no outro dia a coisa tinha engrossado.
Já tinha oito meninos que não queriam saber de entrar nos vidros.
Dona Demência perdeu a paciência e mandou chamar seu Hermenegildo que era o diretor lá da escola.
Seu Hermenegildo chegou muito desconfiado:
- Aposto que essa rebelião foi fomentada pelo Firuli. É um perigo esse tipo de gente aqui na escola. Um perigo!
A gente não sabia o que é que queria dizer fomentada, mas entendeu muito bem que ele
estava falando mal do Firuli.
E seu Hermenegildo não conversou mais. Começou a pegar as meninos um por um e enfiar á força dentro dos vidros.
Mas nós estávamos loucos para sair também, e pra cada um que ele conseguia enfiar dentro do vidro - já tinha dois fora.
E todo mundo começou a correr do seu Hermenegildo, que era pra ele não pegar a gente, e na correria começamos a derrubar os vidros.
E quebramos um vidro, depois quebramos outro e outro mais dona Demência já estava na janela gritando - SOCORRO! VÂNDALOS! BÁRBAROS! (pra ela bárbaro era xingação).
Chamem o Bombeiro, o exército da Salvação, a Polícia Feminina...
Os professores das outras classes mandaram cada um, um aluno para ver o que estava
acontecendo.
E quando os alunos voltaram e contaram a farra que estava na 6° série todo mundo ficou
assanhado e começou a sair dos vidros.
Na pressa de sair começaram a esbarrar uns nos outros e os vidros começaram a cair e a quebrar.
Foi um custo botar ordem na escola e o diretor achou melhor mandar todo mundo pra casa, que era pra pensar num castigo bem grande, pro dia seguinte.
Então eles descobriram que a maior parte dos vidros estava quebrada e que ia ficar muito caro comprar aquela vidraria tudo de novo.
Então diante disso seu Hermenegildo pensou um pocadinho, e começou a contar pra todo mundo que em outros lugares tinha umas escolas que não usavam vidro nem nada, e que dava bem certo, as crianças gostavam muito mais.
E que de agora em diante ia ser assim: nada de vidro, cada um podia se esticar um bocadinho, não precisava ficar duro nem nada, e que a escola agora ia se chamar Escola Experimental.
Dona Demência, que apesar do nome não era louca nem nada, ainda disse timidamente:
- Mas seu Hermenegildo, Escola Experimental não é bem isso...
Seu Hermenegildo não se pertubou:
- Não tem importância. A gente começa experimentando isso. Depois a gente experimenta outras coisas...
E foi assim que na minha terra começaram a aparecer as Escolas Experimentais.
Depois aconteceram muitas coisas, que um dia eu ainda vou contar...
http://avosidade.com.br/ruth-rocha-crianca-gosta-de-graca-e-de-emocao/
O Bisavô e a Dentadura
Sylvia Orthof
Sylvia Orthof
Eu ouvi esta história de uma amiga, que disse que isso aconteceu, de verdade, em Montes Claros, Minas Gerais. Para contar a história, é preciso imaginar uma velha fazenda antiga. Dentro da fazenda, uma vetusta (socorro, que palavrão!) mesa colonial, muito comprida, de jacarandá, naturalmente. Em volta da mesa, uma família mineira. Por cima da mesa, tudo que mineiro tem direito para um bom almoço: tutu, carne de porco, lingüiça, feijão-tropeiro, torresminho, couve cortada bem fina... e eu nem posso descrever mais, porque já estou com excesso de peso, só de pensar: hum, que delícia!
A
família era enorme e comia reunida, em volta da toalha bordada: pai, mãe, avó,
avô, filhos, netos, sobrinhos, afilhados, a comadre que ficou viúva, a
solteirona que era irmã da avó da Mariquinha... e o bisavô Arquimedes. O bisavô
Arquimedes usava dentadura. Naturalmente, cada integrante tinha à sua frente o
seu saboroso prato de tutu, couve, torresmo, feijão-tropeiro, carninha de
porco, lingüiça, etc. e tal. E todos mastigavam e repetiam porque a fartura,
ali, em Montes Claros,
naquele tempo, era um espanto, de tanta! E cada um, evidentemente, tinha o seu
copo. Pois os copos e o bisavô Arquimedes, diariamente, sofriam a seguinte
brincadeira: — Toninho, ocê vai beber desse copo aí, na sua frente? Olha que o
bisavô deixou a dentadura dele de molho, bem no seu copo, Toninho, na noite
passada! — Num foi no meu, não: foi no copo da Maroca! O bisavô deixou a
dentadura dentro do copo da Maroquinha! — Ó gente, num brinca assim que eu fico
cum nojo, uai! O velho bisavô Arquimedes ouvia, sorria, mostrando a dentadura.
Quando chegava o doce de leite, o queijinho, a goiabada e uma tal de sobremesa
que tem o nome de "mineiro-de-botas", que tem queijo derretido,
banana, canela, cravo, sei lá mais que gostosuras, o pessoal comia, comia. E
depois de comer tanto doce, a sede vinha forte, e a chateação começava, ou
recomeçava, ou não terminava: ___Tia Santinha, não beba do copo da dentadura do
bisavô, cuidado! Tenho certeza de que a dentadura ficou no seu copo, de molho,
a noite inteira! O bisavô ouvia e ia mastigando, o olhinho malicioso, nem te
ligo para a brincadeira, comendo a goiabadinha, o "mineiro-de-botas",
o doce de leite, o queijinho... e mexendo a dentadura pra lá e pra cá, pois a
gengiva era velha a dentadura já estava sem apoio. Mas o bisavô tinha senso de
humor... e falava pouco. O pessoal cochichava que ele era mais surdo do que uma
porta. Bestagem, porque se existe coisa que não é surda, é porta: mesmo
fechada, deixa passar cada coisa... Um dia, de repente, o bisavô apareceu sem a
dentadura. E como todos perguntaram para ele o que tinha havido, o velho
Arquimedes sorriu, um sorriso banguela, dizendo:
—
Ocês tavam perturbando demais, todos com nojo dela, resolvi não usar, uai! Aí,
a família ficou sem jeito, jurando que não iria falar mais da dentadura, que
tudo fora brincadeira, que todos adoravam o velho Arquimedes, que ele
desculpasse. — Tá desculpado, num tem importância. Eu já tava me aborrecendo
com a história, mas tão desculpados. Mas até que tô achando bom ficar banguela:
vou comer tutu e sopa... e doce de leite mole, ora! A família insistiu, pediu
perdão, mas o bisavô botou fim à conversa, dizendo: — Ocês num insistam.
Resolvi e tá resolvido. O dia que eu deixar de resolver, boto a dentadura outra
vez!
E
passaram-se vários dias. Ninguém mais fazia a brincadeira do copo. De
vez em quando, o bisavô lembrava: — Tô sentindo falta... — Da dentadura, bisavô? — Não, da traquinagem de ocês... ninguém tá com nojo de beber água do copo, né? — Ora, o senhor não deve levar a mal, foi molecagem, a gente não faz mais, pode usar a dentadura, bisavô. Um dia, de repente, o bisavô voltou a usar a dentadura. Todos na mesa se cutucaram e começaram a rir, muito disfarçado, quando bebiam água, pensando... sem dizer, pois haviam prometido. Depois da sobremesa, boca pedindo água depois de tanto doce caseiro, o velho Arquimedes disse: — Ocês tão bebendo tanta água, sem nojo... — Bisavô, era brincadeira! — Eu também fiz uma brincadeira: durante todo esse tempo que fiquei banguela, minha dentadura ficou de molho, dentro do filtro.
vez em quando, o bisavô lembrava: — Tô sentindo falta... — Da dentadura, bisavô? — Não, da traquinagem de ocês... ninguém tá com nojo de beber água do copo, né? — Ora, o senhor não deve levar a mal, foi molecagem, a gente não faz mais, pode usar a dentadura, bisavô. Um dia, de repente, o bisavô voltou a usar a dentadura. Todos na mesa se cutucaram e começaram a rir, muito disfarçado, quando bebiam água, pensando... sem dizer, pois haviam prometido. Depois da sobremesa, boca pedindo água depois de tanto doce caseiro, o velho Arquimedes disse: — Ocês tão bebendo tanta água, sem nojo... — Bisavô, era brincadeira! — Eu também fiz uma brincadeira: durante todo esse tempo que fiquei banguela, minha dentadura ficou de molho, dentro do filtro.
Retiro da Figueira
Moacy Scliar
Sempre achei que era bom demais. O lugar, principalmente. O lugar era... era maravilhoso. Bem como dizia o prospecto: maravilhoso. Arborizado, tranqüilo, um dos últimos locais – dizia o anúncio – onde você pode ouvir um bem-te-vi cantar. Verdade: na primeira vez que fomos lá ouvimos o bem-te-vi. E também constatamos que as casas eram sólidas e bonitas, exatamente como o prospecto as descrevia: estilo moderno, sólidas e bonitas. Vimos os gramados, os parques, os pôneis, o pequeno lago. Vimos o campo de aviação. Vimos a majestosa figueira que dava nome ao condomínio: Retiro da Figueira.
Mas o que mais agradou à minha mulher foi a segurança. Durante todo o trajeto de volta à cidade – e eram uns bons cinqüenta minutos – ela falou, entusiasmada, da cerca eletrificada, das torres de vigia, dos holofotes, do sistema de alarmes – e sobretudo dos guardas. Oito guardas, homens fortes, decididos – mas amáveis, educados. Aliás, quem nos recebeu naquela visita, e na seguinte, foi o chefe deles, um senhor tão inteligente e culto que logo pensei: “ah, mas ele deve ser formado em alguma universidade”. De fato: no decorrer da conversa ele mencionou – mas de maneira casual – que era formado em Direito. O que só fez aumentar o entusiasmo de minha mulher.
Ela andava muito assustada ultimamente. Os assaltos violentos se sucediam na vizinhança; trancas e porteiros eletrônicos já não detinham os criminosos. Todos os dias sabíamos de alguém roubado e espancado; e quando uma amiga nossa foi violentada por dois marginais, minha mulher decidiu – tínhamos de mudar de bairro. Tínhamos de procurar um lugar seguro.
Foi então que enfiaram o prospecto colorido sob nossa porta. Às vezes penso que se morássemos num edifício mais seguro o portador daquela mensagem publicitária nunca teria chegado a nós, e, talvez... Mas isto agora são apenas suposições. De qualquer modo, minha mulher ficou encantada com o Retiro da Figueira. Meus filhos estavam vidrados nos pôneis. E eu acabava de ser promovido na firma. As coisas todas se encadearam, e o que começou com um prospecto sendo enfiado sob a porta transformou-se – como dizia o texto – num novo estilo de vida.
Não fomos os primeiros a comprar casa no Retiro da Figueira. Pelo contrário; entre nossa primeira visita e a segunda – uma semana após – a maior parte das trinta residências já tinha sido vendida. O chefe dos guardas me apresentou a alguns dos compradores. Gostei deles: gente como eu, diretores de empresa, profissionais liberais, dois fazendeiros. Todos tinham vindo pelo prospecto. E quase todos tinham se decidido pelo lugar por causa da segurança.
Naquela semana descobri que o prospecto tinha sido enviado apenas a uma quantidade limitada de pessoas. Na minha firma, por exemplo, só eu o tinha recebido. Minha mulher atribuiu o fato a uma seleção cuidadosa de futuros moradores – e viu nisso mais um motivo de satisfação. Quanto a mim, estava achando tudo muito bom. Bom demais.
Mudamo-nos. A vida lá era realmente um encanto. Os bem-te-vis eram pontuais: às sete da manhã começavam seu afinado concerto. Os pôneis eram mansos, as aléias ensaibradas estavam sempre limpas. A brisa agitava as árvores do parque – cento e doze, bem como dizia o prospecto. Por outro lado, o sistema de alarmes era impecável. Os guardas compareciam periodicamente à nossa casa para ver se estava tudo bem – sempre gentis, sempre sorridentes. O chefe deles era uma pessoa particularmente interessada: organizava festas e torneios, preocupava-se com nosso bem-estar. Fez uma lista dos parentes e amigos dos moradores – para qualquer emergência, explicou, com um sorriso tranqüilizador. O primeiro mês decorreu – tal como prometido no prospecto – num clima de sonho. De sonho, mesmo.
Uma manhã de domingo, muito cedo – lembro-me que os bem-te-vis ainda não tinham começado a cantar – soou a sirene de alarme. Nunca tinha tocado antes, de modo que ficamos um pouco assustados – um pouco, não muito. Mas sabíamos o que fazer: nos dirigimos, em ordem, ao salão de festas, perto do lago. Quase todos ainda de roupão ou pijama.
O chefe dos guardas estava lá, ladeado por seus homens, todos armados de fuzis. Fez-nos sentar, ofereceu café. Depois, sempre pedindo desculpas pelo transtorno, explicou o motivo da reunião: é que havia marginais nos matos ao redor do Retiro e ele, avisado pela polícia, decidira pedir que não saíssemos naquele domingo.
– Afinal – disse, em tom de gracejo – está um belo domingo, os pôneis estão aí mesmo, as quadras de tênis...
Era mesmo um homem muito simpático. Ninguém chegou a ficar verdadeiramente contrariado.
Contrariados ficaram alguns no dia seguinte, quando a sirene tornou a soar de madrugada. Reunimo-nos de novo no salão de festas, uns resmungando que era segunda-feira, dia de trabalho. Sempre sorrindo, o chefe dos guardas pediu desculpas novamente e disse que infelizmente não poderíamos sair – os marginais continuavam nos matos, soltos. Gente perigosa; entre eles, dois assassinos foragidos. À pergunta de um irado cirurgião o chefe dos guardas respondeu que, mesmo de carro, não poderíamos sair; os bandidos poderiam bloquear a estreita estrada do Retiro.
– E vocês, por que não nos acompanham? – perguntou o cirurgião.
– E quem vai cuidar da família de vocês? – disse o chefe dos guardas, sempre sorrindo.
Ficamos retidos naquele dia e no seguinte. Foi aí que a polícia cercou o local: dezenas de viaturas com homens armados, alguns com máscaras contra gases. De nossas janelas nós os víamos e reconhecíamos: o chefe dos guardas estava com a razão.
Passávamos o tempo jogando cartas, passeando ou simplesmente não fazendo nada. Alguns estavam até gostando. Eu não. Pode parecer presunção dizer isto agora, mas eu não estava gostando nada daquilo.
Foi no quarto dia que o avião desceu no campo de pouso. Um jatinho. Corremos para lá.
Um homem desceu e entregou uma maleta ao chefe dos guardas. Depois olhou para nós – amedrontado, pareceu-me – e saiu pelo portão da entrada, quase correndo.
O chefe dos guardas fez sinal para que não nos aproximássemos. Entrou no avião. Deixou a porta aberta, e assim pudemos ver que examinava o conteúdo da maleta. Fechou-a, chegou à porta e fez um sinal. Os guardas vieram correndo, entraram todos no jatinho. A porta se fechou, o avião decolou e sumiu.
Nunca mais vimos o chefe e seus homens. Mas estou certo que estão gozando o dinheiro pago por nosso resgate. Uma quantia suficiente para construir dez condomínios iguais ao nosso – que eu, diga-se de passagem, sempre achei que era bom demais.
A menina e o pássaro
encantado
Ruben AlvesEra uma vez uma menina que tinha um pássaro como seu melhor amigo.
Ele era um pássaro diferente de todos os demais: era encantado.
Os pássaros comuns, se a porta da gaiola ficar aberta, vão-se embora para nunca mais voltar. Mas o pássaro da menina voava livre e vinha quando sentia saudades… As suas penas também eram diferentes. Mudavam de cor. Eram sempre pintadas pelas cores dos lugares estranhos e longínquos por onde voava. Certa vez voltou totalmente branco, cauda enorme de plumas fofas como o algodão…
— Menina, eu venho das montanhas frias e cobertas de neve, tudo maravilhosamente branco e puro, brilhando sob a luz da lua, nada se ouvindo a não ser o barulho do vento que faz estalar o gelo que cobre os galhos das árvores. Trouxe, nas minhas penas, um pouco do encanto que vi, como presente para ti…
E, assim, ele começava a cantar as canções e as histórias daquele mundo que a menina nunca vira. Até que ela adormecia, e sonhava que voava nas asas do pássaro.
Outra vez voltou vermelho como o fogo, penacho dourado na cabeça.
— Venho de uma terra queimada pela seca, terra quente e sem água, onde os grandes, os pequenos e os bichos sofrem a tristeza do sol que não se apaga. As minhas penas ficaram como aquele sol, e eu trago as canções tristes daqueles que gostariam de ouvir o barulho das cachoeiras e ver a beleza dos campos verdes.
