Em 15 anos, número de presos no Brasil cresceu 7 vezes mais que a média
Revista Carta
Capital – 16/01/2014
As cenas
de horror no Maranhão conseguiram, mais do que expor a barbárie no Complexo
Penitenciário de Pedrinhas, em São Luís, trazer à luz as mazelas de um sistema
sufocado por sua própria política de encarceramento em massa. Dono da quarta
maior população carcerária do mundo, o Brasil prende, em termos relativos, 7,3
vezes mais que a média mundial. Enquanto o total de presos cresceu cerca de 30%
nos últimos 15 anos em todo o mundo, segundo estudo do Centro Internacional de
Estudos Penitenciários (ICPS, na sigla em inglês) da Universidade de Essex
(Reino Unido), no Brasil a taxa foi de 221,2% – passando de um total de 170,6
mil presos em 1997 para 548 mil em 2012, de acordo com o Ministério da Justiça.
Com
513.713 presos no sistema prisional e 34.290 em instalações policiais, o Brasil
tem hoje 1.478 instituições prisionais com capacidade para comportar 318.739
presos. O déficit de cerca de 230 mil vagas demonstra o sufocamento de um
sistema que opera muito acima do que sua estrutura comporta. Segundo números
compilados pelo ICPS, o Brasil atingiu um nível de ocupação de 171,9% de suas
prisões.
Dos
quatro países com maior população carcerária do mundo (os outros são Estados
Unidos, China e Rússia), o Brasil é o único cujo sistema carcerário está muito
acima da sua capacidade. O País aparece em sétimo na lista de sistemas
prisionais com supertaxa de ocupação, perdendo apenas para Haiti, Filipinas,
Venezuela, Quênia, Irã e Paquistão. Apesar de representarem as três maiores
populações carcerárias do mundo, EUA, China e Rússia operam dentro de sua
capacidade prisional.
Para
Vinícius Lapetina, advogado criminalista e coordenador do Projeto Educação para
Cidadania no Cárcere do Instituto de Defesa do Direito de Defesa, três pontos
principais contribuem para o quadro degradante no Brasil. O primeiro é a
política de encarceramento adotada como solução das mazelas sociais. “Hoje tudo
é crime e a prisão é o maior - e mais falso - símbolo de que a ‘Justiça’ está
sendo feita”, observa Lapetina, ao ressaltar que o cárcere como caráter
punitivo e correcional deveria ser uma medida de exceção, quando é regra. Um
segundo ponto diz respeito à falta de investimentos do Estado na melhoria e
construção de estabelecimentos prisionais. De modo geral, ressalta o advogado,
os estados brasileiros assistiram ao crescimento da população carcerária e não
ofereceram vagas aos novos ingressos do sistema nos últimos anos.
Soma-se a
isso problemas no campo do Poder Judiciário, mais especificamente no processo
de execução penal, que falha no cumprimento da pena. Resultado: os presos
acabam não sendo soltos quando deveriam e contribuem para a superlotação dos
presídios. “Falta planejamento administrativo. Se o Brasil adotou políticas de
encarceramento em massa, ao menos deveria ter se preparado para as
consequências”, avalia Lapetina.
Pesquisa
do ICPS de 2013 mostra que a população carcerária mundial atingiu a marca dos
10,2 milhões de pessoas. No topo da lista, os EUA aparecem com o maior com 680,2 mil presos. Enquanto os EUA têm 707 detentos por
100 mil habitantes, a Rússia tem 474 para cada 100 mil habitantes. Em seguida
aparecem a China (121 presos por 100 mil habitannúmero
de presos, com 2,28 milhões de detentos. Em seguida vem a China, com 1,64
milhão e a Rússiates) e o Brasil, com 274 por
100 mil habitantes. De modo geral, a população carcerária cresceu 30% nos
últimos 15 anos, mais rápido que os 20% de crescimento da população mundial
como um todo.
Sem
condenação. Dentre as inúmeras irregularidades do sistema prisional brasileiro,
há um outro dado alarmante: dos 548 mil presos, 42% (230 mil) estão presos
provisoriamente, ou seja, sem condenação definitiva. Segundo a ONG Conectas
Direitos Humanos, os dados do InfoPen (Sistema Integrados de Informações
Penitenciárias) mostram que enquanto no estado de São Paulo esse índice chega a
35%, no Piauí os presos sem condenação definitiva representam 66% do total
encarcerado, e no Maranhão, 65%.