E de novo começavam as histórias. A menina amava aquele pássaro e podia ouvi-lo sem parar, dia após dia. E o pássaro amava a menina, e por isto voltava sempre.
Mas chegava a hora da tristeza.
— Tenho de ir — dizia.
— Por favor, não vás. Fico tão triste. Terei saudades. E vou chorar…— E a menina fazia beicinho…
— Eu também terei saudades — dizia o pássaro. — Eu também vou chorar. Mas vou contar-te um segredo: as plantas precisam da água, nós precisamos do ar, os peixes precisam dos rios… E o meu encanto precisa da saudade. É aquela tristeza, na espera do regresso, que faz com que as minhas penas fiquem bonitas. Se eu não for, não haverá saudade. Eu deixarei de ser um pássaro encantado. E tu deixarás de me amar.
Assim, ele partiu. A menina, sozinha, chorava à noite de tristeza, imaginando se o pássaro voltaria. E foi numa dessas noites que ela teve uma ideia malvada: “Se eu o prender numa gaiola, ele nunca mais partirá. Será meu para sempre. Não mais terei saudades. E ficarei feliz…”
Com estes pensamentos, comprou uma linda gaiola, de prata, própria para um pássaro que se ama muito. E ficou à espera. Ele chegou finalmente, maravilhoso nas suas novas cores, com histórias diferentes para contar. Cansado da viagem, adormeceu. Foi então que a menina, cuidadosamente, para que ele não acordasse, o prendeu na gaiola, para que ele nunca mais a abandonasse. E adormeceu feliz.
Acordou de madrugada, com um gemido do pássaro…
— Ah! menina… O que é que fizeste? Quebrou-se o encanto. As minhas penas ficarão feias e eu esquecer-me-ei das histórias… Sem a saudade, o amor ir-se-á embora…
A menina não acreditou. Pensou que ele acabaria por se acostumar. Mas não foi isto que aconteceu. O tempo ia passando, e o pássaro ficando diferente. Caíram as plumas e o penacho. Os vermelhos, os verdes e os azuis das penas transformaram-se num cinzento triste. E veio o silêncio: deixou de cantar.
Também a menina se entristeceu. Não, aquele não era o pássaro que ela amava. E de noite ela chorava, pensando naquilo que havia feito ao seu amigo…
Até que não aguentou mais.
Abriu a porta da gaiola.
— Podes ir, pássaro. Volta quando quiseres…
— Obrigado, menina. Tenho de partir. E preciso de partir para que a saudade chegue e eu tenha vontade de voltar. Longe, na saudade, muitas coisas boas começam a crescer dentro de nós. Sempre que ficares com saudade, eu ficarei mais bonito. Sempre que eu ficar com saudade, tu ficarás mais bonita. E enfeitar-te-ás, para me esperar…
E partiu. Voou que voou, para lugares distantes. A menina contava os dias, e a cada dia que passava a saudade crescia.
— Que bom — pensava ela — o meu pássaro está a ficar encantado de novo…
E ela ia ao guarda-roupa, escolher os vestidos, e penteava os cabelos e colocava uma flor na jarra.
— Nunca se sabe. Pode ser que ele volte hoje…
Sem que ela se apercebesse, o mundo inteiro foi ficando encantado, como o pássaro. Porque ele deveria estar a voar de qualquer lado e de qualquer lado haveria de voltar. Ah!
Mundo maravilhoso, que guarda em algum lugar secreto o pássaro encantado que se ama…
E foi assim que ela, cada noite, ia para a cama, triste de saudade, mas feliz com o pensamento: “Quem sabe se ele voltará amanhã….”
E assim dormia e sonhava com a alegria do reencontro.
* * *
Para o
adulto que for ler esta história para uma criança:
Esta é uma história sobre a separação: quando duas pessoas que se amam têm de dizer adeus…
Depois do adeus, fica aquele vazio imenso: a saudade.
Tudo se enche com a presença de uma ausência.
Ah! Como seria bom se não houvesse despedidas…
Alguns chegam a pensar em trancar em gaiolas aqueles a quem amam. Para que sejam deles, para sempre… Para que não haja mais partidas…
Poucos sabem, entretanto, que é a saudade que torna encantadas as pessoas. A saudade faz crescer o desejo. E quando o desejo cresce, preparam-se os abraços.
Esta história, eu não a inventei.
Fiquei triste, vendo a tristeza de uma criança que chorava uma despedida… E a história simplesmente apareceu dentro de mim, quase pronta.
Para quê uma história? Quem não compreende pensa que é para divertir. Mas não é isso.
É que elas têm o poder de transfigurar o quotidiano.
Elas chamam as angústias pelos seus nomes e dizem o medo em canções. Com isto, angústias e medos ficam mais mansos.
Claro que são para crianças.
Especialmente aquelas que moram dentro de nós, e têm medo da solidão…
Esta é uma história sobre a separação: quando duas pessoas que se amam têm de dizer adeus…
Depois do adeus, fica aquele vazio imenso: a saudade.
Tudo se enche com a presença de uma ausência.
Ah! Como seria bom se não houvesse despedidas…
Alguns chegam a pensar em trancar em gaiolas aqueles a quem amam. Para que sejam deles, para sempre… Para que não haja mais partidas…
Poucos sabem, entretanto, que é a saudade que torna encantadas as pessoas. A saudade faz crescer o desejo. E quando o desejo cresce, preparam-se os abraços.
Esta história, eu não a inventei.
Fiquei triste, vendo a tristeza de uma criança que chorava uma despedida… E a história simplesmente apareceu dentro de mim, quase pronta.
Para quê uma história? Quem não compreende pensa que é para divertir. Mas não é isso.
É que elas têm o poder de transfigurar o quotidiano.
Elas chamam as angústias pelos seus nomes e dizem o medo em canções. Com isto, angústias e medos ficam mais mansos.
Claro que são para crianças.
Especialmente aquelas que moram dentro de nós, e têm medo da solidão…
As mais belas histórias de Rubem Alves
Lisboa, Edições Asa, 2003
.Lisboa, Edições Asa, 2003
Cego
e amigo Gedeão à beira da estrada
Moacyr
Scliar
— Este
que passou agora foi um Volkswagen 1962, não é, amigo Gedeão?
— Não,
Cego. Foi um Simca Tufão.
— Um
Simca Tufão? ... Ah, sim, é verdade. Um Simca potente. E muito econômico.
Conheço o Simca Tufão de longe. Conheço qualquer carro pelo barulho da máquina.
Este
que passou agora não foi um Ford?
— Não,
Cego. Foi um caminhão Mercedinho.
— Um
caminhão Mercedinho! Quem diria! Faz tempo que não passa por aqui um caminhão
Mercedinho. Grande caminhão. Forte. Estável nas curvas. Conheço o Mercedinho de
longe... Conheço qualquer carro. Sabe há quanto tempo sento à beira desta
estrada ouvindo os motores, amigo Gedeão? Doze anos, amigo Gedeão. Doze anos.
É um
bocado de tempo, não é, amigo Gedeão? Deu para aprender muita coisa. A respeito
de carros, digo. Este que passou não foi um Gordini Teimoso?
— Não,
Cego. Foi uma lambreta.
— Uma
lambreta... Enganam a gente, estas lambretas. Principalmente quando eles deixam
a descarga aberta. Mas
como eu ia dizendo, se há coisa que eu sei fazer é reconhecer automóvel pelo
barulho do motor. Também, não é para menos: anos e anos ouvindo!
Esta
habilidade de muito me valeu, em certa ocasião... Este que passou não foi um
Mercedinho?
— Não,
Cego. Foi o ônibus.
— Eu
sabia: nunca passam dois Mercedinhos seguidos. Disse só pra chatear. Mas onde é
que eu estava? Ah, sim.
Minha
habilidade já me foi útil. Quer que eu conte, amigo Gedeão? Pois então conto.
Ajuda a matar o tempo, não é? Assim o dia termina mais ligeiro. Gosto mais da
noite: é fresquinha, nesta época. Mas como eu ia dizendo: há uns anos atrás mataram
um homem a uns dois quilômetros daqui. Um fazendeiro muito rico. Mataram com
quinze balaços. Este que passou não foi um Galaxie?
— Não.
Foi um Volkswagen 1964.
— Ah,
um Volkswagen... Bom carro. Muito econômico. E a caixa de mudanças muito boa.
Mas, então, mataram o fazendeiro. Não ouviu falar? Foi um caso muito rumoroso.
Quinze balaços! E levaram todo o dinheiro do fazendeiro. Eu, que naquela época
j á costumava ficar sentado aqui à beira da estrada, ouvi falar no crime, que
tinha sido cometido num domingo. Na sexta-feira, o rádio dizia que a polícia
nem sabia por onde começar. Este que passou não foi um Candango?
— Não,
Cego, não foi um Candango.
— Eu
estava certo que era um Candango... Como eu ia contando: na sexta, nem sabiam
por onde começar.
Eu ficava
sentado aqui, nesta mesma cadeira, pensando, pensando... A gente pensa muito.
De modos que fui formando um raciocínio. E achei que devia ajudar a polícia.
Pedi ao meu vizinho para avisar ao delegado que eu tinha uma comunicação a
fazer. Mas este agora foi um Candango!
— Não,
Cego. Foi um Gordini Teimoso.
— Eu
seria capaz de jurar que era um Candango. O delegado demorou a falar comigo. De
certo pensou: "Um cego? O que pode ter visto um cego?" Estas
bobagens, sabe como é, amigo Gedeão. Mesmo assim, apareceu, porque estavam tão
atrapalhados que iriam até falar com uma pedra. Veio o delegado e sentou bem aí
onde estás, amigo Gedeão. Este agora foi o ônibus?
— Não,
Cego. Foi uma camioneta Chevrolet Pavão.
— Boa,
esta camioneta, antiga, mas boa. Onde é que eu estava? Ah, sim. Veio o
delegado. Perguntei:
"Senhor
delegado, a que horas foi cometido o crime?"
—
"Mais ou menos às três da tarde, Cego" — respondeu ele.
"Então" — disse eu. — "O senhor terá de procurar um Oldsmobile
1927. Este carro tem a surdina furada.
Uma
vela de ignição funciona mal. Na frente, viajava um homem muito gordo. Atrás,
tenho certeza, mas iam talvez duas ou três pessoas." O delegado estava
assombrado. "Como sabe de tudo isto, amigo?" — era só o que ele
perguntava. Este que passou não foi um DKW?
— Não,
Cego. Foi um Volkswagen.
— Sim.
O delegado estava assombrado. "Como sabe de tudo isto?" — "Ora,
delegado" — respondi. — "Há anos que sento aqui à beira da estrada
ouvindo automóveis passar. Conheço qualquer carro. Sem mais: quando o motor está
mal, quando há muito peso na frente, quando há gente no banco de trás. Este
carro passou para lá às quinze para as três; e voltou para a cidade às três e
quinze." — "Como é que tu sabias das horas?" — perguntou o
delegado. — "Ora, delegado"— respondi. — "Se há coisa que eu sei
— além de reconhecer os carros pelo barulho do motor — é calcular as horas pela
altura do sol." Mesmo duvidando, o delegado foi... Passou um Aero Willys?
— Não,
Cego. Foi um Chevrolet.
— O
delegado acabou achando o Oldsmobile 1927 com toda a turma dentro. Ficaram tão
assombrados que se entregaram sem resistir. O delegado recuperou todo o
dinheiro do fazendeiro, e a família me deu uma boa bolada de gratificação. Este
que passou foi um Toyota?
— Não,
Cego. Foi um Ford 1956.
O texto
acima foi publicado no livro "Para Gostar de Ler — Volume 9 —
Contos", Editora Ática — São Paulo, 1984, pág. 26.
O
menino e o velho
Lygia
Fagundes Telles
Quando
entrei no pequeno restaurante da praia os dois já estavam sentados, o velho e o
menino. Manhã de um azul flamante. Fiquei olhando o mar que não via há algum
tempo e era o mesmo mar de antes, um mar que se repetia e era irrepetível.
Misterioso e sem mistério nas ondas estourando naquelas espumas flutuantes
(bom-dia, Castro Alves!) tão efêmeras e eternas, nascendo e morrendo ali na
areia. O garçom, um simpático alemão corado, me reconheceu logo. Franz?, eu
perguntei e ele fez uma continência, baixou a bandeja e deixou na minha frente
o copo de chope. Pedi um sanduíche. Pão preto?, ele lembrou e foi em seguida
até a mesa do velho que pediu outra garrafa de água de Vichy.
Fixei o
olhar na mesa ocupada pelos dois, agora o velho dizia alguma coisa que fez o
menino rir, um avô com o neto. E não era um avô com o neto, tão nítidas as tais
diferenças de classe no contraste entre o homem vestido com simplicidade mas
num estilo rebuscado e o menino encardido, um moleque de alguma escola pobre, a
mochila de livros toda esbagaçada no espaldar da cadeira. Deixei baixar a
espuma do chope mas não olhava o copo, com o olhar suplente (sem direção e
direcionado) olhava o menino que mostrava ao velho as pontas dos dedos sujas de
tinta, treze, catorze anos? O velho espigado alisou a cabeleira branca em
desordem (o vento) e mergulhou a ponta do guardanapo de papel no copo d'água.
Passou o guardanapo para o menino que limpou impaciente as pontas dos dedos e
logo desistiu da limpeza porque o suntuoso sorvete coroado de creme e pedaços
de frutas cristalizadas já estava derretendo na taça. Mergulhou a colher no
sorvete. A boca pequena tinha o lábio superior curto deixando aparecer os dois
dentes da frente mais salientes do que os outros e com isso a expressão
adquiria uma graça meio zombeteira. Os olhos oblíquos sorriam acompanhando a
boca mas o anguloso rostinho guardava a palidez da fome. O velho apertava os
olhos para ver melhor e seu olhar era demorado enquanto ia acendendo o cachimbo
com gestos vagarosos, compondo todo um ritual de elegância. Deixou o cachimbo
no canto da boca e consertou o colarinho da camisa branca que aparecia sob o
decote do suéter verde-claro, devia estar sentindo calor mas não tirou o
suéter, apenas desabotoou o colarinho. Na aparência, tudo normal: ainda com os
resíduos da antiga beleza o avô foi buscar o neto na saída da escola e agora
faziam um lanche, gazeteavam? Mas o avô não era o avô. Achei-o parecido com o
artista inglês que vi num filme, um velho assim esguio e bem cuidado, fumando o
seu cachimbo. Não era um filme de terror mas o cenário noturno tinha qualquer
coisa de sinistro com seu castelo descabelado. A lareira acesa. As tapeçarias.
E a longa escada com os retratos dos antepassados subindo (ou descendo) aqueles
degraus que rangiam sob o gasto tapete vermelho.
Cortei
pelo meio o sanduíche grande demais e polvilhei o pão com sal. Não estava olhando
mas percebia que os dois agora conversavam em voz baixa, a taça de sorvete
esvaziada, o cachimbo apagado e a voz apagada do velho no mesmo tom caviloso
dos carunchos cavando (roque-roque) as suas galerias. Acabei de esvaziar o copo
e chamei o Franz. Quando passei pela mesa os dois ainda conversavam em voz
baixa - foi impressão minha ou o velho evitou o meu olhar? O menino do
labiozinho curto (as pontas dos dedos ainda sujas de tinta) olhou-me com essa
vaga curiosidade que têm as crianças diante dos adultos, esboçou um sorriso e
concentrou-se de novo no velho. O garçom alemão acompanhou-me afável até a
porta, o restaurante ainda estava vazio. Quase me lembrei agora, eu disse. Do
nome do artista, esse senhor é muito parecido com o artista de um filme que vi
na televisão. Franz sacudiu a cabeça com ar grave: Homem muito bom! Cheguei a
dizer que não gostava dele ou só pensei em dizer? Atravessei a avenida e fui ao
calçadão para ficar junto do mar.
Voltei
ao restaurante com um amigo (duas ou três semanas depois) e na mesma mesa, o
velho e o menino. Entardecia. Ao cruzar com ambos, bastou um rápido olhar para
ver a transformação do menino com sua nova roupa e novo corte de cabelo. Comia
com voracidade (as mãos limpas) um prato de batatas fritas. E o velho com sua
cara atenta e terna, o cachimbo, a garrafa de água e um prato de massa ainda
intocado. Vestia um blazer preto e malha de seda branca, gola alta.
Puxei a
cadeira para assim ficar de costas para os dois, entretida com a conversa sobre
cinema, o meu amigo era cineasta. Quando saímos a mesa já estava desocupada. Vi
a nova mochila (lona verde-garrafa, alças de couro) dependurada na cadeira. Ele
esqueceu, eu disse e apontei a mochila para o Franz que passou por mim afobado,
o restaurante encheu de repente. Na porta, enquanto me despedia do meu amigo,
vi o menino chegar correndo para pegar a mochila. Reconheceu-me e justificou-se
(os olhos oblíquos riam mais do que a boca), Droga! Acho que não esqueço a
cabeça porque está grudada.
Pressenti
o velho esperando um pouco adiante no meio da calçada e tomei a direção oposta.
O mar e o céu formavam agora uma única mancha azul-escura na luz turva que ia
dissolvendo os contornos. Quase noite. Fui andando e pensando no filme inglês
com os grandes candelabros e um certo palor vindo das telas dos retratos ao
longo da escadaria. Na cabeceira da mesa, o velho de chambre de cetim escuro
com o perfil esfumaçado. Nítido, o menino e sua metamorfose mas persistindo a
palidez. E a graça do olhar que ria com o labiozinho curto.
No fim
do ano, ao passar pelo pequeno restaurante resolvi entrar mas antes olhei
através da janela, não queria encontrar o velho e o menino, não me apetecia
vê-los, era isso, questão de apetite. A mesa estava com um casal de jovens.
Entrei e Franz veio todo contente, estranhou a minha ausência (sempre
estranhava) e indicou-me a única mesa desocupada. Hora do almoço. Colocou na
minha frente um copo de chope, o cardápio aberto e de repente fechou-se sua
cara num sobressalto. Inclinou-se, a voz quase sussurrante, os olhos
arregalados. Ficou passando e repassando o guardanapo no mármore limpo da mesa,
A senhora se lembra? Aquele senhor com o menino que ficava ali adiante, disse e
indicou com a cabeça a mesa agora ocupada pelos jovens. Ich! foi uma coisa
horrível! Tão horrível, aquele menininho, lembra? Pois ele enforcou o pobre do
velho com uma cordinha de náilon, roubou o que pôde e deu no pé! Um homem tão
bom! Foi encontrado pelo motorista na segunda-feira e o crime foi no sábado.
Estava nu, o corpo todo judiado e a cordinha no pescoço, a senhora não viu no
jornal?! Ele morava num apartamento aqui perto, a policia veio perguntar mas o
que a gente sabe? A gente não sabe de nada! O pior é que não vão pegar o
garoto, ich! Ele é igual a esses bichinhos que a gente vê na areia e que logo
afundam e ninguém encontra mais. Nem com escavadeira a gente não encontra não.
Já vou, já vou!, ele avisou em voz alta, acenando com o guardanapo para a mesa
perto da porta e que chamava fazendo tilintar os talheres. Ninguém mais tem paciência,
já vou!...
Olhei
para fora. Enquadrado pela janela, o mar pesado, cor de chumbo, rugia
rancoroso.
Fui examinando o cardápio, não, nem peixe nem carne. Uma salada. Fiquei olhando a espuma branca do chope ir baixando no copo.
Fui examinando o cardápio, não, nem peixe nem carne. Uma salada. Fiquei olhando a espuma branca do chope ir baixando no copo.
O texto
acima foi extraído do livro "Invenção e Memória", Editora Rocco - Rio
de Janeiro, 2000, pág. 69.
Eloquência
Singular
Fernando
Sabino
Mal
iniciara seu discurso, o deputado embatucou:
—
Senhor Presidente: eu não sou daqueles que...
O verbo
ia para o singular ou para o plural? Tudo indicava o plural. No entanto, podia
perfeitamente ser o singular:
— Não
sou daqueles que...
Não sou
daqueles que recusam... No plural soava melhor. Mas era preciso precaver-se
contra essas armadilhas da linguagem — que recusa? — ele que tão facilmente
caia nelas, e era logo massacrado com um aparte. Não sou daqueles que...
Resolveu ganhar tempo:
—
...embora perfeitamente cônscio das minhas altas responsabilidades como
representante do povo nesta Casa, não sou...
Daqueles
que recusa, evidentemente. Como é que podia ter pensado em plural? Era um
desses casos que os gramáticos registram nas suas questiúnculas de português:
ia para o singular, não tinha dúvida. Idiotismo de linguagem, devia ser.
—
...daqueles que, em momentos de extrema gravidade, como este que o Brasil
atravessa...
Safara-se
porque nem se lembrava do verbo que pretendia usar:
— Não
sou daqueles que...
Daqueles
que o quê? Qualquer coisa, contanto que atravessasse de uma vez essa traiçoeira
pinguela gramatical em que sua oratória lamentavelmente se havia metido de
saída. Mas a concordância? Qualquer verbo servia, desde que conjugado
corretamente, no singular. Ou no plural:
— Não
sou daqueles que, dizia eu — e é bom que se repita sempre, senhor Presidente,
para que possamos ser dignos da confiança em nós depositada...
Intercalava
orações e mais orações, voltando sempre ao ponto de partida, incapaz de se
definir por esta ou aquela concordância. Ambas com aparência castiça. Ambas
legítimas. Ambas gramaticalmente lídimas, segundo o vernáculo:
— Neste
momento tão grave para os destinos da nossa nacionalidade.
Ambas
legítimas? Não, não podia ser. Sabia bem que a expressão "daqueles
que" era coisa já estudada e decidida por tudo quanto é gramaticóide por
aí, qualquer um sabia que levava sempre o verbo ao plural:
—
...não sou daqueles que, conforme afirmava...
Ou ao
singular? Há exceções, e aquela bem podia ser uma delas. Daqueles que. Não sou
UM daqueles que. Um que recusa, daqueles que recusam. Ah! o verbo era recusar:
—
Senhor Presidente. Meus nobres colegas.
A
concordância que fosse para o diabo. Intercalou mais uma oração e foi em frente
com bravura, disposto a tudo, afirmando não ser daqueles que...
— Como?
Acolheu
a interrupção com um suspiro de alívio:
— Não
ouvi bem o aparte do nobre deputado.
Silêncio.
Ninguém dera aparte nenhum.
— Vossa
Excelência, por obséquio, queira falar mais alto, que não ouvi bem — e
apontava, agoniado, um dos deputados mais próximos.
— Eu?
Mas eu não disse nada...
— Terei
o maior prazer em responder ao aparte do nobre colega. Qualquer aparte.
O
silêncio continuava. Interessados, os demais deputados se agrupavam em torno do
orador, aguardando o desfecho daquela agonia, que agora já era, como no verso
de Bilac, a agonia do herói e a agonia da tarde.
— Que é
que você acha? — cochichou um.
— Acho
que vai para o singular.
— Pois
eu não: para o plural, é lógico.
O
orador seguia na sua luta:
— Como
afirmava no começo de meu discurso, senhor Presidente...
Tirou o
lenço do bolso e enxugou o suor da testa. Vontade de aproveitar-se do gesto e
pedir ajuda ao próprio Presidente da mesa: por favor, apura aí pra mim, como é
que é, me tira desta...
— Quero
comunicar ao nobre orador que o seu tempo se acha esgotado.
—
Apenas algumas palavras, senhor Presidente, para terminar o meu discurso: e
antes de terminar, quero deixar bem claro que, a esta altura de minha
existência, depois de mais de vinte anos de vida pública...
E
entrava por novos desvios:
— Muito
embora... sabendo perfeitamente... os imperativos de minha consciência
cívica... senhor Presidente... e o declaro peremptoriamente... não sou daqueles
que...
O
Presidente voltou a adverti-lo que seu tempo se esgotara. Não havia mais por
que fugir:
—
Senhor Presidente, meus nobres colegas!
Resolveu
arrematar de qualquer maneira. Encheu o peito de desfechou:
— Em
suma: não sou daqueles. Tenho dito.
Houve
um suspiro de alívio em todo o plenário, as palmas romperam. Muito bem! Muito
bem! O orador foi vivamente cumprimentado.
Texto
extraído do livro "A companheira de viagem", Ed. do Autor - Rio de
Janeiro, 1965, pág. 139.
As
mãos de meu filho
Todos
aqueles homens e mulheres ali na platéia sombria parecem apagados habitantes
dum submundo, criaturas sem voz nem movimento, prisioneiros de algum perverso
sortilégio. Centenas de olhos estão fitos na zona luminosa do palco. A luz
circular do refletor envolve o pianista e o piano, que neste instante formam um
só corpo, um monstro todo feito de nervos sonoros.
Beethoven.
Há
momentos em que o som do instrumento ganha uma qualidade profundamente humana.
O artista está pálido à luz de cálcio. Parece um cadáver. Mas mesmo assim é uma
fonte de vida, de melodias, de sugestões — a origem dum mundo misterioso e
rico. Fora do círculo luminoso pesa um silêncio grave e parado.
Beethoven
lamenta-se. É feio, surdo, e vive em conflito com os homens. A música parece
escrever no ar estas palavras em doloroso desenho. Tua carta me lançou das mais
altas regiões da felicidade ao mais profundo abismo da desolação e da dor. Não
serei, pois, para ti e para os demais, senão um músico? Será então preciso que
busque em mim mesmo o necessário ponto de apoio, porque fora de mim não
encontro em quem me amparar. A amizade e os outros sentimentos dessa espécie
não serviram senão para deixar malferido o meu coração. Pois que assim seja,
então! Para ti, pobre Beethoven, não há felicidade no exterior; tudo terás que
buscar dentro de ti mesmo. Tão-somente no mundo ideal é que poderás achar a
alegria.
Adágio.
O pianista sofre com Beethoven, o piano estremece, a luz mesma que os envolve
parece participar daquela mágoa profunda.
Num
dado momento as mãos do artista se imobilizam. Depois caem como duas asas
cansadas. Mas de súbito, ágeis e fúteis, começam a brincar no teclado. Um
scherzo. A vida é alegre. Vamos sair para o campo, dar a mão às raparigas em
flor e dançar com elas ao sol... A melodia, no entanto, é uma superfície leve,
que não consegue esconder o desespero que tumultua nas profundezas. Não
obstante, o claro jogo continua. A música saltitante se esforça por ser
despreocupada e ter alma leve. É uma dança pueril em cima duma sepultura. Mas
de repente, as águas represadas rompem todas as barreiras, levam por diante a
cortina vaporosa e ilusória, e num estrondo se espraiam numa melodia agitada de
desespero. O pianista se transfigura. As suas mãos galopam agitadamente sobre o
teclado como brancos cavalos selvagens. Os sons sobem no ar, enchem o teatro, e
para cada uma daquelas pessoas do submundo eles têm uma significação especial,
contam uma história diferente.
Quando
o artista arranca o último acorde, as luzes se acendem. Por alguns rápidos
segundos há como que um hiato, e dir-se-ia que os corações param de bater.
Silêncio. Os sub-homens sobem à tona da vida. Desapareceu o mundo mágico e
circular formado pela luz do refletor. O pianista está agora voltado para a
platéia, sorrindo lividamente, como um ressuscitado. O fantasma de Beethoven
foi exorcizado. Rompem os aplausos.
Dentro
de alguns momentos torna a apagar-se a luz. Brota de novo o círculo mágico.
O
Diamante
Fernando Sabino
Fernando Sabino
Em 1933
Jovelino, garimpeiro no interior da Bahia, concluiu que ali não havia mais nada
a garimpar. Os filhos viviam da mão pra boca, Jovelino já não via jeito de
conseguir com que prover o sustento da família. E resolveu se mandar para
Goiás, onde Anápolis, a nova terra da promissão, atraia a cobiça dos
garimpeiros de tudo quanto era parte, com seus diamantes reluzindo à flor da
terra. Jovelino reuniu a filharada, e com a mulher, o genro, dois cunhados,
meteu o pé na estrada.
Longa
era a estrada que levava ao Eldorado de Jovelino: quase um ano consumiu ele em
andança com a sua tribo, pernoitando em paióis de fazendas, em ranchos de beira
de caminho, em chiqueiros e currais, onde quer que lhe dessem pasto e pousada.
Vai daí
Jovelino chegou aos arredores de Anápolis depois de muitas luas e ali se
estabeleceu, firme no cabo da enxada, cavando a terra e encontrando pedras que
não eram diamantes. Daqui para ali, dali para lá, ano vai, ano vem, Jovelino
existia de nômade com seu povinho cada vez mais minguando de fome. Comia como
podia — e não podia. Vivia ao deus-dará — e Deus não dava. Quem me conta é o
filho do fazendeiro de quem Jovelino de tornou empregado:
Ao fim
de dez anos ele concluiu que não encontraria diamante nenhum, e resolveu voltar
com sua família para a Bahia onde a vida, segundo diziam, agora era
melhorzinha. Não dava diamante não, mas o governo prometia emprego seguro a
quem quisesse trabalhar.
Jovelino
reuniu a família e botou pé na estrada, de volta à terra de nascença, onde
haveria de morrer. Mais um ano palmilhado palmo a palmo em terra batida,
vivendo de favor, Jovelino e sua obrigação, de vez em quando perdendo um, que
isso de filho é criação que morre muito. Foi nos idos de 43.
Chegou
lá e se instalou no mesmo lugar de onde havia saído. Governo deu emprego não.
Plantou sua rocinha e foi se aguentando, Até que um dia...
Até que
um dia de noite Jovelino teve um sonho. Sonhou que amanhava a terra e de
repente, numa certeira, a terra escorreu... A terra escorreu e aos seus olhos
brilhou, reluziu, faiscou, resplandeceu um diamante soberbo, deslumbrante como
uma imensa estrela no céu — como uma estrela no céu? Como o próprio olho de
Deus! Jovelino olhou ao redor de seu sonho e viu que estava em Anápolis, no
mesmo sítio em que tinha desenterrado a sua desilusão.
E para
lá partiu, dia seguinte mesmo, arrastando sua cambada. Levou nisso um entreano,
repetindo pernoites revividos, tome estrada! Deu por si em terra de novo
goiana. Quem me conta é o filho do fazendeiro:
— Você
precisava de ver o furor com que Jovelino procurou o diamante de seu sonho. A
terra de Goiás ficou para sempre revolvida, graças à enxada dele. De vez em
quando desmoronava, Jovelino ia ver, não era um diamante, era um calhau. Até
que um dia...
—
Encontrou? — perguntei, já aflito.
—
Encontrou nada! Empregou-se na fazenda de meu pai, o tempo passou, os filhos
crescidos lhe deram netos, a mulher já morta e enterrada, livre dos cunhados,
os genros bem arranjados na vida. Um deles é coletor em Goiânia.
O
próprio Jovelino, entrado em anos, era agora um velho sacudido e bem disposto,
que tinha mais o que fazer do que cuidar de garimpagens. Mas um dia não
resistiu: passou a mão na sua enxada, e sem avisar ninguém, o olhar reluzente
de esperança, partiu à procura do impossível, do irreal, do inexistente
diamante de seu sonho.
(Fernando
Sabino. Deixa o Alfredo Falar! Rio de Janeiro, Record, 1979.)
Notícia de Jornal
Fernando
Sabino
Leio no jornal a notícia de que um homem
morreu de fome. Um homem de cor branca, 30 anos presumíveis, pobremente
vestido, morreu de fome, sem socorros, em pleno centro da cidade, permanecendo
deitado na calçada durante 72 horas, para finalmente morrer de fome.
Morreu de fome. Depois de insistentes
pedidos e comentários, uma ambulância do Pronto Socorro e uma radiopatrulha
foram ao local, mas regressaram sem prestar auxílio ao homem, que acabou
morrendo de fome.
Um homem que morreu de fome. O comissário
de plantão (um homem) afirmou que o caso (morrer de fome) era da alçada da
Delegacia de Mendicância, especialista em homens que morrem de fome. E o homem
morreu de fome.
O corpo do homem que morreu de fome foi
recolhido ao Instituto Anatômico sem ser identificado. Nada se sabe dele, senão
que morreu de fome.
Um homem morre de fome em plena rua, entre
centenas de passantes. Um homem caído na rua. Um bêbado. Um vagabundo. Um
mendigo, um anormal, um tarado, um pária, um marginal, um proscrito, um bicho,
uma coisa - não é um homem. E os outros homens cumprem seu destino de
passantes, que é o de passar. Durante setenta e duas horas todos passam, ao
lado do homem que morre de fome, com um olhar de nojo, desdém, inquietação e
até mesmo piedade, ou sem olhar nenhum. Passam, e o homem continua morrendo de
fome, sozinho, isolado, perdido entre os homens, sem socorro e sem perdão.
Não é da alçada do comissário, nem do
hospital, nem da rádiopatrulha, por que haveria de ser daminha alçada? Que é
que eu tenho com isso? Deixa o homem morrer de fome.
E o homem morre de fome. De trinta anos
presumíveis. Pobremente vestido. Morreu de fome, diz o jornal. Louve-se a
insistência dos comerciantes, que jamais morrerão de fome, pedindo providências
às autoridades. As autoridades nada mais puderam fazer senão remover o corpo do
homem. Deviam deixar que apodrecesse, para escarmento dos outros homens. Nada
mais puderam fazer senão esperar que morresse de fome.