Parte
desse total é consequência direta da chamada “guerra às drogas” – e seu
decorrente endurecimento das penas. Encabeçada por Washington, a política é
seguida por países como o Brasil. Dos quase 2,3 milhões de pessoas atrás das
grades nos EUA, mais de 500 mil estão presos especificamente por violar a Lei
de Drogas. Por aqui, entre 2005 e 2010 a quantidade de pessoas condenadas por
tráfico mais do que triplicou. O aumento foi de 220%, segundo dados do
Departamento Penitenciário Nacional. Desde que entrou em vigor, em 2006, a
controversa Lei de Drogas (que muitos veem como dúbia por não distinguir com
clareza usuários de traficantes) foi responsável pelo encarceramento de 138 mil
pessoas, 25,5% do total. Até então, a taxa de encarcerados por delitos
relacionados a entorpecentes era de 11,7%.
“A
política de guerra às drogas, inventada e pulverizada pelos EUA e amplamente
adotada aqui, tem papel fundamental no aumento da população prisional no
Brasil, especificamente entre as mulheres”, reforça Rodolfo Valente, advogado
colaborador da Pastoral Carcerária e militante da Rede 2 de Outubro. “Apesar de
as mulheres presas representarem 8% do total da população carcerária, na última
década a população prisional feminina aumentou cerca de 260% contra aumento de
cerca de 105% da população prisional masculina. Mais da metade dessas mulheres
está presa por tráfico de drogas.”
Do total
de brasileiros que vivenciaram o sistema carcerário, mais de 60% reincidem,
segundo dados da Unicef, órgão da ONU. “São números que demonstram, acima de
tudo, um equívoco enorme nas políticas públicas, por parte da polícia, do
Ministério Público, do Poder Judiciário. Se temos quase 70% de reincidência é
sinal de que nada foi feito: não houve educação, não houve trabalho, não houve
lazer”, afirma Marcos Fuchs, diretor adjunto da Conectas. “Um sistema que
deveria zelar pelo preso, mas que, claramente, não está funcionando.”
Bem vindo à Idade Média, diz "The Economist" sobre prisões no Brasil
Jornal Folha de São Paulo - 16/01/14
Com o
título de "Bem-Vindo à Idade Média", um artigo publicado na
quinta-feira, dia 16, pela revista britânica "The Economist" aborda
as péssimas condições das penitenciárias brasileiras e as barbáries cometidas
pelos detentos.
A
reportagem destaca a decapitação de três presos no Complexo Penitenciário de
Pedrinhas, no Maranhão, registrada em vídeo pelos próprios detentos no início
de janeiro. "A gravação despertou muitos brasileiros para as condições
infernais de suas prisões", diz o texto.
A publicação
coloca a superlotação dos presídios do país como um dos principais fatores para
o elevado número de homicídios, e destaca a diferença entre o crescimento
populacional no país nos últimos 20 anos, que foi de 30%, com o aumento da
população carcerária no período, que quintuplicou.
Com 550
mil presos, o Brasil tem a quarta maior população carcerária do mundo, atrás
apenas dos EUA, China e Rússia, diz a "Economist". Somadas, aponta a
publicação, as penitenciárias brasileiras têm capacidade para apenas 300 mil
presos.
O artigo
traz ainda entrevistas com o ex-secretário da Segurança Pública de São Paulo,
Antonio Ferreira Pinto, e com a socióloga e ex-diretora do sistema
penitenciário do Rio, Julita Lemgruber, além de líderes de ONGs de defesa dos
Direitos Humanos atuantes no país.
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Reduzir a maioridade penal é confissão de culpa do Estado
Revista Carta
Capital - 07/05/2013
por
Herson Capri (Opinião)
Depois de
um homicídio executado por um menor de 18 anos em São Paulo, o governador
Geraldo Alckmin (PSDB) enviou ao Congresso um projeto de lei que amplia a
punição para menores que praticarem delitos graves. O secretário de Segurança
Pública do Estado, Fernando Grella, acha isso necessário “para proteger o
cidadão de bem”. Ambos querem alterar o Estatuto da Criança e do Adolescente, o
ECA, um conjunto de normas de proteção aos menores, com respaldo internacional
e da ONU e considerado uma das leis mais avançadas na defesa dos direitos das
crianças e dos adolescentes. Alckmin e Grella preferem modificar essa lei a
realizar políticas públicas de inclusão de crianças e adolescentes carentes
exigidas pelo mesmo estatuto e que, com certeza, reduziria em muito os crimes
praticados pelos jovens. Pelo posicionamento do governador de São Paulo e do
seu secretário de Segurança, o “cidadão de bem”, aquele da classe média ou
alta, engravatado, totalmente inserido no nosso contexto social, merece a
proteção do Estado, já o menor abandonado, sem nenhuma condição de viver
dignamente e que por isso acaba caindo na marginalidade, não merece a mesma
atenção.