E ontem, depois de setenta e duas horas de
inanição, tombado em plena rua, no centro mais movimentado da cidade do Rio de
Janeiro, Estado da Guanabara, um homem morreu de fome.
Josué
Dalton Trevisan
Dalton Trevisan
Às
treze horas de ontem, na rua Barão de Serro Azul, o ciclista Josué dos Santos
costurava a sua magrela – epa, uma finta! Uai, nova firula! Olé, outro fininho!
– pelo trânsito selvagem.
Na
seção de ocorrências policias consta que era funileiro autônomo. É tudo o que
sabemos, além de que morreu. Um ciclista qualquer, curvado sobre o guidão,
riscando o trim, trim da campainha.
a volta
do almoço corria decerto para atender a um chamado, quando o caminhão, na
ultrapassagem, matou-o quase de imediato. Josué ainda moço, não se foi sem
deixar um recado, ao contrário dos velhos ciclistas exaustos de tanto pedalar.
O
caminhão passou por cima do corpo e da bicicleta de Josué. Não morreu de
pronto. Iniciou uma frase:
–
Avi...se... Ma...ri...
E mais
nada. A bicicleta e o corpo, um só Josué. Ao separarem cabeça torta e guidão
retorcido, que fim o levou?
O
caminhoneiro, após exame de dosagem alcoólica, liberado seguiu viagem. Josué,
esse, conduzido ao necrotério, um dos braços arrastando no chão.
Para
que cidade, a uma hora da tarde no relógio da catedral, tripulou o seu pássaro
de roda sem aros? Já desviara antes de caminhões que lhe mordiam a nuca e,
dobrando-se sobre o guidão, girava destemido os pedais. O vento na cara, por
onde o suor escorria, quase ergueu voo na praça Tiradentes se um guarda na
esquina não fecha o sinal.
Outra
vez monta o seu cavalinho de arame e sai chispado para a morte, a uma da tarde
em todos os relógios da praça Tiradentes. É a hora em que os caminhões almoçam
ciclistas. Entre um para-choque com dez toneladas de carga e o magro peito de
Josué, quem pode mais?
O baque
fundiu o moço e o brinquedo de passeio em bicicleta cubista. Primeiro ela
pousou num galho florido de ipê, depois na torre esquerda da catedral e, já
pintada de ouro, se perde na próxima nuvem.
No
reino dos ciclistas os caminhões são proibidos e Josué entrou sem perigo no
céu, ainda que na contramão.
O
sangue derramado no asfalto viajou nos pneus de carros em várias direções.
Algumas gotas para o norte, outras para a cordilheira dos Andes, as mais
preciosas para a rua da namorada: era sangue do coração de Josué.
Ele morreu
como um bom ciclista: quase de imediato. Se um de nós cai, outro já decola a
uma da tarde, o peito impávido contra a baioneta calada dos para-choques.
Investe aos saltos, o coração pequeno de medo e nenhum pensa em usar colete de
aço.
Josué,
humilde e buliçoso pardal da cidade. Os passarões menosprezam os pobres
pardaizinhos, que não têm penas coloridas nem cantam. Eco ao trim, trim da
nossa campainha – ai, ai, socorro! – igual apelo é o seu pipio aflito.
Agora
todos sabemos, Josué, da sua curta biografia. Precisou morrer para ser
lembrado, ao menos por instante. Josué dos Santos, ciclista do sem fim azul e,
ao que parece, funileiro autônomo.
Em cada
esquina desta cidade a morte pede carona.
Amanhã
qual de nós, ao lhe estender a mão, estará fazendo a sua última cortesia?
(Texto
inédito que aparecerá no livro A Mão na Pena, a ser lançado pela editora Arte
& Letra)
Mudança
Clarice
Lispector
Sente-se
em outra cadeira, no outro lado da mesa. Mais tarde, mude de mesa.
Quando
sair, procure andar pelo outro lado da rua. Depois, mude de caminho, ande por
outras ruas, calmamente, observando com atenção os lugares por onde você passa.
Tome outros ônibus.
Mude
por uns tempos o estilo das roupas. Dê os seus sapatos velhos. Procure andar
descalço alguns dias. Tire uma tarde inteira para passear livremente na praia,
ou no parque, e ouvir o canto dos passarinhos. Veja o mundo de outras
perspectivas.
Abra e
feche as gavetas e portas com a mão esquerda. Durma no outro lado da cama...
Depois, procure dormir em outras camas. Assista a outros programas de tv,
compre outros jornais... leia outros livros. Viva outros romances.
Não
faça do hábito um estilo de vida. Ame a novidade. Durma mais tarde. Durma mais
cedo. Aprenda uma palavra nova por dia numa outra língua.
Corrija
a postura. Coma um pouco menos, escolha comidas diferentes, novos temperos,
novas cores, novas delícias.
Tente o
novo todo dia. O novo lado, o novo método, o novo sabor, o novo jeito, o novo
prazer, o novo amor. A nova vida. Tente. Busque novos amigos. Tente novos
amores. Faça novas relações.
Almoce
em outros locais, vá a outros restaurantes, tome outro tipo de bebida, compre
pão em outra padaria. Almoce mais cedo, jante mais tarde ou vice-versa.
Escolha
outro mercado... outra marca de sabonete, outro creme dental... Tome banho em
novos horários. Use canetas de outras cores. Vá passear em outros lugares. Ame
muito, cada vez mais, de modos diferentes.
Troque
de bolsa, de carteira, de malas, troque de carro, compre novos óculos, escreva
outras poesias. Jogue fora os velhos relógios, quebre delicadamente esses
horrorosos despertadores. Abra conta em outro banco. Vá a outros cinemas,
outros cabeleireiros, outros teatros, visite novos museus. Mude.
Lembre-se
de que a Vida é uma só. E pense seriamente em arrumar um outro emprego, uma
nova ocupação, um trabalho mais light, mais prazeroso, mais digno, mais humano.
Se você não encontrar razões para ser livre, invente-as. Seja criativo.
E
aproveite para fazer uma viagem despretensiosa, longa, se possível sem destino.
Experimente coisas novas. Troque novamente. Mude, de novo. Experimente outra
vez. Você certamente conhecerá coisas melhores e coisas piores do que as já
conhecidas, mas não é isso o que importa. O mais importante é a mudança, o
movimento, o dinamismo, a energia. Só o que está morto não muda!
Repito
por pura alegria de viver: a salvação é pelo risco, sem o qual a vida não
vale a
pena!
A hóspede importuna
O joão-de-barro já estava arrependido de acolher em casa uma fêmea que lhe pedira agasalho em carater de emergencia. Ela se desintendera com o companheiro e este a convidara a retirar-se, nao tendo habilidades de construtor, recorreu a primeira casa de joão-de-barro que encontrou e, o dono foi generoso, abrigando-a. Sucede que o joão-de-barro era misógino e construíra a habitação para seu uso exclusivo. A presença insólita perturbava seus hábitos. Já nao sentia prazer em voar e descansar e sabe-se que os joões-de-barro sao joviais. A fêmea insistia em estabelecer com ele o dueto de gritos musicais e parecia inclinada a ir mais longe, para o grande aborrecimento do solitário.
Então ele decidiu pedir a ajuda de um colega a fim de se ver livre da importuna. O amigo estava justamente tomando as primeiras providências para fazer casa. "Antes de prosseguir, voce vai fazer um obséquio, disse-lhe. Vamos até lá em casa e veja se conquista uma intrusa que não quer sair de lá". O segundo joão-de-barro atendeu ao primeiro, e no interior da casa deste, cativou as graças da ave. Achou-se tão bem lá que não quis mais sair, para que iria se dar ao trabalho de construir casa, se já se dispunha daquela, com seu amor ao seu lado? Assim quedaram os três, e o dono solteirão, sem força para reagir, tornou-se um serviçal do par trazendo-lhe alimentos e prestando pequenos serviços. Ainda bem que a casa era espaçosa.
A hóspede importuna
Carlos
Drummond de Andrade.
O joão-de-barro já estava arrependido de acolher em casa uma fêmea que lhe pedira agasalho em carater de emergencia. Ela se desintendera com o companheiro e este a convidara a retirar-se, nao tendo habilidades de construtor, recorreu a primeira casa de joão-de-barro que encontrou e, o dono foi generoso, abrigando-a. Sucede que o joão-de-barro era misógino e construíra a habitação para seu uso exclusivo. A presença insólita perturbava seus hábitos. Já nao sentia prazer em voar e descansar e sabe-se que os joões-de-barro sao joviais. A fêmea insistia em estabelecer com ele o dueto de gritos musicais e parecia inclinada a ir mais longe, para o grande aborrecimento do solitário.
Então ele decidiu pedir a ajuda de um colega a fim de se ver livre da importuna. O amigo estava justamente tomando as primeiras providências para fazer casa. "Antes de prosseguir, voce vai fazer um obséquio, disse-lhe. Vamos até lá em casa e veja se conquista uma intrusa que não quer sair de lá". O segundo joão-de-barro atendeu ao primeiro, e no interior da casa deste, cativou as graças da ave. Achou-se tão bem lá que não quis mais sair, para que iria se dar ao trabalho de construir casa, se já se dispunha daquela, com seu amor ao seu lado? Assim quedaram os três, e o dono solteirão, sem força para reagir, tornou-se um serviçal do par trazendo-lhe alimentos e prestando pequenos serviços. Ainda bem que a casa era espaçosa.
Diálogo de todo dia
Carlos Drummond de Andrade
Alô, quem
fala?
- Ninguém. Quem fala é você que está perguntando quem fala.
- Mas eu preciso saber com quem estou falando.
- E eu preciso saber antes a quem estou respondendo.
- Assim não dá. Me faz o obséquio de dizer quem fala?
- Todo mundo fala, meu amigo, desde que não seja mudo.
- Isso eu sei, não precisava me dizer como novidade. Eu queria saber é quem está no aparelho.
- Ah, sim. No aparelho não está ninguém...
- Como não está, se você está me respondendo?
- Eu estou fora do aparelho. Dentro do aparelho não cabe ninguém.
- Engraçadinho. Então, quem está fora do aparelho?
- Agora melhorou. Estou eu, para servi-lo.
- Não parece. Se fosse para me servir, já teria dito quem está falando.
- Bem, nós dois estamos falando. Eu de cá, você de lá. E um não conhece o outro.
- Se eu conhecesse não estava perguntando.
- Você é muito perguntador. Note que eu não lhe perguntei nada.
- Nem tinha que perguntar. Pois se fui eu que telefonei.
- Não perguntei nem vou perguntar. Não estou interessado em conhecer outras pessoas.
- Mas podia estar interessado pelo menos em responder a quem telefonou.
- Estou respondendo.
- Pela última vez, cavalheiro, e em nome de Deus: quem fala?
- Pela última vez, e em nome da segurança, por que eu sou obrigado a dar esta informação a um desconhecido?
- Bolas!
- Bolas digo eu. Bolas e carambolas. Por acaso você não pode dizer com quem deseja falar, para eu lhe responder se essa pessoa está ou não aqui, mora ou não mora neste endereço? Vamos, diga de uma vez por todas: com quem deseja falar?
Silêncio.
- Vamos, diga: com quem deseja falar?
- Desculpe, a confusão é tanta que eu nem sei mais. Esqueci. Chau.
Menina bonita do laço de fita
- Ninguém. Quem fala é você que está perguntando quem fala.
- Mas eu preciso saber com quem estou falando.
- E eu preciso saber antes a quem estou respondendo.
- Assim não dá. Me faz o obséquio de dizer quem fala?
- Todo mundo fala, meu amigo, desde que não seja mudo.
- Isso eu sei, não precisava me dizer como novidade. Eu queria saber é quem está no aparelho.
- Ah, sim. No aparelho não está ninguém...
- Como não está, se você está me respondendo?
- Eu estou fora do aparelho. Dentro do aparelho não cabe ninguém.
- Engraçadinho. Então, quem está fora do aparelho?
- Agora melhorou. Estou eu, para servi-lo.
- Não parece. Se fosse para me servir, já teria dito quem está falando.
- Bem, nós dois estamos falando. Eu de cá, você de lá. E um não conhece o outro.
- Se eu conhecesse não estava perguntando.
- Você é muito perguntador. Note que eu não lhe perguntei nada.
- Nem tinha que perguntar. Pois se fui eu que telefonei.
- Não perguntei nem vou perguntar. Não estou interessado em conhecer outras pessoas.
- Mas podia estar interessado pelo menos em responder a quem telefonou.
- Estou respondendo.
- Pela última vez, cavalheiro, e em nome de Deus: quem fala?
- Pela última vez, e em nome da segurança, por que eu sou obrigado a dar esta informação a um desconhecido?
- Bolas!
- Bolas digo eu. Bolas e carambolas. Por acaso você não pode dizer com quem deseja falar, para eu lhe responder se essa pessoa está ou não aqui, mora ou não mora neste endereço? Vamos, diga de uma vez por todas: com quem deseja falar?
Silêncio.
- Vamos, diga: com quem deseja falar?
- Desculpe, a confusão é tanta que eu nem sei mais. Esqueci. Chau.
Menina bonita do laço de fita
Era uma
vez uma menina linda, linda. Os olhos dela pareciam duas azeitonas pretas,
daquelas bem brilhantes. Os cabelos eram enroladinhos e bem negros, feito
fiapos da noite. A pele era escura e lustrosa, que nem o pelo da pantera negra
quando pula na chuva. Ainda por cima, a mãe gostava de fazer trancinhas no
cabelo dela e enfeitar com laço de fita colorida. Ela ficava parecendo uma
princesa das Terras da África, ou uma fada do Reino do Luar.
Do lado
da casa dela morava um coelho branco, de orelha cor-de-rosa, olhos vermelhos e
focinho nervoso sempre tremelicando. O coelho achava a menina a pessoa mais
linda que ele tinha visto em toda a vida. E pensava: - Ah, quando eu casar
quero ter uma filha pretinha e linda que nem ela… Por isso, um dia ele foi até
a casa da menina e perguntou: - Menina bonita do laço de fita, qual é teu
segredo pra ser tão pretinha? A menina não sabia, mas inventou: - Ah, deve ser
porque eu caí na tinta preta quando era pequenina.. O coelho saiu dali,
procurou uma lata de tinta preta e tornou banho nela. Ficou bem negro, todo
contente. Mas aí veio uma chuva e lavou aquele pretume, ele ficou branco outra
vez.
Então ele
voltou lá na casa da menina e perguntou outra vez: - Menina bonita do laço de
fita, qual é teu segredo pra ser tão pretinha? A menina não sabia, mas
inventou: - Ah, deve ser porque eu tomei muito café quando era pequenina. O
coelho saiu dali e tomou tanto café que perdeu o sono e passou a noite toda
fazendo xixi. Mas não ficou nada preto. Então ele voltou lá na casa da menina e
perguntou outra vez: - Menina bonita do laço de fita, qual é teu segredo pra
ser tão pretinha? A menina não sabia, mas inventou: - Ah, deve ser porque eu
comi muita jabuticaba quando era pequenina.
O coelho
saiu dali e se empanturrou de jabuticaba até ficar pesadão, sem conseguir sair
do 1ugar. O máximo que conseguiu foi fazer muito cocozinho preto e redondo
feito jabuticaba. Mas não ficou nada preto. Por isso, daí a alguns dias ele
voltou lá na casa da menina e perguntou outra vez: - Menina bonita do laço de
fita, qual é teu segredo pra ser tão pretinha? A menina não sabia e já ia
inventando outra coisa, uma história de feijoada, quando a mãe dela, que era
uma mulata linda e risonha, resolveu se meter e disse: - Artes de uma avó preta
que ela tinha…
Aí o
coelho - que era bobinho, mas nem tanto - viu que a mãe da menina devia estar
mesmo dizendo a verdade, porque a gente se parece sempre é com os pais, os
tios, os avós e até com os parentes tortos. E se ele queria ter uma filha
pretinha e linda que nem a menina, tinha que procurar uma coelha preta para
casar.
Não
precisou procurar muito. Logo encontrou uma coelhinha escura como a noite, que
achava aquele coelho branco uma graça. Foram namorando, casando e tiveram uma
ninhada de filhotes, que coelho quando desanda a ter filhote não para mais.
Tinha
coelho pra todo gosto: branco, bem branco, branco meio cinza, branco malhado de
preto, preto malhado de branco e até uma coelha bem pretinha. já se sabe,
afilhada da tal menina bonita que morava na casa ao lado.
E quando
a coelhinha saía, de laço colorido no pescoço, sempre encontrava alguém que
perguntava: - Coelha bonita do laço de fita, qual é teu segredo pra ser tão
pretinha? E ela respondia: - Conselhos da mãe da minha madrinha…
Caso de
Canário
Carlos Drummont de Andrade
Casara-se havia duas semanas. E por
isso, em casa dos sogros , a família resolveu que ele que daria cabo no
canário:
- Você compreende. Nenhum de nós
teria coragem de sacrificar o pobrezinho que nos deu tanta alegria.Todos somos
muito ligados a ele, seria uma barbaridade. Você é diferente, ainda não teve
tempo de afeiçoar-se ao bichinho. Vai ver que nem reparou nele durante o noivado.
- Mas eu também tenho coração, ora
essa. Como é que vou matar um pássaro só porque conheço há menos tempo do que
vocês?
- Porque não em cura, o médico já
disse. Pensa que não tentamos de tudo? È para ele não sofrer mais e não
aumentar o nosso sofrimento . Seja bom; vá.
O sogro e a sogra, apelaram no mesmo
tom. Os olhos claros de sua mulher lhe pediram-lhe com doçura:
- Vai , meu bem.
Com repugnância pela obra de
misericórdia que ia praticar, ele aproximou-se da gaiola. O canário nem sequer
abriu o olho. Jazia a um canto todo arrepiado, morto- vivo. É , esse está na
última lona, e dói ver a lenta agonia de um ser tão gracioso, que viveu para
cantar.
Primeiro me tragam um vidro de éter,
e algodão. Assim ele não sentirá o horror da coisa.
Embebeu de éter a bolinha de algodão
no bico. Sempre sem olhar para a vítima, deu-lhe uma torcida rápida e leve, com
dois dedos no pescoço.
E saiu para a rua , pequenininho por
dentro , angustiado, achando a condição humana uma droga. As pessoas da casa
não quiseram aproximar-se do cadáver.
Coube à cozinheira recolher a
gaiola, para que sua vista não despertasse saudade e remorso em ninguém. Não
havendo jardim para sepultar o corpo, depositou-o na lata de lixo.
Chegou a hora do jantar, mas quem é
que tinha fome naquela casa enlutada? O sacrificador , esse, ficara rodando por
aí, e seu desejo seria não voltar para casa nem para dentro de si mesmo .
No dia seguinte, pela manhã, a
cozinheira foi ajeitar a lata de lixo para o caminhão, e recebeu uma bicada
voraz no dedo.
- Ui!
Não é que o canário tinha
ressuscitado, perdão, reluzia vivinho da silva, com uma fome danada?
- Ele estava precisando mesmo era de
éter- concluiu o estrangulador, que se sentiu ressuscitar, por sua vez.
O menino que escrevia versos
Mia Couto
De que vale ter voz
se só quando não falo é que me entendem?
De que vale acordar
se o que vivo é menos do que o que sonhei?
(VERSOS DO MENINO QUE FAZIA VERSOS)
— Ele escreve versos!
Apontou o filho, como se entregasse criminoso na esquadra. O médico levantou os olhos, por cima das lentes, com o esforço de alpinista em topo de montanha.
— Há antecedentes na família?
— Desculpe doutor?
O médico destrocou-se em tintins. Dona Serafina respondeu que não. O pai da criança, mecânico de nascença e preguiçoso por destino, nunca espreitara uma página. Lia motores, interpretava chaparias. Tratava bem, nunca lhe batera, mas a doçura mais requintada que conseguira tinha sido em noite de núpcias:
— Serafina, você hoje cheira a óleo Castrol.
Ela hoje até se comove com a comparação: perfume de igual qualidade qual outra mulher ousa sequer sonhar? Pobres que fossem esses dias, para ela, tinham sido lua-de-mel. Para ele, não fora senão período de rodagem. O filho fora confeccionado nesses namoros de unha suja, restos de combustível manchando o lençol. E oleosas confissões de amor.
Tudo corria sem mais, a oficina mal dava para o pão e para a escola do miúdo. Mas eis que começaram a aparecer, pelos recantos da casa, papéis rabiscados com versos. O filho confessou, sem pestanejo, a autoria do feito.
— São meus versos, sim.
O pai logo sentenciara: havia que tirar o miúdo da escola. Aquilo era coisa de estudos a mais, perigosos contágios, más companhias. Pois o rapaz, em vez de se lançar no esfrega-refrega com as meninas, se acabrunhava nas penumbras e, pior ainda, escrevia versos. O que se passava: mariquice intelectual? Ou carburador entupido, avarias dessas que a vida do homem se queda em ponto morto?
Dona Serafina defendeu o filho e os estudos. O pai, conformado, exigiu: então, ele que fosse examinado.
— O médico que faça revisão geral, parte mecânica, parte eléctrica.
Queria tudo. Que se afinasse o sangue, calibrasse os pulmões e, sobretudo, lhe espreitassem o nível do óleo na figadeira. Houvesse que pagar por sobressalentes, não importava. O que urgia era pôr cobro àquela vergonha familiar.
Olhos baixos, o médico escutou tudo, sem deixar de escrevinhar num papel. Aviava já a receita para poupança de tempo. Com enfado, o clínico se dirigiu ao menino:
— Dói-te alguma coisa?
—Dói-me a vida, doutor.
O doutor suspendeu a escrita. A resposta, sem dúvida, o surpreendera. Já Dona Serafina aproveitava o momento: Está a ver, doutor? Está ver? O médico voltou a erguer os olhos e a enfrentar o miúdo:
— E o que fazes quando te assaltam essas dores?
— O que melhor sei fazer, excelência.
OBRAS PUBLICADAS:
Contos
- Vozes Anoitecidas (1986) - Grande Prêmio da Ficção Narrativa em 1990
- Cada Homem é uma Raça (1990)
- Estórias Abensonhadas (1994)
- Contos do Nascer da Terra (1997)
- Na Berma de Nenhuma Estrada (1999)
- O Fio das Missangas (2003)
Crônicas
- Cronicando (1988) - Prêmio Nacional de Jornalismo Areosa Pena (1989)
- O País do Queixa Andar (2003)
- Pensatempos. Textos de Opinião (2005)
- E se Obama fosse Africano? e Outras Interinvenções (2009)
Romances
- Terra Sonâmbula (1992) - Prêmio Nacional de Ficção da Associação dos Escritores Moçambicanos em 1995. O júri da Feira Internacional do Zimbabwe o considera um dos doze melhores livros africanos do século XX.
- A Varanda do Frangipani (1996)
- Mar Me Quer (1998)
- Vinte e Zinco (1999)
- O Último Voo do Flamingo (2000) - Prêmio Mário António de Ficção em 2001.
- O Gato e o Escuro, com ilustrações de Danuta Wojciechowska (2001)
- Um Rio Chamado Tempo, uma Casa Chamada Terra (2002) - Rodado em filme pelo português José Carlos Oliveira.
- A Chuva Pasmada, com ilustrações de Danuta Wojciechowska (2004)
- O Outro Pé da Sereia (2006)
- O beijo da palavrinha, com ilustrações de Malangatana ( 2006)
- Venenos de Deus, Remédios do Diabo (2008)
- Jesusalém [no Brasil, Antes de nascer o mundo] (2009)
O texto acima foi extraído do livro “O fio das missangas”, Cia. das Letras, 2004, pág. 131. A editora optou por manter a grafia do português de Moçambique.
De que vale ter voz
se só quando não falo é que me entendem?
De que vale acordar
se o que vivo é menos do que o que sonhei?
(VERSOS DO MENINO QUE FAZIA VERSOS)
Mia Couto, escritor moçambicano.
O Menino Que Escrevia Versos
— Ele escreve versos!
Apontou o filho, como se entregasse criminoso na esquadra. O médico levantou os olhos, por cima das lentes, com o esforço de alpinista em topo de montanha.
— Há antecedentes na família?
— Desculpe doutor?
O médico destrocou-se em tintins. Dona Serafina respondeu que não. O pai da criança, mecânico de nascença e preguiçoso por destino, nunca espreitara uma página. Lia motores, interpretava chaparias. Tratava bem, nunca lhe batera, mas a doçura mais requintada que conseguira tinha sido em noite de núpcias:
— Serafina, você hoje cheira a óleo Castrol.
Ela hoje até se comove com a comparação: perfume de igual qualidade qual outra mulher ousa sequer sonhar? Pobres que fossem esses dias, para ela, tinham sido lua-de-mel. Para ele, não fora senão período de rodagem. O filho fora confeccionado nesses namoros de unha suja, restos de combustível manchando o lençol. E oleosas confissões de amor.
Tudo corria sem mais, a oficina mal dava para o pão e para a escola do miúdo. Mas eis que começaram a aparecer, pelos recantos da casa, papéis rabiscados com versos. O filho confessou, sem pestanejo, a autoria do feito.
— São meus versos, sim.
O pai logo sentenciara: havia que tirar o miúdo da escola. Aquilo era coisa de estudos a mais, perigosos contágios, más companhias. Pois o rapaz, em vez de se lançar no esfrega-refrega com as meninas, se acabrunhava nas penumbras e, pior ainda, escrevia versos. O que se passava: mariquice intelectual? Ou carburador entupido, avarias dessas que a vida do homem se queda em ponto morto?
Dona Serafina defendeu o filho e os estudos. O pai, conformado, exigiu: então, ele que fosse examinado.
— O médico que faça revisão geral, parte mecânica, parte eléctrica.
Queria tudo. Que se afinasse o sangue, calibrasse os pulmões e, sobretudo, lhe espreitassem o nível do óleo na figadeira. Houvesse que pagar por sobressalentes, não importava. O que urgia era pôr cobro àquela vergonha familiar.
Olhos baixos, o médico escutou tudo, sem deixar de escrevinhar num papel. Aviava já a receita para poupança de tempo. Com enfado, o clínico se dirigiu ao menino:
— Dói-te alguma coisa?
—Dói-me a vida, doutor.
O doutor suspendeu a escrita. A resposta, sem dúvida, o surpreendera. Já Dona Serafina aproveitava o momento: Está a ver, doutor? Está ver? O médico voltou a erguer os olhos e a enfrentar o miúdo:
— E o que fazes quando te assaltam essas dores?
— O que melhor sei fazer, excelência.
— E o que
é?
— É sonhar.
Serafina voltou à carga e desferiu uma chapada na nuca do filho. Não lembrava o que o pai lhe dissera sobre os sonhos? Que fosse sonhar longe! Mas o filho reagiu: longe, porquê? Perto, o sonho aleijaria alguém? O pai teria, sim, receio de sonho. E riu-se, acarinhando o braço da mãe.
O médico estranhou o miúdo. Custava a crer, visto a idade. Mas o moço, voz tímida, foi-se anunciando. Que ele, modéstia apartada, inventara sonhos desses que já nem há, só no antigamente, coisa de bradar à terra. Exemplificaria, para melhor crença. Mas nem chegou a começar. O doutor o interrompeu:
— Não tenho tempo, moço, isto aqui não é nenhuma clinica psiquiátrica.
A mãe, em desespero, pediu clemência. O doutor que desse ao menos uma vista de olhos pelo caderninho dos versos. A ver se ali catava o motivo de tão grave distúrbio. Contrafeito, o médico aceitou e guardou o manuscrito na gaveta. A mãe que viesse na próxima semana. E trouxesse o paciente.
Na semana seguinte, foram os últimos a ser atendi dos. O médico, sisudo, taciturneou: o miúdo não teria, por acaso, mais versos? O menino não entendeu.
— Não continuas a escrever?
— Isto que faço não é escrever, doutor. Estou, sim, a viver. Tenho este pedaço de vida — disse, apontando um novo caderninho — quase a meio.
O médico chamou a mãe, à parte. Que aquilo era mais grave do que se poderia pensar. O menino carecia de internamento urgente.
— Não temos dinheiro — fungou a mãe entre soluços.
— Não importa — respondeu o doutor.
Que ele mesmo assumiria as despesas. E que seria ali mesmo, na sua clínica, que o menino seria sujeito a devido tratamento. E assim se procedeu.
Hoje quem visita o consultório raramente encontra o médico. Manhãs e tardes ele se senta num recanto do quarto onde está internado o menino. Quem passa pode escutar a voz pausada do filho do mecânico que vai lendo, verso a verso, o seu próprio coração. E o médico, abreviando silêncios:
— Não pare, meu filho. Continue lendo...
— É sonhar.
Serafina voltou à carga e desferiu uma chapada na nuca do filho. Não lembrava o que o pai lhe dissera sobre os sonhos? Que fosse sonhar longe! Mas o filho reagiu: longe, porquê? Perto, o sonho aleijaria alguém? O pai teria, sim, receio de sonho. E riu-se, acarinhando o braço da mãe.
O médico estranhou o miúdo. Custava a crer, visto a idade. Mas o moço, voz tímida, foi-se anunciando. Que ele, modéstia apartada, inventara sonhos desses que já nem há, só no antigamente, coisa de bradar à terra. Exemplificaria, para melhor crença. Mas nem chegou a começar. O doutor o interrompeu:
— Não tenho tempo, moço, isto aqui não é nenhuma clinica psiquiátrica.
A mãe, em desespero, pediu clemência. O doutor que desse ao menos uma vista de olhos pelo caderninho dos versos. A ver se ali catava o motivo de tão grave distúrbio. Contrafeito, o médico aceitou e guardou o manuscrito na gaveta. A mãe que viesse na próxima semana. E trouxesse o paciente.
Na semana seguinte, foram os últimos a ser atendi dos. O médico, sisudo, taciturneou: o miúdo não teria, por acaso, mais versos? O menino não entendeu.
— Não continuas a escrever?
— Isto que faço não é escrever, doutor. Estou, sim, a viver. Tenho este pedaço de vida — disse, apontando um novo caderninho — quase a meio.
O médico chamou a mãe, à parte. Que aquilo era mais grave do que se poderia pensar. O menino carecia de internamento urgente.
— Não temos dinheiro — fungou a mãe entre soluços.
— Não importa — respondeu o doutor.
Que ele mesmo assumiria as despesas. E que seria ali mesmo, na sua clínica, que o menino seria sujeito a devido tratamento. E assim se procedeu.
Hoje quem visita o consultório raramente encontra o médico. Manhãs e tardes ele se senta num recanto do quarto onde está internado o menino. Quem passa pode escutar a voz pausada do filho do mecânico que vai lendo, verso a verso, o seu próprio coração. E o médico, abreviando silêncios:
— Não pare, meu filho. Continue lendo...
Mia Couto nasceu na Beira, em Moçambique, em 1955. Foi jornalista e
atualmente é professor e biólogo. É sócio correspondente, eleito em 1998, da
Academia Brasileira de Letras, sendo sexto ocupante da cadeira 5, que tem por
patrono Dom Francisco de Sousa. Como biólogo, dirige a Avaliações de Impacto
Ambiental, IMPACTO Lda., empresa que faz estudos de impacto ambiental, em
Moçambique. Mia Couto tem realizado pesquisas em diversas áreas,
concentrando-se na gestão de zonas costeiras. Além disso, é professor da
cadeira de ecologia em diversos cursos da Universidade Eduardo Mondlane (UEM).
OBRAS PUBLICADAS:
Contos
- Vozes Anoitecidas (1986) - Grande Prêmio da Ficção Narrativa em 1990
- Cada Homem é uma Raça (1990)
- Estórias Abensonhadas (1994)
- Contos do Nascer da Terra (1997)
- Na Berma de Nenhuma Estrada (1999)
- O Fio das Missangas (2003)
Crônicas
- Cronicando (1988) - Prêmio Nacional de Jornalismo Areosa Pena (1989)
- O País do Queixa Andar (2003)
- Pensatempos. Textos de Opinião (2005)
- E se Obama fosse Africano? e Outras Interinvenções (2009)
Romances
- Terra Sonâmbula (1992) - Prêmio Nacional de Ficção da Associação dos Escritores Moçambicanos em 1995. O júri da Feira Internacional do Zimbabwe o considera um dos doze melhores livros africanos do século XX.
- A Varanda do Frangipani (1996)
- Mar Me Quer (1998)
- Vinte e Zinco (1999)
- O Último Voo do Flamingo (2000) - Prêmio Mário António de Ficção em 2001.
- O Gato e o Escuro, com ilustrações de Danuta Wojciechowska (2001)
- Um Rio Chamado Tempo, uma Casa Chamada Terra (2002) - Rodado em filme pelo português José Carlos Oliveira.
- A Chuva Pasmada, com ilustrações de Danuta Wojciechowska (2004)
- O Outro Pé da Sereia (2006)
- O beijo da palavrinha, com ilustrações de Malangatana ( 2006)
- Venenos de Deus, Remédios do Diabo (2008)
- Jesusalém [no Brasil, Antes de nascer o mundo] (2009)
O texto acima foi extraído do livro “O fio das missangas”, Cia. das Letras, 2004, pág. 131. A editora optou por manter a grafia do português de Moçambique.
Menino
Fernando
Sabino
Menino, vem pra dentro,
olha o sereno! Vai lavar essa mão. Já escovou os dentes? Toma a benção a seu
pai. Já pra cama!