Há também
movimentos para reduzir a maioridade penal. Essas alterações no ECA, se
acontecerem, irão atingir principalmente aquele segmento já excluído que vive à
margem da sociedade. A criança e o adolescente de classe média ou alta, a
minoria, tem boa alimentação, uma educação muito melhor do que a da escola
pública, a presença constante de familiares, tem acesso às informações, à
cultura, ao lazer, enfim, à dignidade. Coisas que fazem a diferença e que não
estão presentes em medida aceitável nas classes mais baixas nas quais os pais
estão lutando pela sobrevivência, ou muitas vezes desempregados, às vezes
optando por atividades ilegais, e os seus filhos ficam à deriva nas escolas
públicas ainda deficientes e à mercê de oportunidades lucrativas, porém
espúrias. Esses jovens mais pobres são a maioria e se deparam com uma política
pública quase nula para essa faixa de idade, com poucas exceções. Essa exclusão
fica bem clara com a constatação de que 92% dos municípios brasileiros não têm
cinema, nem teatro, nem museu. Então aonde o jovem vai se expressar, se
manifestar, adquirir cultura e se enturmar de forma saudável?
Se em
alguns países a maioridade penal se dá em idade menor do que a nossa é porque
há políticas públicas eficientes, o jovem tem amparo de fato por parte do
Estado. No nosso caso há a previsão na lei, mas não há o fato. Segundo o Art.
4º do ECA “É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder
público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos
referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à
profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à
convivência familiar e comunitária.”
A questão
mais importante não é a idade penal ou a pouca punição. A proteção dos jovens
vítimas do abandono é, reconhecidamente, o melhor caminho para se evitar a
delinquência juvenil. Se houver a redução da maioridade penal ou alteração nas
penas já estabelecidas, estaremos tapando o sol com a peneira e eximindo a
sociedade e o poder público de qualquer culpa. E a culpa maior é do Estado, que
não cumpre a lei. Ninguém seria contra a redução da idade penal ou o aumento
das punições para menores delinquentes se os governantes tivessem cumprido com
as suas obrigações legais, se houvesse democracia de fato para essas crianças.
A
sensação que fica nestas tentativas de modificar uma lei exemplar é a mesma dos
nazistas: se os judeus supostamente atrapalham a economia, morte aos judeus. Ou
como aconteceu no Rio de Janeiro, numa certa época: os mendigos estão poluindo
o visual da cidade, prendam-se os mendigos. Ou como no massacre do Carandiru:
os presos empilhados em condições desumanas se revoltaram e... Deu no que deu.
Massacre. A solução mais fácil, mais burra e mais cruel.
Chama
atenção o argumento de que a criminalidade dos menores está aumentando
gradativamente nos últimos anos. Como se esse aumento fosse uma mostra da
necessidade da redução da maioridade penal. Essa não é uma análise do fato com
a retidão necessária. É claro que a criminalidade do menor está aumentando, mas
é claro também que o motivo é o abandono, que só aumenta. Preferem investir
maciçamente em segurança. Para eles, faz muito sentido.
Realmente,
ao se cuidar da infância pobre, de concreto e de imediato não se ganha nada do
ponto de vista material e pouco do ponto de vista eleitoral. Mas se é esse o
objetivo de um político, de um governante, obter vantagens, que se reduza a
maioridade penal e que se aumente a penalização dos nossos adolescentes. Seria
até melhor declarar em alto e bom som: as crianças e adolescentes que não tem
condições de ter uma boa vida, que se lixem!
Pois é o
que alguns adolescentes estão fazendo: eles estão se lixando! O feitiço está
virando contra o feiticeiro. Se os “homens de bem” não fizeram o dever de casa,
como exigir que menores esfomeados e desesperados façam os seus?
Herson Capri é ator.
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