Onde aprendeu isso menino? – coisa mais feia. Toma
modos. Hoje você fica sem sobremesa. Onde é que você estava? Agora chega,
menino, tenha santa paciência.
De quem você gosta mais, do papai ou da mamãe?
Isso, assim que eu gosto: menino educado, obediente. Está vendo? É só a gente
falar. Desce daí, menino! Me prega cada susto...para com isso! Joga isso fora.
Uma boa surra dava jeito nisso. Que é que você andou arranjando? Quem te
ensinou esses modos? Passe pra dentro. Isso não é gente para ficar andando com
você.
Avise seu pai que o jantar tá na mesa. Você
prometeu, tem de cumprir. Que é que você vai ser quando crescer? Não, chega:
você já repetiu duas vezes. Por que você está quieto aí? Alguma coisa está
tramando...não anda descalço, já disse! – vai calçar o sapato. Já tomou
remédio? Tem de comer tudo, você tá virando um palito. Quantas vezes já te
disse para não mexer aqui? Esse barulho, menino! – teu pai tá dormindo. Para
com essa correria dentro de casa, vai brincar lá fora. Você vai acabar caindo
daí. Pede licença a seu pai primeiro. Isso é maneira de responder à sua irmã?
Se não fizer, fica de castigo. Segura o garfo direito. Põe a camisa pra dentro
da calça. Fica perguntando, tudo você quer saber! Isso é conversa de gente
grande. Depois eu te dou. Depois eu deixo. Depois eu te levo. Depois eu conto.
Agora não, depois!
Deixa seu pai descansar – ele está cansado,
trabalhou o dia todo. Você precisa ser muito bonzinho com ele, meu filho. Ele
gosta tanto de você. Tudo que ele faz é para seu bem. Olha aí, vestiu essa
roupa agorinha mesmo, já está toda suja. Fez seus deveres? Você vai chegar atrasado.
Chora não filhinho, mamãe está aqui com você. Nosso Senhor não vai deixar doer
mais.
Quando você for grande, você também vai poder. Já
disse que não, e não, e não! Ah, é assim? – pois você vai ver só quando seu pai
chegar. Não fale de boca cheia. Junta a comida no meio do prato. Por causa
disso é preciso gritar? Seja homem. Você ainda é muito pequeno pra saber essas
coisas. Mamãe tem muito orgulho de você. Cale essa boca! Você precisa cortar
esse cabelo.
Sorvete não pode, você tá resfriado. Não sei como
você tem coragem de fazer assim com sua mãe. Se você comer agora, depois não
janta. Assim você se machuca. Deixa de fita. Um menino desse tamanho, que é que
os outros hão de dizer? Você queria que fizessem o mesmo com você? Continua
assim que eu te dou umas palmadas. Pensa que a gente tem dinheiro pra jogar
fora? Toma juízo menino!
Ganhou agora mesmo e já acabou de quebrar. Que é
que você vai querer no dia de seus anos? Agora não, depois, tenho mais o que
fazer. Não fica triste não, depois mamãe te dá outro. Você teve saudades de
mim? Vou contar só mais uma, tá na hora de dormir. Vem que a mamãe te leva pra
caminha. Mamãe te ama, viu! Dá um beijo aqui. Dorme com Deus meu filho!
MAIS CONTOS/CRÔNICAS
MAIS CONTOS/CRÔNICAS
Eles vinham de longe
Se
tivessem conhecido o idioma da cidade, poderiam ter perguntado quem fez o homem
branco, de onde saiu a força dos automóveis, quem segura os aviões lá no céu,
por que os deuses nos negaram o aço.
Mas não conheciam o idioma da cidade. Falavam
a velha língua dos antepassados, que não tinham sido pastores nem vivido nas
alturas da serra nevada de Santa Marta. Porque antes dos quatro séculos de
perseguição e espoliação, os avós dos avós dos avós tinham trabalhado as terras
férteis que os netos dos netos dos netos não puderam conhecer nem de vista nem
de ouvir falar.
De modo
que agora eles não podiam fazer outro comentário que aquele que nascia, em
chispas bem humoradas, dos olhos: olhavam essas mãos pequeninas dos homens
brancos, mãos de lagartixa, e pensavam: essas mãos não sabem caçar, e pensavam:
só podem dar presentes feitos pelos outros.
Estavam
parados numa esquina da capital, o chefe e três de seus homens, sem medo. Não
os sobressaltava a vertigem do trânsito das máquinas e das pessoas, nem temiam
que os edifícios gigantes pudessem cair das nuvens e despencar em cima deles.
Acariciavam
com a ponta dos dedos seus colares de várias voltas de dentes e sementes, e não
se deixavam impressionar pelo barulho das avenidas. Seus corações sentiam pena
dos milhões de cidadãos que passavam por cima e por baixo, de costas e de
frente e de lado, sobre pernas e sobre rodas, a todo vapor: “Que seria de todos
vocês” – perguntavam lentamente seus corações – “se nós não fizéssemos o sol
todos os dias?”
GALEANO, Eduardo. Vagamundo.
Rio de Janeiro, Edit. Paz e Terra, 1975
Talita
Talita
tinha a mania de dar nomes de gente aos objetos da casa, e tinham de ser nomes
que rimassem. Assim, por exemplo, a mesa, para Talita, era Dona Teresa, a
poltrona era Vó Gordona, o armário era o Doutor Mário. A escada era Dona Ada, a
escrivaninha era Tia Sinhazinha, a lavadora era Prima Dora, e assim por diante.
Os pais
de Talita achavam graça e topavam a brincadeira. Então, podiam-se ouvir
conversas tipo como esta:
—
Filhinha, quer trazer o jornal que está em cima da Tia Sinhazinha!
— É pra
já, papai. Espere sentado na Vó Gordona, que eu vou num pé e volto noutro.
Ou então:
— Que
amolação, Prima Dora está entupida, não lava nada! Precisa chamar o mecânico.
— Ainda
bem que tem roupa limpa dentro do Doutor Mário, né mamãe?
E todos
riam.
BELINKY, Tatiana. A operação do
Tio Onofre: uma história policial. São Paulo: Ática, 1985.
As enchentes de minha infância
Sim,
nossa casa era muito bonita, verde, com uma tamareira junto à varanda, mas eu
invejava os que moravam do outro lado da rua, onde as casas dão fundos para o
rio. Como a casa dos Martins, como a
casa dos Leão, que depois foi dos Medeiros, depois de nossa tia, casa com
varanda fresquinha dando para o rio.
Quando
começavam as chuvas a gente ia toda manhã lá no quintal deles ver até onde
chegara a enchente. As águas barrentas subiam primeiro até a altura da cerca
dos fundos, depois às bananeiras, vinham subindo o quintal, entravam pelo porão.
Mais de uma vez, no meio da noite, o volume do rio cresceu tanto que a família defronte
teve medo.
Então
vinham todos dormir em nossa casa. Isso para nós era uma festa, aquela faina de
arrumar camas nas salas, aquela intimidade improvisada e alegre. Parecia que as
pessoas ficavam todas contentes, riam muito; como se fazia café e se tomava café
tarde da noite! E às vezes o rio atravessava a rua, entrava pelo nosso porão, e
me lembro que nós, os meninos, torcíamos para ele subir mais e mais. Sim,
éramos a favor da enchente, ficávamos tristes de manhãzinha quando, mal
saltando da cama, íamos correndo para ver que o rio baixara um palmo – aquilo
era uma traição, uma fraqueza do Itapemirim. Às vezes chegava alguém a cavalo,
dizia que lá, para cima do Castelo, tinha caído chuva muita, anunciava águas
nas cabeceiras, então dormíamos sonhando que a enchente ia outra vez crescer,
queríamos sempre que aquela fosse a maior de todas as enchentes.
BRAGA, Rubem. Ai de ti,
Copacabana. 3. ed. Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1962. P.157.
A floresta do contrário
Todas as
florestas existem antes dos homens.
Elas
estão lá e então o homem chega, vai destruindo, derruba as árvores, começa a
construir prédios, casas, tudo com muito tijolo e concreto. E poluição também.
Mas nesta
floresta aconteceu o contrário. O que havia antes era uma cidade dos homens,
dessas bem poluídas, feia, suja, meio neurótica.
Então as
árvores foram chegando, ocupando novamente o espaço, conseguiram expulsar toda
aquela sujeira e se instalaram no lugar.
É o que
se poderia chamar de vingança da natureza – foi assim que terminou seu relato o
amigo beija-flor.
Por isso
ele estava tão feliz, beijocando todas as flores – aliás, um colibri bem assanhado,
passava flor por ali, ele já sapecava um beijão.
Agora o
Nan havia entendido por que uma ou outra árvore tinha parede por dentro, e ele
achou bem melhor assim.
Algumas
árvores chegaram a engolir casas inteiras.Era um lugar
muito bonito,
gostoso de se ficar.
Só que o
Nan não podia, precisava partir sem demora. Foi se despedir do colibri, mas ele
já estava namorando apertado a uma outra florzinha, era melhor não atrapalhar.
LIMA, Ricardo da Cunha. Em busca
do tesouro de Magritte. São Paulo: FTD, 1988.
Necessidade de alegria
O ator
que fazia o papel de Cristo no espetáculo de Nova Jerusalém
ficou tão
compenetrado da magnitude da tarefa que, de ano para ano, mais exigia de si mesmo,
tanto na representação como na vida rotineira.
Não que
pretendesse copiar o modelo divino, mas sentia necessidade de aperfeiçoar-se
moralmente, jamais se permitindo a prática de ações menos nobres. E exagerou em
contenção e silêncio.
Sua vida
tornou-se complicada, pois os amigos de bar o estranhavam, os colegas de
trabalho no escritório da Empetur (Empresa Pernambucana de Turismo) passaram a
olhá-lo com espanto, e em casa a mulher reclamava do seu alheamento.
No sexto
ano de encenação do drama sacro, estava irreconhecível. Emagrecera, tinha
expressão sombria no olhar, e repetia aquinalmente as palavras tradicionais.
Seu
desempenho deixou a desejar. Foi advertido pela Empetur
e pela crítica: devia ser durante
o ano um homem alegre, descontraído, para tornar-se perfeito intérprete da
Paixão na hora certa. Além do mais, até a chegada a Jerusalém, Jesus era jovial
e costumava ir a festas.
Ele não
atendeu às ponderações, acabou destituído do papel, abandonou a família, e
dizem que se alimenta de gafanhotos no agreste.
ANDRADE, Carlos Drummond de.
Histórias para o Rei.2ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1998. P.56.
Eu sou clara
Sabe,
toda a vez que me olho no espelho, ultimamente, vejo o quanto eu mudei por
fora. Tudo cresceu: minha altura, meus cabelos lisos e pretos, meus seios.
Meu corpo
tomou novas formas: cintura, coxas, bumbum.
Meus olhos
(grandes e pretos) estão com um ar mais ousado. Um brilho diferente.
Eu gosto
dos meus olhos. São bonitos. Também gosto dos meus dentes, da minha franja...
Meu grande problema são as orelhas. Acho orelha uma coisa horrorosa, não sei
por que (nunca vi ninguém com uma orelha bonitona, bem-feita). Ainda bem que
cabelo cobre orelha!
Chego à
conclusão de que tenho mais coisas que gosto do que desgosto em mim. Isso é
bom, muito bom. Se a gente não gostar da gente, quem é que vai gostar? (Ouvi
isso em algum lugar...) Pra eu me gostar assim, tenho que me esforçar um monte.
Tomo o
maior cuidado com a pele por causa das malditas espinhas (babo quando vejo um
chocolate!). Não como gordura (é claro que maionese não falta no meu sanduíche
com batata frita, mas tudo light...) nem tomo muito refri (celulite!!!).
Procuro manter
a forma.
Às vezes sinto
vontade de fazer tudo ao contrário: comer, comer, comer...
Sair da aula de ginástica, suando,
e tomar três garrafas de refrigerante geladinho. Pedir cheese bacon com um
mundo de maionese.
Engraçado
isso. As pessoas exigem que a gente faça um tipo e o pior é que a gente acaba
fazendo. Que droga! Será que o mundo feminino inteiro tem que ser igual?
Parecer com a Luíza Brunet ou com a Bruna Lombardi ou sei lá com quem?
Será que
tem que ser assim mesmo?
Por que
um monte de garotas que eu conheço vivem cheias de complexos?
Umas
porque são mais gordinhas. Outras porque os cabelos são crespos ou porque são
um pouquinho narigudas.
Eu não
sei como me sentiria se fosse gorda, ou magricela, ou nariguda, ou dentuça, ou
tudo junto. Talvez sofresse, odiasse comprar roupas, não fosse a festas...
Não
mesmo! Bobagem! Minha mãe sempre diz que beleza é “um conceito muito relativo”.
O que pode ser bonito pra uns, pode não ser pra outros. Ela também fala sempre
que existem coisas muito mais importantes que tornam uma mulher atraente: inteligência
e charme, por exemplo. Acho que minha mãe está coberta de razão!
Pois bem,
eu sou Clara. Com um pouco de tudo e muito de nada.
RODRIGUES, Juciara. Difícil
decisão. São Paulo: Atual, 1996.
A beleza total
A beleza
de Gertrudes fascinava todo mundo e a própria Gertrudes. Os espelhos pasmavam diante
de seu rosto, recusando-se a refletir as pessoas da casa e muito menos as
visitas. Não ousavam abranger o corpo inteiro de Gertrudes. Era impossível, de
tão belo, e o espelho do banheiro, que se atreveu a isto, partiu-se em mil
estilhaços.
A moça já
não podia sair à rua, pois os veículos paravam à revelia dos condutores, e
estes, por sua vez, perdiam toda capacidade de ação. Houve um engarrafamento
monstro, que durou uma semana, embora Gertrudes houvesse voltado logo para
casa.
O Senado aprovou
lei de emergência, proibindo Gertrudes de chegar
à janela.
A moça vivia
confinada num salão em que só penetrava sua mãe,
pois o
mordomo se suicidara com uma foto de Gertrudes sobre o peito.
Gertrudes
não podia fazer nada.
Nascera assim,
este era o seu destino fatal: a extrema beleza. E era feliz, sabendo-se
incomparável. Por falta de ar puro, acabou sem
condições
de vida, e um dia cerrou os olhos para sempre. Sua beleza saiu do corpo e ficou
pairando, imortal.
O corpo já então enfezado de
Gertrudes foi recolhido ao jazigo, e a beleza de Gertrudes continuou cintilando
no salão fechado a sete chaves.
ANDRADE, Carlos Drummond de.
Contos plausíveis. Rio de Janeiro: José Olympio, 1985.
Visita
“Sobre a
minha mesa, na redação do jornal, encontrei-o, numa tarde quente de verão. É um
inseto que parece um aeroplano de quatro asas translúcidas e gosta de sobrevoar
os açudes, os córregos e as poças de água. É um bicho do mato e não da cidade.
Mas que fazia ali, sobre a minha mesa, em pleno coração da metrópole?
Parecia
morto, mas notei que movia nervosamente as estranhas e minúsculas mandíbulas.
Estava morrendo de sede, talvez pudesse salvá-lo. Peguei-o pelas asas e levei-o
até o banheiro. Depois de acomodá-lo a um canto da pia, molhei a mão e deixei
que a água pingasse sobre a sua cabeça e suas asas. Permaneceu imóvel. É, não
tem mais jeito – pensei comigo. Mas eis que ele se estremece todo e move a boca
molhada. A água tinha escorrido toda, era preciso arranjar um meio de mantê-la
ao seu alcance sem contudo afogá-lo. A outra pia talvez desse mais jeito.
Transferi-o para lá, acomodei-o e voltei para a redação.
Mas a
memória tomara outro rumo. Lá na minha terra, nosso grupo de meninos chamava
esse bicho de macaquinho voador e era diversão nossa caçá-los, amarrá-los com
uma linha e deixá-los voar acima de nossa cabeça. Lembrava também, do açude, na
fazenda, onde eles apareciam em formação de esquadrilha e pousavam na água
escura.
Mas que
diabo fazia na avenida Rio Branco esse macaquinho voador? Teria ele voado do
Coroatá até aqui, só para me encontrar? Seria ele uma estranha mensagem da
natureza a este desertor?
Voltei ao
banheiro e em tempo de evitar que o servente o matasse. “Não faça isso com o
coitado!”” Coitado nada, esse bicho deve causar doença.” Tomei-o da mão do
homem e o pus de novo na pia. O homem ficou espantado e saiu, sem saber que
laços de afeição e história me ligavam àquele estranho ser. Ajeitei-o, dei-lhe
água e voltei ao trabalho. Mas o tempo urgia, textos, notícias, telefonemas,
fui para casa sem me lembrar mais dele.”
GULLAR, FERREIRA. “O menino e o arco-íris e outras crônicas.”
Fernão Capelo Gaivota
Fernão Gaivotapassou o resto dos seus dias sozinho, mas voou muito além
dos PenhascosLongínquos. A solidão não o entristecia. Entristecia-o que as
outras gaivotasse tivessem recusado a acreditar na glória do vôo que as
esperava. Recusaram-sea abrir os olhos e a ver.
Aprendia cadavez mais. Aprendeu que um eficiente mergulho a grande
velocidade lhe dava opeixe raro e saboroso que vivia três metros abaixo da
superfície do mar. Já nãoprecisava de barcos de pesca nem de pão duro para
viver. Aprendeu a dormir noar, estabelecendo um percurso noturno pelo vento do
largo, cobrindo cento ecinqüenta quilômetros desde o ocaso até a aurora.
Utilizando o mesmo controleinterior, voou através de nevoeiros cerrados e subiu
acima deles para céusestonteantes de claridade...enquanto qualquer outra
gaivota ficava em terra,conhecendo apenas neblina e chuva. Aprendeu a dominar
os altos ventos docontinente e a jantar ali os delicados insetos.
O que
outroradesejara para o bando tinha-o agora só para si. Aprendera a voar e
nãolamentava o preço que pagara por isso. Fernão Gaivota descobriu que o tédio,
omedo e a ira são as razões por que a vida de uma gaivota é tão curta, e
semisso a perturbar-lhe o pensamento, viveu de fato uma vida longa e feliz.
(BACH,Richard. A história de Fernão Capelo
Gaivota.)
Minha rua
A rua é pequena, meio torta, o carro passa rápido,
as casas ficam quietas, janelas nem piscam. Ninguém
joga bola na rua, nem pula corda, esconde-esconde, bicicleta nem pensar.
Outro dia
nasceu uma flor na calçada, fiquei olhando atéenjoar. Depois a flor secou, esqueci.
Se o robô
atravessasse a rua, quem notaria? E, se a princesacantasse na esquina, quem
ouviria? Se o ET fizesse xixi no poste?
Às vezes,
de manhã bem cedo, vem um bando de passarinhos namaior algazarra. Parece banda
de rock, anunciando o dia.
Nessa hora, meu coração não cabe no peito.
Reynaldo Damazio. (Folha de S. Paulo, 08/03/2003)
Se ele tivesse nascido mulher
Dos dezesseis irmãos de Benjamin Franklin, Jane é a
que mais se parece com ele em talento e força de vontade.
Mas na idade em que Benjamin saiu de casa para abrir seu próprio caminho, Jane casou-se com um seleiro pobre, que a aceitou sem dote, e dez meses depois deu à luz seu primeiro filho.
Mas na idade em que Benjamin saiu de casa para abrir seu próprio caminho, Jane casou-se com um seleiro pobre, que a aceitou sem dote, e dez meses depois deu à luz seu primeiro filho.
Desde então, durante um quarto de século, Jane teve
um filho a cada dois anos. Algumas crianças morreram, e cada morte abriu-lhe um
talho no peito. As que viveram exigiram comida , abrigo, instrução e consolo.
Jane passou noites a fio ninando os que choravam, lavou montanhas de roupa,
banhou montões de crianças, correu do mercado à cozinha, esfregou torres de
pratos, ensinou abecedários e ofícios, trabalhou ombro a ombro com o marido na oficina
e atendeu os hóspedes cujo aluguel ajudava a encher a panela. Jane foi esposa
devota e viúva exemplar; e quando os filhos já estavam crescidos, encarregou-se
dos próprios pais, doentes, de suas filhas solteironas e de seus netos
desamparados.
Jane jamais conheceu o prazer de se deixar
flutuar em um lago, levada à deriva pelo fio deum papagaio, como costuma fazer
Benjamin, apesar da idade. Jane nunca teve chance de pensar , nem se permitiu duvidar.
Benjamin continua sendo um amante fervoroso, mas Jane ignora que o sexo possa
produzir outra coisa além de filhos.
Benjamin, fundador de uma nação de inventores, é um
grande homem de todos os tempos. Jane é uma mulher do seu tempo, igual a quase
todas as mulheres de todos os tempos, que cumpriu com seu dever nesta terra e expiou
sua parte de culpa na maldição bíblica. Ela fez o possível para não ficar louca
e buscou, em vão, um pouco de silêncio.
Seu caso não despertará o interesse dos
historiadores.
(Eduardo Galeano, "As caras e as máscaras", in "Memória do Fogo", Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1985)
(Eduardo Galeano, "As caras e as máscaras", in "Memória do Fogo", Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1985)
Na
escuridão miserável
"Eram
sete horas da noite quando entrei no carro, ali no Jardim Botânico. Senti que
alguém me observava, enquanto punha o motor em movimento. Voltei-me e dei com
uns olhos grandes e parados como os de um bicho, a me espiar, através do vidro
da janela, junto ao meio-fio. Eram de uma negrinha mirrada, raquítica, um fiapo
de gente, encostada ao poste como um animalzinho, não teria mais que uns sete
anos. Inclinei-me sobre o banco, abaixando o vidro:
-
O que foi, minha filha? – perguntei, naturalmente pensando tratar-se de esmola.
-
Nada não senhor – respondeu-me, a medo, um fio de voz infantil.
-
O que é que você está me olhando aí?
-
Nada não senhor – repetiu. – Esperando o bonde…
-
Onde é que você mora?
-
Na Praia do Pinto.
-
Vou para aquele lado. Quer uma carona?
Ela
vacilou, intimidada. Insisti, abrindo a porta:
-
Entra aí, que eu te levo.
Acabou
entrando, sentou-se na pontinha do banco, e enquanto o carro ganhava
velocidade, ia olhando duro para a frente, não ousava fazer o menor movimento.
Tentei puxar conversa:
-
Como é o seu nome?
-
Teresa.
-
Quantos anos você tem, Teresa?
-
Dez.
-
E o que estava fazendo ali, tão longe de casa?
-
A casa da minha patroa é ali.
-
Patroa? Que patroa?
Pela
sua resposta pude entender que trabalhava na casa de uma família no Jardim
Botânico: lavava, varria a casa, servia a mesa. Entrava às sete da manhã, saía
às oito da noite.
-
Hoje saí mais cedo. Foi jantarado.
-
Você já jantou?
-
Não. Eu almocei.
-
Você não almoça todo dia?
-
Quando tem comida pra levar, eu almoço: mamãe faz um embrulho de comida para
mim.
-
E quando não tem?
-
Quando não tem, não tem – e ela até parecia sorrir, me olhando pela primeira
vez. Na penumbra do carro, suas feições de criança, esquálidas, encardidas de
pobreza, podiam ser as de uma velha. Eu não me continha mais de aflição,
pensando nos meus filhos bem nutridos – um engasgo na garganta me afogava no
que os homens experimentados chamam de sentimentalismo burguês.
-
Mas não te dão comida lá? – perguntei, revoltado.
-
Quando eu peço eles me dão. Mas descontam no ordenado, mamãe disse pra eu não
pedir.
-
E quanto você ganha?
-
Mil cruzeiros.
-
Por mês?
Diminuí
a marcha, assombrado, quase parei o carro, tomado de indignação. Meu impulso
era voltar, bater na porta da tal mulher e meter-lhe a mão na cara.
-
Como é que você foi parar na casa dessa… foi parar nessa casa? – perguntei
ainda, enquanto o carro, ao fim de uma rua do Leblon, se aproximava das vielas
da Praia do Pinto. Ela disparou a falar:
-
Eu estava na feira com mamãe e então a madame pediu para eu carregar as compras
e aí noutro dia pediu à mamãe pra eu trabalhar na casa dela então mamãe deixou
porque mamãe não pode ficar com os filhos todos sozinhos e lá em casa é sete
meninos fora dois grandes que já são soldados pode parar que é aqui moço,
brigado.
Mal detive o carro, ela abriu a porta e saltou, saiu correndo, perdeu-se logo na escuridão miserável da Praia do Pinto.”
Mal detive o carro, ela abriu a porta e saltou, saiu correndo, perdeu-se logo na escuridão miserável da Praia do Pinto.”
(Fernando Sabino. De "A companheira
de viagem", 4.ed. Rio de Janeiro, Record, 1977. p. 135-7)
A mulher
do vizinho
Contaram-me que na rua onde mora (ou morava) um conhecido e antipático
general de nosso Exército morava (ou mora) também um sueco cujos filhos
passavam o dia jogando futebol com bola de meia. Ora, às vezes acontecia cair a
bola no carro do general e um dia o general acabou perdendo a paciência, pediu
ao delegado do bairro para dar um jeito nos filhos do sueco.
O delegado resolveu passar uma chamada no homem, e intimou-o a comparecer à delegacia.
O sueco era tímido, meio descuidado no vestir e pelo aspecto não parecia ser um importante industrial, dono de grande fábrica de papel (ou coisa parecida), que realmente ele era. Obedecendo a ordem recebida, compareceu em companhia da mulher à delegacia e ouviu calado tudo o que o delegado tinha a dizer-lhe. O delegado tinha a dizer-lhe o seguinte:
— O senhor pensa que só porque o deixaram morar neste país pode logo ir fazendo o que quer? Nunca ouviu falar numa coisa chamada AUTORIDADES CONSTITUÍDAS? Não sabe que tem de conhecer as leis do país? Não sabe que existe uma coisa chamada EXÉRCITO BRASILEIRO que o senhor tem de respeitar? Que negócio é este? Então é ir chegando assim sem mais nem menos e fazendo o que bem entende, como se isso aqui fosse casa da sogra? Eu ensino o senhor a cumprir a lei, ali no duro: duralex! Seus filhos são uns moleques e outra vez que eu souber que andaram incomodando o general, vai tudo em cana. Morou? Sei como tratar gringos feito o senhor.
Tudo isso com voz pausada, reclinado para trás, sob o olhar de aprovação do escrivão a um canto. O sueco pediu (com delicadeza) licença para se retirar. Foi então que a mulher do sueco interveio:
— Era tudo que o senhor tinha a dizer a meu marido?
O delegado apenas olhou-a espantado com o atrevimento.
— Pois então fique sabendo que eu também sei tratar tipos como o senhor. Meu marido não e gringo nem meus filhos são moleques. Se por acaso incomodaram o general ele que viesse falar comigo, pois o senhor também está nos incomodando. E fique sabendo que sou brasileira, sou prima de um major do Exército, sobrinha de um coronel, E FILHA DE UM GENERAL! Morou?
Estarrecido, o delegado só teve forças para engolir em seco e balbuciar humildemente:
— Da ativa, minha senhora?
E ante a confirmação, voltou-se para o escrivão, erguendo os braços desalentado:
— Da ativa, Motinha! Sai dessa...
O delegado resolveu passar uma chamada no homem, e intimou-o a comparecer à delegacia.
O sueco era tímido, meio descuidado no vestir e pelo aspecto não parecia ser um importante industrial, dono de grande fábrica de papel (ou coisa parecida), que realmente ele era. Obedecendo a ordem recebida, compareceu em companhia da mulher à delegacia e ouviu calado tudo o que o delegado tinha a dizer-lhe. O delegado tinha a dizer-lhe o seguinte:
— O senhor pensa que só porque o deixaram morar neste país pode logo ir fazendo o que quer? Nunca ouviu falar numa coisa chamada AUTORIDADES CONSTITUÍDAS? Não sabe que tem de conhecer as leis do país? Não sabe que existe uma coisa chamada EXÉRCITO BRASILEIRO que o senhor tem de respeitar? Que negócio é este? Então é ir chegando assim sem mais nem menos e fazendo o que bem entende, como se isso aqui fosse casa da sogra? Eu ensino o senhor a cumprir a lei, ali no duro: duralex! Seus filhos são uns moleques e outra vez que eu souber que andaram incomodando o general, vai tudo em cana. Morou? Sei como tratar gringos feito o senhor.
Tudo isso com voz pausada, reclinado para trás, sob o olhar de aprovação do escrivão a um canto. O sueco pediu (com delicadeza) licença para se retirar. Foi então que a mulher do sueco interveio:
— Era tudo que o senhor tinha a dizer a meu marido?
O delegado apenas olhou-a espantado com o atrevimento.
— Pois então fique sabendo que eu também sei tratar tipos como o senhor. Meu marido não e gringo nem meus filhos são moleques. Se por acaso incomodaram o general ele que viesse falar comigo, pois o senhor também está nos incomodando. E fique sabendo que sou brasileira, sou prima de um major do Exército, sobrinha de um coronel, E FILHA DE UM GENERAL! Morou?
Estarrecido, o delegado só teve forças para engolir em seco e balbuciar humildemente:
— Da ativa, minha senhora?
E ante a confirmação, voltou-se para o escrivão, erguendo os braços desalentado:
— Da ativa, Motinha! Sai dessa...
(Fernando Sabino)
O Homem que entrou pelo
cano
Abriu a torneira e entrou pelo cano. A
princípio incomodava-o a estreiteza do tubo. Depois se acostumou. E, com a
água, foi seguindo. Andou quilômetros. Aqui e ali ouvia barulhos familiares.
Vez ou outra um desvio, era uma seção que terminava em torneira.
Vários dias foi rodando, até que tudo
se tornou monótono. O cano por dentro não era interessante.
No primeiro desvio, entrou. Vozes de
mulher. Uma criança brincava. Então percebeu que as engrenagens giravam e caiu
numa pia. À sua volta era um branco imenso, uma água límpida. E a cara da
menina aparecia redonda e grande, a olhá-o interessada. Ela gritou:
"Mamãe, tem um homem dentro da pia".
Não obteve resposta. Esperou, tudo
quieto. A menina se cansou, abriu o tampão e ele desceu pelo esgoto.
BRANDÂO, Ignácio Loyola. Cadeiras
Proibidas. São Paulo:Global,1988,p.89.
O que dizem as camisetas
Apareceram tantas camisetas com inscrições, que a gente estranha ao deparar com
uma que não tenha nada escrito.
__ Que é que ele está anunciando? __ indagou o cabo eleitoral, apreensivo. __ Será que faz propaganda do voto em branco? Devia ser proibido!
__ O cidadão é livre de usar a camiseta que quiser __ ponderou um senhor moderado.
__ Em tempo de eleição, nunca __ retrucou o outro. __ Ou o cidadão manifesta sua preferência política ou é um sabotador do processo de abertura democrática.
__ O voto é secreto.
__ É secreto, mas a camiseta não é, muito pelo contrário. Ainda há gente neste país que não assume a sua responsabilidade cívica, se esconde feito avestruz e ...
__ Ah, pelo que vejo o amigo não aprova as pessoas que gostam de usar uma camiseta limpinha, sem inscrição, na cor natural em que saiu da fábrica.
A discussão ia rolar quando apareceu Christiane Torloni (1), pedestre, ostentando bem visível, no peito, o nome de Eduardo Mascarenhas (2). Todos ficaram deslumbrados.
__ Nessa eu votaria até para presidente. da República, do Banco Central, da ONU, de qualquer troço __ exclamou outro.
__ Ela não é candidata.
__ E precisa?
Ficou patente que as pessoas reparam mais no rosto do que na inscrição, embora a falta de inscrição provoque a ideia de que falta alguma coisa __ a identidade, o nariz, sei lá.
Vi na rua Sete de Setembro um homem que trazia a inscrição "Guiné-pipi" na frente e nas costas.
__ Candidato a vereador? -- perguntei. __ De que partido?
__ Não, senhor. Erva contra reumatismo. Quer experimentar? É um porrete. Trago para o senhor uma amostra da fábrica., lá de Cordovil (3).
__ Obrigado, amigo. O Dr. Nava já cuida do meu.
__ Mas qualquer problema, o senhor não tenha cerimônia. É só dizer, que eu falo com os colegas, conforme o caso. Ou o senhor mesmo fala, se encontrar com um deles.
__ E como é que eu vou saber?
__ Pela camiseta, é claro. Tem o Cipó-Azougue, que é um balaço contra eczema, aliás, pessoalmente, é um cara ótimo. O Beldroega (faz pouco ele passou por aqui) toma conta do fígado e depura o sangue. Do Sete-Folhas, que é até meu vizinho, vejo que o senhor não carece, pois é para emagrecer. Agora, convém não esquecer o Boldo. Lá um dia a gente tem uma ressaca, e o Boldo resolve.
Vi que as camisetas da medicina natural são numerosas, mas as de uísques, vinhos alemães, motos, motéis, cigarros, antigripais, cursinhos, judô, budismo, loteria, jogo de búzios, etc. não fazem por menos. Hoje em dia não há produto que não tenha, além dos comunicadores remunerados, outros absolutamente gratuitos, e estes são maioria. Todo mundo anuncia alguma coisa, e a camiseta é o cartaz na pele. Sendo de notar que há tendência para anunciar para anunciar até no bumbum. Mas este é um ramo ainda experimental. [...]
Quis empreender pesquisa de campo no domínio das inscrições no anverso e no reverso do vestuário. Desisti porque teria de elaborar um código de classificação muito complexo, tamanha a variedade de interesses humanos que se refletem numa etiqueta comercial, industrial, política, esportiva, religiosa, onírica. Hoje em dia a camiseta serve para tudo, até (não principalmente) para vestir. E acompanha também a veloz deterioração das coisas, sinal de finitude hoje mais visível do que nunca. Puxa, como as coisas acabam cada vez mais depressa! Não há mais condições para gravar palavras eternas em muros de catedral. Hoje estampam-se recados em camisetas descartáveis. Como esta crônica.
(Carlos Drummond de andrade. In "Moça deitada na grama", Rio de Janeiro, Record, 1987, p. 38-40)
(1) Atriz de teatro, cinema e televisão.
(2) Na época, candidato a cargo eletivo. A atriz era cabo eleitoral do candidato.
(3) Logradouro da cidade do Rio de Janeiro.
__ Que é que ele está anunciando? __ indagou o cabo eleitoral, apreensivo. __ Será que faz propaganda do voto em branco? Devia ser proibido!
__ O cidadão é livre de usar a camiseta que quiser __ ponderou um senhor moderado.
__ Em tempo de eleição, nunca __ retrucou o outro. __ Ou o cidadão manifesta sua preferência política ou é um sabotador do processo de abertura democrática.
__ O voto é secreto.
__ É secreto, mas a camiseta não é, muito pelo contrário. Ainda há gente neste país que não assume a sua responsabilidade cívica, se esconde feito avestruz e ...
__ Ah, pelo que vejo o amigo não aprova as pessoas que gostam de usar uma camiseta limpinha, sem inscrição, na cor natural em que saiu da fábrica.
A discussão ia rolar quando apareceu Christiane Torloni (1), pedestre, ostentando bem visível, no peito, o nome de Eduardo Mascarenhas (2). Todos ficaram deslumbrados.
__ Nessa eu votaria até para presidente. da República, do Banco Central, da ONU, de qualquer troço __ exclamou outro.
__ Ela não é candidata.
__ E precisa?
Ficou patente que as pessoas reparam mais no rosto do que na inscrição, embora a falta de inscrição provoque a ideia de que falta alguma coisa __ a identidade, o nariz, sei lá.
Vi na rua Sete de Setembro um homem que trazia a inscrição "Guiné-pipi" na frente e nas costas.
__ Candidato a vereador? -- perguntei. __ De que partido?
__ Não, senhor. Erva contra reumatismo. Quer experimentar? É um porrete. Trago para o senhor uma amostra da fábrica., lá de Cordovil (3).
__ Obrigado, amigo. O Dr. Nava já cuida do meu.
__ Mas qualquer problema, o senhor não tenha cerimônia. É só dizer, que eu falo com os colegas, conforme o caso. Ou o senhor mesmo fala, se encontrar com um deles.
__ E como é que eu vou saber?
__ Pela camiseta, é claro. Tem o Cipó-Azougue, que é um balaço contra eczema, aliás, pessoalmente, é um cara ótimo. O Beldroega (faz pouco ele passou por aqui) toma conta do fígado e depura o sangue. Do Sete-Folhas, que é até meu vizinho, vejo que o senhor não carece, pois é para emagrecer. Agora, convém não esquecer o Boldo. Lá um dia a gente tem uma ressaca, e o Boldo resolve.
Vi que as camisetas da medicina natural são numerosas, mas as de uísques, vinhos alemães, motos, motéis, cigarros, antigripais, cursinhos, judô, budismo, loteria, jogo de búzios, etc. não fazem por menos. Hoje em dia não há produto que não tenha, além dos comunicadores remunerados, outros absolutamente gratuitos, e estes são maioria. Todo mundo anuncia alguma coisa, e a camiseta é o cartaz na pele. Sendo de notar que há tendência para anunciar para anunciar até no bumbum. Mas este é um ramo ainda experimental. [...]
Quis empreender pesquisa de campo no domínio das inscrições no anverso e no reverso do vestuário. Desisti porque teria de elaborar um código de classificação muito complexo, tamanha a variedade de interesses humanos que se refletem numa etiqueta comercial, industrial, política, esportiva, religiosa, onírica. Hoje em dia a camiseta serve para tudo, até (não principalmente) para vestir. E acompanha também a veloz deterioração das coisas, sinal de finitude hoje mais visível do que nunca. Puxa, como as coisas acabam cada vez mais depressa! Não há mais condições para gravar palavras eternas em muros de catedral. Hoje estampam-se recados em camisetas descartáveis. Como esta crônica.
(Carlos Drummond de andrade. In "Moça deitada na grama", Rio de Janeiro, Record, 1987, p. 38-40)
(1) Atriz de teatro, cinema e televisão.
(2) Na época, candidato a cargo eletivo. A atriz era cabo eleitoral do candidato.
(3) Logradouro da cidade do Rio de Janeiro.
(Carlos Drummond de Andrade)
Conto de todas as cores
Eu já escrevi um conto azul, vários até. Mas este é um conto de todas as cores. Porque era uma vez um menino azul, uma menina verde, um negrinho dourado e um cachorro com todos os tons e entretons do arco-íris.
Até que apareceu uma Comissão de Doutores – os quais, por mais que esfregassem os nossos quatro amigos, viram que não adiantava. E perguntaram se aquilo era de nascença ou se...
— Mas nós não nascemos – interrompeu o cachorro. – Nós fomos inventados!
QUINTANA, Mário. A vaca e o hipogrifo. 3 ed. Porto Alegre, L&P, 1979.
Eu já escrevi um conto azul, vários até. Mas este é um conto de todas as cores. Porque era uma vez um menino azul, uma menina verde, um negrinho dourado e um cachorro com todos os tons e entretons do arco-íris.
Até que apareceu uma Comissão de Doutores – os quais, por mais que esfregassem os nossos quatro amigos, viram que não adiantava. E perguntaram se aquilo era de nascença ou se...
— Mas nós não nascemos – interrompeu o cachorro. – Nós fomos inventados!
QUINTANA, Mário. A vaca e o hipogrifo. 3 ed. Porto Alegre, L&P, 1979.
COLÉGIO DA POLÍCIA MILITAR
“CEL PM FELIPPE DE SOUSA MIRANDA”
SEÇÃO TÉCNICA DE ENSINO
Nome:__________________________________________ N° ____ Série: ____ Turma: ____
Data:_____/_____/______ Língua Portuguesa Professora Maria Lúcia Carneiro
Roteiro para análise de obra literária - narrativa em prosa
1 Título
da obra: ____________________________________________________________________
2 Autor: __________________________________________________________________________________
3 Gênero
Literário: Narrativo ( ) Crônica
( ) Conto ( )
Romance ( ) Fábula
( ) Apólogo ( ) Outros
4 Biografia
e características literárias do autor: __________________________________________________________________________________________
_______________________________________________________________________________________________
_______________________________________________________________________________________________
5 Personagens:
_________________________________________________________________________________________
6 Protagonista:
________________________________________________________
7
Antagonista: ________________________________________________________
8 Ponto
de vista do narrador/foco narrativo em: ( ) 1ª pessoa (
) 3ª pessoa
9 Justifique:
__________________________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________________________
10 Espaço/local/ambiente
predominante: __________________________________________________________________________________________
11 TEMPO:
( ) Cronológico ( )
psicológico: Justifique __________________________________________________________________________________________
_______________________________________________________________________________________________
12 TEMA:
Ideia central. (Valores) Contextualize essa ideia quanto aos dias atuais __________________________________________________________________________________________
_______________________________________________________________________________________________
13 Enredo:
___________________________________________________________________________________
14
Clímax: __________________________________________________________________________________
15
Desfecho: ________________________________________________________________________________
16 Resumo:
Escreva um resumo do texto em até 10 linhas. Observe a legibilidade da letra e
a estrutura da prosa. Escreva apenas um parágrafo.
01
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10
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RESUMO/RESENHA
Olá,
turmas!
Segue
abaixo explicações sobre o gênero Resumo e Resenha.
Leia e
Observe a diferença entre ambos.
Depois,
leia o resumo, a resenha e mais abaixo, o texto "Cem Anos de Perdão",
da autora Clarice Lispector, na sua íntegra.
RESUMO
O resumo é uma síntese, uma
redução do texto original, um relato que gera em torno dos fatos principais de
um texto. Se narrativo, importante é destacar o narrador, os personagens
principais e as ações que motivaram o escritor, não se esquecendo do uso do
tempo no passado, do espaço onde as ações ocorreram, ou seja: o quê, com quem,
onde, quando, como, causas e consequências; se dissertativo, os fatos centrais
e o que os justifica. É importante pensar no uso da estrutura da prosa, a
marcação exata do recuo de parágrafo, o uso adequado das margens esquerda e
direita, da separação silábica na margem direita, na legibilidade da letra, ou
seja, o uso adequado do código escrito. O autor do resumo deve estar isento no
texto, para isso, deve fazer uso da 3ª. Pessoa e não expressar sua opinião nem
emitir juízo de valor sobre o texto original. Escreva algo entre 8 e 10 linhas.
Lembre-se de citar, logo no início, o nome da obra, e do autor.
Exemplo:
Resumo
Cem Anos de Perdão
O conto Cem Anos de Perdão, de
Clarice Lispector narra as aventuras vividas durante a adolescência da
protagonista, cujo nome não é identificado na obra. A menina conta que, quando
criança, e morando em Recife, saía a passeio junto com uma amiguinha pelas
ruas, espaço onde lhes chamava a atenção
os jardins dos palácios que encontravam e cuja beleza as duas admiravam. Um
dia, a protagonista, ao se encantar por uma rosa solitária, não teve dúvidas,
entrou, e enquanto a amiga vigiava, ela apanhou a rosa para si, ação que se
repetirá no futuro, pois além de rosas,
ela passou a roubar também pitangas, as quais, dizia ela, estavam pedindo para
serem colhidas. Ao final, ela diz que nunca ninguém soube e que não se
arrepende do seu ato dizendo inclusive que ladrão de rosas e pitangas tem cem
anos de perdão.
LISPECTOR, Clarice.
RESENHA
Na resenha, siga as instruções quanto à elaboração do resumo, pois a
resenha, igualmente ao resumo, também é uma síntese. A diferença é que neste
texto, o autor deverá expressar sua opinião emitindo juízo de valor, e no caso
de resenhas de filmes, obras literárias, peças teatrais, e outros eventos, é
possível aconselhar o interlocutor, fazendo uma crítica pessoal quanto à
qualidade da obra. Ainda que seja possível a opinião, é importante o uso da 3ª.
Pessoa, ou corre-se o risco de exagerar na falta de impessoalidade. Quanto ao
número de linhas, escreva entre 8 a 10 linhas.
Exemplo:
Resenha
Cem Anos de Perdão
O conto Cem Anos de Perdão, de
Clarice Lispector narra, de forma belíssima e poética, as aventuras
vividas durante a adolescência da protagonista, cujo nome não é identificado na
obra. A menina conta que, quando criança, e morando em Recife, saía com uma
amiguinha a passeio pelas ruas, espaço onde lhes chamava a atenção, os jardins
dos palácios que encontravam, e cuja beleza as duas admiravam. Um dia, a
protagonista se encantou por uma rosa solitária num belo jardim. Não teve
dúvidas, entrou, e enquanto a amiguinha vigiava, ela apanhou a rosa para si, sensação
de puro prazer por ter para si aquilo que tanto desejava. Depois, disso, esta
ação se tornou um hábito, que a levou, no futuro, a roubar também pitangas,
as quais, dizia ela, estavam pedindo para serem colhidas. Ao final ela diz que
nunca ninguém soube e que não se arrepende do seu ato dizendo inclusive que
ladrão de rosas e pitangas tem cem anos de perdão. No conto, é possível
perceber a emoção gerada pela expectativa da menina em ser surpreendida,
característica do espírito desafiador de todo adolescente.
LISPECTOR, Clarice.
Obra na
íntegra:
Cem Anos de Perdão
Quem nunca roubou não vai me
entender. E quem nunca roubou rosas, então é que jamais poderá me entender. Eu,
em pequena, roubava rosas.
Havia em Recife inúmeras ruas, as
ruas dos ricos, ladeadas por palacetes que ficavam no centro de grandes
jardins. Eu e uma amiguinha brincávamos muito de decidir a quem pertenciam os
palacetes. "Aquele branco é meu." "Não, eu já disse que os
brancos são meus." Parávamos às vezes longo tempo, a cara imprensada nas
grades, olhando.
Começou assim. Numa dessas
brincadeiras de "essa casa é minha", paramos diante de uma que
parecia um pequeno castelo. No fundo via-se o imenso pomar. E, à frente, em
canteiros bem ajardinados, estavam plantadas as flores.
Bem, mas isolada no seu canteiro
estava uma rosa apenas entreaberta cor-de-rosa-vivo. Fiquei feito boba, olhando
com admiração aquela rosa altaneira que nem mulher feita ainda não era. E então
aconteceu: do fundo de meu coração, eu queria aquela rosa para mim. Eu queria,
ah como eu queria. E não havia jeito de obtê-la. Se o jardineiro estivesse por
ali, pediria a rosa, mesmo sabendo que ele nos expulsaria como se expulsam
moleques. Não havia jardineiro à vista, ninguém.
As janelas, por causa do sol, estavam de
venezianas fechadas. Era uma rua onde não passavam bondes e raro era o carro
que aparecia. No meio do meu silêncio e do silêncio da rosa, havia o meu desejo
de possuí-la como coisa só minha. Eu queria poder pegar nela. Queria cheirá-la
até sentir a vista escura de tanta tonteira de perfume.
Então não pude mais. O plano se
formou em mim instantaneamente, cheio de paixão. Mas, como boa realizadora que
eu era, raciocinei friamente com minha amiguinha, explicando-lhe qual seria o
seu papel: vigiar as janelas da casa ou a aproximação ainda possível do
jardineiro, vigiar os transeuntes raros na rua.
Enquanto isso, entreabri
lentamente o portão de grades um pouco enferrujadas, contando já com o leve
rangido. Entreabri somente o bastante para que meu esguio corpo de menina
pudesse passar. E, pé ante pé, mas veloz, andava pelos pedregulhos que rodeavam
os canteiros. Até chegar à rosa foi um século de coração batendo.
Eis-me afinal diante dela. Para
um instante, perigosamente, porque de perto ela é ainda mais linda. Finalmente
começo a lhe quebrar o talo, arranhando-me com os espinhos, e chupando o sangue
dos dedos.
E, de repente - ei-la toda na
minha mão. A corrida de volta ao portão tinha também de ser sem barulho. Pelo
portão que deixara entreaberto, passei segurando a rosa. E então nós duas
pálidas, eu e a rosa, corremos literalmente para longe da casa.
O que é que fazia eu com a rosa?
Fazia isso: ela era minha.
Levei-a para casa, coloquei-a num copo d'água, onde ficou soberana, de pétalas grossas e aveludadas, com vários entretons de rosa-chá. No centro dela a cor se concentrava mais e seu coração quase parecia vermelho.
Levei-a para casa, coloquei-a num copo d'água, onde ficou soberana, de pétalas grossas e aveludadas, com vários entretons de rosa-chá. No centro dela a cor se concentrava mais e seu coração quase parecia vermelho.
Foi tão bom. Foi tão bom que
simplesmente passei a roubar rosas. O processo era sempre o mesmo: a menina
vigiando, eu entrando, eu quebrando o talo e fugindo com a rosa na mão. Sempre
com o coração batendo e sempre com aquela glória que ninguém me tirava.
Também roubava pitangas. Havia
uma igreja presbiteriana perto de casa, rodeada por uma sebe verde, alta e tão
densa que impossibilitava a visão da igreja.
Nunca cheguei a vê-la, além de
uma ponta de telhado. A sebe era de pitangueira. Mas pitangas são frutas que se
escondem: eu não via nenhuma.
Então, olhando antes para os
lados para ver se ninguém vinha, eu metia a mão por entre as grades, mergulhava-a
dentro da sebe e começava a apalpar até meus dedos sentirem o úmido da
frutinha. Muitas vezes na minha pressa, eu esmagava uma pitanga madura demais
com os dedos que ficavam como ensanguentados. Colhia várias que ia comendo ali
mesmo, umas até verdes demais, que eu jogava fora.
Nunca ninguém soube. Não me
arrependo: ladrão de rosas e de pitangas tem 100 anos de perdão. As pitangas,
por exemplo, são elas mesmas que pedem para ser colhidas, em vez de amadurecer
e morrer no galho, virgens.
LISPECTOR,
Clarice.

























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